O oceano na região da foz do Amazonas é marcado por relações com o rio, complexidade logística e lacuna de dados científicos, o que torna a pesquisa na região mais desafiadora. Foto: Suzane Biapino
Bióloga, professora da Universidade do Estado do Amapá (UEAP) e doutora em Ecologia, Janaína Freitas Calado atua há mais de uma década com educação ambiental na Amazônia. Nascida em Macapá, viveu por muitos anos no Rio Grande do Norte e hoje pesquisa a relação entre comunidades tradicionais e ecossistemas costeiros e oceânicos com foco na foz do Amazonas.
Integrante das ações brasileiras da Década do Oceano, iniciativa das Nações Unidas para implementação de iniciativas sustentáveis até 2030, Calado trabalha com o conceito de cultura oceânica, que busca fortalecer a compreensão do papel do oceano na regulação climática, na biodiversidade, na cultura e na economia — abordagem que passou a integrar o currículo escolar brasileiro a partir de 2025.
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Nesta entrevista, ela fala sobre seu trabalho e comenta percepção das populações ao início das atividades da Petrobras para prospecção de petróleo a poucos quilômetros do Amapá.
Como você construiu sua trajetória de pesquisa e como você começou a trabalhar com oceano na Amazônia?
Janaína Freitas Calado: Minha formação toda foi com ecologia de ambientes recifais. Na UEAP, atuo na área de educação ambiental, que é essencialmente interdisciplinar. Em 2016, com a publicação na Nature da descrição dos recifes da Amazônia, todo mundo aqui no Amapá falava sobre isso, pois já se tinha o pedido de licença para prospecção de petróleo de dois blocos de exploração no Amapá. T
ínhamos muita desinformação, com grupo político dizendo que os recifes da Amazônia não existiam, enquanto os pesquisadores mostravam que sim, existiam. Temos uma costa amazônica gigante, mas desconhecida. Então fui tentar entender as percepções das pessoas sobre os recifes da Amazônia no contexto da exploração de petróleo. Hoje procuro compreender a relação que o povo do Amapá tem com oceano e busco, através de metodologias participativas, promover a cultura oceânica amazônica.
Você está em uma região de muita sociobiodiversidade, perto da floresta e perto do oceano. Como você pensa a educação ambiental a partir das particularidades locais?
Janaína Freitas Calado: Redescobri o Amapá quando vim morar aqui de vez. Tem região alagada, floresta de terra firme, cerrado, rios, lagos, manguezais, a foz e essa parte recifal. Então há uma diversidade de ambientes em um espaço relativamente pequeno, o que se reflete diretamente na diversidade cultural e de uso e ocupação desses locais. Mas, apesar dessa diversidade de modos de vida, as populações tradicionais têm a relação dede interdependência com a natureza como uma característica semelhante.
Trabalhamos com comunidades que muitas vezes não estão no mapa e nem tem acesso às políticas públicas – as chamadas “comunidades invisíveis”. E por pressões do neoliberalismo, exploração da terra, conflitos ou pelas mudanças climáticas, elas podem até deixar de existir. Se os sinais da natureza começam a ficar confusos, as comunidades perdem os seus marcadores do tempo e não sabem mais quando é época de plantar ou de colher. Então, a vulnerabilidade dessas comunidades aumenta.
A pessoa vende a terra por um preço barato e vai embora. Isso transforma as comunidades tradicionais em populações pobres nas cidades, como cita a Eliane Brum. No nosso trabalho, a pesquisa deve estar na retaguarda das comunidades, buscando ferramentas de fortalecimento.

Leia também: A dualidade da exploração de petróleo na Margem Equatorial: o que é e como afeta a Amazônia?
E quais são as principais dificuldades desse trabalho de pesquisa com as comunidades tradicionais no Amapá?
Janaína Freitas Calado: Existe o que se chama de fator amazônico, que são dificuldades logísticas e operacionais para trabalhar aqui. Se você trabalha com mergulho ou com pesca, já é tudo muito caro. Agora, na Amazônia, o custo das nossas saídas de campo é ainda maior. Eu preciso contratar barco, levar gasolina, e muitas das comunidades não têm mercado para comprar comida, então temos que levar nossos insumos. Para completar, a foz do rio Amazonas tem correnteza, tem maré. A profundidade costuma ser rasa, mas é uma região dinâmica, e isso pode mudar rápido – o que exige preparação extra.
