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Expedição na Amazônia investiga disseminação de vírus emergentes e reemergentes

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Foto: Divulgação

Pesquisadores do projeto Rede Pampa – uma parceria entre a Unicamp, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Instituto Evandro Chagas – embarcaram nesta terça-feira (25) para mais uma expedição na Amazônia, ao longo da rodovia BR-319, que liga Porto Velho (RO) a Manaus (AM).

A iniciativa investiga a disseminação de vírus emergentes e reemergentes em regiões impactadas pela degradação ambiental. Além disso, realiza ações de promoção de saúde para ampliar a resiliência da população local e prevenir surtos ou surgimento de doenças.

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De 24 de novembro a 15 de dezembro, a equipe irá percorrer um trecho não pavimentado de cerca de 600 km da rodovia. O estudo avalia possíveis impactos para a saúde de um projeto em andamento de restauração da estrada. Isso porque, conforme o pesquisador da Fiocruz Amazônia Pritesh Lalwani, obras de infraestrutura são comumente acompanhadas de um aumento de doenças infecciosas nas suas proximidades.

O projeto, contemplado com financiamento da iniciativa Amazônia+10, realiza viagens regulares à região desde 2023, a fim de monitorar os vírus e as doenças em circulação e coletar amostras de sangue de humanos e animais domésticos, além de amostras de insetos. Agora, pela primeira vez, serão coletados, também, animais selvagens de pequeno porte, como roedores e marsupiais.

Resultados preliminares indicam a presença de enfermidades como febre oropouche, febre mayaro, leptospirose, leishmaniose, malária, hantavirose, dengue e chikungunya na região amazonense. Outro braço do projeto analisa os efeitos da mineração na região de Carajás (PA).

Leia também: Levantamento da Fiocruz Amazônia indica infecção recente de febre Oropouche em parte da população ao longo da BR-319

Coordenador do Laboratório de Estudos de Vírus Emergentes (LEVE) da Unicamp, José Luiz Modena destaca que intervenções em ambientes com alta biodiversidade, como a Floresta Amazônica, aumentam o contato com microrganismos, conhecidos ou desconhecidos, que podem provocar novas doenças.

Além da obra na BR-319, a localidade também sofre os impactos do aumento populacional, da expansão da agropecuária e do desmatamento – que, por sua vez, enfraquecem a biodiversidade e facilitam a adaptação e a circulação de patógenos (vírus, bactérias e outros microrganismos capazes de causar doenças em seres vivos).

“Como minimizar isso? Promover qualidade de vida, diagnósticos imediatos e vigilância em tempo real das populações impactadas”, defende o pesquisador.

A partir dessa pesquisa, a ideia é criar estratégias de saúde para lidar com as alterações ambientais, que também podem ser provenientes das mudanças climáticas. O estudo pode, ainda, servir de modelo para implementação de políticas públicas em outras áreas com características similares.

Segundo os pesquisadores, novos resultados devem ser divulgados em meados de 2026, ano de encerramento do projeto. Porém, Lalwani afirma que o objetivo do grupo é buscar novos financiamentos para a manutenção do trabalho na região, agregando especialistas de diferentes áreas a fim de levar soluções que integrem meio ambiente e saúde humana e animal.

Fauna diversificada na Amazônia

Livia Sacchetto, virologista e pós-doutoranda no LEVE, viajará pela primeira vez com o projeto e auxiliará na instalação de 200 armadilhas para coleta de roedores: “Meu trabalho é focado na caracterização desses vírus que podemos encontrar tanto nos humanos, quanto nos animais selvagens e mosquitos”.

Uma questão que chamou a atenção dos pesquisadores, destaca Sacchetto, foi a identificação não somente em humanos, mas também em animais, de soropositividade (anticorpos) para o vírus oropouche, que teve reemergência recente no Brasil a partir de uma nova variante. Transmitido por um mosquito chamado de maruim, esse vírus causa uma doença com sintomas similares à dengue.

Resultados preliminares projeto rede pampa na amazônia
Nas nova expedição pela Amazônia a proposta é distribuir 200 filtros de água doados, fornecer capacitação para utilizá-los e realizar oficinas sobre esgotamento sanitário. Foto: Divulgação

A pesquisadora explica que, com os dados das espécies encontradas – se são silvestres ou urbanas – e dos patógenos identificados, será possível estudar a interação dos humanos e animais domésticos com o ambiente da floresta.

As análises das amostras são feitas de forma integrada, divididas entre a Fiocruz Amazônia, o Instituto Evandro Chagas e a Unicamp. “Em Campinas, estamos fazendo uma parte que depende de isolamento e manipulação de vírus viável, de neutralização de partículas infectivas”, esclarece Modena.

Programa de extensão

O percurso da expedição na Amazônia começa pela comunidade de Igapó-Açu, passa por diversos povoados e propriedades às margens da rodovia e termina no distrito de Realidade, em Humaitá – que experimentou um grande crescimento nos últimos anos.

O que começou como um projeto de vigilância em saúde caminha para se tornar um programa interdisciplinar, por meio de uma iniciativa da Pró-Reitoria de Extensão, Esporte e Cultura (ProEEC/Unicamp). Em Igapó-Açu, a expedição atual promoverá, além das atividades de pesquisa, ações de saúde e saneamento básico.

Em dezembro de 2024, as engenheiras Luana Mattos de Oliveira Cruz, docente da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo (Fecfau), e Viviane Pereira Alves, doutoranda na Unicamp, foram à comunidade pela primeira vez para realizar um diagnóstico da situação relacionada à água, ao esgoto e aos resíduos sólidos.

