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Sábado, 02 Março 2024

Javalis são encontrados na Amazônia e ameaçam biodiversidade da região

O que vem a mente quando se fala de praga? Provavelmente baratas, mosquitos ou ratos, quando se refere ao ambiente urbano. Ou mesmo, gafanhotos e cupins, quando pensamos em plantações inteiras sendo dizimadas. Entretanto, outro tipo de espécie invasora tem se alastrado por todo o território brasileiro, um animal exótico que ameaça a biodiversidade das florestas e, mais recentemente, até mesmo do bioma amazônico: o javali

Diferente do imaginário popular, fortalecido pelo personagem Pumba, do famoso filme da Disney 'Rei Leão', este animal é extremamente nocivo para a fauna e flora do país e seu cruzamento com porcos domésticos, conhecido como porco feral, é capaz de oferecer risco até mesmo a seres humanos e grandes predadores, como as onças-pintadas.

Foto: Reprodução/ICMBio

Para entender os riscos da proliferação do javali, e dos porcos ferais, no ecossistema brasileiro, o Portal Amazônia conversou com o professor de biologia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e doutor em Ecologia, Conservação e Manejo de Vida Silvestre, Rogério Fonseca, para responder as seguintes questões: o que são espécies invasoras? Qual a ameaça dessa espécie para a biodiversidade Amazônica? E como lidar com a praga dos javalis? 

Uma espécie exótica e invasora 

Ecossistemas são localidades formadas por comunidades que interagem entre si no meio ambiente, constituídas por animais, plantas e outros reinos, sendo geralmente estáveis e autossuficientes. 

Essas localidades podem ser abaladas com a introdução de espécies exóticas, ou seja, que não são nativas daquela região, por abalarem o ciclo natural. Muitas dessas espécies predam sem serem predadas, ou então "roubam" o alimento de animais originários desses ambientes, podendo levar até mesmo a extinção desses grupos. 

À essas espécies se dá o nome de invasoras. Esse é o caso do javali, quando introduzido no território brasileiro.

"O javali é uma espécie que não é nativa da fauna brasileira. A gente chama na biologia, isso, de espécie exótica, ou seja, ela vem de outra região e foi introduzida no nosso país [por meio de ação humana]. Essa espécie exótica, por não ter inimigos naturais, teve uma predisposição de se tornar, também, invasora. Isso porque ela está fora de suas condições habituais, entrando em um mecanismo de sobrevivência na qual ela começa a se reproduzir exacerbadamente, para suprir uma necessidade de manutenção da espécie. Enquanto no ambiente nativo esse animal poderia ter uma ninhada de quatro a seis, aqui ele tem uma ninhada de oito, dez, até 12 bichos",

explica o professor.
Áreas devastadas por javalis em Roraima. Foto: Rogério Fonseca/Acervo Pessoal

Conforme o pesquisador, esses animais foram introduzidos em território brasileiro nos anos 90, com o objetivo inicial de preservar espécies semelhantes, diminuindo a caça predatória.

"A gente trouxe o avestruz para não tocar na ema, trouxe o javali para não tocar no caititu e no queixada. Enfim, fomos colocando espécies não nativas para serem manejadas em substituição das espécies nativas. Achando, imaginariamente e não cientificamente, que isso iria aumentar as populações naturais. Isso é um engano pseudocientífico",

complementa.

O reflexo da implementação destas espécies foi a proliferação do javali na natureza, por conta das solturas e ocasionais escapes do animal. Além do cruzamento entre o javali e os porcos domésticos que resultaram no híbrido conhecido como suídeo feral, também conhecido como porco feral ou java porco. Esse animal, explica o pofessor, conta com "a mesma capacidade de movimentação do javali introduzido, mas com o jeito [fisionomia] de um porco doméstico de grande tamanho".

Esse cruzamento ocasiona em um animal que possui a voracidade de um selvagem e as características selecionadas de um doméstico, como seu tamanho avantajado. Dessa forma, este animal acaba não tendo nenhum predador a altura, sendo uma séria ameaça a biodiversidade nativa.

Ameaça ao ecossistema da Amazônia 

Antes uma preocupação, majoritariamente, do sul e sudeste, o javali e suas crias selvagens já se espalharam para todas as regiões que compõe o território brasileiro, com avistamentos até mesmo na região amazônica. Na verdade, a pesquisa do professor Rogério indica o registro da presença do invasor em cerca de 31% das bacias da Amazônia - mesmo que ainda dispersos -, o que torna o animal uma ameaça ao ecossistema florestal.

A potencialidade destrutiva do javali é tanta que alguns dos suídeos ferais possuem paridade de força com grandes predadores da região, como a própria onça-pintada. Segundo o pesquisador, as onças também não viriam, de uma hora para outra, a considerar a predação dessas espécies em substituição àquelas que já compõe seu ciclo natural de caça. 

Como lidar com a praga? 

Os processos burocráticos aplicados ao manejo dessa espécie são, segundo Rogério, um dos maiores empecilhos em se lidar com essa praga no país. 

"A extrema burocracia criada é o que protege e auxilia na conservação desta espécie exótica, invasora e praga, fazendo com que ela continue se expandindo, aumentando e ocupando novos nichos ecológicos, dizimando com a fauna nativa do nosso país", 

alerta o pesquisador.
Foto: Andreas Lischka/Pixabay

O doutor indica, dessa forma, que os órgãos governamentais deveriam ter uma atuação mais enfática no controle dos javalis, principalmente pelo risco que eles representam a biodiversidade da Amazônia e do país inteiro. Mas como lidar com eles? 

"A gente não dá a um rato ou mosquito, dentro de casa, um tratamento leniente. Quando estes animais estão no nicho ecológico no qual nos, humanos, vivemos, a gente dizima eles de maneira bem clássica. Mas, por que estou comentando isso? Bem, nós temos que lidar com espécies invasoras de uma forma altamente técnica, sem criar mecanismos de burocracia para controlar essa espécie",

enfatiza.

O doutor finaliza a entrevista exaltando a importância dos "órgãos de extensão rurais, de comando e controle de gestão ambiental, principalmente da esfera federal, se organizarem para a criação de cursos de capacitação para lidar com este problema", destacando a necessidade de se lidar com esta praga de maneira ágil e efetiva. 

*Estagiário sob supervisão de Clarissa Bacellar

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