Eu batizei ruas

A numeração não respeitava as normas técnicas, tornando tudo uma bagunça generalizada. A proposta era de organizar e ordenar para que os domicílios fossem alcançados dentro do mais breve tempo possível.

Foto: Clarissa Bacellar/Portal Amazônia

Por Dudu Monteiro de Paula

No fim dos anos 1990, fui eleito vereador na cidade de Manaus e aprendi várias lições e talvez a maior delas foi de hoje compreender melhor o comportamento de certos políticos, se é que é possível compreendê-los. 

À época fui procurado por uma instituição oficial que representava empresas, além de fazer entrega de mercadorias, encomendas, cobranças, entrega de correspondências e relativos. O grande problema era a numeração das casas particulares, empresas e oficiais. Havia mais de duas mil ruas com o mesmo nome, por exemplo: 28 ruas chamadas ‘Manaus’, ‘Amazonas’, ‘Rio Negro’, e muitas mais. 

A numeração não respeitava as normas técnicas, tornando tudo uma bagunça generalizada. A proposta era de organizar e ordenar para que os domicílios fossem alcançados dentro do mais breve tempo possível.

Foto: Clarissa Bacellar/Portal Amazônia

Muitos exemplos podem ser citados: uma correspondência simples poderia levar de 30 dias a mais de um ano até chegar ao seu destino se fosse endereçado à rua ‘Manaus’. Se, por sorte, fosse a primeira procurada, era fácil. Mas se fosse a número 28… Sem esquecer que na época sequer existia o código postal (CEP).

Assim, fui em busca de quem mais entendia de endereço: os Correios. Foi solicitado então o auxílio de uma equipe técnica especializa do Correio, que ficou na cidade por oito meses fazendo o levantamento. Ao término, foi apresentado mais de 2,8 mil ruas que deveriam ser regularizadas e me foi apresentada uma norma para regularização dos números. 

Segundo eles, o Brasil tinha adotado o sistema inglês de numeração de logradouros. Do início da rua, a primeira casa a esquerda seria a número ‘1’ e a primeira a direita seria a número ‘2’, assim sucessivamente, fácil de compreender.

Com as pesquisas na mão e a fórmula tecnicamente elaborada por profissionais, apresentei na Câmara Municipal de Manaus a proposta de organização dos nomes das ruas, que foi aprovada por unanimidade, tornando-se a Lei 343 de 12  junho de 1996, sancionada pelo prefeito e partimos para a execução.

Foto: Clarissa Bacellar/Portal Amazônia

Foi escolhido o competente vereador Expedito Teodoro, que junto com a comissão especializada iniciaria o projeto de renomear as referentes ruas repetidas. Segundo a legislação vigente na época, foi feito um edital publicado nos veículos de comunicação, convocando os moradores ou seus referidos representantes das ruas a serem modificadas. 

Durante os longos sete meses apenas 20% se apresentaram. O tempo passava e tínhamos um prazo para a entrega das renomeações. Com isto, Expedito criou um grupo-tarefa para em regime de urgência buscar entre as pessoas não vivas que tinham de alguma forma prestado serviço ao Amazonas, nomes que pudessem ser usados nas ruas, e assim foi feito.

Assim, Manaus conseguiu regulamentar nomes e números ordenados. Mas acredite: na execução da lei, somente as áreas principais foram arrumadas e o resto da cidade foi esquecida.

Foto: Clarissa Bacellar/Portal Amazônia

Portanto, hoje passados já muitos anos da implementação da lei que orgulhosamente criei com ajuda de muitos, não tem mais operacionalidade. 

Como a legislação permite a troca de nome de ruas quantas vezes for solicitado (respeitando algumas pequenas regras), o mais comum nesta terra é mudar nome de bairro e de rua e numerar de forma arbitrária. 

Por exemplo: existem ruas com nomes e números diferentes na prefeitura, nos registros de energia e de água. Mesmo com o código postal, quando a rua muda de nome o sistema não atualiza imediatamente. Quando este problema será resolvido?

Mas eu repito: batizei muitas ruas!

Por hoje é só! FUUUUUUUIIIIIIII!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Sobre o autor

Eduardo Monteiro de Paula é jornalista formado na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), com pós-graduação na Universidade do Tennesse (USA)/Universidade Anchieta (SP) e Instituto Wanderley Luxemburgo (SP). É diretor da Associação Mundial de Jornalistas Esportivos (AIPS). Recebeu prêmio regional de jornalismo radiofônico pela Academia Amazonense de Artes, Ciências e Letras e Honra ao Mérito por participação em publicação internacional. Foi um dos condutores da Tocha Olímpica na Olimpíada do Rio de Janeiro, em 2016.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

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