Foto: Reprodução/Acervo da família
Por Abrahim Baze – literatura@amazonsat.com.br
Bem-aventurados os que tem fome e sede de justiça, porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançaram a misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.
Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados de filhos de Deus.
Manaus, antes do ‘boom’, nada mais era do que um vilarejo perdido na floresta amazônica, centro comercial industrial de pequena importância, vivendo de umas poucas indústrias de transformação e de algum comércio de produto de extração. Ao apagarem-se as luzes do império, a Província do Amazonas e sua capital não pesavam no rol do comércio ou da indústria do país. Como centro urbano, resta-nos o precioso depoimento dos Agassiz que, vislumbrando um futuro de possibilidades ilimitadas para a cidade, como entreposto comercial, não deixaram de se desiludir com sua aparência mais do que modesta. Casebres e partideiros de madeira, ostentando nomes pomposos de palácios ou repartições públicas.
Veio a borracha e a cidade conheceu o surto de progresso, poucas vezes igualado na história da economia universal. Em pouco mais de duas décadas, sanearam-se os rios e igarapés, aterraram-se baixios, abriram-se ruas e estradas, pavimentaram-se avenidas, construíram-se obras importantes – como porto, usina de luz, instalação de água e esgoto -, em um empreendimento algumas vezes superior a construção da nova capital brasileira, se levarmos em consideração que esta teve a sua disposição recursos da técnica moderna, o esforço nacional de um povo em estágio de desenvolvimento. Manaus foi apenas a vontade de uma pequena comunidade pioneira, ainda sustentada por um único produto: a borracha.



É nesse estágio de desenvolvimento da borracha que promoveram o aparecimento de muitos seringais, dentre eles o Ajuricaba, na década de trinta. É nesse espaço de desenvolvimento que o senhor Antônio Venâncio da Silva assume o Seringal Ajuricaba, junto a sua esposa, Francisca Ataíde de Vasconcelos da Silva. Fruto deste casamento nasceram os filhos: Ladir, Elson, Nelson, Maria das Gracas, Raimunda Nair, Francisco, Assis, Marcelino, Genir, Darci, Sulamir, Ângela Regina, Sueli e Luiz Carlos. Embora as dificuldades do seringal, formaram uma família feliz, até 1953, quando o patriarca da família resolveu transferir-se para Manaus.
Um dos filhos proeminentes desta prole é o senhor Raimundo Venâncio de Vasconcelos, que nasceu no município de Manacapuru, no dia 2 de dezembro de 1951, tendo vivido até os quatorze anos no lugar chamado Tuivé. Menino de uma infância feliz, já em Manaus, começa a ter os contatos com as letras no Grupo Escolar Zulmira Bittencourt, espaço esse que guarda na memória, a imagem de sua professora querida, dona Cosma, tendo em seguida continuado seus estudos no Colégio Castelo Branco, dedicado aos estudos guarda na memória, momentos importantes dessa jornada escolar.
Infância e juventude de Raimundo Venâncio de Vasconcelos
Raimundo Venâncio de Vasconcelos até os dias atuais ainda lembra sua professora dona Cosma, guarda com alegria o contato já na cidade de Manaus no Grupo Escolar Zulmira Bittencourt, mais tarde transferindo-se para o Colégio Castelo Branco. A família já residindo em Manaus, sua mãe procurava incentivar e dá apoio na formação de seus filhos, como ocorre até os dias atuais em famílias tradicionais.
Essa história não foi um diálogo emudecido pelo tempo, pelo contrário: construíram pelo saber o caminho para sobrevivência e para as conquistas de que foram e que são merecedoras. Os mitos permanecem no ar, sobrevoando a vida das pessoas. Ancorado na busca do estudo para seus filhos e no trabalho de seu pai para manutenção da família em Manaus, cheio de sonhos por dias melhores.
Apesar das dificuldades enfrentadas pela família em Manaus, sobretudo por trata-se de uma família numerosa, seu pai homem calejado pela dureza do tempo e do seringal, trabalhava incessantemente provendo o sustento da família. Na verdade, seu pai sempre teve esse anseio de mudança para a capital.

