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Terça, 29 Setembro 2020

Parto domiciliar é alternativa para mães em meio à pandemia de coronavírus em Manaus

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Desde o início da pandemia causada pelo coronavírus a grande preocupação tem sido o número crescente de mortes, especialmente no Amazonas, um Estado com a dimensão de país, abrigando inúmeras realidades. Enquanto famílias vivem o luto da perda, outras recebem vidas recém nascidas num cenário de muita preocupação materna já que gestantes integram o grupo de risco assim como os bebês, ambos demandam um cuidado que a saúde pública em caos não consegue garantir.

Parto domiciliar. (Foto:Laryssa Gaynett)

A enfermeira obstétrica, Isabela Persilva, é uma das entusiastas do parto domiciliar em Manaus e foi através de sua iniciativa, a Celeste Parteria, que mulheres como a Maria Eduarda puderam dar luz ao seu primeiro bebê dentro do conforto de sua casa.


"Inicialmente eu não tinha o plano de fazer o parto domiciliar, contratei o serviço pelo conforto e pela segurança que elas dão ao acompanhar o parto. Por falta de conhecimento ainda não tinha noção dos benefícios do parto em casa, meu plano inicial era ir pra uma maternidade ter minha filha lá com a presença das doulas e enfermeiras", conta Maria Eduarda que já sentia a necessidade de um parto humanizado contando com o auxílio de profissionais no ambiente do hospital mas viu no parto domiciliar uma opção mais segura por conta do risco de contaminação de Covid-19 em hospitais de Manaus.


"A gente bateu o martelo pelo parto domiciliar com o início dessa pandemia, porque o ambiente hospitalar passou a ser um risco tanto pra mim quanto pra bebê além do fato de que a política das maternidade proibiu mais de um acompanhante por gestantes e as doulas iam tá lá pra assegurar que a nossa vontade fosse feita como falei anteriormente, então a gente não cogitou mais ir pra maternidade sem as doulas e lendo um pouco e ouvindo outros relatos optamos pelo parto domiciliar", lembra.

Parto domiciliar. (Foto:Laryssa Gaynett)



A equipe especializada inicia o acompanhamento ainda durante o pré-natal, como explica a enfermeira Isabela.

"São encontros mensais até uma certa etapa da gestação e depois esses encontros passam a ser semanais, em paralelo a gestante realiza o pré-natal com o médico, no nosso pré-natal domiciliar a gente vai preencher o prontuário dessa família, conversar sobre os sinais de trabalho de parto e indicação de cesárea, auxiliar no plano de parto que é um documento caso haja necessidade de transferência - que é o nosso plano B, o plano A é o parto natural em casa - se precisar de alguma intervenção a gente parte pro plano B que é a transferência de casa para o ambiente hospitalar", como foi o caso da administradora Kethlen Sabrina, ela optou desde o início de sua gestação por um parto em casa, no entanto, as circunstâncias e particularidades do seu parto fizeram com que o plano B fosse acionado.

"Eu nunca quis parir em hospital, sempre tive muito medo de passar por violência obstétrica, já ouvi muitas histórias inclusive da minha mãe que já passou por isso, tinha muito medo de encontrar um plantonista mal intencionado, de alguém que falar algumas besteira pra mim, é um momento que eu queria ter muita paz, queria ter muita liberdade de poder externar o que eu tava sentindo da melhor maneira possível e mais confortável na hora do parto", conta Kethlen.



Com 25 anos, Kethlen deu luz a sua primeira filha, Antonella, durante a quarentena, desde o início da gestação a administradora optou por um parto domiciliar e recebeu acompanhamento desde o início da gestação, foi transferida após longas horas de trabalho de parto para um hospital e contou sobre a dificuldade que sentiu por conta das horas extensas e dolorosas de seu trabalho de parto.

