A história de Hilda Freire: a parteira de uma geração inteira em Iranduba

Hilda Freire ajudou mais de 2.800 crianças a nascerem em Iranduba (AM). Foto: Zenaide Freire/Acervo pessoal

Antigamente, no interior do Amazonas, em uma época em que o acesso à saúde era limitado, muitas comunidades dependiam do conhecimento tradicional e das pessoas que dedicavam a vida ao cuidado dos outros. Por conta disso, em Iranduba, Hilda Freire ficou conhecida por ajudar a trazer ao mundo mais de 2.800 crianças.

Hilda Freire. Foto: Zenaide Freire/Acervo pessoal

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Hilda nasceu na comunidade de Jacurutu e cresceu em contato direto com a natureza e com os saberes tradicionais da floresta. Criada em uma comunidade indígena da região, ela aprendeu sobre ervas medicinais e práticas de cura, conhecimentos que foram fundamentais no seu trabalho como parteira, em um período em que muitos partos aconteciam em casa, longe de hospitais ou médicos.

Foi com esse aprendizado que ela começou a ajudar mulheres em trabalho de parto, e o que iniciou como um gesto de solidariedade se transformou em uma verdadeira missão de vida.

Com habilidade, experiência e sensibilidade, Hilda acompanhou centenas de gestantes e participou do nascimento de milhares de crianças em comunidades de Iranduba e arredores.

De acordo com Zenaide Freire de Sousa, filha de Hilda Freire, ela mantinha um caderno no qual registrava os nomes dos bebês que ajudava a nascer e reunia centenas de histórias de vida que começaram pelas mãos da parteira. Infelizmente, após sua morte, o caderno acabou se perdendo. 

Leia também: Dom e experiência: o saber-fazer das parteiras no Nordeste do Pará

“Naquele tempo não tinha telefone. Quando uma mulher estava para ganhar bebê, o marido ia até a nossa casa bater na porta. A qualquer hora do dia ou da noite. Minha mãe se levantava, pegava a bolsinha com os materiais dela, colocava uma toalha na cabeça e ia”, recorda a filha.

De acordo com Zenaide, muitas mulheres procuravam Dona Hilda ainda durante a gestação, confiando em sua experiência, já que ela tinha grande habilidade para identificar o sexo do bebê apenas ao tocar a barriga da mãe.

Hilda Freire. Foto: Zenaide Freire/Acervo pessoal

“Minha mãe rezava, minha mãe tirava a desmentidura, ensinava remédio caseiro pras pessoas, tudo ela fazia”, explicou Zenaide ao Portal Amazônia

Zenaide relembra que a dedicação da parteira era total e não importava a distância, a hora ou as condições, sempre que alguém precisava, ela estava pronta para ajudar.

Hilda Freire: muito mais que uma parteira

Além de realizar partos em casa, Hilda também atuou em um centro de saúde de Iranduba, localizado na região do Lourenço Bop, onde continuou exercendo sua vocação, auxiliando gestantes e contribuindo com o cuidado à saúde da comunidade.

Zenaide revela que Hilda nunca cobrava pelo serviço, já que para ela ajudar a trazer uma criança ao mundo, para ela, “era um dom”, não um trabalho que deveria ser pago. 

Hilda conciliou esse trabalho comunitário com outras responsabilidades, pois durante cerca de 30 anos também atuou como servidora da prefeitura de Iranduba.

Em casa, criou 17 filhos, sempre com dedicação e carinho. Com o tempo, a saúde começou a enfraquecer e ela precisou deixar as atividades, e mesmo após sua partida, sua história continuou presente na memória da cidade.

“Aí foi o tempo que ela adoeceu, e pronto, ela deixou, não trabalhou mais, e a gente cuidou dela. Aí foi o tempo que o senhor levou ela, mas a minha mãe era uma guerreira”, recorda Zenaide. 

Leia também: “Partejar”: prática milenar ajuda mulheres em locais de difícil acesso na Amazônia

Hospital Hilda Freire em Iranduba
Hospital da cidade de Iranduba. Foto: Reprodução/Rede Amazônica AM

O reconhecimento pelo trabalho de Hilda Freire veio em forma de homenagem pública, e hoje, o hospital de Iranduba leva seu nome, uma maneira de eternizar a contribuição de uma mulher que ajudou a construir a história do município.

Nas famílias dos moradores de Iranduba, existe sempre alguém, um filho, um sobrinho ou um neto, que veio ao mundo pelas mãos da parteira.

*Por Rebeca Almeida, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar

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