Foto: Caíque Rodrigues/Rede Amazônica RR
Passadas três semanas da intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela, ocorrida no dia 3 de janeiro, o fluxo migratório de venezuelanos para o Brasil não teve grandes movimentações. Apesar da tensão instalada no país vizinho com a captura do presidente Nicolás Maduro pelo exército norte-americano, o cenário se manteve calmo na fronteira entre as duas nações.
Para entender a situação, o Portal Amazônia conversou com o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal de Roraima (UFRR), João Carlos Jarochinski, que explicou os motivos da operação americana não ter grandes reflexos no fluxo migratório venezuelano para o território brasileiro.
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Ação “muito pontual”
O especialista conta que a ação norte-americana focou somente na captura de Nicolás Maduro, com isso, não impactou diretamente no regime de governo e no cotidiano do país. Com isso, o fluxo migratório não chegou a ser afetado.
“A intervenção foi muito pontual, teve a extração do Maduro e não aconteceram outras ações. Então, do ponto de vista do funcionamento cotidiano do país, foi um cenário de continuidade, o mesmo grupo que já dominava o país vinculado ao Maduro permanece no poder, portanto não houve nenhuma alteração drástica de governo”, pontuou o professor.

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Ausência de atos violentos
De acordo com Jarochinski, a ausência de atos violentos ou conflitos internos que gerassem violência no país venezuelano também contribuiu para a baixa movimentação no fluxo migratório, mesmo em meio a crise humanitária, social e econômica que afeta o país.
“Não houve elementos como explosões de violência ou conflitos internos violentos, que geraria um fator de saída muito significativo, ou algum tipo de piora na qualidade de vida como a falta de acesso a alimentos de forma abrupta. Tem reclamações do processo inflacionário, mas nada que seja algo que influencie na saída forçada do país”, comentou Jarochinski.
No entanto, o clima de instabilidade que paira sob a Venezuela ainda causa apreensão tanto para os venezuelanos quanto para os países vizinhos. Para o professor, a repressão no país tem sido um das maiores preocupações.
“A repressão tem sido um fator crucial para uma análise sobre o fluxo migratório. Ao mesmo tempo que você tem um número de presos políticos sendo libertados, há o aumento da repressão no espaço urbano, tem a imprensa que vem sendo perseguida pelas autoridades. As pessoas estão se sentindo inseguras de circular na cidade, há relatos de gente dizendo que parece a época da pandemia, ou seja, há um certo medo no ar gerado pela instabilidade”, destacou.
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Relação Brasil x Venezuela
Por fim, João Carlos Jarochinski enfatiza que, em caso de eventuais casos extremos vierem a acontecer, o Brasil manterá a sua política de receptividade em relação aos venezuelanos, diante da possibilidade do aumento do fluxo migratório.
“Há de se destacar que essa recepção aos venezuelanos pode ser chamada de política de Estado, porque já tivemos diferentes governos que acabaram mantendo ações como a Operação Acolhida. O Brasil reconhece a situação social complexa que vive a Venezuela, mas em caso de uma instabilidade em virtude de violência ou dificuldade econômica, o Brasil sem dúvida deve manter sua prática de regularização migratória”, finalizou.
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A Operação Acolhida, citada pelo professor, é a força-tarefa do Exército Brasileiro criada em 2018 pelo Governo Federal para o acolhimento e interiorização de migrantes venezuelanos no Brasil, bem como o ordenamento da fronteira. De lá para cá, mais de 150 mil venezuelanos foram interiorizados em meio a 1.100 municípios brasileiros.

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O Portal Amazônia entrou em contato com o Exército Brasileiro para obter mais informações acerca dos números relativos ao fluxo migratório dos venezuelanos para o Brasil, mas ainda não teve retorno. O espaço segue aberto para atualizações.
