Pesquisa analisa saúde indígena e comunicação de risco no Brasil e na Bolívia

A iniciativa de saúde indígena busca contribuir para o aprimoramento das políticas públicas interculturais na Região Amazônica, considerando os dois países envolvidos (Brasil e Bolívia).

Aprovado pelo CNPq, o projeto busca avaliar as estratégias de comunicação em crises sanitárias nos dois países. Foto: Marcelo Seabra/Agência Pará

A Universidade Federal de Rondônia (UNIR) teve um projeto de pesquisa aprovado na Chamada Pública MCTI/CNPq nº 03/2025 – Pró-Amazônia, com foco no fortalecimento da saúde indígena a partir da comunicação de risco em crises sanitárias no Brasil e na Bolívia. A iniciativa busca contribuir para o aprimoramento das políticas públicas interculturais na Região Amazônica, considerando as especificidades socioculturais dois países envolvidos.

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Intitulada ‘Comunicação de risco em saúde indígena: experiências e aprendizados em crises sanitárias no Brasil e na Bolívia’, a pesquisa é coordenada pelo professor Allysson Martins, coordenador do MíDI – Laboratório de Mídias Digitais e Internet e docente dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCom) e em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente (PGDRA) da UNIR.

A equipe é formada por mais de dez pesquisadores de diferentes instituições de ensino superior, sendo seis brasileiros e três internacionais, reforçando o caráter cooperativo do estudo.

A proposta surge para preencher uma lacuna crítica na ciência e nas políticas públicas: a escassez de estudos sobre a efetividade da comunicação voltada aos povos tradicionais. Assim, a pesquisa articula as áreas de Comunicação e Saúde Coletiva para investigar como governos e comunidades reagiram à circulação de informações durante surtos da covid-19, dengue e zika.

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Imagem: Divulgação

O estudo, que será executado de dezembro de 2025 até novembro de 2027, concentra-se na Amazônia Legal, região que abriga mais de 51% dos indígenas do Brasil, com o objetivo de entender como a adaptação cultural das mensagens institucionais sobre saúde pode impactar diretamente essa população, protegendo vidas.

“As barreiras linguísticas, culturais, territoriais e institucionais precisam ser consideradas nos processos estabelecidos nos dois países”, afirma Martins.

Desafio da comunicação em contextos interculturais

A comunicação de risco é uma ferramenta estratégica fundamental para mitigar danos em emergências sanitárias, sobretudo quando adequada às realidades dos envolvidos.

“A nossa hipótese é a de que abordagens que incorporaram saberes tradicionais, o uso de línguas nativas e a mediação com lideranças locais apresentam maior eficácia e adesão às medidas de prevenção”, explica o coordenador e pesquisador Allysson Martins.

Segundo Martins, durante a pandemia de covid-19, a ausência de campanhas culturalmente adaptadas resultou em taxas de infecção e mortalidade desproporcionalmente altas entre os povos indígenas. No Brasil, embora existam os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs), eles ainda enfrentam desafios como o subfinanciamento e a dificuldade de integrar práticas tradicionais à medicina biomédica.

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Saúde indígena. Foto: Karina Zambrana/SESAI

A pesquisa adotará um método de estudo de caso múltiplo, comparando a realidade brasileira com o modelo da Bolívia. Na Bolívia, o Modelo Intercultural Comunitário de Saúde (SAFCI) já institucionaliza a integração entre a medicina tradicional e o sistema estatal, promovendo campanhas em idiomas nativos e o uso de ervas medicinais.

“É possível que medidas como essa apresentem efeitos positivos que possam inspirar melhorias nas políticas públicas brasileiras”, disse o pesquisador.

A investigação prevê viagens de campo no Brasil e na Bolívia. Em âmbito nacional, as visitas devem ocorrer no DSEI Alto Rio Solimões, no Amazonas, e na SESAI – Secretaria de Saúde Indígena, vinculada ao Ministério da Saúde, em Brasília. Na porção internacional da Amazônia, a pesquisa deve se centrar na região de Beni, onde o diálogo intercultural foi priorizado durante a crise da covid-19.

Resultados para a sociedade e ciência

Além de publicações científicas em periódicos de alto impacto, o projeto prevê a entrega de diretrizes práticas para gestores públicos. A pesquisa propõe produzir materiais de devolutiva para as comunidades indígenas envolvidas, como vídeos, infográficos e cartilhas bilíngues.

O objetivo é subsidiar a formulação de políticas mais inclusivas e sensíveis às realidades locais, alinhando-se aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, especialmente na redução das desigualdades e na promoção da saúde.

*Com informações da Universidade Federal de Rondônia

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