“Chegamos com uma estrutura de questionário montada, e lá precisamos reconfigurar tudo, porque é um contexto absolutamente diferente do que conhecemos”, conta Alves.

A doutoranda relata que há graves problemas de saneamento básico, poucas casas com esgotamento sanitário e um risco de contaminação do rio Igapó-Açu, que fornece água para consumo. Além disso, o armazenamento dos resíduos sólidos para coleta e disposição final também é um desafio, pois atrai roedores.

Essas questões se conectam ao objeto da pesquisa em andamento. “Isso se reflete no fato de estarmos encontrando casos de leptospirose, de doenças sabidamente transmitidas por roedores domésticos. Temos também uma taxa muito alta de soroconversão nas pessoas [indivíduos com anticorpos detectáveis para determinada doença] para agentes que são transmitidos por roedores silvestres, como hantavírus”, afirma Modena.

A equipe extensionista retorna, nessa nova expedição, com uma proposta diferente de trabalho: distribuir 200 filtros de água doados, fornecer capacitação para utilizá-los e realizar oficinas sobre esgotamento sanitário. A ideia é de “entender quais soluções tecnológicas – secas ou que usam recursos hídricos – a comunidade prefere. Vamos envolver a população de forma participativa para que eles escolham se gostariam de ter esse sistema piloto instalado nas suas casas”, explica Alves.

Igapó-Açu foi escolhida porque está localizada em uma área que sofre alagamentos intensos em um período do ano e secas severas em outro.

“Se conseguirmos solucionar a questão nesse local, conseguiremos replicar para outros lugares”, diz a doutoranda.

Adicionalmente, a equipe de pesquisa também atua na educação em saúde, divulgando cartazes e jogos infantis com explicações sobre as doenças infecciosas e sua prevenção. “Essa é a nossa devolutiva à comunidade”, reitera Lalwani. Os pesquisadores visam, ainda, estabelecer parcerias com as prefeituras da região para levar alternativas de acesso à saúde, como a telemedicina.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal da Unicamp, escrito por Helena Tallmann

Amapá desperdiça mais da metade da água tratada, mostra estudo

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Falhas graves na medição e cobrança do consumo de água tratada no Amapá foram detectadas pelo estudo realizado pelo Instituto Trata Brasil. Foto: Igor Jácome/Rede Amazônica AP

Amapá desperdiça 53,7% da água tratada antes de chegar às torneiras, segundo o Estudo de Perdas de Água 2025, divulgado dia 24 pelo Instituto Trata Brasil em parceria com a consultoria GO Associados. O levantamento, com base em dados de 2023, mostra que o estado está entre os piores do país, muito acima da média nacional de 40,3%.

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Amapá desperdiça mais da metade da água tratada, mostra estudo
Foto: Reprodução/Instituto Trata Brasil

A capital, Macapá, também aparece em destaque negativo: perdeu 53,5% da água tratada distribuída em 2023, ocupando a 91ª posição entre os 100 maiores municípios brasileiros. O índice está distante da meta de excelência estabelecida pelo Ministério do Desenvolvimento Regional, que prevê perdas de até 25% até 2034.

Na prática, mais da metade da água tratada produzida no estado não chega às casas dos moradores. O estudo aponta falhas graves na medição e cobrança do consumo, já que o Amapá apresentou índice negativo no faturamento de água, o que é considerada uma situação rara e crítica.

Em todo o Brasil, o desperdício de água tratada chegou a 5,8 bilhões de metros cúbicos em 2023. O volume equivale a mais de 6 mil piscinas olímpicas por dia e seria suficiente para abastecer cerca de 50 milhões de pessoas por um ano.

Além do Amapá: Norte precisa de atenção

As regiões Norte (49,7%) e Nordeste (46,2%) lideram os índices de perdas. Entre os estados, Alagoas (69,8%), Roraima (62,5%) e Acre (62,2%) registram os piores resultados.

Leia também: Região Norte ainda vive cenário crítico de saneamento básico, aponta levantamento do Trata Brasil

Segundo o Instituto Trata Brasil, as perdas elevadas pressionam os mananciais e aumentam os custos de produção. Além disso, dificultam o acesso à água em comunidades vulneráveis. No país, cerca de 34 milhões de pessoas ainda vivem sem abastecimento regular.

No caso do Amapá e de Macapá, a situação reforça a necessidade de investimentos em infraestrutura e gestão eficiente, segundo o estudo. Sem isso, o desperdício continuará agravando a crise hídrica e comprometendo o abastecimento da população.

Perdas de água
Foto: Reprodução/Instituto Trata Brasil

Leia também: Saneamento que transforma: como a distribuição de água e tratamento de esgoto impulsionam o turismo em Manaus

Entre os 100 maiores municípios, apenas 13 atingiram a meta considerada ‘excelente’ de perdas abaixo de 25%. A capital do Amapá, Macapá, aparece no grupo dos piores resultados, ao lado de capitais como Belém (61,9%), Rio Branco (56%) e Maceió (71,7%).

O estudo mostra que o Brasil tem um longo caminho para reduzir as perdas de água. A meta de 25% até 2034 exige ações urgentes para garantir água potável e enfrentar os efeitos das mudanças climáticas.

*Por Rafael Aleixo, da Rede Amazônica AP

Queimadas podem reduzir expectativa de vida em até 2 anos no Acre, aponta pesquisa

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Acre reforça situação de emergência ambiental por conta de agravamento da seca. Foto: Marcos Vicentti/Secom AC

As queimadas podem reduzir, em até dois anos, a expectativa de vida dos moradores do Acre. Isto é o que afirma uma pesquisa divulgada pela organização ambiental Greenpeace Brasil no início de novembro, com base em dados de poluição registrados de 2019 a 2023.

