Do interior do Maranhão para o mundo: tiquira de Guaribas conquista Indicação Geográfica

Tradicional destilado de origem indígena e fabricação secular, tiquira se torna a 170ª Indicação Geográfica brasileira, fortalecendo a economia e a identidade cultural do Maranhão.

Foto: Divulgação

O Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) publicou no dia 22 de setembro o reconhecimento da Indicação Geográfica (IG), na espécie Indicação de Procedência (IP), para a bebida tiquira, do Maranhão. Com mais esse registro, o Instituto chega a 181 IGs reconhecidas, sendo 137 IPs (136 nacionais e uma estrangeira) e 44 Denominações de Origem (34 nacionais e 10 estrangeiras).

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De acordo com a documentação apresentada ao INPI, a tiquira é uma bebida destilada obtida a partir da mandioca, produzida por meio da fermentação alcoólica e posterior destilação de beijus. O termo tiquira tem origem na língua tupi, derivando da palavra “tykir“, que significa cair gota a gota, em alusão ao processo de destilação artesanal, no qual ocorre a condensação do líquido.

O estado do Maranhão concentra a produção contínua desse destilado, possuindo registros de fabricação desde o período colonial, associados ao desenvolvimento da atividade agrícola local.

A delimitação geográfica elaborada para a IP abrange os municípios de Santo Amaro do Maranhão, Barreirinhas, Urbano Santos, Santana do Maranhão e Santa Quitéria do Maranhão, conforme documentação emitida pelos órgãos estaduais competentes.

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Tiquira de Guaribas conquista Indicação Geográfica
Foto: Divulgação

A notoriedade do nome geográfico vincula-se à distribuição histórica e à reputação do produto no território. Por sua vez, o processo de fabricação baseia-se no processamento da mandioca para a elaboração de beijus, os quais passam por fermentação natural promovida por microorganismos ambientais. Após essa etapa, a massa é submetida à destilação em alambiques de cobre, gerando o destilado final. A singularidade desse processo é aspecto relevante na cultura gastronômica do Maranhão.

O Caderno de Especificações Técnicas (CET) regulamenta as etapas de produção, os padrões físico-químicos e os mecanismos de controle, assegurando que o direito de uso da IP seja garantido a todos os produtores estabelecidos na área delimitada que sigam as normas prescritas, independentemente de sua associação à entidade requerente.

Dessa forma, a tiquira é uma bebida reconhecidamente maranhense com um alto teor alcoólico, produzida em diversas casas de alambiques nos pequenos povoados de alguns municípios do estado. Ela está presente na vida de inúmeras famílias, fazendo parte das atividades do cotidiano e trazendo contribuições para a renda e cultura, conforme demonstrado na documentação apresentada ao Instituto.

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Foto: Reprodução/ Agência Sebrae

A coordenadora de Tecnologias Portadoras de Futuro do Sebrae Nacional, Hulda Giesbrecht, destaca que o reconhecimento do INPI é a chancela que garante a proteção legal do nome geográfico vinculado ao produto, resguardando os produtores delimitados no território contra imitações ou uso indevido desse nome.

“Além do aspecto protetivo, a IG atua como um potente motor de desenvolvimento econômico regional. O selo agrega valor de mercado, impulsiona o turismo gastronômico nas regiões produtoras e facilita a inserção do produto em mercados consumidores exigentes em todo o Brasil e no exterior”.

Tradição colonial e identidade territorial

A presença da tiquira na história maranhense remonta ao período colonial. Registros históricos associam a sua fabricação contínua à consolidação da agricultura familiar e ao processamento da mandioca, raiz-símbolo da segurança alimentar e da cultura local.

Diferentemente de destilados à base de cana-de-açúcar ou cereais, a tiquira exige um domínio técnico diferenciado: desde o ponto correto de torra dos beijus para permitir a conversão dos amidos até o rigoroso controle térmico nos alambiques.

A região produtora que impulsionou o reconhecimento pelo INPI envolve municípios emblemáticos da zona rural maranhense, com destaque para Urbano Santos — notoriamente a comunidade de Guaribas, considerada um dos polos seculares da bebida —, além de municípios vizinhos como Barreirinhas, Santo Amaro do Maranhão, Santana do Maranhão e Santa Quitéria do Maranhão. Nessas localidades, a feitura da tiquira representa o sustento direto de dezenas de famílias de agricultores rurais.

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Da produção familiar ao mercado de alto valor

Historicamente comercializada em circuitos locais e informais, a tiquira passou por uma profunda transformação nos últimos anos, por meio do apoio técnico do Sebrae MA, em parceria com gestores locais e a Cooperativa de Produtores de Tiquira e Agricultores Familiares de Guaribas de Urbano Santos (COOPTAF).

Foto: Reprodução/Facebook- @Tiquira Guaribas

A criação de cooperativas permitiu a transição do feitio artesanal para agroindústrias regulamentadas junto ao Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). Com a adequação sanitária, o controle de qualidade sensorial e a padronização do teor alcoólico, o produto ganhou escala sem perder sua matriz ancestral.

O trabalho conjunto envolveu mapeamento geográfico, diagnósticos de representatividade coletiva e elaboração do Caderno de Especificações Técnicas, garantindo que a bebida respeite critérios rigorosos de procedência e sustentabilidade.

*Com informações do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) e da Agência Sebrae de Notícias

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