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Segunda, 04 Março 2024

Técnicas astronômicas na Amazônia são conectadas à outras culturas, aponta estudo

Um artigo científico publicado no início de março apresentou os resultados de uma pesquisa que analisou as técnicas aplicadas por indígenas há cerca de 2 mil anos para a construção de um observatório astronômico na Amazônia. A pesquisa durou 14 anos e ocorreu no Parque Arqueológico do Solstício, no município de Calçoene, no norte do Amapá.

O artigo 'Cartografia de técnicas arqueoastronômicas no cromlech equinocial de Calçoene', produzido pelo pesquisador Olavo Facundes, identificou as técnicas de observação astronômicas usadas no sítio sob a perspectiva da astronomia acadêmica atual.

Uma hipótese levantada pelo pesquisador indica que as técnicas usadas no Amapá coincidem com observatórios construídos por outras civilizações que habitaram a América.

"Existe a hipótese de que os indígenas na Amazônia tivessem algum tipo de contato com outras civilizações como as dos Incas ou Astecas, que tinham um domínio melhor sobre a observação astronômica na época", 

disse Fagundes.
Parque Arqueológico do Solstício, no município de Calçoene, no Norte do Amapá. Foto: Rafael Aleixo/Arquivo Pessoal

No local, também conhecido como 'Stonehenge da Amazônia', há um conjunto de rochas fincadas no solo, que segundo pesquisadores foi utilizado para observações astronômicas e rituais funerários.

"A gente vê que os blocos de rochas não estão erguidos na vertical, mas estão inclinados. Essa inclinação tem um propósito de registrar exatamente os eventos principais, que são os equinócios, os solstícios e as horas do dia também. E foram colocados de uma forma muito precisa, que pode ter levado muitos anos", explicou o cientista.

Fagundes explicou que a construção do observatório pode ter ocorrido durante muitos anos, por conta das grandes rochas e também das observações, já que os fenômenos do equinócio e do solstício ocorrem em poucos períodos do ano.

Parque Arqueológico do Solstício, no município de Calçoene, no Norte do Amapá. Foto: Rafael Aleixo/Arquivo Pessoal

O pesquisador também informou que a precisão das inclinações das rochas fazem com que a observação de ambos os fenômenos seja possível durante duas vezes ao dia, na data de ocorrência de cada um. Isso se difere, por exemplo, do Monumento Marco Zero do Equador, em Macapá, que foi erguido totalmente na vertical e possibilita a visualização uma vez apenas nos períodos dos fenômenos.

O estudo ocorreu de 2007 a 2021 e foi financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A ideia agora, segundo o pesquisador, é descobrir o local exato da retirada das rochas que foram usadas para a construção do observatório.

'Stonehenge da Amazônia'

O sítio megalítico está localizado às margens do igarapé do rego Grande, a 18 quilômetros da sede do município de Calçoene. As características das urnas funerárias feitas em cerâmica indicaram que a região foi habitada pelo povo Arawak, que tem como descendentes os indígenas da etnia Palikur, que atualmente ocupam a fronteira entre o Amapá e a Guiana Francesa.

Parque Arqueológico do Solstício, em Calçoene, o 'Stonehenge da Amazônia'. Foto: Heitor Reali/Acervo Iphan

Solstício e Equinócio 

O dia em que o sol atinge o maior grau de afastamento angular do equador é possível ser visualizado através de sombras projetadas nas rochas do sítio em Calçoene. O solstício de inverno acontece entre 21 e 23 de dezembro, e o de verão entre 21 e 23 de junho.

O equinócio ocorre em dois momentos do ano. Em março, marca o início da primavera no Hemisfério Norte e do outono no Hemisfério Sul. Já em setembro, o equinócio marca o início do outono no Hemisfério Norte e da primavera no Hemisfério Sul.

A disposição das pedras e os buracos indicam o alinhamento astronômico dessas estruturas e a possibilidade do monitoramento meteorológico. Arqueólogos acreditam que o espaço era usado para acompanhar mudanças do período de estiagem para o chuvoso, duas únicas estações meteorológicas perceptíveis no Amapá em razão da linha do Equador. 


*Por Rafael Aleixo, do g1 Amapá

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