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O relatório mostra como a poluição do ar cresceu em áreas importantes da Amazônia, ameaça a saúde das pessoas e acelera as crises do clima e da biodiversidade.

inda segundo os dados, pesquisadores do projeto Índice de Qualidade do Ar e Vida (AQLI), da Universidade de Chicago, constataram que os estados do Acre e Amazonas tiveram média de 30 microgramas por metro cúbico (µg/m³). Veja a série histórica de 2019 a 2023:

  • 2019 – 33,4 µg/m³
  • 2020 – 35,0 µg/m³
  • 2021 – 30,1 µg/m³
  • 2022 – 34,9 µg/m³
  • 2023 – 30,9 µg/m³

Tais dados se referem ao material particulado fino no ar, medido ao longo de um ano e expresso em microgramas por metro cúbico. A título de comparação, a Organização Mundial de Saúde (OMS) considera aceitável 15 µg/m3.

Os pesquisadores também avaliaram que o nível médio anual de PM2,5 (µg/m³) no Acre chegou a 32,8.

Leia também: Rondônia registra menor número de queimadas da história em 2025

Queimadas podem reduzir expectativa de vida em até 2 anos no Acre, aponta pesquisa
Queimadas passam de 8,6 mil focos entre agosto de 2024 e 2025 no Acre. Foto: Reprodução/Rede Amazônica Acre

Impactos negativos das queimadas na saúde e bem estar

Segundo especialistas das áreas de saúde e meio ambiente ouvidos pelo Grupo Rede Amazônica, o fogo tem impacto direto na redução da qualidade do ar por conta de gases poluentes que resultam da queima de vegetação.

Ainda segundo Sonara, as queimadas na região da Amazônia tem se tornado cada vez mais frequentes, o que torna o fato motivo de preocupação.

“Apesar de sempre ocorrer, eram em intervalos maiores, e com os nossos estudos, é comprovado que esses incêndios tem se tornado muito mais frequentes, afetando uma quantidade de áreas cada vez maior”, afirmou a doutora em ciências de florestas tropicais, Sonaira Silva.

Para o médico infectologista Eduardo Farias, o cenário potencializa o surgimento de doenças que podem ocasionar infarto e Acidente Vascular Cerebral (AVC).

“Nesses locais acontece a ação de doenças respiratórias crônicas como asma, rinites e bronquite, sobretudo nas queimadas urbanas, que têm pneus velhos e produtos biológicos. Pessoas que moram perto de lixões podem desenvolver até câncer, com o tempo, por conta das partículas cancerígenas que são jogadas para a atmosfera”, complementou.

Mesmo em um cenário de redução do registro de focos de incêndio no último ano, o estudo aponta que a ocorrência de queimadas aumenta a quantidade de carbono na atmosfera, o que propicia mudanças climáticas e intensifica o efeito estufa.

O estudo também mostrou que a região Amacro, localizada entre os três estados do Amazonas, Acre e Rondônia, também conhecida como a ‘fronteira do desmatamento’, mostra que a prática das queimadas estão aumentando ao longo das estradas existentes e na abertura de novos ramais.

“Com a pesquisa, também registramos os depoimentos de comunidades, líderes locais e populações diretamente afetadas. Entre os principais efeitos observados estão os conflitos fundiários resultantes do avanço do desmatamento, a interrupção das atividades diárias e os problemas de saúde associados à inalação de fumaça”, destacou o levantamento do Greenpeace Brasil.

*Por Walace Gomes, da Rede Amazônica AC

Projeto mapeia biodiversidade de territórios indígenas na Amazônia

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Foto: Divulgação

O projeto ‘Vozes da Amazônia indígena: processos históricos da sociobiodiversidade frente aos desafios do Antropocentro’, contemplado pela chamada expedições da iniciativa Amazônia +10, reúne pesquisadores para um estudo inédito sobre a biodiversidade amazônica e suas interações com os povos originários ao longo do tempo.

Apoiado pela Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa), o estudo tem a parceria dos povos indígenas de três regiões de alta relevância socioambiental: o Alto Rio Negro, no Estado do Amazonas; a Terra Indígena Alto Xingu, no Estado do Mato Grosso: e a Terra Indígena Kayapó, no Estado do Pará. 

Leia também: Iniciativa Amazônia+10 apresenta resultados, com impactos positivos na região

Projeto mapeia biodiversidade de territórios indígenas na Amazônia
Foto: Divulgação

O projeto integra as ciências humanas e biológicas com os conhecimentos tradicionais, ampliando a eficiência da produção de conhecimento sobre a Amazônia. A coordenadora das pesquisas no Pará, doutora Helena Pinto Lima é arqueóloga do Museu Emilio Goeldi (MPEG), e conta com parcerias do CNPq e FAPs.

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Integram a equipe de pesquisadores responsáveis: Filippo Stampanoni Basi, do Museu da Amazônia (MUSA); Jennifer Watling, da Universidade de São Paulo (USP); Bruna Franchetto do Museu Nacional/Universidade Federal do Rio de Janeiro (MN/UFRJ); Thiago Chacón, da Universidade de Brasília (UnB); e Manuel Arroyo-Kalin, da University College London (UCL).

Foto: Divulgação

Em Belém, durante a 30ª Conferência Mundial sobre as Mudanças do Clima (COP30), evento encerrado no dia 22 deste mês, a pesquisadora Helena Lima participou do painel Iniciativa “Amazonia +10: três anos fortalecendo Ciência e Inovação na Amazônia”, no espaço Estação Amazônia Sempre, no Museu Emílio Goeldi.

