Crise do café em Manaus de 1968: dificuldade de acesso e abastecimento vulnerável

Mesmo que por um tempo curto, a crise da falta de café não teve relação com a produção agrícola, mas sim com falhas na logística nacional.

Embora muito consumido em Manaus, o café não era produzido na cidade. Foto: Jéssica Campo/ Seagri-Rondônia

Em 1968, a cidade de Manaus (AM) enfrentou uma crise incomum e marcante: a escassez de café. O produto, presente diariamente na mesa das famílias, desapareceu das prateleiras por várias semanas, provocando filas, reclamações e dificuldades para comerciantes e consumidores. A falta do grão se tornou um dos episódios mais lembrados da história do abastecimento da capital amazonense.

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A crise não teve relação com a produção agrícola — já que a Amazônia não era produtora de café —, mas sim com falhas na logística nacional. Manaus dependia quase exclusivamente de remessas enviadas a partir de outras regiões do país. Qualquer atraso, interrupção ou desvio nessas viagens fluviais e marítimas afetava diretamente o consumo dos moradores da capital.

Com a interrupção das remessas regulares, os estoques ficaram reduzidos a ponto de muitos mercados registrarem prateleiras completamente vazias. Famílias relatavam dificuldade em encontrar o café e comerciantes não tinham previsão sobre quando seriam reabastecidos. O episódio expôs, com clareza, a vulnerabilidade logística das cidades amazônicas na década de 1960.

O problema só foi resolvido quando um grande carregamento chegou à cidade. O navio ‘Cidade de Manaus’, partiu de Belém (PA) com cerca de 20 mil sacas de café e normalizou o abastecimento na capital amazonense. Após semanas de escassez, a população pôde finalmente adquirir o produto novamente, encerrando o período de falta total, que durou cerca de 20 dias, segundo registros dos jornais da época.

Publicação do jornal A Crítica em 4 de maio de 1968 fala sobre a chegado do Navio com carga de café. Foto: Reprodução/Acervo Durango Duarte

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Origens da crise de abastecimento de café

A economia cafeeira brasileira sempre esteve concentrada no Sudeste, enquanto regiões como a Amazônia dependiam de remessas organizadas por órgãos federais e transportadas por longas rotas fluviais. Na década de 1960, essa estrutura apresentava deficiências significativas: atrasos, problemas operacionais e denúncias de má distribuição ocorriam com recorrência na região Norte, além de até mesmo suspeitas de que cargas destinadas estavam sendo desviadas em outros portos.

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Esses fatores combinados criaram o cenário para a crise de 1968. A falta de café em Manaus não era resultado de falta de produção, mas consequência direta de problemas na distribuição.

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Foto: Irene Mendes/Secom RO

A perspectiva histórica

O episódio da falta de Café e, Manaus é frequentemente citado como exemplo das dificuldades enfrentadas pela Amazônia durante grande parte do século XX nos livros de história local. A distância dos centros produtores e a dependência quase total de rotas fluviais tornavam o abastecimento vulnerável a qualquer interrupção.

Em 1968, o episódio foi discutido inclusive no Senado Federal e registrado nos anais da casa. O então senador Pedro Carneiro, em Belém (PA), destacou o problema que a capital amazonense passou naquele ano. No documento (página 68) ele justifica:

“Em Manaus, a falta chegou a ser total, gerando – o que pode parecer surpreendente para quem não mora na Amazônia, mas já é habitual para os que lá se encontram – o espetáculo de faltar café em território do país que mais produz café. E, nesse caso particular, a crise é mais surpreendente porquanto a comercialização do café cru continua a ser exclusividade do Instituto Brasileiro do Café, para evitar o descaminho. Apenas, ao que parece, atrasou-se o navio que iria recompor o estoque do IBC. Acontece, porém, que o atraso de navios, na rota Sul-Norte, está se tornando freqüente, registrando-se, inclusive, longas viagens de até três meses para Belém ser alcançada. A navegação de cabotagem, que foi grandemente aliviada com o tráfego regular, pela rodovia Belém-Brasília, realmente milagrosa para o abastecimento da Amazônia, parece ter voltado às velhas dificuldades”.

Essa fala evidencia o contraste histórico vivido pela cidade: mesmo em um país líder mundial na produção de café, a região amazônica podia enfrentar longos períodos sem o produto devido a fragilidades estruturais.

Quando o carregamento finalmente chegou a Manaus, a normalização do abastecimento foi rápida. Os mercados voltaram a oferecer o produto e o cotidiano dos moradores pôde ser retomado. Embora a crise tenha sido temporária, ela deixou um marco histórico sobre como a dependência logística podia afetar profundamente a vida das pessoas.

Para o pesquisador da Embrapa Ocidental, Alfredo Homma, a crise do café em Manaus no ano de 1968 foi fundamento para que a sociedade local se organizasse para evitar outras crises futuras no âmbito de produtos agrícolas

“Durante o ano de 1968, destacou-se a criação da Associação dos Empresários da Amazônia (AEA), que exerceu enorme influência no processo de ocupação da Amazônia, o início dos cultivos de dendezeiros no município de Benevides por meio de convênio entre Sudam e Institut de Recherche pour les Huiles et Oleagineux (IRHO), dos plantios de gmelina no Projeto Jari e a abertura da Rodovia Cuiabá-Porto Velho. Ocorreu, também, a fundação da Sociedade de Preservação aos Recursos Naturais e Culturais da Amazônia (Sopren), a terceira organização não governamental (ONG) mais antiga do País, com alguns eventos importantes”, destacou o pesquisador em sua obra ‘Notícias de Ontem – Comentários sobre a Agricultura Amazônica’.

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