As festas religiosas ultrapassam a fé individual e se consolidam como expressões coletivas que reúnem diversos fieis em procissões, promessas e tantas outras celebrações que atravessam gerações.
Essas celebrações de devoção estão profundamente ligadas às origens da região e ultrapassam os muros dos locais dedicados às celebrações, ocupando ruas, praças e avenidas, reunindo famílias e mobilizando comunidades.
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O Portal Amazônia procurou algumas dessas manifestações mais populares nos estados da Amazônia Legal e preparou uma nova série, destacando as principais festas religiosas de casa estado. Nesta primeira matéria, conheça cinco festas religiosas celebradas no Acre.
Festa de Nossa Senhora da Glória
A festa de Nossa Senhora da Glória, considerada uma das maiores manifestações religiosas da região Norte, é celebrada tradicionalmente no dia 15 de agosto e reúne anualmente milhares de devotos em Cruzeiro do Sul, no Acre. A festividade conta com um novenário da padroeira em que o encerramento é celebrado na data da Assunção de Nossa Senhora, o dia 15 de agosto, conforme a tradição católica.
Em 2025, a celebração religiosa do novenário foi oficialmente reconhecida como Patrimônio Histórico Cultural Imaterial do Estado. Aprovado pelo Conselho Estadual de Patrimônio, o festejo foi o primeiro do estado a receber o reconhecimento.

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Durante os 11 dias do novenário, os fiéis participam de uma programação que inclui novenas, missas, procissões com crianças e uma tradicional feira do empreendedor. Além disso, os fiéis também participam de eventos como a corrida da Glória, a caminhada da juventude com Maria e a missa para idosos e doentes.
A Catedral de Nossa Senhora da Glória, um dos cartões-postais de Cruzeiro do Sul, serve como ponto de partida para as romarias reunindo diversos fiéis em torno da padroeira.
Procissão de São Sebastião em Xapuri

A procissão de São Sebastião, uma tradição religiosa centenária, é celebrada no dia 20 de janeiro e é a segunda maior manifestação religiosa do Acre, possuindo mais de 123 anos de importância para os devotos.
A tradição antecede até mesmo a anexação do Acre ao Brasil, tendo a sua primeira procissão antes de janeiro de 1902, quando Xapuri ainda era chamada Vila Mariscal Sucre e estava sob domínio boliviano.
A fé dos devotos já se manifestava e marcava presença muito antes das disputas que resultaram na Revolução Acreana. A imagem do santo foi instalada em 1912 às margens do Rio Acre e se tornou um símbolo de proteção e devoção na região.
No novenário, iniciado no dia 11 de janeiro e com encerramento no dia 20, os devotos participam de novenas, missas e da grande procissão que percorre as ruas da cidade.
Círio de Nazaré no Rio Branco
O Círio de Nazaré no Rio Branco, inspirado na tradicional celebração paraense, é realizado no segundo domingo de outubro e reúne diversos devotos na capital acreana.
A celebração religiosa é marcada por diversos rituais, como a troca do manto da Imagem Peregrina, realizado no dia anterior ao Círio, e que simboliza a realeza de Maria e a renovação espiritual do ciclo da fé.
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No dia da celebração, às margens da Gameleira, na capital acreana, a imagem de Nossa Senhora de Nazaré chega em uma procissão fluvial, ao encontro com a imagem de Jesus de Nazaré que a espera em terra, simbolizando a proteção e a esperança dos devotos.
Após a procissão fluvial, a imagem segue em uma procissão terrestre até a Catedral de Nossa Senhora de Nazaré. Os fiéis realizam o percurso com velas, cantos e orações, pagando promessas e agradecendo as graças recebidas.
Festejo de Nossa Senhora da Seringueira

A festa religiosa de Nossa Senhora da Seringueira, também chamada de Nossa Senhora do Acre, é celebrada em duas datas importantes: no dia 27 de janeiro e no dia 17 de novembro. A imagem, uma pintura representando a Virgem Maria com o Menino Jesus em um braço e um ramo de seringueira no outro, pintada por um indígena boliviano que acreditava ter visto uma aparição da santa, simboliza a ligação entre a fé, o trabalho e a resistência.
Os devotos da imagem acreditam que a tela teria sido usada como tentativa de emboscada por tropas bolivianas durante a Revolução Acreana e, apesar de não haver registros documentais, a fé permanece entre os devotos e marcas de bala realmente podem ser vistas na pintura.
Atualmente, a imagem restaurada encontra-se na Catedral de Nossa Senhora de Nazaré, Rio Branco, construída entre 1948 e 1958 pelo bispo Dom Júlio Mattioli.
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Festa de São João do Guarani em Xapuri
A festa de São João do Guarani em Xapuri, celebrada no dia 24 de junho, na Reserva Extrativista Chico Mendes, a 42 km da área urbana de Xapuri, expressa a relação espiritual entre o povo da floresta e o território em que vive.
A festa reúne diversos devotos que percorrem estradas de terra e trilhas na mata para homenagear o santo considerado protetor da comunidade, mesmo sem ser canonizado pela Igreja Católica.

São João do Guarani está ligado à vida de um seringueiro que viveu mais de 100 anos atrás na Colocação Guarani e, que depois de adoecer e tentar buscar ajuda na cidade, morreu no caminho. Seu corpo foi encontrado dias depois e foi sepultado onde atualmente está localizado o santuário e a imagem, que recebe centenas de promessas todos os anos.
A devoção religiosa a João do Guarani teve origem com relatos de caçadores e trabalhadores da floresta que afirmavam ter sido salvos pela intercessão do ‘santo’, o que aumentou a crença popular, e a fama de suas graças se espalhou pela região. Atualmente, a festa conta com a realização de um missa, uma procissão pela floresta, quermesses e bingos.
*Por Rebeca Almeida, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar
