João Coelho de Miranda Leão: uma história no Amazonas

Coube a João Coelho de Miranda Leão ter sido em 1905, com Alfredo da Matta e Worferstan Thomas, um dos iniciadores dos estudos das verminoses no Amazonas, quanto a suas transmissões terapêuticas.

Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

Por Abrahim Baze – literatura@amazonsat.com.br

Antes de tratar do Dr. João Coelho de Miranda Leão, quero destacar seus ancestrais para lembrar mais uma vez que o atavismo é uma lei biológica. A família dos Miranda Leão conta mais de um século de atuação no Amazonas, em vários setores da atividade humana: no magistério, no comércio, nas ciências, na política, etc.

Como patriarca, destaco o nome do Coronel José de Miranda Leão, mandado à Luzéia em 1839 para combater os cabanos, levando 880 homens para expulsá-los da Mundurucania, o que conseguiu. Pelos idos de 1870, ainda forte prestou à Província do Amazonas relevantes serviços a causa pública, na sua qualidade de Deputado.

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Outro de sua estirpe, foi o professor Manoel de Miranda, uma encarnação de sábio que se educara em Paris, aprendendo na Sorbonne, voltando para sua terra, entregando-se ao magistério e ao jornalismo. Fortaleceu seu cintilante espírito nos dogmas da igreja. Sua filha, srta. Maria de Miranda Leão – a mãezinha – foi Deputada Estadual do Amazonas, também primando pelo talento e pela cultura, tendo vinculado sua vida ao ensino e caridade. E, nesta geração, ainda esteve em Manaus o professor Homero de Miranda Leão, poeta, Deputado Estadual.

Doutor Miranda Leão a quem passo a me ocupar, foi um ramo vigoroso dessa árvore genealógica que tem enriquecido o Estado do Amazonas de ótimos frutos. Quem contará a sua biografia, melhor que ninguém é seu filho, Doutor João Miranda Leão, poucos dias após seu desaparecimento. Trata-se de uma peça inédita, escrita pelo nobre professor Themistocles Pinheiro Gadelha.

Doutor Miranda Leão nasceu em 9 de janeiro de 1869, em Maués, antiga Luzéia, tendo sido seus progenitores, o Capitão Rodrigo José Coelho de Miranda Leão e dona Olímpia Monteiro da Costa Leão. Órfão cedo de pai, esteve ainda adolescente no Rio Madeira, onde adquiriu prática de trabalho comercial, servindo de guarda-livros na antiga do Cel. José Gentil Monteiro da Costa, veio a Manaus e seguiu a Belém.

Iniciou no secundário, partindo para o Ceará, fazendo curso secundário completo em Fortaleza. Por onde exerceu o magistério, tirava o necessário para se manter. Desejando abraçar a carreira médica, seguiu para Bahia, mas ali esteve pouco tempo, transferindo-se para o Distrito Federal, onde terminou o acadêmico.

Aplicado e estudioso, conseguiu o curso no internato, Hospital da Misericórdia, e em 1899 defendeu tese com a dissertação Seções cirúrgicas dos tendões e suas indicações, recebendo o diploma de Doutor em Medicina.

João Coelho de Miranda Leão: uma história no Amazonas
João Coelho de Miranda Leão. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

Casou com dona Luzia Valente de Miranda Leão e embarcou sem demora a Manaus, fixando residência. O casal teve dois filhos: João e Geraldo. Nomeado Inspetor Sanitário e nas dolorosas quadras da febre amarela, o diretor do Serviço Sanitário lhe confiou a chefia dos trabalhos de profilaxia especifica, cargo que lhe pôs todo seu empenho, não conseguindo êxito por lhe terem negado os recursos materiais em todas as exigências de tão árduos os trabalhos.

Coube-lhe ter sido em 1905 com Alfredo da Matta e Worferstan Thomas, um dos iniciadores dos estudos das verminoses no Amazonas, quanto a suas transmissões terapêuticas. Neste estudo empregou a Petivéria, mucuracaá, em diversos casos um eficaz resultado. Incumbindo a assistência aos leprosos no Umirizal, aventou a criação de colônias agrícolas e leprosários modelos.