🌱💻 Saiba mais sobre a COP30 aqui

Também participaram do painel, o diretor-presidente da Fapespa, Marcel Botelho e Ellen Acioli, representante do Banco Interamericano de Desenvolvimento (Grupo BID). A conversa contemplou dados e resultados das chamadas do programa Amazonia +10 em três anos de atuação da iniciativa, que promove Ciência, tecnologia e inovação na região Amazônica.

Projeto une ciência e saber ancestral, a partir da vivência do dia a dia dos povos indígenas. Foto: Divulgação

“Nós acreditamos que os maiores conhecedores desses territórios são os próprios povos e as próprias comunidades. Trazendo uma ponte de diálogo entre o conhecimento científico produzido na academia, o conhecimento das ciências humanas, o conhecimento das ciências da natureza junto das ciências indígenas. Então, nós acreditamos que nós podemos criar soluções para os desafios que cada um desses territórios e que a Amazônia enfrenta como um todo”, detalha a arqueóloga.

Leia também: Estudo da Fapespa vai mostrar realidade dos 144 municípios do Pará

Ela ressaltou que esses territórios destacam-se pela diversidade biológica e pelas complexas configurações étnicas, históricas e culturais.

Cada região abriga conhecimentos etnobiológicos específicos, acumulados por gerações de povos indígenas que desenvolveram modos próprios de manejo e convivência com a floresta.

Foto: Divulgação

O projeto que está no seu primeiro ano de execução, tem como ações previstas: inventários biológicos em áreas pouco conhecidas pela ciência, mapeamentos participativos, com uso de sensoriamento remoto, trocas de conhecimentos com comunidades indígenas e registros de mudanças ambientais causadas por atividades humanas ao longo do tempo. E, futuramente, como resultado, a produção colaborativa de documentação etnográfica, linguística e sociocultural. 

Ancestralidade 

A iniciativa busca unir ciência e saber ancestral na defesa da Amazônia e de seus povos, oferecendo novas perspectivas para enfrentar os desafios do Antropoceno, em um contexto de crise socioambiental e mudanças climáticas que ameaçam florestas, recursos naturais e modos de vida tradicionais.

Foto: Divulgação

A abordagem permitiu uma análise em larga escala da diversidade biológica e cultural da região, contribuindo para reduzir lacunas no conhecimento científico sobre áreas bem preservadas, mas ainda pouco estudadas da Amazônia Legal. Os estudos incluirão descrições de novas espécies, revisões taxonômicas, análises genéticas e modelagens da distribuição e riqueza da fauna e flora locais.”

Assim, a produção de conhecimento e o impacto social do projeto deve aumentar bastante ao longo do seu desenvolvimento”, informa a pesqusadora.

Para Helena Lima, “o maior propósito é trabalhar junto em parceria com as comunidades, com cientistas em locais, trazendo esses diálogos. Entre diferentes formas de construir conhecimentos, mapeando os desafios para cada território e construir juntos, local e contextualmente, soluções para cada um desses territórios. Nós trabalhamos a partir da perspectiva da biodiversidade ou da sociobiodiversidade, ou seja, a relação dos plantas e animais com os povos e comunidades, a partir da longa duração”.

Foto: Divulgação

Iniciativa Amazônia +10 

A Chamada Expedições Científicas contou com a participação de 19 FAPs, o CNPq e 4 agências internacionais: o British Council e o UK Research and Innovation (UKRI), a Swiss National Science Foundation (SNSF) e o Centro Universitário da Baviera para a América Latina (Baylat).

A proposta mobilizou mais de 1.400 pesquisadores de 181 instituições de ciência e tecnologia (ICT). No total, foram 24 agências financiadoras, 22 projetos selecionados, em um valor de aproximadamente R$ 76 milhões, e o total de recursos disponibilizado pela chamada foi de aproximadamente R$ 95 milhões. 

“A partir da pesquisa arqueológica, nós estamos, também, mapeando a profundidade temporal desses conhecimentos e dessas tecnologias, conhecer a fundo tecnologias que são milenares e que podem ser soluções para o nosso futuro aqui na Amazônia”, avalia a pesquisadora.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Fapespa, escrito por Jeisa Nascimento (estagiária sob supervisão da jornalista Manuela Oliveira)

Estudantes paraenses criam painéis ecológicos e levam projeto à final de prêmio nacional

Foto: Divulgação

A Escola Estadual Padre Marino Contti, do município de Mãe do Rio, nordeste paraense, é destaque nacional como uma das finalistas da 12ª edição do Solve for Tomorrow Brasil, programa de Cidadania Corporativa da Samsung Brasil, que incentiva estudantes e professores da rede pública a desenvolverem soluções inovadoras baseadas na abordagem STEAM (Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática), voltadas às demandas reais das comunidades.

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Com o projeto ‘Produção de painéis ecológicos a partir de compósito residual formado pelas cascas da mandioca e de ovos de galinha’, desenvolvido pelos estudantes Caíke Pinheiro, Kaio Vinícius e Paulo Kleber, sob orientação do professor Antônio Denílson da Silva, o trabalho propõe a criação de painéis acústicos e decorativos produzidos a partir de resíduos específicos.

O professor Antônio Denílson, orientador, explica: “o projeto aproveita resíduos das cascas de mandioca e de ovos de galinha para a produção de painéis ecológicos acústicos e decorativos, com o objetivo de promover o bem-estar de estudantes com TEA no ambiente escolar. Participar do prêmio representa uma conquista de grande relevância para a Escola Padre Marino Contti. Apesar de todos os desafios enfrentados, chegamos entre os finalistas de um dos maiores prêmios de inovação, ciência e sustentabilidade do País”.

