Portal Amazônia responde: existem pedras preciosas no Monte Roraima?

Além da sua grandiosidade geográfica, o Monte Roraima desperta curiosidade por histórias que mesclam aventura, espiritualidade e supostas riquezas minerais.

Monte Roraima. Foto: Reprodução/Feel Brasil

O Monte Roraima, um dos cenários mais fascinantes da Amazônia, está localizado na tríplice fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana. Seus tepuis, como são conhecidas suas montanhas e montes, ultrapassam os 2,7 mil metros de altitude se tornando um dos pontos mais elevados do território brasileiro. 

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O monte integra o conjunto de formações geológicas mais antigas da América do Sul, com rochas que remontam a bilhões de anos. O local é marcado por paredões verticais e formações rochosas esculpidas pelo vento que atraem aventureiros de diversas partes do mundo. 

A região abriga também espécies endêmicas (que só existem naquela região) como resultado do isolamento natural do topo da montanha ao longo de milhares de anos, o que torna o ambiente um verdadeiro “laboratório natural” para estudos científicos. 

Além disso, de acordo com tradições indígenas, o local é considerado o berço de Makunaima, figura ancestral descrita como um guerreiro corajoso. 

Leia também: Monte Roraima: o que você precisa saber antes de visitar o gigante da tríplice fronteira

Mas afinal, existem pedras preciosas no Monte? 

Monte Roraima
Personagem José Alfredo (Alexandre Nero) com um diamante encontrado no Monte Roraima. Foto: Reprodução/ Tv Globo

Além da sua grandiosidade geográfica, o Monte Roraima desperta curiosidade por histórias que mesclam aventura, espiritualidade e supostas riquezas minerais.

Um dos questionamentos é sobre a existência de pedras preciosas no local, especialmente diamantes, uma ideia popularizada após a aparição da região na novela ‘Império’, exibida entre 2014 e 2015, na TV Globo. Mas o que dizem os especialistas? 

Segundo o geólogo Fábio Luiz Wankler, do Departamento de Geologia da Universidade Federal de Roraima (UFRR), não existem pedras preciosas no topo do Monte Roraima.

“Geologicamente, o topo do Monte Roraima é composto de arenito. Não existem pedras preciosas no topo. A ideia de que há minas de diamantes no alto do monte, popularizada por novelas e por alguns guias locais, é um mito”, afirma o pesquisador.

O geólogo Jackson Douglas Silva da Paz, doutor em Geologia e também professor da UFRR, complementa a explicação com base em registros oficiais:

“Há fontes e registros oficiais que tratam da ocorrência de minerais e do potencial gemológico, mas não exatamente do Monte Roraima e, sim, do estado de Roraima em geral, dentro de levantamentos geológicos regionais mais amplos”.

A principal referência institucional é o Serviço Geológico do Brasil (SGB/CPRM), responsável pelos levantamentos geológicos e inventários minerais do país. O órgão disponibiliza relatórios técnicos, mapas geológicos e metalogenéticos com dados de campo, análises laboratoriais e registros históricos de ocorrências minerais.

“O documento mais recente é ‘Geologia e recursos minerais do estado de Roraima’, publicado em 2025. É um bom ponto de partida porque traz a recorrência histórica das ocorrências minerais no estado”, destaca Jackson.

Minerais valiosos

Embora o topo do Monte Roraima não possua pedras preciosas, a região ao redor apresenta registros históricos de minerais valiosos.

“O diamante e o ouro da região ocorrem apenas em rochas conglomeráticas do embasamento do Monte Roraima (na base) e nos rios que as drenam, como nas localidades de Santa Elena de Uairén, Uiramutã e Tepequém”, explica Fábio Luiz Wankler.

Jackson Douglas Silva da Paz completa e detalha que essas ocorrências são, em grande parte, depósitos aluviais (referente a depósitos de sedimentos, como cascalho e areia, transportados e depositados por água corrente) associados ao Supergrupo Roraima (entenda AQUI).

“Na mesma publicação da SBG/CPRM, Geologia e recursos minerais do estado de Roraima, Mendes e colaboradores apontam que ouro e diamantes são encontrados em depósitos aluviais e sedimentos associados ao Supergrupo Roraima. Além disso, metais como estanho, nióbio, tântalo, titânio, vanádio e elementos de terras-raras ocorrem também, mas associados a corpos intrusivos regionais”, explicou.

No entanto, ele ressalta que isso não significa a existência de jazidas no topo do tepui, já que a morfologia do tepui indica que ele é muito mais um remanescente erosivo do que um centro mineralizador ativo. Além disso, maior parte das ocorrências registradas oficialmente em Roraima refere-se a áreas fluviais recentes ou a outras unidades geológicas do estado, não especificamente ao maciço do Monte Roraima.

De acordo com Wankler, os diamantes encontrados nessas áreas costumam ser pequenos, raramente ultrapassando dois quilates, e apresentam coloração translúcida ou levemente amarelada, e não há registros do “diamantes rosa”, popularizado na novela. 

Leia também: Brasil tem cerca de 23% das reservas mundiais de terras raras; veja onde estão na Amazônia

O Vale dos Cristais

Foto: Alexsandro Seidler

A composição predominante de arenito explica porque o Monte Roraima não apresenta condições favoráveis para a formação de pedras preciosas. Segundo Fábio Luiz Wankler, o arenito da área não é mineralizado, e o único cristal presente é o quartzo, formado pela recristalização do arenito devido a eventos tectônicos que afetaram as rochas do monte. 

