“Não são lendas, são crenças”: afirma pesquisador paraense sobre figuras amazônicas

"Personagens (...) ensinam, por meio das narrativas, valores como o respeito à natureza, aos animais e aos limites do que devemos retirar da floresta", afirma Márcio Neco sobre as figuras amazônicas.

Foto: Divulgação

O paraense Marcio Neco, professor e pesquisador licenciado em História Faculdade Faveni de Belém e com pós-graduação em Ciências da Religião pela mesma instituição, é o autor do livro ‘COP30 nas Escolas’. Ele destaca a importância de figuras como a Matim-Taperê e o Boto como parte da cultura espiritual dos povos indígenas.

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Em 2025, Neco recebeu a Comenda “Ernesto Cruz”, a maior honraria concedida a historiadores em Belém. Confira a entrevista completa cedida à Um grau e meio, do IPAM.

Quais são as lendas mais conhecidas da floresta amazônica e o que elas revelam sobre a relação histórica das populações com a natureza?

Marcio Neco: Acredito que essas figuras têm um papel que vai além do religioso, elas também são profundamente pedagógicas. Personagens como o Curupira, a Matim-Taperê e o Anhangá ensinam, por meio das narrativas, valores como o respeito à natureza, aos animais e aos limites do que devemos retirar da floresta.

Por exemplo, o Curupira pune quem desmata, e o Anhangá protege os animais em situações vulneráveis, como na amamentação. Isso mostra uma ética muito clara: usar a natureza com equilíbrio e responsabilidade.

Essas lendas surgem de observações do cotidiano da floresta? Que elementos da vida amazônica costumam dar origem a essas narrativas?

Marcio Neco: Antes de tudo, é importante lembrar que a Amazônia sempre foi habitada por diversos povos originários, cada um com suas próprias crenças. Com a colonização, essas crenças foram demonizadas e reduzidas a “lendas” ou “folclore”.

Mas figuras como Curupira, Matim-Taperê e Boto não são apenas lendas, são crenças desses povos, ligadas à vida na floresta e ainda presentes entre comunidades ribeirinhas. Por isso, é importante desconstruir essa visão colonizadora e reconhecer esses saberes como legítimos.

Leia também: Lendas amazônicas: Onde estão as cobras grandes da Amazônia?

Muitas dessas histórias trazem personagens que protegem a natureza ou punem excessos humanos. O que isso nos diz sobre a ética ambiental presente nas culturas tradicionais?

Não são lendas, são crenças: afirma pesquisador paraense sobre figuras amazônicas
Foto: Divulgação

Marcio Neco: Ao analisar as crenças dos povos originários, percebemos que cada divindade está ligada a uma força da natureza e também cumpre uma função pedagógica. A Matim-Taperê, por exemplo, não é uma “bruxa”, mas uma entidade ligada aos espíritos e à proteção da floresta. 

O Curupira protege as matas, o Anhangá cuida da caça, e o Boto, além de estar ligado aos rios, também orienta questões de educação sexual. Já o Curupira aparece como uma divindade da fecundidade e das colheitas. Outro conceito importante é o dos “encantados”, seres que transitam entre o mundo espiritual e o material.

Ao longo do tempo, essas narrativas foram sendo tratadas apenas como “folclore”. O que se perde quando elas deixam de ser compreendidas como formas de conhecimento?

Marcio Neco: Hoje, essas divindades podem ter um papel didático muito eficaz na educação. O processo de demonização e imposição de uma religião única fez com que essas divindades fossem reduzidas a “lendas” e inseridas no folclore. Com isso, perde-se o respeito pela religião desses povos e a compreensão dos valores que essas entidades transmitem. Essa redução gera confusão e apaga parte importante da cultura.

O senhor trabalha o conceito de “imaginação amazônica”. Como ele ajuda a entender por que essas histórias seguem vivas, mesmo em um mundo cada vez mais urbano e tecnológico?

Marcio Neco: Mesmo no mundo urbano e tecnológico, também produzimos nossas próprias lendas, como as lendas urbanas. Elas não têm um autor específico e fazem parte do imaginário coletivo, muitas vezes com base em histórias que circulam com variações.

Um exemplo é a “moça do táxi”, que aparece em diferentes versões pelo Brasil, inclusive em Belém e São Paulo, sempre com mudanças na narrativa, mas mantendo uma estrutura semelhante. Essas variações mostram como essas histórias se adaptam aos contextos locais e continuam sendo reproduzidas.

Em um cenário de crise climática e degradação ambiental, como as lendas da floresta podem contribuir para novas formas de educação ambiental e sensibilização?

Marcio Neco: A crise climática também está ligada à falta de uma educação ambiental que reconheça a relação entre o ser humano e a natureza. Hoje, até se tenta resgatar esses símbolos, como o Curupira, mas ainda muitas vezes ele é visto apenas como folclore. Esse resgate é importante, pois essas crenças têm grande potencial educativo e de conscientização.

Utilizar essas divindades e seus ensinamentos pode nos ajudar no combate às crises climáticas, promovendo respeito, cuidado e uma relação mais equilibrada com a natureza.

Que ensinamento central as lendas amazônicas deixam para quem vive fora da Amazônia e tenta compreender a floresta à distância?

Marcio Neco: Muitas das nossas ideias sobre povos indígenas vêm de uma educação equivocada desde a infância, que reforça estereótipos, como associar o indígena apenas a arco, flecha ou oca. Isso cria uma visão limitada e incorreta, ignorando a diversidade desses povos, seus modos de vida e suas escolhas.

Com a chegada dos portugueses, houve um processo de demonização e distorção dessas crenças, apagando sua verdadeira dimensão cultural e religiosa. Por isso, é importante estudar e ressignificar esses conhecimentos para compreender que eles fazem parte de sistemas de crença legítimos, que existiam muito antes da colonização.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo IPAM, escrito por Suellen Nunes

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