Estudantes paraenses criam painéis ecológicos e levam projeto à final de prêmio nacional.
Foto: Divulgação

Leia também: Resíduos gerados durante a produção de polpas de cupuaçu podem ser utilizados para produção de biocarvão

É o único projeto de uma escola pública estadual do Pará nos dez finalistas, selecionados entre 3.600 propostas inscritas em todo o Brasil.

A equipe agora concorre ao título de ‘Projeto Destaque’ pelo Júri Popular, com votação aberta até o dia 28, permitindo votos ilimitados no site oficial do programa. Assista a proposta:

Nesta edição, as regiões Norte e Nordeste se destacaram, com três e quatro equipes de estudantes finalistas, respectivamente. O Pará liderou nacionalmente entre os Estados, com projetos selecionados de Marabá e Mãe do Rio.

Confira os demais projetos de estudantes da Amazônia Legal que também concorrem ao prêmio:

EcoLuz Trap – Tecnologia de baixo-custo contra vetores na Amazônia

Para combater mosquitos e promover saúde e autonomia na comunidade, o grupo de estudantes criou uma armadilha luminosa de baixo custo feita com materiais reciclados.

  • Professor(a) orientador(a): Riguel Feltrin Contente
  • Instituição de ensino: IFPA – Campus Industrial de Marabá
  • Cidade: Marabá
  • Estado: PA

BabaçuTech: Soluções sustentáveis e tecnológicas para transformação social da Amazônia Maranhense

A equipe construiu um forno que utiliza tecnologia de captação de energia solar para secagem do mesocarpo do coco babaçu, contribuindo para a produção sustentável de farinha pelas quebradeiras de coco das comunidades quilombolas.

  • Professor(a) orientador(a): Felipe Borges Pereira
  • Instituição de ensino: IEMA – Unidade Plena Itaqui Bacanga
  • Cidade: São Luís
  • Estado: MA

ArapainaAtivo – Um biofiltro de água com a produção de carvão ativado da ossada do pirarucu com tecnologia sustentável

Com os objetivos de purificar água e gerar renda em comunidades ribeirinhas, o grupo produziu um biofiltro de carvão ativado a partir de ossadas de pirarucu.

  • Professor(a) orientador(a): Galileu da Silva Pires
  • Instituição de ensino: EE José Mota
  • Cidade: Manacapuru
  • Estado: AM

*Com informações da Seduc PA

Onça-pintada resgatada no Rio Negro é devolvida à natureza no Amazonas

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Fotos: Joedi Porto e Antonio Humberto/Sepet-AM

A onça-pintada resgatada no meio do Rio Negro, em outubro deste ano, foi devolvida à natureza após uma operação coordenada pela Secretaria de Estado de Proteção Animal (Sepet-AM). A ação começou às 6h do dia 9 e foi concluída no dia 10 de novembro, marcando um feito inédito na Amazônia.

Esse é o primeiro caso registrado de um felino da espécie Panthera onca resgatado, tratado e reintroduzido em seu habitat natural na região.

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Para a secretária da pasta, Joana Darc, o sentimento é de dever cumprido: “Animal silvestre tem que estar na natureza. Somos nós, enquanto sociedade, que ocupamos esses espaços e afugentamos os animais do seu próprio habitat. Agora estamos cumprindo com o nosso dever legal, responsabilidade do Estado, de devolver esse animal à natureza com integridade e saúde”.

A ação envolveu médicos-veterinários, biólogos, pesquisadores e técnicos de imagem, que permaneceram na região de soltura de 13h de domingo (9) até 6h40 da manhã de segunda-feira (10). A equipe precisou acampar na mata para garantir a liberação do animal em plenas condições de segurança, conforme orientações dos profissionais envolvidos.

O felino foi entregue à natureza após 40 dias de resgate, conforme a determinação do responsável técnico, o biólogo Nonato Amaral, que acompanhou toda a operação.

Leia também: Biólogo explica processo de reintrodução de onça-pintada na natureza

Cooperações institucionais

A operação de devolução contou com o apoio do Departamento Integrado de Operações Aéreas do Amazonas (Dioa) da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP), responsável pelo transporte aéreo, e da Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema), que disponibilizou embarcações para o deslocamento da equipe e do animal até a área de reserva florestal onde ocorreu a soltura.

“A onça veio de helicóptero até uma comunidade em Novo Airão e, de lá, foi transportada de barco até o local de soltura, escolhido de forma técnica para que o animal pudesse viver em segurança, distante da população. Esse é o primeiro caso de resgate, reabilitação e devolução da espécie à natureza na Amazônia”, explicou Joana Darc.

Fotos: Joedi Porto e Antonio Humberto/Sepet-AM

Leia também: Recuperação: como está a onça resgatada à deriva no Rio Negro?

Também participaram da ação pesquisadores do Laboratório de Internações de Fauna e Floresta (Laiff) da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), coordenados pelo professor Dr. Rogério Fonseca, biólogo e especialista em manejo de fauna silvestre. Além disso, esteve presente o médico veterinário Aldenor Lima, vereador de Manaus.

A onça foi sedada por veterinários especializados e transportada em uma caixa confeccionada especialmente para a operação. Após ser liberado, o animal retornou de forma segura ao ambiente natural, onde continuará sendo monitorado por especialistas.

Monitoramento e reintrodução da onça em seu habitat

Antes da soltura, a onça-pintada recebeu uma coleira de radiomonitoramento no dia 4 de novembro de 2025, durante exames que confirmaram seu bom estado de saúde. O equipamento foi cedido pelo Instituto Onça-Pintada (IOP), de Goiás, por meio do biólogo e fundador da instituição, Leandro Silveira.