Você tem acompanhado a percepção das comunidades da região sobre o início da prospecção de petróleo na Margem Equatorial. Qual a expectativa para a atividade da Petrobras na região?
Janaína Freitas Calado: De uma maneira geral, o que eu percebo é que populações tradicionais que dependem diretamente do meio ambiente discutem mais as problemáticas do petróleo, têm mais medo do que pode vir acontecer porque sabem que a vida depende daquilo. Populações que vivem na cidadeenxergam uma grande possibilidade de mudança de vida. A narrativa de que o petróleo vai chegar e melhorar tudo vem sendo construída há anos.
E há uma falta de comunicação com as comunidades tradicionais– pescadores, indígenas, extrativistas. As pessoas ficam sabendo do que acontece pela imprensa, de políticos festejando a aprovação da licença de prospecção ao acidente com o vazamento do fluido de perfuração. Sobre o petróleo, penso que é muito importante ter um sistema de monitoramento internacional.
A pluma do rio Amazonas alcança o Caribe. Grande parte de algum possível vazamento vai parar lá também, não fica só aqui no Brasil. Então, precisamos começar a dialogar sobre os cenários possíveis, formar parcerias internacionais e realizar pesquisas para entender as consequências – incorporando os conhecimentos tradicionais nesse processo. Além disso, o diálogo direto e transparência com as organizações da sociedade é fundamental.
Você atua construindo pontes entre o conhecimento científico e o conhecimento tradicional. O que tem aprendido nessa trajetória?

Janaína Freitas Calado: Quem trabalha com educação ambiental é um mediador. Não levamos respostas prontas, mas construímos diálogos que conectam sociedade e natureza. Se você chega em uma comunidade tradicional trazendo o conhecimento de fora, já está errado. Uma coisa que sempre falo nas minhas aulas é que não trabalhamos com objeto de pesquisa, trabalhamos com sujeitos.
E com isso, não existe a possibilidade de eu não me envolver com esse sujeito. Porque eu tenho que explicar meu trabalho para a comunidade, que estou trazendo conhecimento científico e que eles estão trazendo conhecimento tradicional. O mais difícil costuma ser explicar para meus pares da universidade e para o revisor da revista que isso é ciência.
Você trabalha com o conceito de cultura oceânica. Como isso se aplica aos ambientes amazônicos e quais as perspectivas futuras de atuação?
Janaína Freitas Calado: Me aproximei do termo quando começamos a discussão global sobre a Década do Oceano em 2020. Faço parte do Grupo de Apoio e Mobilização da Década do Oceano na região Norte, representando o Amapá junto com a Valdenira Santos e outros pesquisadores daqui. Sou do comitê gestor do Observatório Popular do Mar, que desenvolve um projeto de ciência cidadã com pessoas na foz do Amazonas para coletar dados locais.
Todo ano desde 2021 fazemos a Semana da Década do Oceano no Amapá em junho. E outro projeto que iniciou em 2024 foi o Ecoa – Experiências e Vivências em Cultura Oceânica Amazônica. Formamos universitários de comunidades tradicionais para que retornem a essas comunidades com oficinas sobre o tema. Isso é importante porque a percepção sobre oceano ainda é muito estereotipada.
Aqui no Amapá temos poucas praias e o mar é marrom, não é azul ou verde, então parece algo distante da realidade das pessoas. Vou em muita comunidade tradicional onde as pessoas acham que todo o rio tem maré, mas isso é algo característico de rios que tem proximidade com o oceano.
Em 2025, foi aprovada a inserção da cultura oceânica na Base Nacional Comum Curricular, então, as escolas da Amazônia vão precisar de ideias de como abordá-la nos seus currículos, e queremos superar o histórico de replicar o conteúdo do Sudeste. Construímos redes de colaboração com projetos e pesquisadores de todo o Brasil, mas sempre com o protagonismo de quem está aqui.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Bori
