O engenheiro Alexandre Haag morreu na cadeia, em 1906, depois de praticar vários golpes. Foto: Acervo/JO
Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com
A história de Alexandre Haag não cabe em relatórios técnicos ou tabelas de engenharia. Ela deveria pertencer às telas de cinema ou às páginas de um folhetim de época, revelando o perfil intrépido de quem se aventurou na odisseia da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM) e na instalação do telégrafo no Norte do país.
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Alexandre Haag foi o dândi dos trópicos e o vilão de Paris, um homem que viveu entre o rigor das plantas e o caos das masmorras. Em novembro de 1883, sob a sombra do fracasso da expedição Morsing-Pinkas, Aleksandr Haag desembarcou na região do Rio Madeira. Onde hoje está a cidade de Porto Velho. Natural de Moscou e criado sob o fragor da Guerra da Crimeia, ele fugira para o Brasil em 1875 para evitar o conflito contra a Turquia. Aos 21 anos, naturalizou-se brasileiro como Alexandre e fixou residência em Manaus.
Descrito pelo jornal Pacotilha, do Maranhão, como “alto, simpático e sedutor”, o ex-oficial da Marinha russa logo se tornou um exímio sertanista. A serviço do governo do Amazonas, Haag enfrentou 54 dias de provações desde Santo Antônio do Rio Madeira – município extinto e incorporado a Porto Velho em 1945 – até a confluência dos rios Beni e Mamoré. Entre corredeiras traiçoeiras e ataques indígenas repelidos a fuzil, ele mapeou o terreno que outros temiam pisar.

Contudo, sua conclusão foi um choque: em 1884, defendeu que a ferrovia Madeira-Mamoré seria “onerosa e inviável”, sugerindo caminhos alternativos que favoreciam a Bolívia e o Amazonas, ignorando os interesses de Mato Grosso, que dominava a região.
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A vida de Alexandre era um jogo de altos riscos. Em 1885, partiu para a Europa, onde sua lenda foi escrita com tinta russa. Dado como morto sob as ordens do czar Alexandre III, Haag foi acusado de niilismo por contestar o Estado e a Igreja. Escapou da forca graças a parentes influentes, mas não sem antes levar uma surra memorável do governo czarista. Enquanto isso, no Brasil, o governo de Dom Pedro II lavava as mãos, fingindo crer que o engenheiro tratava apenas de “negócios” na Bolívia.
Em 22 de julho de 1886, já de volta e reabilitado, Alexandre Haag conferenciou na Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro diante do próprio Imperador e do seu genro, Conde d’Eu. Falou com eloquência sobre o comércio boliviano e as vantagens da EFMM, agora realocada para o traçado original entre Santo Antônio e Guajará-Mirim.
O engenheiro tinha o hábito de confundir o erário com sua carteira pessoal. Após chefiar o Distrito de Telégrafos em Manaus, foi demitido por desvio de dinheiro e fugiu para Paris sob o pretexto de tratar uma doença. Em 1893, reapareceu na Cidade Luz portando uma fortuna do governo amazonense destinada à compra de canhões e munições. Usando o pseudônimo Alfredo Hall – nome de um professor maranhense que teve os documentos furtados –, Haag ostentava nos salões da Belle Époque até que o dinheiro desapareceu. Alegou roubo; a imprensa o chamou de “gatuno” por embolsar 200 contos de réis.
Seu coração era tão volátil quanto suas finanças. Cobriu de joias a cortesã Maria Pry (cheia de passagens pela polícia) em Londres, para logo substituí-la por Paulina, com quem formou um extravagante “trisal” ao lado do marido dela, Theophilo Nodot. Viajaram em lua-de-mel. O marido verdadeiro se apresentava como irmão da própria esposa, e todos viveram loucuras em hotéis de luxo. A aventura terminou quando Paulina lhe roubou 75 mil francos em diamantes. Haag deu queixa, mas faltou à audiência, provocando risos no juiz britânico que acabou por extraditá-lo.
Ao retornar à Amazônia em 1897, contratado pela Bolívia, o passado o esperava no cais de Belém. Foi preso por falsidade ideológica e peculato, enfrentando ainda acusações de bigamia por trazer a jovem francesa Marguerite Cotton, de 18 anos, enquanto sua esposa legítima vivia em Manaus. Mesmo no cárcere, o “Doutor Alexandre” – como era tratado – não perdia a pose: de terno de casimira, falava com eloquência sobre seus projetos e ignorava seus crimes. Perdeu a patente de capitão da Guarda Nacional brasileira – uma instituição meramente decorativa, mas que conferia status aos detentores de patentes – e mofou 27 meses na cadeia.
Seus últimos anos foram uma tentativa de reinvenção. Atuou como jornalista e sertanista, publicando sobre medicina indígena. Desfilou no carnaval de 1905 fantasiado de guerreiro em gibão de couro. No mesmo ano foi, de novo, preso. A vida cobrou o preço: morreu em 1906, aos 52 anos, na cadeia de Belém, após ser espancado por um desafeto que o processara por calúnia.
Alexandre Haag não viveu para ver os trilhos da EFMM serem concluídos em 1912. Mas seus relatórios foram usados para fundamentar o Tratado de Petrópolis que culminou na construção da ferrovia e no surgimento de Porto Velho. Para alguns historiadores, foi apenas um “ordinário e vigarista”; para a história, foi um homem que teve a audácia de ser o protagonista absoluto de sua própria e escandalosa jornada. E pagou com a vida.
Sobre o autor
Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.
*O conteúdo é de responsabilidade do colunista