“Colocamos a coleira de monitoramento com GPS, que vai permitir acompanhar, por dois a três anos, os deslocamentos da onça e o território em que ela vai se estabelecer. Isso é muito importante, pois esses dados servirão para a comunidade científica do Amazonas”, destacou Joana.

O animal foi encontrado no Rio Negro enquanto tentava se deslocar de Iranduba (a 27 quilômetros de Manaus) para a capital amazonense, após ser atingido por diversos disparos de chumbinho. A ação de resgate contou com o apoio da Companhia Ambiental Fluvial do Batalhão de Policiamento Ambiental (BPAmb) da Polícia Militar do Amazonas (PM-AM).

Segundo Joana Darc, 36 estilhaços foram encontrados no rosto do felino, que precisou passar por atendimento veterinário de urgência para sobreviver.

Após os primeiros cuidados, a onça foi encaminhada, com autorização do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), para o antigo zoológico do Tropical Hotel, em Manaus, onde ficou sob a responsabilidade do biólogo Nonato Amaral.

Durante o período de reabilitação, o animal recebeu acompanhamento constante até apresentar condições adequadas para o retorno à natureza.

Tocantins se destaca na Amazônia Legal com menor atuação de facções e redução de quase 30% nas mortes violentas

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Tocantins apresenta um cenário bem menos complexo. Foto: divulgação

O Tocantins é o estado da Amazônia Legal menos permeado pela atuação de facções criminosas e um dos que mais reduziram a violência letal nos últimos anos. É o que revela a 4ª edição do relatório Cartografias da Violência na Amazônia, divulgada em novembro pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

De acordo com o levantamento, apenas 17 dos 139 municípios tocantinenses registram algum tipo de presença de organizações criminosas — o equivalente a 12,2% do território estadual. O índice é o menor entre todos os estados da região amazônica, contrastando com cenários críticos como Acre (100% dos municípios), Roraima (86,7%), Mato Grosso (65,2%) e Pará (63,2%).

Leia também: Facções criminosas avançam na Amazônia Legal, aponta estudo

De acordo com o levantamento, apenas 17 dos 139 municípios tocantinenses registram algum tipo de presença de organizações criminosas. Foto: Adilvan Nogueira/Governo do Tocantins

O relatório também demonstra que mesmo nos municípios onde há registros de atuação criminosa, a presença é limitada. Em 82% deles (14 de 17), apenas um grupo opera.

Apenas três cidades apresentam disputa entre facções rivais — um dos menores números absolutos e proporcionais de toda a Amazônia Legal. O estudo ainda destaca que nenhuma cidade tocantinense figura entre as mais violentas da região.

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Presença reduzida de facções

No total, 17 facções foram identificadas em atividade na Amazônia Legal. No entanto, o Tocantins apresenta um cenário bem menos complexo: apenas quatro grupos atuam no estado, com presença restrita e sem sinais de expansão acelerada.

O estudo é realizado anualmente pelo FBSP em parceria com o Instituto Clima e Sociedade, Instituto Itausa, Instituto Mãe Crioula e o Laboratório Interpretativo Laiv.

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O relatório também demonstra que mesmo nos municípios onde há registros de atuação criminosa, a presença é limitada. Foto: divulgação

Redução expressiva da violência letal

O panorama positivo também é reforçado pelos índices de criminalidade. Entre 2023 e 2024, o Tocantins obteve a segunda maior redução de mortes violentas intencionais da região, com queda de 27,9%. O estado figura ainda entre as menores taxas absolutas da Amazônia Legal, com 19,8 mortes por 100 mil habitantes.

Em 2022, o índice chegou a ultrapassar 30 mortes por 100 mil habitantes, mas vem caindo de forma consistente graças ao ciclo operacional recorde da Polícia Civil e às ações coordenadas da Segurança Pública.

“Não é obra do acaso”, diz secretário

O relatório reforça o posicionamento do Tocantins como referência regional no combate ao crime. Foto: Márcio di Pietro/Governo do Tocantins

“Os dados mostram que o Tocantins é hoje o território menos permeável à atuação de facções criminosas na Amazônia Legal. Isso não é obra do acaso. É resultado direto do fortalecimento da inteligência policial, da repressão qualificada e de estratégias que impedem que essas organizações encontrem espaço para se instalar e expandir. Nosso compromisso é avançar ainda mais nesse modelo”, afirmou.

O relatório reforça o posicionamento do Tocantins como referência regional no combate ao crime organizado e na redução de indicadores de violência, evidenciando avanços obtidos a partir de ações integradas entre Secretaria de Segurança Pública e Polícia Civil.

*Com informação da Agência Tocantins/Dicom – SSPTO

Rondônia registra menor número de queimadas da história em 2025

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Antes (2024) e depois (2025) no período de queimadas em Rondônia. Fotos: Lisia Fonseca

Entre janeiro e novembro de 2025, Rondônia registrou o menor número de focos de queimadas da história, segundo o Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Foram contabilizados pouco mais de 1,8 mil focos, uma redução de 82% em relação ao mesmo período de 2024.

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Desde o início da série histórica, em 1998, o estado de Rondônia nunca havia registrado uma quantidade anual de queimadas inferior a 4 mil focos. Naquele primeiro ano, mais de 6 mil ocorrências foram catalogadas em apenas seis meses (de julho a dezembro).

Mas não é preciso voltar muito no tempo para perceber a diferença. Em 2024, por exemplo, o estado registrou a maior quantidade de queimadas em 14 anos nos primeiros oito meses. Julho foi o pior em quase duas décadas, também de acordo com informações do Inpe.