Raimundo Venâncio de Vasconcelos já na sua juventude, demonstrava sua maturidade, com a responsabilidade de vencer através dos estudos e do trabalho. A luta de seus pais e tantos momentos enfrentados, proporcionaram maiores experiências, ensejando-lhe um modo diferenciado de ver o mundo. Guarda com apreço os bons exemplos de honestidade deixado por seus pais e que na atualidade transfere para seus filhos. A Manaus de sua época era uma cidade muito tranquila e foi nessa cidade que guardou na memória suas ruas de paralelepípedos e muito urbanizada, cujo silêncio era quebrado pela passagem do bonde ou de um ou outro veículo.
Ainda guarda na lembrança os domingos, que haviam matinês no Cine Guarany e Polytheama, o que nem sempre era permitido frequentar, ou o passeio na Praça da Polícia com a Banda da Polícia Militar tocando no coreto ao centro da praça das 17h até 19h. O jovem Raimundo Venâncio de Vasconcelos foi protagonista desses fatos e até hoje guarda essas lembranças em sua memória.
Transcorria a década de 1969 e 1970, quando o jovem sonhador Raimundo Venâncio de Vasconcelos assume o exército nacional como soldado do Batalhão de Infantaria da Selva (BIS), na função de armeiro devido a sua competência e dedicação no ano de 1979 é transferido para o Centro de Instrução de guerra na Selva (CIGS). No decorrer deste período ainda teve uma atuação importante no processo do Araguaia.

A vida e o sonho de um jovem como chef de cozinha
Levado pelo seu irmão Elson, que já atuava neste campo, foi trabalhar no Troplcal Hotel, o que lhe proporcionou alguns cursos dedicados a hotelaria e chefia de cozinha em São Paulo até 1981. Em 1983 tem o seu primeiro desafio solo: assume como chef de cozinha do importante restaurante no aeroporto Eduardo Gomes.
Continuando neste seguimento, assume a chefia do Restaurante Brasileirinho. Em seguida, convidado pelo empresário Pedro Wilson Viana Leitão, passa a fornecer refeição para as empresas Telamazon e Citibank. Em 1990 assume a direção-geral do Restaurante Othon. Em seguida, na mesma área, assume o Restaurante Planeta Doce e, mais tarde, o Restaurante Puraquê. Ainda no mesmo seguimento, seguiu para o Restaurante Pancaru, em 2014, e hoje recebe seus amigos e convidados no Restaurante Maloca.

Em 1990 contraiu matrimônio com a jovem Ermelinda de Oliveira Venâncio. Fruto deste casamento nasceram os filhos: Gisele, Alison e Adson e, depois, o seu neto Zak Venâncio de Castro.
A vida é uma aventura em que os justos e os bons, apesar das provas e desafios, afirmam, com a força de seu caráter e com suas ações, as marcas de sua singularidade e da grandeza de suas atitudes. Eis aí o diferencial que distingue as almas nobres daquelas que vivem nas sombras ou se contentam com pequenez de seus sentimentos.


Raimundo Venâncio de Vasconcelos faz parte dessa linhagem de homens que construíram uma história baseada na dignidade, no trabalho, no compromisso com seus valores para oferecer os melhores pratos aos seus clientes.
A trajetória do Raimundo Venâncio de Vasconcelos é reveladora de seus múltiplos compromissos com a vida e com a possibilidade da construção do seu nome, fundado no respeito aos seus clientes e no desejo de melhor recebê-los. A existência desse chef de cozinha é uma prova do poder da transformação, do saber aprimorar sua cozinha e do triunfo da vontade de ser um grande chef, sua vida vitoriosa foi alicerçada na crença de seus pais, que em plena floresta amazônica soube deixar como exemplo o trabalho e a honestidade, seu maior patrimônio.

Sobre o autor
Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.
*O conteúdo é de responsabilidade do colunista