Alimentos negligenciados possuem potencial para fortalecer segurança alimentar no Brasil

Estudo realizado em parceria com o Instituto Mamirauá mapeia 369 espécies alimentares negligenciadas, abrangendo plantas, peixes, fungos, insetos, entre outros, para a segurança alimentar.

Foto: Miguel Monteiro/Instituto Mamirauá

Você já parou para pensar na diversidade de plantas, animais e fungos que poderiam fazer parte da alimentação da população brasileira? Enquanto nossa alimentação diária se restringe a poucas espécies, como arroz, feijão, frango e alguns legumes, o Brasil abriga uma imensa variedade de alimentos pouco conhecidos pela ciência e pelo mercado.

São as espécies alimentares negligenciadas: algas, cogumelos, insetos comestíveis, peixes, frutos nativos e animais silvestres que fazem parte da cultura alimentar de comunidades tradicionais, mas permanecem sub-representados nos debates sobre nutrição e segurança alimentar.

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Um estudo inédito publicado na revista Scientific Reports, conduzido por uma rede nacional de pesquisadores, com participação do Instituto Mamirauá, compilou um inventário com 369 espécies alimentares nativas ou subutilizadas no Brasil.

O levantamento inclui desde plantas como o baru e o camu-camu, até cogumelos silvestres, insetos como a tanajura, peixes de água doce e carne de caça consumida por populações ribeirinhas e indígenas.

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alimentos amazônicos: camu-camu
Camu-camu. Foto: Walnice Nascimento/Embrapa

Alimentos surpreendentes

Os pesquisadores combinaram o conhecimento de especialistas em nutrição e ciências ambientais com ferramentas de inteligência artificial explicável – um tipo de tecnologia que permite não apenas fazer previsões, mas entender como os modelos chegam a determinadas conclusões. Dessa forma, foi possível identificar os fatores que mais influenciam a priorização de espécies para estudos de composição nutricional e consumo alimentar.

O fator mais determinante para que uma espécie seja priorizada é a quantidade de receitas em que ela aparece, seguido pela sua distribuição geográfica pelo país. Ou seja: quanto mais presente na culinária local e em diferentes regiões, maior a chance de ser estudada. Por outro lado, critérios como risco de extinção ou categoria alimentar tiveram pouca influência na decisão. Isso revela um viés importante: a pesquisa em nutrição ainda é fortemente guiada pelo uso cultural e pela acessibilidade imediata das espécies, deixando em segundo plano questões ecológicas e de conservação.

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Essa abordagem revelou também lacunas de conhecimento. Embora as plantas correspondam a quase 30% das espécies listadas e concentrem a maior parte dos dados nutricionais disponíveis, grupos como algas, insetos e cogumelos permanecem praticamente inexplorados. Nenhuma espécie de alga ou inseto do inventário possui informação nutricional publicada. Entre os cogumelos, apenas 12,6% têm algum dado e, apesar de representarem 24% da lista, os animais silvestres também carecem de análises mais aprofundadas.

Como parte da rede de pesquisa, o Instituto Mamirauá tem atuado justamente para reduzir as lacunas de conhecimento sobre a biodiversidade alimentar amazônica. Isso envolve tanto análises laboratoriais da composição nutricional de espécies consumidas localmente, como peixes, vertebrados terrestres e frutos nativos, quanto esforços de tradução e disseminação desses dados. A ideia é que a informação gerada na Amazônia retorne para as comunidades locais de forma acessível, fortalecendo a segurança e valorizando o conhecimento tradicional.

“Na Amazônia, onde o aumento do consumo de produtos ultraprocessados no lugar de alimentos tradicionais tem sido acompanhado de um aumento nos índices de anemia, diabetes e hipertensão, a rica biodiversidade local poderia ser uma aliada importante no combate à desnutrição. Este estudo mostra que é preciso aprofundar as pesquisas sobre aquilo que as comunidades tradicionais já sabem há gerações: a floresta é fonte de alimentos nutritivos, e diversificar o prato pode ser também uma estratégia de saúde e de conservação”, comenta Daniel Tregidgo, pesquisador do Instituto Mamirauá e coautor da pesquisa.

Os autores do estudo defendem que é preciso avançar em várias frentes. Primeiro, investir em pesquisas colaborativas e interdisciplinares para preencher as lacunas de dados nutricionais, especialmente dos grupos mais negligenciados. Segundo, ampliar os levantamentos de consumo em comunidades com menor integração ao mercado, onde a diversidade alimentar tende a ser maior.

Além disso, é importante criar e fortalecer bancos de dados nacionais que integrem informações sobre usos culinários e composição de alimentos da sociobiodiversidade. E, por fim, incluir esses alimentos em políticas públicas e na formação de profissionais de nutrição, sempre atentos à necessidade de manejo sustentável e à conservação das espécies.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Instituto Mamirauá

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