Foto: William Duarte/Rede Amazônica AM
Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com
Em sua clássica obra “Tristes Trópicos” (1955), Claude Lévi-Strauss, um dos antropólogos mais influentes do século XX e figura central na fundação da Universidade de São Paulo (USP), onde lecionou sociologia entre 1935 e 1938, com base em suas experiências no Brasil (1935-1939) consolidou visão crítica, melancólica e estruturalista sobre a urbanização rápida e o contraste com o passado. Para ele, as cidades latino-americanas eram basicamente “implantadas para serem rapidamente renovadas, o que resultava em uma “doença crônica” de má construção”.
Diferentemente das cidades europeias, que amadurecem com o tempo, “as americanas passavam da juventude à decadência sem nunca chegarem a ser saudáveis; evoluíam ‘da frescura’ à ‘decrepitude’ sem passar pela antiguidade”. Portanto, “não amadurecem, apenas envelhecem precocemente devido à má construção, que gera constante necessidade de renovação rápida”.
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O evoluir do tempo demonstrou certo exagero em tais assertivas, visto que importantes núcleos urbanos, no decorrer da história, esquivaram-se dessa visão conjuntural do mestre. Ao que me parece, entretanto, Manaus, a capital do Amazonas, e outras cidades latino-americanas e amazônicas, em particular, apontam sinais de enquadramento no determinismo histórico e sociológico do antropólogo francês. Ao menos foi o que deixou evidente, mais uma vez, as chuvas torrenciais que na quarta-feira, 25, se abateram sobre a capital amazonense.
Toda a população ficou estarrecida e amedrontada com tal volume de água, quanto com seu poder destrutivo da infraestrutura urbana da cidade. Dados das estações meteorológicas da Prefeitura de Manaus revelam que a tempestade tropical resultou num acumulado de chuva que chegou a 160 milímetros (o equivalente a 160 litros de água em cada metro quadrado (m²) de área) no bairro Santa Etelvina, Zona Norte da capital.
A tormenta provocou 59 de alagamentos; bueiros entupidos, erosões de alta gravidade; 13 desabamentos de muros e casas; 24 deslizamentos de barrancos; rachaduras, tromba d’água e outros sérios danos, especialmente nas zonas faveladas da cidade.
De acordo com o Censo do IBGE de 2022, Manaus registrou um crescimento expressivo no número de favelas, 60% delas concentradas na capital amazonense. Bairros como Cidade de Deus/Alfredo Nascimento, na Zona Norte, é a quarta maior favela do Brasil, com mais de 55 mil moradores, seguida pela comunidade São Lucas.
Os estudos apontam que, dentre as principais áreas vulneráveis da cidade encontram-se a Comunidade São Lucas (Bairro São José, Zona Leste), concentrando mais de 53 mil pessoas; Zumbi dos Palmares/Nova Luz (Zona Leste), com mais de 11 mil domicílios; a Compensa (Zona Oeste), com altos índices de risco, conforme mapeamento geológico.
As pesquisas revelam que Manaus lidera o ranking nacional de áreas urbanizadas em favelas. No período 1985/2024, verificou-se um crescimento de 160% na ocupação dessas comunidades enquanto a expansão urbana ocorreu de forma brutalmente desigual e improvisada, sem a necessária e obrigatória observância dos direcionamentos estabelecidos no Plano Diretor Urbano e Ambiental do Município de Manaus, instituído pela Lei Complementar Nº 2/2014.
Os dados censitários (Ibge 2022) revelam que o Amazonas possui 398 favelas, registrando o maior crescimento populacional nessas áreas do Brasil, indicando que Manaus é uma das capitais com a maior proporção de moradores em comunidades. O levantamento mostra que entre as 20 favelas mais populosas do Brasil, seis estão localizadas nas zonas Leste e Norte da capital. Aqui se concentram os setores mais críticos de moradias precárias e áreas de risco. Os dados do IBGE sinalizam que o aumento das favelas reflete a necessidade de regularização fundiária e pesados investimentos em saneamento básico e infraestrutura urbana, para poder conferir um mínimo de dignidade à massa populacional vítima das intempéries.
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Sobre o autor
Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).
*O conteúdo é de responsabilidade do colunista
