Pacaraima, a cidade roraimense que recebe venezuelanos em meio à crise do país vizinho

Localizada na fronteira de Roraima com a Venezuela, a cidade brasileira de Pacaraima há anos tem acolhido venezuelanos em meio à crise no país vizinho.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

No extremo Norte de Roraima, uma cidade brasileira que faz fronteira com a Venezuela tem sido o primeiro local do Brasil a sentir os reflexos da crise política, econômica e humanitária existente no país vizinho. Pacaraima.

Localizada na fronteira entre os dois países, a 215 quilômetros de Boa Vista, Pacaraima já conta com mais de 1,1 milhão de migrantes venezuelanos que entraram no país desde 2015, transformando a rotina da cidade. De acordo com estimativas do Censo 2022, o município possui cerca de 19 mil habitantes.

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Fronteira Brasil-Venezuela
Fronteira do Brasil com a Venezuela. Foto: Caíque Rodrigues/Rede Amazônica RR

O estouro da crise na Venezuela mudou a rotina de Pacaraima. Só em 2025, a cidade recebeu mais de 96 mil novos migrantes venezuelanos introduzidos na rotina do município. Foram mais de 11 mil venezuelanos entrando por Pacaraima em outubro do ano passado, segundo dados do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra).

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A Prefeitura de Pacaraima informou que a cidade segue em tranquilidade, com comércio funcionando normalmente e sem alterações na rotina. A gestão municipal afirmou que “acompanha os desdobramentos e mantém diálogo com as forças de segurança”.

Parte do cotidiano da cidade

Centro comercial de Pacaraima. Foto: Nalu Cardoso/Rede Amazônica RR

Desde 2015, Pacaraima vivencia uma transformação sem precedentes com a crise econômica e social instalada no Venezuela, que ocasionou um grande fluxo de pessoas venezuelanas cruzando a fronteira em direção ao Brasil. Muitos chegam a pé, carregando mochilas, sacolas e trazendo crianças, em busca de alimentação, trabalho e atendimento básico de saúde.

José González, de 48 anos, natural de Maturín, no leste da Venezuela. Foto: Ailton Alves/Rede Amazônica RR

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É nesse contexto que chegaram recentemente migrantes como José González, de 48 anos, natural de Maturín, no leste da Venezuela. Trabalhador autônomo, ele entrou no Brasil três dias antes dos novos desdobramentos políticos no país vizinho. Ele afirma que a decisão de sair da Venezuela não está relacionada a rejeição ao país de origem, mas à dor de deixar um lugar que já não oferece segurança.

“O fato de estarmos aqui é porque a situação nos levou a esses extremos. Não é que a gente se sinta rejeitado pelo país, não. O que a gente sente é dor pelo nosso país. A Venezuela nos dói”, disse.

Segundo ele, a instabilidade não se restringe a uma região específica. Ao falar sobre a notícia do ataque e da captura de Maduro, José diz ter sentido medo e incerteza, mas também esperança de uma solução diplomática. “O que a gente espera agora é que tudo se resolva da melhor maneira, pelo diálogo. Quem sofre sempre é o povo inocente”, afirmou.

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Ponto de ruptura

Em agosto de 2018, episódios de violência e confronto entre brasileiros e venezuelanos marcaram um dos momentos mais críticos da história recente da cidade. Ruas ficaram vazias, comércios fecharam as portas e Pacaraima ganhou projeção nacional como símbolo das dificuldades enfrentadas por municípios de fronteira diante de um fluxo migratório intenso.

À época, o município passou a ser descrito como um “território em tensão constante”.

Local onde antes havia acampamento de venezuelanos às margens da BR-174 agora tem só restos de objetos queimados — Foto: Jackson Félix/G1 RR

Operação Acolhida

Ainda em 2018, foi criada a Operação Acolhida. Comandada pelo Exército do Brasil, a iniciativa estruturou a triagem, a vacinação, a regularização de documentos e a interiorização de migrantes para outros estados do país.

Pacaraima passou a conviver de forma permanente com a presença de abrigos, equipes de saúde, militares e organizações humanitárias. Mesmo assim, muitos venezuelanos seguem vivendo fora das estruturas oficiais, alugando quartos, ocupando imóveis ou trabalhando no comércio local.

Cerca de 400 migrantes venezuelanos esperam em posto de triagem da Operação Acolhida em Pacaraima — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR

Fronteira fechada e ajuda humanitária

Em 2019, caminhões com ajuda humanitária partiram de Boa Vista em direção à fronteira, enquanto o fechamento temporário intensificou o uso de rotas ilegais, conhecidas como trochas.

Histórias de crianças venezuelanas que cruzavam a fronteira por caminhos alternativos para estudar em escolas brasileiras passaram a chamar atenção para a complexidade do fenômeno migratório.

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Pacaraima hoje em dia

Pacaraima passou por um processo de adaptação. A cidade foi a que mais cresceu proporcionalmente em Roraima na última década, impulsionada principalmente pela migração.

Com o trânsito de migrantes, a cidade atingiu uma taxa de adesão ao PIX de 550%, segundo o levantamento “Geografia do PIX”, da FGV, que mapeou em todo o país o uso desse meio de pagamento criado pelo Banco Central. São 106 mil pessoas usando a ferramenta, em média, a cada mês, para 19 mil habitantes.

Hoje, o espanhol é ouvido com frequência nas ruas, e venezuelanos trabalham em supermercados, restaurantes, oficinas, hotéis e no comércio informal.

Centro comercial de Pacaraima. Foto: Nalu Cardoso/G1 RR

Elizabeth Rincón, de 39 anos, é uma dessas migrantes. Ela chegou em Pacaraima há menos de um mês, deixou familiares na Venezuela e diz que os primeiros dias no Brasil foram marcados pela apreensão. Vivendo longe do país natal, ela afirma que o futuro da Venezuela segue incerto e que a saída de Maduro não traz, por si só, segurança.

“Não me sinto aliviada, porque não sabemos o que vai acontecer agora. Tiraram Maduro, e depois? A gente não sabe. Deixamos tudo nas mãos de Deus. Fiquei triste, porque me disseram que tinha acontecido uma explosão, que a situação estava grave. Minha mãe está lá”, disse.

Migrante venezuelana que vive em Pacaraima, na fronteira com a Venezuela — Foto: Ailton Alves/Rede Amazônica

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Ela afirma que conseguiu falar com a família e se acalmou parcialmente após saber que os episódios se concentraram em regiões específicas.

“Consegui falar com minha mãe cedo, e ela disse que estava tudo normal, que tinha sido mais em Caracas. Isso me aliviou um pouco”, contou.

*Por Caíque Rodrigues e Ailton Alves, da Rede Amazônica RR

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