Há 90 anos, cientista alemão pesquisou indígenas do Guaporé

Gravações em áudio e vídeo feitas em Rondônia na década de 1930 são consideradas patrimônio histórico da humanidade pela ONU

Emil Snethlage no Museu Etnográfico de Berlim, com objetos coletados em 13 etnias de Rondônia. Foto: Família Snethlage

Em 2023 faz 90 anos a ocorrência de uma das expedições científicas mais importantes e interessantes dos pontos de vista científico e cultural realizadas em toda a história de Rondônia e do Brasil. Em 1933 o cientista Emil-Heinrich Snethlage veio da Alemanha para Porto Velho para visitar o túmulo de sua tia, Emilie, a primeira mulher membro da Academia Brasileira de Ciências. Depositou flores no túmulo colhidas no jardim do hotel da cidadezinha “atapetada de verde” [como ela dizia], o mesmo hotel em que ela havia morrido havia mais de três anos.

Ele refletiu e anotou em seu diário como teria sido os últimos momentos da “Doutora Senhorinha”, como os caboclos diziam. Emil a chamava de “Tia Mila”, uma ornitóloga reconhecida internacionalmente que viveu 15 anos no Brasil; morreu de ataque cardíaco, aos 61, em plena atividade, pesquisando as aves do Vale do Rio Madeira. Em carta ao amigo Edgard Roquette-Pinto [o homem que “batizou” Rondônia como este nome], que estava no Rio de Janeiro, ela disse que aquela seria sua última viagem, e de fato foi, depois de tantas empreitadas Brasil afora.

Indígenas da etnia Tupari, em 1933; hoje habitam a TI Rio Branco, em Alta Floresta do Oeste (RO). Foto: Emil Snethlage

Como em uma reverência à memória da tia, que o inspirou desde menino a seguir carreira acadêmica, o botânico, ornitólogo e etnólogo Emil embarcou na expedição. A serviço do Museu Etnográfico de Berlim, entre maio de 1933 e novembro de 1935, ele andou pelo Alto Rio Madeira e visitou 13 comunidades indígenas, pesquisou as línguas, costumes, fez escavações arqueológicas na fronteira brasileira com a Bolívia. Ficou amigos dos indígenas, por quem tinha verdadeira consideração.

Além disso, o alemão conheceu o Forte Príncipe da Beira, a convite do militar Aluízio Ferreira [futuro governador do Território Federal do Guaporé], então presidente da Estrdaa de Ferro Madeira-Mamoré, inspetor de fronteira, estudioso dos indígenas e ex-membro da Comissão Rondon.

Emil foi um cientista-multimídia, pois embora vivesse no universo analógico do século 20, não se ateve às anotações, desenhos à mão e fotografias, produzindo também gravações de áudio em discos de cera e um raro filme mudo. Foi o pioneiro em tais registros no Vale do Guaporé, embora a Comissão Rondon já se utilizasse tecnologias semelhantes em outros pontos de Rondônia, duas décadas antes. As gravações do alemão são consideradas patrimônio histórico da humanidade pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Emil (de chapéu e de óculos) conheceu o Forte Príncipe da Beira. Foto: Acervo Família Snethlage

O trabalho de Emil deveria ser muito mais propagado e disponibilizado no meio educacional, principalmente. O material recolhido é riquíssimo, segundo o linguista Hein van der Voort [que já atuou em Rondônia, nos anos 2000], do Museu Paraense Emílio Goeldi, de Belém: “o trabalho de Snethlage é uma das melhores fontes etnográficas e históricas que existem sobre a vida tradicional dos povos indígenas do lado direito do rio Guaporé”.

Foram pesquisados os indígenas Arikapú, Tupari, Amniapé, Kumaná, Wanyam, Aruá, Makurap, Djeoromitxí, Wayurú, Guaratégaya, entre outros povos de Guajará-Mirim até Pimenteiras do Oeste. Do lado boliviano, Emil foi o primeiro a fazer contatos amigáveis com os indígenas Moré-Itoreauhip, entre outros. A missão científica foi intensa, a considerar o número de objetos etnográficos recolhidos: cerca 2400. Estão preservados em Berlim, no Museu Etnográfico e no Arquivo Fonográfico da capital alemã. Registra-se, ainda, que 912 duplicatas foram entregues ao Museu Nacional, no Rio de Janeiro, que foi incendiado em 2018 com parte do arquivo recolhido no Guaporé.

A versão do livro em língua portuguesa. Foto: Laércio Bacelar

No caderno de campo, o cientista produziu 1042 páginas de anotações, que foram editadas em forma de livro. “Die Guaporé-Expedition” nasceu clássico, publicado em 2015 pela editora Böhlau na Alemanha; tem 1211 páginas, com muitas ilustrações à mão, capa dura e acabamento gráfico-editorial de luxo. A edição foi organizada pelo filho do pesquisador, Rotger Snethlage, por um de seus netos, Alhard Snethlage, e pela jornalista e fotógrafa brasileira Gleice Mere Silveira.

A versão em português, em dois volumes, foi publicada em 2022, pela Editora do Museu Goeldi, e recebeu menção honrosa nas categorias Tradução (feita por Gleice Mere) e Projeto Gráfico (de Jamil Ghan) na 8ª edição do Prêmio ABEU (Associação Brasileira das Editoras Universitárias).

Curiosamente, Emil morreu em 25 de novembro de 1939, na Alemanha, exatamente uma década depois de sua amada tia Emilie. Ele tinha apenas 42 anos e faleceu em decorrência de um ferimento durante treinamento militar naval, pouco antes do início da Segunda Guerra Mundial. Felizmente, sua família manteve viva sua memória.

Um intercâmbio ocorrido em 2009 levou representantes das etnias Makurap, Djeoromitxí, Kanoê e Turupi, de Rondônia, a Alemanha, onde conheceram a família de Emil Snethlage, e puderam ver de perto o acervo do cientista nos museus berlinenses. Em 2017, a tia de Emil que o inspirou, Emilie, ganhou um busto em Porto Velho, instalado junto ao Memorial Rondon. O então embaixador da Alemanha no Brasil, Georg Witschel, visitou o local.

Sobre o autor

Às ordens em minhas redes sociais e no e-mail: julioolivar@hotmail.com . Todas às segundas-feiras no ar na Rádio CBN Amazônia às 13h20.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista 

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