Na diretoria do Serviço Sanitário cargo que desempenhou com muita competência, deu provas de seu profissionalismo conhecedor de moderna higiene. Na horrível fase endêmica da gripe em Manaus, em 1918, se revelou um verdadeiro apóstolo. O povo manauense e o poder público esquecidos de serviços, jamais deverão olvidar o seu nome, pois ele se sacrificou nesse posto de honra.

Aliado a qualquer campanha em prol do bem a amparar e proteger os pequenos, jamais se recusando no auxílio dos desamparados.

avenida constantino nery manaus
João Coelho já foi um dos nomes dados a atual Avenida Constantino Nery em Manaus. Foto: Diego Oliveira/Portal Amazônia

Foi um entusiasta de quaisquer assuntos que se ligassem ao Amazonas, terra a qual dedicava uma grande admiração, voltando-se para estudá-la, especialmente os dialetos de certas tribos. Fundador da Sociedade de Medicina e Cirurgia, de que foi vice-presidente, do Instituto Geográfico e Histórico, a cujo conselho pertenceu, médico do Hospital de Misericórdia e da Beneficente Portuguesa, quando neste eram gratuitos os serviços e (de que fora afastado quando houve remuneração), membro fundador e ativismo propagandista do Clube da Seringueira, de que foi brilhante ornamento, fundador da Sociedade Amazonense de Agricultura, Miranda Leão jamais desmereceu da admiração e da simpatia a ele dedicadas. Em todos esses cargos e funções, Miranda Leão trabalhou e serviu a sua terra natal com elevado critério e sabe.

Um fato trágico que seu filho e biografo não se referiu, mas que a impressa destacou em comovidas colunas foi seu suicídio, com um tiro de revólver na cabeça, em 26 de junho de 1920. O ato de desespero não fora previsto por ninguém, mesmo pelos seus íntimos, pois era um homem equilibrado e sua vida não estava embaraçada.

Murmurava-se que havia descoberto estar contaminado com lepra, ele que tinha sido diretor e médico do Leprosário do Umirizal a montante de Manaus.

Seus principais trabalhos

  • Secções cirúrgicas dos tendões e suas aplicações – Tese apresentada à Faculdade de Medicina do Rio, 1899.
  • Profilaxia da ancilostomose e tricocefalose em Manaus – 1914;
  • Seringais plantados no Município de Maués – Seringueira n.° 2 – 1916;
  • Devemos plantar seringueiras no Amazonas? – Seringueira n.°1 – 1916;
  • A farinha de mandioca Seringueira nos 3,4,5,6,7 – 1916;
  • Água filtrada Seringueira nos 9 e 10 – 1917;
  • A Içaubas (atta columbica) Seringueira n.° 8 – Distancia entre seringueiras plantadas Seringueira n. 9 e 10 – 1917;
  • O pão de milho e trigo Seringueira n.11 – 1917;
  • A farinha alimentícia de papilionáceas e de cereais, Seringueira n.°14 – 1917;
  • Avisos sobre higiene – Manaus – 1918;
  • A gripe por influenza – Amazonas – Médico n.°5 – 1919;
  • Noção de profilaxia da varíola – Imprensa Off. – 1919;
  • Profilaxia do tifo exantemático (avulsos) – 1919;
  • Tratamento de gripe Imprensa Off. – 1919;
  • Nota biográfica do Dr. Alfredo da Matta (inédita) – 1919;
  • Amazonas Médico nos 13, 16 – 1922.

Deixou, além de trabalhos sobre a língua tupi, uma excelente obra Apostilas de Latim (inédita).

*Dados biográficos compilados do livro Dicionário Amazonense de Biografias, do autor Agnello Bittencourt.

Leia também: Cláudia Maria Daou Paixão e Silva: importante responsabilidade social na Amazônia

Sobre o autor

Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

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