Conhecimento indígena no manejo de fogo é destaque na atuação do Prevfogo há mais de 30 anos

O objetivo é aliar técnicas de combate ao fogo e o conhecimento ancestral de manejo do fogo dos representantes de comunidades tradicionais.

Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo) completou 35 no dia 10 de abril de 2024, mesmo mês em que é celebrado o Dia dos Povos Indígenas — 19 de abril. O Prevfogo foi criado em 1989 e se tornou uma referência mundial na prevenção e combate aos incêndios florestais. Atualmente, mais de 50% dos brigadistas, responsáveis pelo combate ao fogo, são indígenas e quilombolas.

A criação de brigadas em Terras Indígenas (TIs) é resultado de um Acordo de Cooperação Técnica com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e é um dos maiores sucessos alcançados pelo Programa de Brigadas. O objetivo é aliar técnicas de combate ao fogo e o conhecimento ancestral de manejo do fogo dos representantes de comunidades tradicionais. Do total de brigadistas contratados em 2023, foram 80 mulheres, sendo 24 indígenas. 

Foto: Divulgação/Ibama

Vinculado ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o Prevfogo tem a missão de promover, apoiar, coordenar e executar atividades de educação ambiental, pesquisa, monitoramento, oficialização e execução de parcerias, prevenção e combate aos incêndios florestais, entre outras atividades voltadas à implementação do Manejo Integrado do Fogo.

Gildimar Xerente, da TI Xerente, compõe o quadro do Prevfogo desde 2012. O indígena da aldeia São José, próxima a Palmas, no Tocantins, conta que se inspirou ao ver a atuação do Prevfogo para proteger a natureza e resolveu integrar a equipe de combate ao fogo para ajudar na proteção às TIs e também às florestas. 

“Até os anciões agradecem muito nas aldeias que a gente passa. E quando é outro indígena que atua no Prevfogo, eles conversam, eles explicam, eles se sentem muito orgulhosos do Prevfogo. Uma vez, eu participei de uma operação no Xingu. Aí o parente lá falou: ‘vou falar contigo, porque a gente se entende, porque você é nosso parente. Eu estou muito feliz por você estar aqui e está compreendendo porque a gente não tem essas palavras difíceis para o cara entender. Eu sinto muito orgulho de fazer parte do Prevfogo”, enfatiza o brigadista.

A analista ambiental e coordenadora-geral do Prevfogo, Flávia Leite, explica que antes da contratação, há um levantamento cultural do povo, incluindo os hábitos de uso do fogo. Muitos indígenas foram questionados por tais costumes que fazem parte de sua cultura. Assim, junto com cada povo, o Ibama construiu técnicas de manejo, voltadas para objetivos comuns. Ano a ano, esse planejamento, com queimas prescritas, mostrou ganhos para a natureza, com mais floração, frutificação e outras espécies animais circulando, bem como a redução de incêndios.

“Envolve o olhar e a ligação deles para um problema da sua própria terra, por isso, entendemos que não é só uma ação de apagar um incêndio para proteger o meio ambiente. É um trabalho extremamente importante, de inclusão social dessas pessoas, de consideração com o sentimento de pertencimento que têm ao território onde nasceram, cresceram e hoje vivem”,

aponta Flávia Leite. Ela destaca que o conceito também vale para os povos quilombola, a exemplo dos Kalungas.

Prevenção

A presença de brigadistas em área de interesse ecológico tem reduzido a ocorrência de incêndios florestais, uma vez que estes realizam todo o ciclo do manejo integrado do fogo, trabalhando com ações preventivas com as comunidades de entorno da área, realizando os aceiros e queimas prescritas e estando de prontidão para o ataque aos primeiros focos, informa a coordenadora-geral do Prevfogo.

Atualmente, são capacitadas Brigadas Indígenas (Brifs-I), formadas preferencialmente por integrantes das comunidades que atuarão em suas terras; Brigadas Regionais (Brifs-R), integradas preferencialmente por pessoas das comunidades locais que possuem áreas de atuação selecionadas, podendo ser um ou mais assentamentos, ou áreas de relevante interesse ecológico; Brigadas Especializadas (Brifs-E), instaladas em pontos estratégicos e especializadas na atuação de seus biomas, como Cerrado, Caatinga, Amazônia, Pantanal e Mata Atlântica; e Brigadas Pronto Emprego (Brifs-PE), formadas por profissionais experientes, que recebem capacitação e equipamentos diferenciados, sendo utilizadas nos combates ampliados (de maior gravidade).

Publicidade
Publicidade

Relacionadas:

Mais acessadas:

Portal Amazônia responde: o que é comida ‘remosa’?

Um estudo buscou promover uma revisão bibliográfica sobre o tema e propor uma hipótese teórica para o fenômeno.

Leia também

Publicidade