Absorvente íntimo à base de fibras naturais de juçara é criado por pesquisadoras no Maranhão

O absorvente íntimo biodegradável foi resultado de um projeto de iniciação científica que usou como base fibras naturais de sementes de juçara.

A pesquisa com as fibras de juçara conquistou o 3º lugar do Prêmio Fapema 2026 na categoria Pesquisador Júnior. Foto: Albertinny Rodrigues

Pesquisadoras do Instituto Federal do Maranhão (IFMA) criaram um absorvente íntimo biodegradável à base de fibras naturais de sementes de juçara. Conhecido no restante do país como açaí, o fruto é abundante na região amazônica e amplamente consumido pelos maranhenses. A pesquisa buscou aproveitar o resíduo, que muitas vezes é descartado, para desenvolver um produto de higiene menstrual acessível e sustentável.

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O projeto foi desenvolvido sob orientação da professora Laurinda Siqueira, do Campus São Luís – Centro Histórico, no âmbito do programa de iniciação científica no Ensino Médio, tendo como bolsistas as estudantes Sabrina Mendes e Haylana Lima, do curso técnico de Meio Ambiente.

Com potencial para auxiliar no combate à pobreza menstrual e na redução do impacto ambiental de absorventes descartáveis convencionais, o estudo conquistou o 3º lugar do Prêmio Fapema 2026 na Categoria Pesquisador Júnior. A pesquisa também rendeu pedido de patente no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI).

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Tratamento das fibras de juçara e análise

Doutora em Química, Siqueira explica que as fibras das sementes de juçara foram submetidas a tratamento alcalino e peróxido-alcalino, com o objetivo de modificar suas estruturas e favorecer a capacidade de absorção. Em seguida, foram avaliadas a capacidade de absorção, inchamento, solubilidade em água, pH, desintegração sob agitação e degradação.

Absorvente íntimo à base de fibras naturais de juçara é criado por pesquisadoras no Maranhão
A partir das sementes de juçara, são extraídas as fibras naturais que passam por tratamentos químicos. Foto: Albertinny Rodrigues

Nos ensaios com solução análoga à viscosidade do sangue, o índice de absorção foi de 3,57 vezes a massa seca do produto – superior aos valores reportados na literatura para outras fibras naturais, como algodão (0,84), cânhamo (1,40) e linho (1,57).

Os experimentos também constataram rápida desintegração sob agitação em água e redução de até 92% da massa em 90 dias, à temperatura ambiente. Os resultados reforçam a característica potencialmente biodegradável.

Impacto social

O baixo custo do produto pode ser um aliado no enfrentamento à pobreza menstrual, fenômeno caracterizado pela falta de acesso a recursos, infraestrutura e até conhecimento por parte de pessoas que menstruam.

No Brasil, a falta de dignidade menstrual é uma realidade a ser combatida. Na última Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar do IBGE aponta que 15% das adolescentes de 13 a 17 anos de idade deixaram de ir à escola por falta de absorvente ao menos um dia nos doze meses anteriores ao levantamento.

Além disso, o aproveitamento das sementes de juçara também pode abrir novas possibilidades para futuras cadeias produtivas locais, com valorização de recursos nativos.

Iniciação científica

Foto: Albertinny Rodrigues

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Essa foi a primeira pesquisa de ambas as estudantes bolsistas do projeto. Atualmente cursando o terceiro ano do Ensino Médio, elas já comemoram o Prêmio Fapema e a coautoria do pedido de patente como um grande diferencial nos seus currículos.

“Para mim isso representa uma conquista muito grande. É evidente que o estudo e a ciência nos levam a lugares que aparentemente estão distantes da nossa realidade”, avalia Sabrina Mendes.

As estudantes apontam como principais aprendizados o desenvolvimento de habilidades laboratoriais, de comunicação, escrita científica e visão crítica sobre pautas ambientais e sociais.

“O que me motivou foi quando começamos os estudos bibliográficos e percebemos o quanto a pobreza menstrual é um problema no Brasil e no mundo. Foi muito gratificante fazer parte de uma pesquisa que busca ajudar tanto as mulheres quanto o meio ambiente”, comenta Haylana Lima.

A professora Laurinda Siqueira destaca o caráter interdisciplinar do projeto. Segundo a docente, as estudantes aprendem a formular hipóteses, realizar experimentos, interpretar resultados e reconhecer os limites das próprias conclusões. “Mais do que isso, percebem que a ciência pode contribuir para responder a necessidades reais da população”, afirma.

Ela ressalta, ainda, que essa pesquisa já vem sendo realizada há cinco anos e que os resultados são fruto desse trabalho acumulado. “Faço questão de reconhecer as meninas pesquisadoras que vieram antes e sedimentaram o caminho dessa investigação. Cada etapa trouxe novas perguntas, aprendizados e possibilidades”, pontua.

A pesquisadora reitera que pretende avançar em mais estudos para aprimorar a solução, fazendo mais testes e reaplicações. A perspectiva é que, futuramente, esse conhecimento possa beneficiar a sociedade em larga escala.

*Com informações do IFMA

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