Grande parte dos municípios do Maranhão fazem parte da Amazônia Legal. Com isso, diversas manifestações culturais influenciam na região, como as festas religiosas.
No estado, essas festas misturam ritos católicos, tradições afro-brasileiras, manifestações populares, música, dança e saberes ancestrais.
As celebrações da fé, da memória e da resistência cultural, acontecem em diferentes épocas do ano, e passam por ruas, praças, igrejas, terreiros e comunidades inteiras.
📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp
Na quinta matéria da série sobre festas religiosas na Amazônia Legal, conheça oito festas religiosas do Maranhão:
Festa do Divino Espírito Santo
Realizada no município de Alcântara, localizado a 22km de São Luís, a Festa do Divino Espírito Santo acontece durante 12 dias do mês de maio, desde meados do século XIX. A festa, tradição rica de significados religiosos, percorre ruas, becos e casarões antigos do município.
A celebração religiosa inclui missas, ladainhas, alvoradas das caixeiras, cortejos, visitas às casas de moradores, hasteamento de mastros e rituais tradicionais. Um dos pontos altos acontece no salão nobre do Palácio Imperial de Alcântara, onde é montado um altar para a apresentação da corte do Divino.

Leia também: Tradição religiosa: conheça o Festejo do Divino Espírito Santo de São Geraldo do Araguaia, no Pará
Durante a festa, as caixeiras possuem um papel central, entoando cânticos em louvor ao Espírito Santo e acompanhando todas as etapas da cerimônia. Além disso, a festa mobiliza toda a cidade durante o ano inteiro, com a organização e a preparação de alimentos, bebidas e recepção aos visitantes.
De acordo com o Governo do Maranhão, o culto ao Divino Espírito Santo chegou ao estado com colonos açorianos e portugueses no século XVII e se consolidou em Alcântara no século XIX, espalhando-se depois por todo o estado.
Círio de Nazaré
O Círio de Nazaré, realizado em São Luís, teve início na capital maranhense há cerca de 30 anos, quando missionários levaram a imagem peregrina da santa às capitais brasileiras. Desde então, a procissão reúne mais de cem mil fiéis todos os anos.
A programação se estende por mais de 50 dias, composta por orações, missas, romarias, procissões, peregrinações da imagem a escolas, instituições, famílias e a igrejas de outros municípios. O Círio integra o calendário oficial de eventos do Maranhão, é Patrimônio Cultural Imaterial do Estado e foi reconhecido como Manifestação da Cultura Nacional.

Além das romarias tradicionais, a celebração inclui o Círio Ecológico, Solidário, Esportivo e das Crianças, além de romarias terrestres, ciclísticas e marítimas. O encerramento acontece com uma grande procissão seguida de missa campal no Santuário de Nossa Senhora de Nazaré.
Bumba meu boi
Reunindo religiosidade, música, dança, teatro e tradição, o bumba meu boi mobiliza comunidades inteiras com a devoção a santos populares do catolicismo como São João, São Pedro e São Marçal. A narrativa central gira em torno de Catirina e Pai Francisco, personagens que protagonizam a morte e a ressurreição simbólica do boi.
De acordo com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o ciclo festivo se organiza em quatro etapas principais, como os ensaios, o batismo do boi, as apresentações e o ritual da morte. Cada fase carrega significados próprios.
Leia também: Portal Amazônia responde: quais as diferenças entre o Boi Bumbá e o Bumba Meu Boi?

O aspecto religioso da festividade está presente desde a concepção do boi até o encerramento das festividades. Durante a celebração, muitos grupos são criados por promessas ou obrigações espirituais, em que o boi é batizado em cerimônias que combinam elementos do catolicismo e das religiões de matriz africana.
O Bumba Meu Boi do Maranhão é Patrimônio Cultural do Brasil desde 2011 e Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco desde 2019, como expressão de fé, identidade e resistência cultural.
Tambor de Crioula
O Tambor de Crioula é uma manifestação religiosa afro-brasileira praticada como forma de louvor a São Benedito, santo protetor dos negros. Considerado Patrimônio Imaterial Brasileiro desde 2007, o Tambor envolve dança circular, canto e percussão, com destaque para as coreiras, mulheres que dançam ao som dos tambores.
A prática acontece em praças, terreiros, festas populares e tem maior incidência durante o Carnaval e as festividades do Bumba Meu Boi. Embora muito conhecido em São Luís, o Tambor de Crioula apresenta variações em outros municípios, como Anajatuba, onde há diferenças no ritmo, na punga (um gesto de saudações e convite) e na participação masculina.
Leia também: Tambor de Crioula: conheça uma das manifestações religiosas mais populares do Maranhão

