Método desenvolvido no Amazonas é capaz de reduzir mordidas de morcegos e amenizar risco de raiva

Projeto realizado pelo Instituto Mamirauá em comunidades tradicionais demonstra que o uso de lanternas solares durante a noite reduz de 19% para 3% os casos de mordidas de morcego.

Foto: Reprodução/Instituto Mamirauá

Uma estratégia simples, acessível e movida a energia solar mostrou-se eficaz na redução de ataques de morcego-vampiro (Desmodus rotundus), principal transmissor da raiva para humanos e animais de criação. Este é o principal resultado de um estudo realizado entre 2023 e 2024 na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã e na Floresta Nacional de Tefé, no estado do Amazonas, por pesquisadores do Instituto Mamirauá.

A pesquisa investigou se a iluminação noturna com lanternas solares poderia diminuir a ocorrência de mordidas de morcego-vampiro, única espécie que costuma se alimentar do sangue de seres humanos e é vetor da raiva, uma doença viral grave transmitida pela saliva de mamíferos infectados. Uma vez que os sintomas neurológicos se manifestam, a doença é quase sempre fatal, tornando a prevenção fundamental.

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Método e resultados da pesquisa

O estudo foi realizado através de entrevistas com 53 famílias, totalizando 224 pessoas, sobre a ocorrência de mordidas nos últimos seis meses. Dos entrevistados, constatou-se que 30% já haviam sido mordidos ao longo da vida, sendo que 19% haviam sido mordidos nos últimos seis meses.

Em seguida, a equipe do estudo distribuiu lanternas movidas a energia solar e orientou os entrevistados a utilizá-las durante a noite para iluminar o entorno das casas. Concomitantemente, foram capturados morcegos próximos às comunidades para testar a presença do vírus da raiva.

A coleta de material constatou que, felizmente, nenhum indivíduo estava infectado. Após seis meses, os pesquisadores retornaram para avaliar o impacto da intervenção.

As mordidas relatadas pelos moradores locais diminuíram significativamente, de 19% para apenas 3%, após a adoção das lanternas. Observou-se também que a adesão ao método proposto foi essencial: os indivíduos que usaram a lanterna todas as noites e a noite inteira foram menos mordidos.

De acordo com Isadora Lobato, pesquisadora do Instituto Mamirauá responsável pelo estudo, “nossos resultados evidenciam como garantir o acesso à educação e à energia, direitos básicos, pode se traduzir em uma forma de promoção da saúde e prevenção de doenças em comunidades ribeirinhas da Amazônia”.

“A elevada subnotificação de casos de mordidas por morcegos-vampiros observada no estudo representa um grande desafio para o planejamento de ações de saúde pública adequadas à realidade das populações ribeirinhas, destacando a relevância de pesquisas voltadas a esse tema”, conclui.

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Medidas de proteção e prevenção

Com base nas descobertas, os pesquisadores reforçam um conjunto de recomendações para reduzir o risco de mordidas por morcegos e contaminação por raiva. Para proteger as pessoas e animais de criação, é essencial usar iluminação noturna próximo ao local onde se dorme, como as lanternas solares testadas.

Além disso, utilizar mosquiteiros ao dormir e manter portas e janelas bem fechadas ao anoitecer também reduzem a probabilidade de ser mordido. Para a proteção dos animais de criação, as medidas incluem instalar telas em currais e abrigos, certificar-se de que a vacinação dos animais está em dia e abrigá-los à noite em locais fechados sempre que possível.

“Esses resultados e as medidas propostas podem ajudar a orientar futuras ações integradas de vigilância epidemiológica, que incluam educação em saúde e acesso à energia em áreas de difícil acesso da Amazônia”, argumenta Isadora. “Esperamos contribuir para a saúde pública e o bem-estar dessas comunidades”.

Os resultados da pesquisa, as medidas para prevenir mordidas de morcegos, além de fatos sobre morcegos e sobre a raiva estão contidos em uma cartilha de divulgação científica produzida pela equipe de pesquisadores. Essa cartilha será impressa e distribuída em comunidades das áreas de estudo com o intuito de trazer informações relevantes que possam ser acessadas pelo público geral, ajudando na prevenção de acidentes com morcegos.

Método desenvolvido no Amazonas é capaz de reduzir mordidas de morcegos e amenizar risco de raiva
Imagem: Reprodução/Instituto Mamirauá

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Este projeto foi possível graças à doação das lanternas solares pela empresa Schneider Electric. As lanternas também foram doadas para parteiras tradicionais do Amazonas, para auxiliar nos trabalhos de parto e acompanhamento em regiões com pouco acesso à energia elétrica.

O Instituto Mamirauá é uma Organização Social supervisionada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação que atua por meio de programas de pesquisa, manejo de recursos naturais e desenvolvimento social na Amazônia, tendo como linhas de ação principais a aplicação da ciência, tecnologia e inovação na conservação e uso sustentável da biodiversidade amazônica, bem como a construção e consolidação de tecnologias sociais e programas de manejo em parceria com comunidades tradicionais.

A cartilha pode ser acessada AQUI.

*Com informações do Instituto Mamirauá

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