"Meu trabalho de parto foi muito longo () As meninas da equipe chegaram em casa na segunda-feira ás 5 horas da manhã e ficamos o dia todinho aqui em casa e eu não queria saber a dilatação pra eu não ficar ansiosa pra não me atrapalhar, aí foi passou a noite e nada.. e aí eu tava ficando com muita dor, todas essas horas sem comer, sem dormir, eu tava muito cansada, quando foi 2h da manhã já de terça-feira eu estava exausta.. já não aguentava mais, eu tava com muita dor, não queria saber quantos centímetros eu tava só sabia que aquela dor já tinha chegado no meu limite mesmo já tinha chegado num ponto que eu não queria mais sentir aquela dor. Como não tem como prever quanto tempo de trabalho de parto mais eu teria, eu não queria mais sentir dor, eu tinha como segundo plano uma doutora que também trabalhava com parto normal também, uma médica humanizada que eu poderia chamar caso alguma coisa Deus o livre desse errado em casa ou se eu não aguentasse e quisesse a analgesia de parto ela iria me atender, eu já tinha fechado com ela, nós falamos com ela e 2h da manhã nós saímos de casa. Eu resolvi desistir do parto em casa justamente por causa da dor, passei todo esse tempo sem dormir, sem comer, nos intervalos das contrações eu já tava pescando, tava sem força já () nenhuma posição tava boa, no chuveiro não tava legal, eu não conseguia mais de forma alguma estar confortável com aquela dor, cheguei no hospital e teve a burocracia de se internar e depois que eu tomei a analgesia tudo passou, foi tudo maravilhoso dali em diante, () A analgesia só é ofertada em Manaus no particular, os hospitais [públicos] não oferecem, o que é uma pena, a mulher pra ter um parto sem dor infelizmente ela tem que pagar, sendo que em outros lugares eles oferecem e aqui não. Depois da analgesia eu consegui dormir 30 ou 40 minutos, consegui comer um chocolate pra ter força pro expulsivo e a neném nasceu tranquilamente", conta. 

Parto domiciliar. (Foto:Laryssa Gaynett)

A enfermeira obstétrica, Isabela, explica sob o viés profissional como é feito o procedimento de parto natural em casa.


"Quando a gestante entra em trabalho de parto nós vamos pra casa dela, o parto é acompanhado por duas enfermeiras obstétricas, a gente leva todos os materiais necessários para assistência, desde os materiais básicos até os materiais de reanimação adulto e neonatal. Depois que o bebê nasce a gente fica em torno de 4 horas com essa família onde todos os cuidados são feitos tanto com a mãe quanto com o bebê, com 24 horas a equipe volta pra avaliar novamente a mãe e seu bebê, com 48 horas é o nosso pediatra que vai até a casa daquela família para avaliar o bebê e prescrever os primeiros exames e em torno de 10 dias a gente tem mais uma consulta para avaliar novamente os dois e finalizar o nosso acompanhamento" explica.

Parto domiciliar como alternativa


A enfermeira tem quatro filhos e passou pelo processo de cesariana eletiva em todos seus partos, sua experiência com a maternidade foi o ponto de partida para a profissão que exerce. "Dessas quatro cesarianas dois dos meus filhos, meus filhos do meio foram pra UTI aonde um ficou entubado durante 10 dias, teve três paradas cardíacas e o outro teve um desconforto respiratório porque ambos tiveram o que a gente chama de prematuridade atrogênica, uma prematuridade provocada pela cesariana eletiva aonde o bebê é retirado do útero sem estar pronto pro nascimento, porque o que indica que o bebê tá pronto pro nascimento é a mulher entrar em trabalho de parto e em nenhum dos meus filhos eu entrei em trabalho de parto. Depois dessa experiência eu tive mais certeza que eu queria ser enfermeira obstétrica e fui trabalhar num ambiente hospitalar só que quando cheguei lá dei de cara com muitas violências obstétricas e percebi que parto não era isso, que parto era um momento de entrega de amor e de respeito. Passei um ano me especializando e comecei a atender partos em casa".


Isabela explica que as gestantes buscam o serviço de parto domiciliar geralmente por terem passado por alguma situação de violência obstétrica ou por cesarianas desnecessárias.