De acordo com o IPHAN, a apresentação do Tambor de Crioula costuma ser estruturada em três elementos principais, como o toque dos tambores, o canto das toadas e a dança das mulheres, tradicionalmente chamadas de coreiras, termo usado para designar aquelas que dançam no centro da roda, com saias rodadas e movimentos marcantes.
O Tambor de Crioula é um ritual, com pagamentos de promessas e expressões de fé, e um forte elemento de identidade das comunidades negras maranhenses.
Festejo de São Benedito
O Festejo de São Benedito acontece tradicionalmente no mês de novembro em vários municípios do estado. A festa reúne fiéis em celebrações que combinam devoção e atividades culturais, durante cerca de dez noites, em que são realizadas missas, procissões e apresentações culturais com artistas locais.

Leia também: Festividades de São Benedito são símbolo de fé da comunidade afrodescendente no Pará
De acordo com a Universidade Federal do Maranhão, em comunidades quilombolas, como Bacabal, em Anajatuba, a festa tem uma programação extensa, com início em setembro e terminando com o Tambor de Crioula na madrugada do dia 24 para o dia 25 de dezembro. A narrativa mais comum sobre o começo da festa, conta que uma senhora oriunda da Imbaúba iniciou uma batucada no dia de natal.
Toda a organização envolve trabalho comunitário, preparo de alimentos, rituais religiosos e transmissão de saberes ancestrais.
Festejo de São José de Ribamar
São José do Ribamar, padroeiro do Maranhão, é homenageado em romarias pelo estado. De acordo com o Governo do Maranhão, essas celebações tiveram origem no século XVII e se intensificaram ao longo dos séculos, como a romaria registrada em 1821.
O festejo acontece no mês de setembro, e conta com missas, novenas, romarias terrestres e marítimas, procissões, caminhadas e atividades culturais.

Durante a celebração multidões se dirigem ao Santuário para agradecer bênçãos, rogar graças, renovar votos e venerar São José de Ribamar.
Em 2024, o Festejo de São José de Ribamar foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Maranhão, por sua importância histórica, religiosa e cultural.
Festejo de São Marçal
Celebrado no dia 30 de junho, em São Luís, o Festejo de São Marçal acontece há mais de 90 anos e é considerado um dos eventos mais importantes do calendário cultural maranhense. A festa, que reúne dezenas de grupos de Bumba Meu Boi e de sotaque de matraca, realiza um grande cortejo pela Avenida São Marçal.

Leia também: ‘Templos de fé’: as histórias de seis igrejas famosas em Manaus
A celebração marca simbolicamente o encerramento do período junino e mistura devoção, tradição e resistência cultural. Durante o festejo, milhares de pessoas acompanham as apresentações desde as primeiras horas da manhã, em homenagem ao santo e à cultura popular.
Festa da Imaculada Conceição
A festa de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de São Luís, é celebrada com um extenso festejo que termina no dia 8 de dezembro, feriado municipal. A programação das celebrações incluem novenas, romarias, missas, visitas da imagem peregrina e a tradicional missa campal seguida de grande procissão até o Santuário no Monte Castelo.

A novena marca o inicio das celebrações campais, que precedem a grande celebração a céu aberto no dia da Padroeira.
De acordo com o Santúario da Conceição, o primeiro altar dedicado à Imaculada Conceição, em São Luís, foi erguido pela irmandade de Nossa Senhora da Conceição dos Mulatos, na lateral da Igreja de Nossa Senhora do Rosário.
Lá, foi depositada a imagem esculpida em madeira vinda de Portugal, a mesma que ainda hoje é venerada no Santuário de Nossa Senhora da Conceição, no Monte Castelo.
*Por Rebeca Almeida, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar
Leia mais da série:




