Aplicativo combina ciência e tecnologia. Foto: Divulgação/Fapema
Com cerca de 2.900 indígenas da etnia Canela, a Aldeia Escalvado, localizada no município de Fernando Falcão (MA), a aproximadamente 550 quilômetros de São Luís, passou a contar com um reforço tecnológico no enfrentamento à diabetes. O aplicativo Demedia Diabetes vem sendo utilizado por Agentes Indígenas de Saúde (AIS) no monitoramento de pacientes diagnosticados com a doença.
O projeto conta com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema) por meio do edital Maraintech, voltado ao incentivo de soluções inovadoras com impacto regional.
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A plataforma permite a inserção de dados clínicos e comportamentais, integrando informações da atenção primária à terciária. O sistema combina perfil social, histórico de saúde e indicadores de risco para identificar precocemente possíveis complicações e sugerir estratégias personalizadas de autocuidado, em apoio ao tratamento médico.
O presidente da Fapema, Nordman Wall, destacou a importância estratégica da iniciativa. “Este projeto demonstra como o investimento em inovação pode transformar realidades e fortalecer o cuidado em territórios que historicamente enfrentam barreiras de acesso à saúde”, declarou.
Segundo Misael Canela, Agente Indígena de Saúde da aldeia, a ferramenta tem otimizado o acompanhamento dos pacientes.
“O aplicativo facilita nosso trabalho no dia a dia. Conseguimos acompanhar melhor não apenas um paciente, mas toda a comunidade”, afirma.
A diretora da empresa Demed Tecnologia em Saúde, Márcia Ferraresi, explica que o projeto entra agora em uma nova etapa e está preparando a implementação de inteligência artificial com tradução do aplicativo para o dialeto Canela. A medida busca ampliar o acesso às informações e fortalecer a conscientização dentro da comunidade.
Prevenção como estratégia central
Especialistas envolvidos no projeto do aplicativo reforçam que o foco está na prevenção e no diagnóstico precoce. Walter Jander de Andrade, bolsista do CNPq no Programa de Recursos Humanos em Áreas Estratégicas (RHAE-CNPq) da Demedia Indígena, destaca que o monitoramento contínuo pode reduzir complicações e custos futuros no tratamento da doença.
“O uso da ferramenta permite identificar a doença no início e organizar melhor os dados para gestão dos recursos e do tratamento necessário”, explica.
A enfermeira Caroline Natiele, que atua na Aldeia Escalvado, observa que a prevenção em territórios indígenas envolve desafios culturais específicos. “É preciso ir além de palestras. A participação ativa dos agentes indígenas de saúde é fundamental para evitar o agravamento da doença”, ressalta.

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Combate ao preconceito e impactos na saúde bucal
Além do acompanhamento clínico, a comunidade também desenvolve ações de conscientização. A estudante Wani Canela lidera um projeto voltado ao combate ao preconceito contra pessoas com diabetes. Segundo ela, ainda há desinformação dentro da aldeia, incluindo a crença de que a doença seria contagiosa. “Falar sobre o preconceito é importante porque ninguém deve ser julgado por uma condição de saúde”, afirma Wani Canela.
A dentista Ana Paula Nascimento da Silva alerta ainda para os impactos da diabetes na saúde bucal. Pacientes podem apresentar maior inflamação e sangramento gengival, além do risco de perda dentária em casos não controlados.
Aplicativo representa tecnologia como ferramenta de política pública
Com a ampliação do projeto, a Demed Tecnologia em Saúde busca consolidar a plataforma como ferramenta estratégica para apoiar políticas públicas voltadas ao cuidado de doenças crônicas em comunidades indígenas. A expectativa é que a tecnologia contribua para decisões mais assertivas na gestão da saúde e amplie o acesso à prevenção em territórios tradicionalmente marcados por barreiras estruturais e geográficas.
A iniciativa da Demed Saúde iniciou em 2022, quando foi aprovada nos programas Inova Amazônia e Startup Nordeste Maranhão, realizados em parceria entre Sebrae e a FAPEMA.
A empresa também submeteu o projeto ao programa INOVA SUS, do Ministério da Saúde, com o objetivo de aprimorar a ferramenta e viabilizar a escalabilidade do protagonismo do paciente com a sua inserção no Sistema Único de Saúde (SUS), em atendimento às prioridades da Estratégia de Saúde Digital (ESD-28) publicada pelo Ministério da Saúde.
O projeto do aplicativo da Demedia Diabetes foi vencedora do Prêmio Fapema 2025 na categoria Empreendedorismo. A categoria, criada especialmente nesta edição especial do prêmio, que completou 20 anos, destacou iniciativas que transformam conhecimento científico em soluções inovadoras com impacto direto na sociedade.
*Com informações da Fapema
