Piracaia, a tradição em Alter do Chão que mistura sabores e gingados paraenses

Uma tradição que começou pequena entre comunidades locais se manifesta até hoje nas beiradas do rio Tapajós, especificamente em Alter do Chão: "a Piracaia é tradição, memória e território".

A dança no meio da praia no luau da Piracaia. Foto: Bárbara Vale/Arquivo Pirarimbó

No Pará existe um distrito que encanta por suas águas claras, é banhado pelo rio Tapajós e conhecido como o Caribe da Amazônia. Ele abriga uma tradição mágica na beira da praia de água doce. Esse lugar é Alter do Chão.

O distrito é o principal ponto turístico de Santarém, onde fica uma das praias de água doce mais famosas do mundo, segundo o jornal inglês The Guardian (2009).

E uma de suas tradições culturais é a Piracaia, uma festança que virou símbolo da cultura paraense, através dos saberes ancestrais e culinária local. Uma mistura de carimbó com muito peixe assado e partilha de experiências entre os festeiros.

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Praia de Alter do Chão, em Santarém (PA). (Foto:Bruno Cecim/Agência Pará)

A piracaia  é um peixe assado na praia, feito à beira do rio. Em tupi-guarani, a palavra significa: “peixe frito; peixe queimado” (pirá+caia) ou “o cardume” (pirá+quaia), e descreve um gesto simples e ancestral: ir até as águas do rio Tapajós, pescar e preparar o peixe na areia, com fogo, moquém e tempo para conversar. 

A tradição de assar o peixe na praia se transformou em uma grande festança com ritmos regionais, danças como carimbó, gingado paraense que nasce do batuque do tambor, do balanço das maracas e chega até o colorido das saias das mulheres.

Em conversa com o Portal Amazônia, Henrique Maia, secretário executivo do Pirarimbó, um receptivo em Alter do Chão que realiza a Piracaia, contou como funciona essa cultura.

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O que é a Piracaia? 

De acordo com Maia, a Piracaia é um encontro que acontece pela noite, que reúne os nativos na praia ao redor de uma fogueira para comer, cantar e dançar nas noites de lua cheia. “É um momento muito alegre” e que envolve diversas pessoas, segundo ele.

A experiência é tão interessante que acabou se tornando atração turística para todos que querem vivenciar, de forma mais profunda, a cultura paraense.

Assim, a Piracaia se tornou uma celebração que une gastronomia local e carimbó, é animada com dança folclórica brasileira e atrai cada vez mais interessados. 

Foto: Carol Melgaço / arquivo Pirarimbó

Não se sabe ao certo quando iniciou essa prática, mas Henrique Maia afirma que ela é muito antiga.

“Os elementos da Piracaia, que são o rio, peixe, praia e fogo, sempre fizeram parte da paisagem de Alter do Chão. Mais do que uma data de origem, a Piracaia carrega memórias: famílias reunidas, histórias contadas e acontecimentos do cotidiano que, naquele momento, já se transformam em lembrança”, assegura ao Portal Amazônia.

Atualmente, a Piracaia tornou-se uma atração turística quase “obrigatória” para quem pisa em solos do Caribe da Amazônia.

A comunidade local utiliza seus conhecimentos do rio, da floresta e da praia para oferecer aos visitantes a vivência de comer um peixe preparado com os pés na areia banhados pelo rio doce, respeitando os saberes tradicionais da região.

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Significado cultural e simbólico da Piracaia para a comunidade local

Piracaia eo embalo da noite na beira do rio. Foto: Divulgação / Receptivo Pararimbó

A simbologia da Piracaia vem da ancestralidade e herança cultural dos povos que vivem na região do Tapajós. Para a comunidade local, a Piracaia está profundamente ligada à ideia de família. Nos encontros noturnos que diferentes gerações se juntam, como pais, avós, tios, filhos e netos, todos em volta do fogo, e enquanto o peixe assa, o conhecimento circula entre os mais novos e os mais antigos.

Mesmo que a prática tenha se desenvolvido para o turismo, o conhecimento trocado entre os familiares prevalece vivo, dando continuidade ao saber cultural e geracional.

“A Piracaia preserva saberes porque tudo acontece na prática. A criança aprende pescando com o avô, o mais novo acompanha o tio, e o conhecimento vai sendo transmitido de forma natural, no fazer cotidiano. É também nesse espaço que se aprende sobre respeito ao rio, à floresta e ao território. As histórias falam de cuidado, de entender que não estamos sozinhos nessa terra. Cada lugar tem um dono, cada lugar tem uma mãe”, explica Henrique Maia.

Noite de lua cheia anima a Piracaia. Foto: Reprodução / Instagram – @pirarimbo

Segundo o secretário, manter viva a Piracaia é manter viva essa relação de respeito com o entorno. É assim que os saberes tradicionais seguem existindo e apontando caminhos para o futuro.

Ingredientes essenciais para uma boa Piracaia

Nas Piracaias turísticas, geralmente são servidos peixes mais conhecidos do público, como tambaqui, pirarucu, filhote e tucunaré.

O Pirarimbó, receptivo onde Henrique é secretário executivo, amplia essa experiência, apresentando aos visitantes também outros peixes do rio, como acari (conhecido como bodó, no Amazonas), mapará e matrinxã, além de uma variedade de legumes assados na brasa.

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“Esses peixes fazem parte da alimentação histórica das populações ribeirinhas e expressam a diversidade do Tapajós. Na Piracaia familiar, tudo depende da pesca do dia: o que o rio oferece naquele momento é o que vai para o fogo, normalmente acompanhado apenas de sal, pimenta e tucupi. Essa relação direta com o rio é um dos pilares da culinária regional e do modo de vida local”, afirma Maia. 

Além dos sabores culinários regionais, a Piracaia precisa de um ingrediente fundamental para os visitantes: disposição para experimentar a cultura em Alter do Chão, nas beiras do rio Tapajós. 

Piracaia é memória da cultura paraense. Foto: Carol Melgaço / arquivo Pirarimbó

“Viver uma Piracaia é uma experiência profundamente autêntica. É quase um teppanyaki tapajônico, mas com identidade própria. Há uma beleza muito particular em unir conhecimentos da floresta, do rio e da gastronomia para preparar uma refeição. A Piracaia cria conexão emocional”, conclui Maia.

Para ele, o visitante não apenas consome um prato, ele participa de um modo de fazer, escuta histórias e compreende melhor o território. A partir disso, iniciativas locais passaram a agregar outras vivências culturais, fortalecendo o turismo de experiência e valorizando os saberes da comunidade.

*Por Karla Ximenes, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar

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