Participação das mulheres na produção científica aumentou na região Norte, segundo estudo feito por pesquisadoras e docentes da UFPA. Fotos: Divulgação/Inpa
O acesso das mulheres à educação formal, durante muitos anos, sempre foi negado ou limitado. E quando se amplia essa observação nas outras etapas de formação como o ensino básico até a pós-graduação, essa exclusão histórica vai se tornando ainda mais evidente. A presença feminina na ciência, especialmente nas universidades, é resultado de uma conquista lenta, atravessada por barreiras sociais, econômicas e culturais.
Na região amazônica, essa realidade ganha contornos ainda mais complexos. Mesmo com uma atuação constante na pesquisa e na produção científica, as mulheres, por muito tempo, não tiveram seus trabalhos devidamente reconhecidos. No entanto, o cenário na Universidade Federal do Pará (UFPA) tem sido diferente. No panorama da pós-graduação da instituição, considerada a maior instituição de ensino superior do Norte, a presença feminina é forte e reconhecida.
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Foi com base nesse contexto que surgiu a dissertação ‘Mulheres na Ciência Regional: análise da presença na produção científica das docentes e pesquisadoras da Universidade Federal do Pará – UFPA‘, desenvolvida por Caroline Corrêa Pinheiro. O estudo teve como objetivo compreender a presença das docentes e pesquisadoras da UFPA na produção científica da Universidade, contribuindo para a visibilidade e valorização do trabalho dessas mulheres.

A pesquisadora destaca que a escolha do tema está diretamente ligada ao desejo de inspirar novas gerações de meninas e jovens pesquisadoras.
“Eu queria falar sobre o gênero feminino, sobre essa questão e, ao mesmo tempo, trazer a questão do empoderamento. Fazer com que essas meninas tenham incentivo e saibam que podem ocupar lugares de poder e prestígio acadêmico”, pontuou Caroline.
A metodologia de análise de dados por meio do Software VOSviewer para a realização da pesquisa foi escolhida para mostrar, de forma clara e objetiva, quais as temáticas mais abordadas pelas pesquisadoras da UFPA.
“Eu queria que aparecesse tudo que estava sendo produzido para dar maior visibilidade a esses estudos. Por isso busquei entender quais eram os temas mais pesquisados e com maior volume de produção por essas mulheres. Não quis fazer a pesquisa com entrevista e coleta de dados com formulários, preferi uma abordagem com análise de dados já publicados, porque me permitia ter mais controle e precisão dos resultados”, afirma a pesquisadora.

docentes e pesquisadoras da Universidade Federal do Pará- UFPA. Foto: Extraída do artigo
Produção feminina da ciência na Amazônia
Apesar dos inúmeros desafios que ser mulher impõe à produção científica na Amazônia, a pesquisa revelou que a produtividade feminina na UFPA é expressiva.
“Achei interessante ver o nível de produção e a importância que elas têm dentro de suas áreas, representando a nossa região. Por se tratar de uma base de dados multidisciplinar e de nível internacional, tiveram pesquisadoras com muitos artigos publicados. Em alguns casos, pensei: ‘Ela é professora, já foi diretora…’ Nós sabemos que as mulheres acumulam jornadas, trabalham com multiplicidade de tarefas. Fiquei impressionada e me perguntei: ‘Como é que ela conseguiu produzir tudo isso?’”, revela Caroline Corrêa Pinheiro.
Diante desse cenário, a pesquisa também se apresenta como uma ferramenta potente para impulsionar políticas institucionais que incentivem a presença e a permanência das mulheres na ciência, especialmente em outras universidades públicas da Região Norte.
“E de que forma podemos fazer com que as futuras gerações reconheçam que as mulheres sempre estiveram presentes, mesmo quando não éramos prioridade? Futuramente, espero que esses dados sejam usados em outras pesquisas, sirvam como base para análises de políticas públicas institucionais, incentivem a composição de bancas de concursos, estejam presentes nas bibliografias dos cursos de graduação e pós-graduação e comitês científicos”, finaliza Caroline Pinheiro.
A dissertação levantou uma série de dados relevantes sobre a atuação científica de docentes e pesquisadoras da UFPA. Entre eles, destaca-se que, entre os anos de 2010 e 2013, foram publicados 859 artigos assinados por mulheres, o que representa 26% do total de publicações da Universidade nesse período. Nos quadriênios seguintes, a produtividade feminina cresceu significativamente: entre 2014 e 2017, esse número subiu para 34%; e entre 2018 e 2021, chegou a 40%.
Outro dado de destaque é o reconhecimento dessas cientistas femininas: quando a pesquisa foi realizada, três docentes da UFPA já haviam sido premiadas com o Prêmio L’Oréal para Mulheres na Ciência. Em 2024, esse número subiu para cinco, com mais duas pesquisadoras da Instituição sendo agraciadas com a premiação.
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O avanço na produção científica acompanha o aumento da presença feminina na docência. No entanto a pesquisa também evidencia impasses, como a desigual distribuição de mulheres entre as diferentes áreas do conhecimento.
As Ciências Biológicas concentram o maior número de docentes e pesquisadoras da UFPA (46,7%), seguidas pelas Ciências da Saúde (19%), Ciências Agrárias (12,4%), Ciências Exatas e da Terra (9,5%) e Engenharias (7,6%). Já as Ciências Humanas (3,8%), Ciências Sociais Aplicadas (5%) e Linguística, Letras e Artes (5%) apresentam índices ainda menores.
Esses números confirmam uma realidade que também é apontada pelas referências teóricas utilizadas pela pesquisa: apesar do crescimento da produtividade científica feminina, a representatividade das mulheres nas chamadas ciências duras, como as Engenharias e Exatas, ainda é limitada.
“E eu penso que, se tivesse recebido o incentivo necessário, talvez eu não tivesse sido habilitada apenas para a área do cuidado, poderia ter sido encaminhada para outra área do conhecimento”, reflete a pesquisadora.
O que elas pesquisam?
As temáticas abordadas evidenciaram a produção de conhecimento e resultados de pesquisas com potencial para gerar benefícios significativos na área da saúde. Estes estudos englobam desafios regionais e globais, concentrando-se em:
- Nanotecnologia e Biotecnologia; Biodiversidade amazônica (incluindo a classificação de novas espécies animais);
- Genética humana (com foco no tratamento de doenças e prevenção de patologias oncológicas);
- Plantas medicinais e propriedades de óleos essenciais;
- Engenharia de materiais para a conservação ambiental.
Dessa maneira, a notável colaboração científica entre mulheres surge como uma força transformadora, capaz de impulsionar avanços na saúde e no desenvolvimento sustentável da Amazônia.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal Beira do Rio, da UFPA, edição 177, escrito por Evelyn Ludovina.
