Cãoera, o “morcegão” da Amazônia. Imagem gerada por IA
A Amazônia carrega histórias que nascem da relação entre a floresta e os povos que vivem nela. Entre essas memórias, se encontram as lendas, que são passadas de geração em geração, criadas a partir da convivência com a natureza e dos mistérios da mata. Entre esses relatos está uma lenda muito conhecida pelo povo indígena Mura, no Amazonas, que causa arrepios e amedronta quem escuta.
Essa criatura é descrita como uma espécie de morcego muito grande, da proporção de um urubu, e consegue sugar todo o sangue de quem está dormindo, sem que a pessoa acorde e, em seguida, a devora, segundo o relato registrado no livro “Mito da Amazônia”, uma coletânea de histórias sobre a mitologia da Amazônia, de Franz Kreuther.
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Cãoera, o ‘morcegão’
Essa espécie de ‘morcegão’ é chamada ‘Cãoera’ pelos Muras. “É homem, é fera, é criatura das trevas, com o machado de pedra pra guerra, na espreita obscura vai te devorar”, resume esse trecho da toada ‘Cãoera’, do Boi-bumbá Caprichoso, sobre o morcego.

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Ainda na toada do boi preto de Parintins, os versos contam como o Cãoera ataca os indígenas do baixo Amazonas: “Maculados, muras condenados, o sangue que corre em tuas veias é saciado por vampiros da noite”.
Na música, o morcego pode ser combatido pelos caçadores Xamã, líderes espirituais e curandeiros tradicionais em culturas indígenas, agindo como intermediários entre o mundo físico e espiritual. “Caçadores Xamã, o teu canto devoto evoca o nascente para expulsar; cãoera arde, cãoera foge”, diz o verso escrito por Elton Cabral, Fellipe Cid e Mayra Cavalcante.
Segundo o livro, o Cãoera habita os buracos na terra e surge quando se faz algumas atividades chamativas, como cozinhar o jabuti com outras carnes no meio do mato, ou quando se queima pelos ou penas de animais na floresta, conforme a obra. Ele também pode surgir quando se joga espinha de peixe nos rios ou até quando se grita na mata, conforme o registro no livro.
Seu cardápio também inclui cabeças de gado, as quais ele é capaz de suspender e voar com elas até o alto dos montes, onde as devora por completo, deixando apenas seus ossos para trás.
Ouça a toada:
*Por Karla Ximenes, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar
