Mortes de bebês e crianças indígenas em 2025 “causa revolta”

Arte: Reprodução/Amazon Sat

O alto número de mortes de crianças indígenas foi um dos temas abordados pelo presidente do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), cardeal Leonardo Steiner, no programa Entrevistas, exibido pelo canal Amazon Sat. Durante a conversa, o arcebispo de Manaus demonstrou preocupação e tristeza com os dados divulgados pelo Relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil que apontaram a morte de 1.024 bebês e crianças indígenas em todo o país, no ano de 2025.

Na ocasião, o jornalista Welliton Lopes, que comanda o programa de debate sobre temas que influenciam diretamente a região amazônica, afirmou que o dado crítico é “uma ferida” para os povos indígenas.

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“Essas mortes são uma ferida para os povos indígenas. Convivendo com eles, eu percebi que a riqueza maior que um povo tem são as crianças. Talvez nós, a nossa sociedade, não valorize tanto as crianças quanto eles. Num dos povos, eu perguntei uma vez a um dos pais quantos filhos ele tinha e ele respondeu ‘só sete’. Quer dizer, a riqueza maior deles são as crianças e têm um cuidado encantador, agora imagine a morte de uma criança numa aldeia”, contou Steiner.

O cardeal relembrou que entendeu a importância das crianças para os povos indígenas durante visita na Terra Indígena do povo Xavante, localizada no estado de Mato Grosso.

“Eu cheguei uma vez na aldeia Xavante e não encontrei ninguém, estavam todos recolhidos porque tinha morrido uma criança. De repente, aparece uma senhora dizendo que a criança tinha morrido e precisava batizar, mas ela já estava enterrada. Naturalmente, fui até o cemitério, fiz a oração, dei a benção e voltei, não encontrei mais ninguém. Conversando depois com o padre que atendia a aldeia, ela disse assim: a morte de alguém na aldeia é um rito sagrado, mas se torna silencioso quando se trata de criança. Então, esse número se refere a vários povos”, frisou.

Leia também: Violência contra os povos indígenas: “números causam não só espanto, mas revolta”, comenta Leonardo Steiner

Contaminação de rios pelo garimpo contribuíram para óbitos

De acordo com o relatório, das 1.024 mortes registradas de bebês e crianças indígenas de até quatro anos de idade, 57% decorreram de causas consideradas evitáveis, com destaques para óbitos relacionados à gripe e pneumonia, doenças infecciosas intestinais e desnutrição. O documento aponta que, em muitos casos, a situação é agravada pela poluição de cursos d’água utilizados pelos indígenas pelo mercúrio utilizado nos garimpos.

Para Leonardo, a alta mortalidade de crianças indígenas tem relação com a contaminação por mercúrio, comumente usado nas atividades garimpeiras e que ocasiona graves problemas de saúde.

“Nós tivemos uma mortandade muito grande por ocasião do garimpo. O povo Yanomami, em Roraima, eu estive lá e vi as crianças desnutridas, sem cabelo, esqueléticas e uma das dificuldades maiores é a questão da desnutrição. A outra questão eu penso que é o descuidado do estado em relação à saúde indígena. Hoje, já é um pouco mais aceito, por exemplo, a mulher dar à luz no hospital, mas não é da tradição indígena, a criança nasce na aldeia, porque nasce no povo e nós perdemos um pouco essa sensibilidade. Mas para eles isso é muito forte”, ponderou o presidente do Cimi, que completou:

“Então, esse número causa não apenas espanto, causa revolta, porque poderia ser um número bem menor. Poderia ser um número bem menor, é claro que sempre existem dificuldades, mas em relação ao cuidado em relação às vacinas, à saúde indigena, eu penso que ainda estamos a dever muito”, finalizou.

A entrevista completa já está disponível no canal do Amazon Sat no Youtube. Assista o episódio aqui.

‘Entrevistas’

O programa Entrevistas, do Amazon Sat, nasce com a proposta de aproximar os amazônidas das decisões tomadas em Brasília que impactam diretamente a região. Produzido pela sucursal do Grupo Rede Amazônica na capital federal, o programa aborda temas ligados à política, justiça, economia e meio ambiente, ouvindo representantes dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além de especialistas e formadores de opinião.

O cardeal e arcebispo de Manaus, Leonardo Steiner, comentou sobre o relatório da violência contra os povos indígenas do Brasil, divulgado pelo Cimi. Foto: Reprodução/Amazon Sat
O cardeal e arcebispo de Manaus, Leonardo Steiner, comentou sobre o relatório da violência contra os povos indígenas do Brasil, divulgado pelo Cimi. Foto: Reprodução/Amazon Sat

Apresentado pelo jornalista Welliton Lopes, que há mais de duas décadas acompanha pautas da Amazônia em Brasília, o programa pretende aprofundar debates e revelar os bastidores das decisões que influenciam a vida de mais de 30 milhões de pessoas na região amazônica. A atração também busca transformar assuntos técnicos e complexos em informações acessíveis ao público.

‘Entrevistas’ tem sempre um episódio inédito às terças-feiras, às 19h30, e conta com reexibições: quartas, às 9h; quintas, às 13h30; sextas, às 17h30; sábados, às 9h30; domingos, às 15h45; e segundas, às 19h30. Todos os horários seguem o fuso de Manaus/AM (GMT-4).

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