Lauro Chibé, o artista que construiu mais de 100 bois bumbás no Amazonas. Foto: Reprodução/Instituto Durango Duarte
Considerada uma das principais manifestações folclóricas do Brasil, o boi-bumbá faz parte da história cultural do Amazonas. O Festival Folclórico de Parintins, por exemplo, é o maior evento cultural à céu aberto do mundo protagonizado pelos bois bumbás Caprichoso e Garantido no estado.
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Trazido pelos imigrantes nordestinos durante o ciclo da borracha, entre os séculos XIX e XX, o boi bumbá passou por muitas mãos de talento antes de se tornar a maior celebração cultural do estado. Duas delas foi de Lauro Chibé, um dos nomes de destaque do folclore popular manauara, responsável pela construção de 100 bois bumbás no Amazonas.
Poucos registros históricos contam a trajetória do artista, que teve vasta contribuição no cenário cultural amazonense.
Quem foi Lauro Chibé?

Natural de Bezerros (PE), Lauro Queiroz de Souza desembarcou em Manaus em 1916, junto com a sua mãe. Com pai ausente, ele e sua mãe se instalaram no bairro dos Tocos, atual Nossa Senhora Aparecida, na zona Sul da capital.
Com prováveis cinco anos de idade (não há registro preciso de nascimento de Lauro), ele passava o dia inteiro em casa enquanto a mãe vendia doces pelas redondezas do bairro.
Munido de papel e lápis, Lauro começou a rabiscar os primeiros traços do seu talento. Sozinho em casa, aprendeu a desenhar e ler através de gibis e revistas que o cercavam. Aos fins de semana, aproveitava a presença da mãe na residência para brincar na rua com as crianças do bairro.
Inclusive, foi numa dessas interações com os colegas da vizinhança que ele ganhou o apelido que ficaria marcado na sua vida. Sua aparência pálida e magra lhe renderam o codinome de Chibé, em alusão ao pirão de farinha com água, sal e pimenta, alimento de famílias que viviam em extrema pobreza. A partir de então, passou a ser chamado como Lauro Chibé.
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Primeiro contato com boi-bumbá
Aos sete anos de idade, Lauro Chibé assistiu uma apresentação de boi-bumbá pela primeira vez. Durante um arraial na Praça Bandeira Branca, o pequeno ficou encantado com o folguedo, espécie de festa popular que envolve manifestações culturais e folclóricas brasileiras.