" Há um tempo atrás nos acompanhamos um parto e que a mãe da gestante é deficiente visual e ela acompanhou todo o trabalho de parto e na hora de fazermos o corte de cordão umbilical ela que fez o corte, ela que separou o bebê da placenta e foi muito especial, nós auxiliamos e foi uma das situações mais inesquecíveis que tivemos. É incrível ver a experiência de cada mulher com seu parir, das crianças acompanhando dos outros filhos acompanhando o parto, porque ele é um evento familiar".

Parto domiciliar. (Foto:Laryssa Gaynett)

Layssa Barroso teve o segundo filho durante a pandemia do coronavírus com ajuda da equipe Celeste Parteria. Desde a sua primeira gestação, há seis anos, desejava um parto domiciliar mas não tinha conhecimento de nenhuma equipe em Manaus que acompanhasse partos domiciliares já que na época Isabela ainda não realizava o trabalho. Sua primeira experiência com a maternidade foi traumática, um parto normal hospitalar onde sofreu violência obstétrica.


"A princípio optamos por um acompanhamento num parto hospitalar () meu esposo se sentia mais seguro se estivesse numa maternidade. Respeitando a vontade dele a princípio faríamos um parto hospitalar. Mas aí veio este problema [pandemia] e tendo eu conhecimento sobre o grande problema que estávamos por enfrentar, por trabalhar na área, conversei melhor com meu esposo, coloquei as evidências e os possíveis riscos de contaminação para o bebê, além da possibilidade de começaram a vetar a presença do acompanhante e da doula no momento do parto Enfim, muitos fatores acabaram por contribuir para mudarmos a nossa opção para um parto em casa O medo de sofrer violência, o medo da contaminação, o medo da lotação da maternidade", contou Layssa que conheceu o trabalho da Celeste Parteria via Instagram e recebeu acompanhamento ao longo da gravidez.


"Na equipe da Isabela tem uma doula, que esteve presente em todas as consultas e ela é ótima Inclusive, minha irmã, que é enfermeira, fez o curso de doulas com a Isabela para poder estar comigo também, me auxiliando no momento do trabalho de parto", completou, a experiência ficou mais ainda familiar e confortável para a mãe. "Nossa, sem sombra de dúvida o atendimento que eu tive na minha casa nem se comparou ao meu atendimento hospitalar. O meu primeiro parto foi um parto hospitalar, eu tive ela num hospital particular, foi um parto normal mas eu passei por muitas situações que eu não desejaria a nenhuma mulher, então, sem sombra de dúvidas o meu atendimento na minha casa que eu tive agora na segunda gestação foi cem por cento melhor sem comparação mesmo a experiência que eu tive anteriormente", avaliou Layssa.


Isabela explica também quais cuidados são necessários para um parto domiciliar saudável "Um parto em casa pra ele ser seguro ele precisa ser assistido, precisa ter uma equipe capacitada para prestar essa assistência. São enfermeiras obstétricas preparadas para atendimento tanto da mãe quanto do bebê, emergências obstétricas e reanimação neonatal. Em tempos de pandemia já constam estudos inclusive específicos em relação a isso que mostram o menor risco de contaminação para mãe e o bebê, visto que a gestante e o recém nascido fazem parte do grupo de risco, é em casa. É onde tem o menor risco de exposição tanto para mãe quanto pro filho, então se aquele parto é seguro, se aquela gestante é o que a gente chama de gestante de risco habitual que não teve nenhuma patologia ou intercorrência na gestação o ideal é o parto em casa" conta a enfermeira.


A exposição ao contágio em maternidades públicas em tempos de covid-19 é bastante preocupante, o Sistema Único de Saúde (SUS) não dispõe de estrutura para oferecer o serviço ao público.


"Infelizmente esse ainda não é um serviço que está disponível pelo Sistema Único de Saúde (SUS) de uma forma mais acessível para as mulheres hoje ainda é um serviço particular, são equipes particulares que fazem esse acompanhamento, aonde essa mulher precisa realmente se programar para essa gestação. Aqui em Manaus ainda temos uma dificuldade de aceitação do parto em casa, mesmo a gente tendo referência, mesmo ele sendo recomendado pelo Ministério da Saúde, a gente ainda vem nessa luta pra que ele seja visto como é no exterior, como é visto em outros países" relata a profissional.

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