Revolta de Santo Antônio: um conflito político que abalou o Rio Madeira

A disputa entre Republicanos e Conservadores teve morte e demissão do promotor de justiça.

Em 21 de abril de 1918, a pacata vila de Santo Antônio do Rio Madeira, no extremo-norte do Mato Grosso (embrião de Rondônia), foi palco de um tumulto político que durou 12 horas, envolvendo os líderes dos partidos Republicano (PR) e Conservador (PC). O estopim do conflito foi a posse do advogado Manoel Amaro, filiado ao PC, como prefeito da cidade.

Cinco soldados da Companhia Isolada, sob o comando de Antônio Alves Feitosa, desobedeceram às ordens do capitão Honoriano Amazonas Lobato, comandante e delegado local. Em um ato de insubordinação, ignoraram o chamado para se reunirem e, em vez disso, dirigiram-se à residência do bacharel Vulpiano Machado, ex-promotor de justiça considerado subversivo e afastado em 1917.

O Malho O promotor Vulpiano Machado era partidário do Partido Republicano. Foto/reprodução

Armados, os soldados procuraram o agente fiscal Antônio Brandão, sem sucesso. Em seguida, cercaram a casa do prefeito Manoel Amaro Lopes, numa clara ameaça à sua autoridade.

Segundo relatos do jornal “Alto Madeira”, de Porto Velho, os amotinados agrediram um funcionário da Intendência Municipal em plena via pública e atacaram comerciantes, exigindo munições para rifles.

Quando retornaram à casa de Vulpiano Machado, os revoltosos encontraram resistência das forças oficiais, lideradas pelo tenente Carvalho Santos. Após um pedido de rendição ignorado, um confronto armado se iniciou, resultando na morte do soldado Pedro Pinheiro de Arruda. A maioria dos rebeldes foi capturada, exceto Feitosa e Antônio Francelino Filho, que escaparam de canoa.

O oficial de justiça, seguindo ordens do juiz José Júlio de Freitas Coutinho, foi intimar o ex-prefeito Salustiano Correia, do PR, a comparecer à delegacia. Salustiano reagiu sacando um revólver contra o oficial, que estava acompanhado por uma escolta. O ex-prefeito foi detido e sua arma, confiscada. Durante o inquérito, familiares e empregados de Salustiano causaram tumulto na delegacia, mas os detalhes exatos do incidente não foram registrados historicamente. 

A Companhia Regional de Infantaria da Força Pública, conhecida como Companhia Isolada, na ferrovia em Santo Antônio. Foto: Acervo CDH/R

A justiça acatou a denúncia da Promotoria Pública e determinou inspeção na casa de Vulpiano acusado de ter arquitetado intelectualmente a revolta. No local a polícia encontrou e apreendeu dois rifles, duas espingardas Comblain e Mouser, uma pistola Parabellum, grande estoque de munição e sabres de soldados.

O promotor José Adolpho de Lima Avelino declarou: “Denuncio o bacharel Vulpiano Machado e os ex-militares da Companhia Regional, Antônio Alves Feitosa, Antônio Francelino Filho, Euphrosino Ferreira da Silva e Ângelo Marques, como responsáveis por um ato nefasto, que, embora malogrado, foi concebido com o intuito de assassinar os cidadãos Dr. Manoel Amaro Lopes Pereira, capitão Honoriano Amazonas Lobato, tenente Henrique de Carvalho Santos e Antônio Pereira Brandão. O plano foi posto em ação no dia 21 de abril, quando os acusados se reuniram na casa de Vulpiano Machado, armaram-se e partiram para o confronto, visando dominar o quartel e realizar seus intentos criminosos. No entanto, foram repelidos pela força legal, que estava pronta para o embate. Durante o confronto, Pedro Pinheiro de Arruda foi fatalmente atingido. A investigação revelou que o complô foi orquestrado na residência do bacharel, onde foram apreendidos rifles e uma grande quantidade de munições. Vê-se, pois, que os denunciados cometeram o crime de tentativa de homicídio (e outros agravantes), conforme o Código Penal. Consta que Vulpiano Machado, Antônio Feitosa e Francelino Filho se acham em lugares incertos e não sabidos. (…)”, [assina] em 28 de maio 1918, arrolando os nomes de oito testemunhas e quatro informantes. 

Entre acusações e exílios 

Esta narrativa é fundamentada nas acusações levantadas pelo capitão Amazonas Lobato e corroboradas pelas testemunhas de acusação, validadas pelo promotor de justiça José Adolpho. Os policiais envolvidos foram detidos por “crime militar” e posteriormente expulsos, sem receber os salários atrasados por um ano, que supostamente foram apropriados indevidamente pelo comandante, conforme denúncia apresentada ao delegado fiscal em Manaus. 

Vulpiano na capa do jornal Gazeta de Notícias, da capital do país (RJ), faz denúncias pesadas. Foto: 

Lustosa não compareceu para responder às acusações. Vulpiano, por outro lado, retornou a Santo Antônio, defendeu-se das acusações e até reassumiu brevemente seu cargo de promotor em janeiro de 1918, antes de ser definitivamente destituído.

O “Jornal do Commercio” de Manaus descreveu Amazonas Lobato como um “oficial perturbador da ordem pública e responsável pela escandalosa incontinência civil”, destacando seu comportamento truculento. O jornal sugeriu que os distúrbios causados pelo capitão contribuíram para o êxodo dos moradores de Santo Antônio para Porto Velho, um movimento que culminou no esvaziamento e desaparecimento da cidade do mapa em 1945, quando foi anexada a Porto Velho. 

A denúncia de escravidão nos seringais 

O ex-promotor de justiça acusou seus adversários políticos de encobrir práticas de escravidão e assassinatos nos seringais, alegando que promoviam um “enriquecimento desumano e ilícito”. Vulpiano apontou o grupo político liderado pelo médico Joaquim Augusto Tanajura como responsável por “perseguições, assassinatos e incêndios”, perpetrados por seus correligionários, sem possibilidade de contestação. Ele nomeou os supostos envolvidos: Manoel Amaro, José Júlio Coutinho e o capitão Amazonas Lobato, descrevendo-os como integrantes do “bloco da política macabra”. 

O prefeito conservador no epicentro da crise. Foto: 

s disputas entre os grupos políticos continuaram por anos. Em 1923, seis anos após a “Revolta de Santo Antônio”, Vulpiano ainda era alvo frequente de ataques no jornal “Alto Madeira”, de Augusto Tanajura (que foi o primeiro prefeito de Santo Antônio, em 1912), que o difamava como “um homem sem compostura, que não sabia numerar libelos e que escrevia ‘serena’ com ‘c’ cedilhado”. Agora, Tanajura era prefeito de Porto Velho.

Paralelamente, Salustiano defendia Vulpiano, afirmando que ele estava “muito bem encaminhado”, tendo recentemente prestado concurso para comissário de polícia do Rio de Janeiro. Salustiano argumentava que, com tal perspectiva de carreira, seria inacreditável que Vulpiano desejasse retornar ao “pequeno posto de promotor de justiça” local. 

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