Esse tipo de fenômeno geológico, segundo ele, não é exclusivo do local e pode ser encontrado em outras áreas da região amazônica.

Assim, um dos pontos mais conhecidos do topo do Monte Roraima é o chamado ‘Vale dos Cristais’, uma área que reúne milhares de cristais de quartzo translúcidos, espalhados sobre as rochas.

“No topo existe um fenômeno chamado Vale dos Cristais, onde se caminha por trilhas rodeadas por rochas com milhares de cristais de quartzo. Trata-se de um sítio de interesse geológico, mas sem valor monetário significativo”, esclarece Wankler.

Vale dos Cristais. Foto: Alexsandro Seidler

Jackson Douglas Silva da Paz complementa sobre a formação do quartzo presente na área:

“O Supergrupo Roraima é formado por rochas sedimentares ricas em quartzo, com pouca influência de processos magmáticos ou metamórficos intensos, que são fundamentais para a gênese (origem) de muitos depósitos minerais”, explica.

Mineração proibida

De acordo com Fábio Luiz Wankler, embora os cristais não tenham um valor monetário significativo, o local é frequentemente depredado por visitantes que tentam levar exemplares. 

Porém, além da ausência de pedras valiosas no topo, a exploração mineral é legalmente proibida. No Brasil, o Monte Roraima integra o Parque Nacional do Monte Roraima, uma Unidade de Conservação Federal que busca preservar um dos ecossistemas mais frágeis e únicos do planeta.

No lado venezuelano, o Monte está inserido no Parque Nacional Canaima, reconhecido como Patrimônio Mundial pela UNESCO, onde a mineração industrial também não é permitida.

Na Guiana, a atividade mineral é regulamentada pela Guyana Geology and Mines Commission, que exige licenças e estudos de impacto ambiental, respeitando áreas protegidas.

Sobre os riscos ambientais, Wankler alerta, que mesmo fora dos limites do parque, a mineração representa sérios riscos ambientais na região amazônica. Entre os principais impactos estão a contaminação da água pelo mercúrio, o desmatamento e a erosão do solo.

“A mineração pode contaminar rios e afetar diretamente o modo de vida dos povos originários. Além disso, atividades ilegais costumam atrair redes criminosas ligadas à lavagem de dinheiro, prostituição e tráfico humano”, alerta o pesquisador.

tepui - monte roraima
Foto: Reprodução/Embratur

De acordo com Wankler, existem diversos impactos já documentados, que destacam a contaminação por mercúrio em peixes, identificada por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), e o desmatamento monitorado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que afeta o balanço hídrico local, causando a erosão dos solos e o assoreamento dos rios.

Além disso, estudos feitos em centros de pesquisa como a Universidade Estadual de Roraima (UERR), a Universidade Federal de Roraima (UFRR), a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e o INPA têm identificado esses impactos no estado.

Jackson Douglas Silva da Paz concorda que a mineração pode gerar danos e alerta que seus efeitos variam conforme método, escala, localização e controle ambiental. 

“Agricultura, hidrelétricas, rodovias, turismo ou mineração, todos têm impactos que variam conforme método empregado, escala da atividade, localização ecológica e nível de controle/regulação. Esses fatores determinam a magnitude, a reversibilidade e a extensão dos efeitos ambientais”, afirmou.

De acordo com ele, a diferença entre atividades está menos na existência de impacto e mais na origem, intensidade e capacidade de mitigação de cada uma.

Os geólogos lembram que os impactos ambientais vão além da paisagem, já que a biodiversidade do Monte Roraima é extremamente sensível, e qualquer alteração pode provocar perdas irreversíveis.

Patrimônio natural ou potencial mineral?

Geologicamente, a região integra o Escudo das Guianas, que possui ocorrências minerais em escala regional. Porém, juridicamente e ambientalmente, o Monte Roraima está inserido em áreas protegidas e territórios indígenas.

“Nesse caso específico, a prioridade atual é a preservação, o que independe de qualquer potencial mineral. A resposta não é geológica nem moral: é normativa. Depende do marco regulatório vigente e das escolhas institucionais da sociedade”, comenta Jackson Douglas Silva da Paz.

Além disso, o especialista faz uma crítica à forma como a mineração costuma ser tratada no debate público. Para ele, o problema central não é a atividade em si, mas as desigualdades econômicas e a forma como ela é regulada e inserida no desenvolvimento do país.

“Por fim, fica uma crítica branda minha sobre a “demonização” da mineração o que contribui com subdesenvolvimento e subvalorização da educação técnica como meio para o desenvolvimento racional. Espero que vc abrace a ideia de uma pausa que mostre a mineração não como o grande problema e, sim, a desigualdade econômica. Na desigualdade dentro de um país, possibilita-se um negócio mais lucrativo de criar obstáculos para vender facilidades. Sugiro ver os casos da regulação da mineração com vistas ao desenvolvimento humano e nacional na Austrália, Canadá, África do Sul, Guyana e próprio Brasil. Vc verá que o problema não é a mineração”, conclui.

*Por Rebeca Almeida, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar

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