A fumaça das queimadas alterou significativamente a paisagem do estado: o céu azul, citado no hino de Rondônia, tornou-se raro e, em muitos dias, praticamente inexistente.

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No mesmo ano, Porto Velho liderou os piores índices de qualidade do ar no país por semanas consecutivas. Somente no mês de agosto, mais de 40 voos foram afetados pela baixa visibilidade causada pela fumaça em Rondônia.

No entanto, analisando todos os anos desde o início da série histórica, 2005 apresentou o pior cenário: mais de 40 mil focos. Desde então, os números oscilam. A data base é de 1º de janeiro a 20 de novembro.

Para fins de comparação, até então o “melhor” ano foi 2013: 4 mil focos, que corresponde a 145,2% a mais que este ano.

Mas qual o motivo da redução das queimadas em Rondônia? 

De acordo com o coordenador de Proteção Ambiental da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Ambiental (Sedam), Marcos de Souza Trindade, 2025 foi um ano atípico em Rondônia e a redução dos focos é resultado da união de diferentes forças no combate às queimadas e ao desmatamento.

“Já existem projeções para o próximo ano e com certeza, os recursos empenhados este ano tendem a se manter, então não haverá pausa. A fiscalização, a educação ambiental, a publicidade e as campanhas vão continuar. A meta é manter os índices baixos e melhorar a qualidade de vida da população”, afirmou Trindade.

*Por Raíssa Fontes, da Rede Amazônica RO

Iniciativa Amazônia+10 apresenta resultados, com impactos positivos na região

Anunciada pela FAPESP em 2021, durante a COP26 de Glasgow, a iniciativa se traduziu em um consórcio envolvendo o Estado de São Paulo e os nove Estados da Amazônia Legal. Foto: Luciana Constantino/Agência FAPESP

Criada há pouco mais de três anos com o objetivo de ampliar o financiamento à pesquisa e à inovação na Amazônia Legal, a Iniciativa Amazônia+10 conseguiu envolver pesquisadores ligados a instituições da região, que contaram com a participação de atores locais em etapas dos estudos, e já obteve resultados práticos, contribuindo com decisões de comunidades locais e políticas públicas.

Esses são alguns dos resultados apresentados na COP30, em Belém (PA), para mostrar os principais impactos da iniciativa. O evento foi realizado no Museu Emílio Goeldi, um dos espaços dedicados à ciência durante as duas semanas da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, e teve a participação de cientistas, parceiros e sociedade civil.

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Para mapear esses dados, a iniciativa realizou uma espécie de “censo”, por meio de questionário, respondido por 1.265 pesquisadores, dos quais 43% são nativos da região. Estão ligados a 171 instituições do Brasil e de outros seis países – pelo menos 17% deles estão em instituições paraenses e 13% a amazonenses.

Resultados da iniciativa

Desde 2022, a Amazônia+10 envolveu mais de 1.950 pesquisadores em 61 projetos financiados. Foram produzidos 365 conteúdos acadêmicos e tecnológicos – média de seis por projeto –, entre artigos científicos (243), teses, dissertações, patentes e outros tipos de propriedade intelectual. Desses, 12 projetos tiveram impacto verificado em políticas públicas e duas patentes foram registradas.

Entre alguns resultados já divulgados estão o projeto que monitora os impactos da usina hidrelétrica de Belo Monte sobre o regime hidrológico do rio Xingu.

Além de colocar indígenas e ribeirinhos como protagonistas na coleta de dados, o programa ofereceu subsídios ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para definição de vazão ecológica e contribuiu com o fortalecimento do Monitoramento Ambiental Territorial Independente (MATI), que atua na Volta Grande do Xingu, no Pará, como referência em ciência comunitária.

Representantes do projeto também participaram de dois debates promovidos pelo Ministério Público Federal na Zona Verde da COP30.

“Esses resultados mostram, não só com números, mas com produtos ao longo desses três anos, a diversidade e o impacto positivo para a ciência brasileira e para as comunidades locais”, avalia Rafael Andery, secretário-executivo da Amazônia+10.

Anunciada pela FAPESP em 2021, durante a COP26 de Glasgow, a iniciativa se traduziu em um consórcio envolvendo o Estado de São Paulo e os nove Estados da Amazônia Legal (por isso, Amazônia+10) para a realização de pesquisas científicas na região. O programa foi assumido pelo Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap) e hoje conta com a participação das FAPs de 25 unidades da Federação, já mobilizou R$ 162 milhões e tem 16 parceiros externos.

Teve sua primeira chamada de propostas baseada no apoio a projetos colaborativos, divididos em áreas de interesse sobre estudos do território da Amazônia e das pessoas que vivem na floresta e nas cidades da região, além do fortalecimento de cadeias produtivas sustentáveis.

Com isso, 80% dos projetos apoiados envolveram algum ator não acadêmico em seu planejamento e desenvolvimento, mobilizando mais de 8.700 participantes, muitos deles de comunidades locais.

“Alguns estudos mostram que o Brasil tem o que consideramos vazios de pesquisa científica, ou seja, lugares aonde a ciência não chega. Um deles era a região conhecida como ‘Cabeça do Cachorro’ [no extremo noroeste do Amazonas, fronteira com Colômbia e Venezuela]. Conseguimos ter resposta a isso, com três projetos desenvolvidos por lá”, afirma João Arthur Reis, assessor da FAPESP para a Iniciativa Amazônia+10.

O presidente da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa), Marcel do Nascimento Botelho, destacou a inovação da iniciativa:

“É um modelo diferente e inovador, que tem se mostrado complexo, mas, ao mesmo tempo, eficiente. Tem uma conjunção de pesquisadores de diferentes partes do planeta com foco específico na Amazônia, conjugando conservação e as pessoas que nela vivem”.

