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Sexta, 01 Março 2024

Projeto de inovação social une saberes tradicionais de comunidades paraenses

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Gestado a partir do sonho de coletivos de agricultura familiar no nordeste paraense, a Rede Quirera se firmou como o primeiro projeto de inovação social aberta em execução pela Embrapa Amazônia Oriental e já avançou com os parceiros na aquisição de estrutura física, boas práticas e prospecta lançamento de produtos e expansão. Esses foram parte dos resultados divulgados em novembro, na segunda oficina para aviação e alinhamento do projeto, após dois anos de iniciadas as atividades.

A oficina de avaliação ocorreu na cidade de Santa Luzia do Pará, distante cerca de 200 quilômetros da capital paraense e onde está localizada a sede da Associação Campo Cidade Transformar, Agregar Valores e Vidas (Atavida), uma agroindústria da economia solidária e que compõe as instituições que integram a Rede Bragantina de Economia Solidária Artes & Sabores, coletivo que reúne mais de 400 famílias de agricultores familiares em cinco municípios do nordeste paraense.

O projeto está adequando ao mercado as farinhas já produzidas pelas comunidades. Foto: Divulgação/Embrapa

É a Atavida que abriga uma das estruturas que está produzindo farinhas alimentícias a partir da transformação de espécies da sociobiodiversidade desse pedaço da Amazônia, antes, cada vez mais raras nas plantações e coletas, e que eram desperdiçados. As farinhas têm alto potencial para gerar renda, segurança alimentar e consolidar o resgate de um pedaço importante da cultura alimentar da região. São as farinhas também, os principais produtos que a parceria com a Embrapa está normatizando e preparando para o mercado crescente da bioeconomia amazônica.

Unindo os saberes tradicionais das comunidades que integram a Rede Bragantina, com a ciência feita pela Embrapa, o sonho está cada dia mais concreto e gestando novos, para que os produtos feito pelos agricultores familiares, cheguem aos consumidores, com mais qualidade em todas as etapas da preparação, do plantio à agroindustrialização.

Novos produtos ajudam a ressignificar a alimentação 

Cará, araruta, pupunha, são alimentos comuns à gastronomia regional amazônica, mas alguns começavam a se perder, sumindo das mesas e das roças dos agricultores. O costume de comer os tubérculos e frutos cozidos nos cafés da manhã ou tarde, estão cedendo lugar ao consumo dos industrializados, conforme explicou a pesquisadora da Embrapa Amazônia Oriental, Dalva Mota, que realizou durante a oficina de avaliação, uma atividade com os parceiros, chamada de "Comida de hoje, comida de ontem: práticas e reflexões".

A pesquisadora comentou que o objetivo da atividade foi refletir coletivamente e o mais importante, agir em prol da segurança alimentar e do reconhecimento do trabalho das mulheres, em grande parte, mulheres pretas de origem quilombola, de diversas comunidades que integram o projeto. 

"Ao pensar no contraste do que eram os alimentos de ontem, cultivados e colhidos nos quintais e o que são os de hoje, industrializados e precisando ser comprados, analisamos juntos, por meio de desenhos e muito diálogo, as transições alimentares que estão acontecendo e impacto disso na segurança alimentar e renda das comunidades",

analisou a Dalva.
Foto: Divulgação/Embrapa

A líder do projeto pela Embrapa, a também pesquisadora Laura Abreu, avaliou como muito positiva a oficina e os dois primeiros anos do projeto. Além dessa devolutiva, em compartilhar informações sobre o andamento do projeto com um maior número de participantes locais, no território das comunidades, em Santa Luzia, os membros da equipe também apresentaram seus resultados parciais, trocaram informações e impressões e prospectaram os próximos passos. Os destaques foram a estrutura adequada do local de processamento de farinhas, na sede da Atavida, em etapa de conclusão, a demonstração do processo adequado para a fabricação, realizada pelos próprios parceiros, além do preparo de novos produtos, do tipo "cookie" a partir de uma primeira formulação de farinhas mistas, fonte de pró-vitamina A, com previsão de lançamento em 2024. 

Do desperdício a criação de novos produtos

A agricultora familiar do Quilombo Pimenteira e representante da Rede Bragantina, Leilane Zacarias do Nascimento é uma das produtoras que está atuando junto à agroindústria Atavida, na fabricação das farinhas alimentícias. Ela participou de todas as oficinas e treinamentos realizados pelo projeto e afirma que muita coisa mudou nesses dois anos, desde o início da Rede Quirera.

"Tínhamos muito desperdício desde a colheita das matérias-primas até a finalização dos produtos. Hoje, o desperdício é mínimo e temos muito mais qualidade e higiene em todas as etapas da produção, pois, junto com a Embrapa, fomos adaptando e mudando o ambiente, melhorando os equipamentos e a forma do trabalho. Como se trata de alimentos e fitoterápicos, todo cuidado é necessário",

enfatiza.

Assessora técnica da Rede Bragantina, a agrônoma Nazaré Reis lembra que junto à escola Ecrama e o Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará Cedenpa e outras entidades da Rede, havia aquele desejo de melhorar a qualidade e os processos das farinhas que as comunidades já desenvolviam, mas era um sonho difícil de realizar até iniciado o projeto com a Embrapa. " 

"As comunidades já prepararam essas farinhas, mas era necessário valorizar essa produção e os saberes tradicionais. A parceria com a Embrapa nos ajudou a perceber os pontos fracos e fortes, superá-los e perceber nossa evolução. Essa caminhada está fortalecendo a Rede, atraindo novos produtores, melhorando a qualidade dos produtos e criando novos. Nossa perspectiva é aumentar essa escala e conquistar mercados",

prospecta.

A Rede Quirera está em etapa de finalização da adequação das farinhas alimentícias simples, sem glúten, e do espaço de processamento na agroindústria. A perspectiva é lançar em 2024, além das farinhas simples, as novas farinhas mistas, que podem ser usadas no preparo de diversos alimentos e atingindo novos nichos de mercado.

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