No Acre, Carlos Braz da Silva, de 50 anos, mantém viva a tradição da sapataria manual há 35 anos. Foto: Carlos Braz da Silva/Arquivo pessoal
Em uma época marcada pela produção em larga escala, o trabalho manual dos sapateiros continua sendo uma alternativa para quem deseja prolongar a vida útil de calçados, bolsas e malas. No Acre, Carlos Braz da Silva, de 50 anos, é um dos profissionais que mantêm viva essa tradição.
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Ele explica que mesmo com o passar do tempo, conseguiu resistir às transformações do mercado. Sem nunca ter feito um curso profissionalizante, Carlos aprendeu o ofício com o padrasto aos 15 anos, desde então, são 35 anos dedicados a consertar calçados.
“A vida toda foi dentro do mercado de calçados. Olha, é no mínimo um tipo de serviço extremamente satisfatório, sabe? Ver o cliente apreciando o serviço ao qual você passou algumas horas do dia se dedicando é algo revigorante”, conta.
Comemorado nesse domingo (25), o Dia do Sapateiro está ligado à fé cristã e celebra São Crispim e São Crispiniano, considerados os santos padroeiros dos sapateiros. Eles eram dois irmãos que viajaram para França para pregar o cristianismo. Para se sustentar, consertavam calçados.
Braz tem uma tradicional sapataria no Centro de Rio Branco. Após pegar toda a experiência com o padrasto, ele decidiu abrir seu próprio negócio, que emprega outras duas profissionais.
Ao longo da carreira, ele acompanhou mudanças nos materiais, nas técnicas e na qualidade dos produtos. Para o sapateiro, enquanto o acabamento dos serviços de reparação melhorou com o tempo, a qualidade dos calçados disponíveis no mercado diminuiu.
“A principal mudança que percebo é que a qualidade dos serviços nesse período ficou melhor com o tempo, tendo melhor acabamento e menos grosseiro. Já a qualidade dos calçados decaiu bastante”, avalia.
Com os preços dos produtos cada vez mais altos, recuperar um calçado danificado pode representar economia para o consumidor. A possibilidade de prolongar a vida útil de itens de uso cotidiano também ajuda a manter a procura pelo trabalho dos sapateiros.

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Carlos acredita que a profissão continua relevante justamente porque os produtos que conserta são objetos considerados essenciais. “Querendo ou não, calçados, bolsas e malas são itens essenciais e, com o valor cada vez mais alto dos produtos, consertá-los se torna uma opção mais viável”, afirma.
O trabalho exige conhecimento sobre diferentes materiais, habilidade manual e criatividade para encontrar soluções para cada problema. Segundo Carlos, essas características são fundamentais para quem deseja seguir na profissão.
“É preciso ser capaz de saber desenrolar”, brinca o sapateiro.
Histórias marcantes
Em 35 anos de profissão, Carlos acumulou experiências que vão além dos reparos convencionais. Entre os trabalhos que considera mais curiosos estão capas feitas para próteses de braços e pernas, um exemplo da variedade de demandas que podem chegar às mãos de um sapateiro.
Contudo, algumas histórias envolvendo clientes também ficaram guardadas na memória do profissional. Uma delas aconteceu depois que uma mãe deixou um tênis infantil para conserto e demorou dois anos para voltar ao estabelecimento para buscá-lo.
“Quando finalmente ela veio pegar o calçado, foi embora e retornou algumas horas depois para reclamar que o tênis não servia mais no pé do filho. Tive que falar a real: ‘Minha senhora, você demorou dois anos para vir buscar, o pé dele cresceu”, relembra.
Pouco interesse dos jovens
Apesar da longa trajetória, Carlos vê com preocupação a continuidade da profissão nas novas gerações. Na avaliação dele, muitos dos sapateiros mais jovens que chegam ao mercado dão sequência a negócios familiares, enquanto poucos decidem aprender o ofício por iniciativa própria.
“É meio complicado, mas, em geral, a maioria dos sapateiros mais novos que surgem está apenas mantendo o negócio da família. Dificilmente uma pessoa jovem decide aprender esse ofício, diferentemente de outras profissões, como barbeiros ou mecânicos”, afirma.

A falta de novos profissionais é um dos desafios para a continuidade de trabalhos artesanais que dependem de experiência prática e do aprendizado transmitido entre gerações. Mesmo diante desse cenário, Carlos acredita que a profissão continuará existindo.
“Sempre digo que a capacidade de adaptação é uma das razões pelas quais nós sapateiros permanecemos no mercado de trabalho, mesmo com as mudanças na fabricação e no consumo de calçados”, declara.
Contudo, a mensagem de Carlos é de confiança na continuidade do ofício. Em cada sola trocada ou costura refeita, o sapateiro mantém não apenas um objeto em uso, mas também uma tradição construída ao longo de gerações.
“Desejo um feliz Dia do Sapateiro a todos os sapateiros do Brasil”, finaliza.
*Por Walace Gomes, da Rede Amazônica Acre.