Na ocasião, teve seu primeiro contato com o bumba-meu-boi, manifestação predominante no Nordeste que celebra a morte e ressureição de um boi através da dança, música e teatro, sob influências indígenas, africanas e europeias.
Sua mãe, enquanto trabalhava numa barraca de doces, criou um origami (arte de dobrar papel japonesa para criar figuras de animais, plantas, objetos e formas geométricas) em formato de boi-bumbá, tornando-se o seu principal brinquedo desde então.
Ali já se desenhava uma grande paixão de Lauro com a arte. Prova disso era sua presença constante na Biblioteca Pública, onde dividia seu tempo para concluir os estudos e a leitura de livros sobre artistas plásticos da Idade Média. Ao que se sabe, Michelangelo, um dos maiores nomes do Renascimento Italiano, era o grande ídolo e referência de Chibé.
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Início da carreira
Aos 20 anos, Lauro já era considerado à época um dos melhores artesãos de Manaus. Era constantemente procurado para esculpir o que lhe fosse pedido em madeira, desde miniaturas de barcos regionais à máscaras indígenas, animais e até escudos personalizados de clubes de futebol.
E por falar no esporte mais popular do mundo, Chibé, além das mãos, era bom com a bola nos pés. Ligeiro e com potências nas duas pernas, destacou-se como jogador do Luso Sporting Clube, agremiação portuguesa que se instalou em Manaus. Também defendeu as camisas da União Esportiva Portuguesa e General Osório, antes de largar definitivamente as quatro linhas para se dedicar somente à carreira de artesão, artista plástico e escultor.
Nos anos 1930, Lauro também já produzia obras retratando a rotina dos ribeirinhos amazônicos, até ficar encantado com ‘Presépio Maravilha’, do artista amazonense Leovigildo Ferreira, que continha movimentos atráves de bonecos.
Tal criatividade estimulou Chibé a estudar e preparar por quase dois anos uma obra com a mesma técnica: montou um sistema de roldanas com ligas de borrachas e carreteis que simulavam ribeirinhos produzindo farinha. A peça em miniatura foi tão elogiada e inovadora à época que se tornou atração fixa no seu quiosque para vendas de artesanato na Praça da Matriz. Apesar da obra pioneira, Chibé nunca quis colocá-la à venda para o público.
Veludinho, o 1º bumbá construído
O primeiro boi bumbá construído por Lauro Chibé que se teve conhecimento foi Veludinho, em 1946, informação essa que constava numa série de anotações pessoais que o artista registrada num pequeno bloquinho de papel. Segundo o registro manuscrito, que se perdeu no tempo, Veludinho media 150 centímetros e custou em torno de 1 mil réis.
Veludinho se tornou o pontapé para a construção de centenas de bumbás pelas mãos de Chibé. No ano seguinte, construiu mais três bumbás: Estrela D’Alva, Caprichoso e Coringa, este último dedicado ao bairro da Aparecida e considerado o primeiro boi articulado do folclore amazonense. Tinha dois miolos, balançava a cabeça e o rabo, comia capim e “fazia as suas necessidades”, uma revolução que transformou a brincadeira do boi-bumbá no estado.
Daí, Chibé desandou a fabricar bumbás: Galante, Corre Campo, Dois de Ouro, Guanabara, Flor do Campo, Mineirinho, Brinquedinho e Prenda Fina, Prenda do Areal, Tira Prosa, Treme Terra, Mina de Prata, Canarinho, Rica Prenda, Dominante, Malhado, Pai do Campo e Teimosinho, além de uma versão mais “turbinada do Veludinho.
Referência do folclore amazonense
Além dos bumbás, Lauro começou a fazer parte das produções de quadrilhas caipiras dos bairros. No bairro Morro da Liberdade, ajudou na tradicional festival das Pastorinhas do Oriente, colaborou na criação das Tribos dos Iurupixunas e foi dirigente por dois anos do bumbá Tira Prosa.

Nos anos 80, foi o criador de outra inovação que mudou a história do carnaval amazonense: a pedido do empresário Paulo Eugênio, confeccionou para a escola de samba GRES Uirapuru uma alegoria de um pássaro, com três metros de comprimento, que abria o bico, batia as asas, mexia os olhos e levantava as penas do rabo. Relatos contam que foi a primeira alegoria com movimentos reais feita no Amazonas.
Mesmo com tais trabalhos, Chibé continuou fabricando bumbás: Ponta de Ouro, Leão, Sete Estrelas, Raio de Sol, Raio de Sol, Diamante Negro, Pena de Ouro, Campineiro, Gitano, entre outros.
Ainda segundo relatos, sua vasta contribuição em prol da arte levou Chibé a ganhar o troféu “Jubilei de Prata”, criada pelo fundador do Festival Folclórico do Amazonas, o ex-vereador Bianor Garcia, no ano de 1961. Um reconhecimento pela atuação na cultura popular amazonense.
Morte
No dia 29 de dezembro de 1987, Lauro Chibé foi encontrado morto dentro de sua própria residência, no Morro da Liberdade, onde morava sozinho. O mau cheiro motivou os vizinhos a chamarem os bombeiros e, quando a corporação chegou ao local, encontraram Lauro caído no chão, sem vida.
As especulações da época apontam que nesse mesmo dia 29, o boi Gitano, um dos últimos feitos de Lauro, foi incendiado na Vila Mamão, comunidade localizada no bairro São Francisco, zona sul de Manaus, e também teve sua história interrompida.
Provavelmente aos 76 anos, Lauro Chibé deixava este plano para se tornar um dos maiores nomes do folclore amazonense e um dos precursores do boi bumbá no estado.
*As informações foram extraídas de registros do Instituto Durango Duarte e do Blog do Simão.