Pesquisadora do Museu Emílio Goeldi, a arqueóloga Helena Lima, integrante do projeto Vozes da Amazônia Indígena, reforçou a importância da ciência da região. “Vemos o potencial de mostrar que a Amazônia tem instituições e pesquisadores de excelência. Isso tem de ser valorizado”.

Foto: Luciana Constantino/Agência FAPESP

Expandindo conhecimento

Durante a COP30, pesquisadores de várias regiões brasileiras que integram a iniciativa apresentaram seus projetos, reafirmando o papel estratégico da ciência produzida no território para enfrentar os desafios climáticos e sociais.

Em um deles – uma imersão intercultural – o objetivo foi evidenciar o protagonismo dos povos indígenas e tradicionais. Por meio dos painéis, os participantes conheceram a realidade das populações e debateram questões como justiça climática e desigualdade de gênero.

Além do fortalecimento comunitário, o “censo” apresentado pela iniciativa aponta contribuições para a expansão da infraestrutura de pesquisa e divulgação dos resultados, com a publicação de livros e documentários.

Para 2026, a Iniciativa Amazônia+10 abrirá uma nova chamada de projetos com foco em desafios da sociobioeconomia na Amazônia Legal, que deverão incluir o envolvimento de organizações socioprodutivas do território.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência FAPESP, escrito por Luciana Constantino

Facções criminosas avançam na Amazônia Legal, aponta estudo

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Levantamento revela expansão significativa das facções criminosas. Foto: Reprodução/MP-RO

Um novo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), divulgado durante a COP30, revela uma expansão significativa das facções criminosas na Amazônia Legal. De acordo com a 4ª edição do estudo Cartografias da Violência na Amazônia, o número de municípios sob influência de organizações como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) saltou de 260 para 344 em 2025, um aumento de 32%. 

Isso significa que 45% dos 772 municípios da Amazônia Legal têm presença de facções criminosas. O estudo identificou 17 facções ativas na região, entre nacionais e internacionais, indicando um panorama complexo e fragmentado.

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Principais dados por grupo

Foto: Divulgação /Rede Amazônica
  • O Comando Vermelho (CV) está presente em 286 municípios, sendo dominante em 202 deles e em disputa em outros 84.
  • O PCC tem influência direta em 90 cidades da Amazônia: 31 em hegemonia e 59 em disputa. 

Além deles, facções criminosas regionais como Bonde dos 40 (B40), Tropa do Castelar, Familia Terror do Amapá e ainda organizações estrangeiras como o Tren de Aragua (Venezuela) e Estado Maior Central (Colômbia) também atuam na região. 

Municípios mais impactados

O relatório do FBSP destaca alguns municípios particularmente afetados:

  • Vila Bela da Santíssima Trindade (MT): município pequeno, estratégico para o tráfico por sua proximidade com a Bolívia. Lá, o número de assassinatos subiu de 12 (em 2022) para 42 (em 2024), em parte atribuído ao domínio do CV sobre o garimpo ilegal. 
  • Rio Preto da Eva (AM): enfrentou forte disputa entre o PCC e o CV até meados de 2024; indícios apontam para o monopólio do CV atualmente.
  • São Félix do Xingu (PA): classificado como município médio, sofre com sobreposição de desmatamento, conflitos por terra, presença de facções e até terras indígenas. 
  • Sorriso (MT): cidade grande e importante para o agronegócio, lidera em taxa de mortes violentas, com 77,7 homicídios por 100 mil habitantes, segundo o estudo.
  • Outros municípios destacados pela violência e conflito com facções: Coari, Iranduba, Tabatinga e Santa Inês (AM), além de Altamira e Itaituba (PA).

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Intersecção com crimes ambientais

As facções criminosas não se limitam ao tráfico de drogas
Garimpo ilegal. Foto: divulgação

O relatório também chama atenção para a forma como o crime organizado se articula com a exploração ilegal da floresta:

  • As facções criminosas não se limitam ao tráfico de drogas: atuam na extração mineral ilegal, no desmatamento e no garimpo.
  • Em Mato Grosso, por exemplo, o CV passou a cobrar mensalidades de garimpeiros que operam balsas e escavadeiras, sob ameaça de violência para quem não pagar. A lógica de domínio é territorial e financeira: as facções criminosas criam uma “simbiose” entre poder bélico (violência) e poder econômico (exploração ilegal de recursos).

Leia também: Facções criminosas: veja quais são e onde atuam na Amazônia Legal

Violência letal

Foto: divulgação

Em 2024, foram registradas 8.047 mortes violentas intencionais na Amazônia Legal. 

  • A taxa de homicídios regional ficou em 27,3 por 100 mil habitantes, 31% acima da média nacional.
  • O estado mais letal foi o Amapá, com taxa de 45,1 homicídios por 100 mil habitantes.
  • Quanto às mulheres: 586 mulheres foram assassinadas em 2024 na Amazônia Legal, com uma taxa de 4,1 por 100 mil, 21,8% acima da média nacional. Mato Grosso teve a taxa feminina mais alta (5,3). 

Implicações

O avanço das facções criminosas na Amazônia legal traz riscos não só de segurança, mas ambientais e sociais:

  • A presença criminosa concentra-se em territórios estratégicos, como áreas de garimpo, reservas indígenas e regiões remotas de desmatamento. 
  • A expansão pode minar os esforços de governança climática, já que o crime organizado se apropria de rotas de tráfico para lavar dinheiro por meio do desmatamento.

*Com informações da Agência Brasil