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Pesquisadores descobrem carta do fim do século 19 no Amapá atribuída a Cabralzinho

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Pesquisadores que atuam no Centro de Memória do Tribunal de Justiça do Amapá (TJAP) encontraram em um dos processos estudados, uma carta atribuída a Francisco Xavier da Veiga Cabral. O general Cabralzinho tem desde 2021 o nome no Livro de Heróis da Pátria.

Cabralzinho foi tido como herói na disputa entre o Brasil e a França pela então região do Contestado Franco-Brasileiro, no Amapá. Segundo relatos históricos, ele teria derrotado, com o apoio de outros brasileiros, uma guarnição de invasores franceses à Vila do Espírito Santo, atual município de Amapá.

O documento é de um processo sofrido por Cabralzinho pela tentativa de articular uma fuga de companheiros que estavam presos, de acordo com Marcelo Jaques, historiador do TJAP.

“É um processo do final do século 19, um pouco antes de Cabralzinho ter toda essa atuação que teve na situação do Contestado Franco-Brasileiro. A fuga tem a ver com essa atuação política dele, porque era uma figura polêmica e controversa, e muito historiadores até duvidam do heroísmo dele”, descreveu o historiador.

Ainda segundo o historiador, Cabralzinho era suspeito de integrar um plano para depor o então governador do Pará, Lauro Sodré, eleito pelo Congresso Constituinte Paraense em 23 de junho de 1891.

Outros fatores

Entre arquivos, artefatos e objetos que fizeram parte da construção da história também está um dos documentos mais antigos no acervo, um livro de registo dos escravos que chegavam à Vila Mazagão de 1841.

“Nele constam, por exemplo, a aptidão para o trabalho, a idade, o proprietário desses escravizados e os valores que eram atribuídos a eles. A importância disso tudo é fazer com que esses arquivos sejam colocados à disposição da sociedade através de pesquisas, por exemplo”, informou Michel Ferraz, museólogo do TJAP.

Foto: Jorge Júnior/Rede Amazônica

Centro de Memória

O Centro de Memória do TJAP foi inaugurado em 2019 com o objetivo de preservar e difundir a memória institucional da Corte de Justiça amapaense. Localizado na entrada do Palácio da Justiça, o memorial exibe objetos, livros notariais e processos judiciais emblemáticos provenientes de diversas fases do Judiciário no território amapaense.

O espaço está localizado na Sede do TJAP, na Rua General Rondon, nº 1295, no Centro de Macapá. Aberto das 7h30 às 14h, disponível para visitação do público.

Veja a carta de Cabralzinho na íntegra:


Amigo Bellarmino.

Sinto profundamente os desgostos que tens passado nessa masmorra, eu ca fico sem novidades maior, graças a Deus.

A tua família vai regularmente, a tua senhora já deu à luz a uma creança e foi bem sucedida.
Os nossos chefes tem protegido com toda hombridade a tua família que está recebendo uma pensão.
O portador d’esta é um amigo meu que vai haí só e somente para os trazer desse inferno, vai a meu mandado exclusivamente, podem vir como estão, sem susto, que vem para junto de sua família. Fiz o mesmo ao Manoel Ludgero, ao Vicente Paula de Oliveira, Raymundo Jose de Valentim, Sergio Manoel da Conceição, Manoel Ribeiro da Silva, Hilario dos Passos Pinheiro, Henrique José Lopes, João Periquito, Lourenço Joaquim Praxedes, a todos diz que empreguem todos os meios de embarcarem-se com esse amigo e venham com coragem, pois que Deus protege os seus filhos.

Abraçem o amigo que muito os estima.

Cabralzinho.

*Por Rafael Aleixo e Addan Vieira, do g1 Amapá

Projeto busca viabilizar manejo florestal sustentável com ajuda da tecnologia

Viabilizar o manejo florestal sustentável na Amazônia e aumentar o rendimento da indústria de base florestal da região com a ajuda da tecnologia são os objetivos de um projeto do Instituto Nacional de Ciências e Tecnologia de Madeiras da Amazônia (INCT), apoiada via Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam).

O projeto do INCT Madeiras da Amazônia é coordenado pelo pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa), Niro Higuchi, doutor em engenharia florestal. Além de ser amparado pela Chamada INCT, o estudo é fruto da parceria entre o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), por intermédio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e Fapeam.

Segundo o pesquisador, há um baixo rendimento da indústria madeireira na Amazônia, com cerca de 70% de uma tora de árvore sendo desperdiçado. Isso afeta diretamente na consolidação do manejo florestal sustentável na região, surgindo a necessidade de uma série de iniciativas para mudar esse cenário, incluindo o uso da tecnologia.

Ele acrescenta ainda que a idade média das árvores da Amazônia é de 490 anos. A mais antiga possui 1.400 anos e o atual modelo de exploração florestal tem retirado em torno de 20 metros cúbicos de madeira em tora por hectare, dos quais menos de 30% são transformados em produtos.

Foto: Kevin Moraes/Decon Fapeam

“Podemos encurtar o tempo necessário para se obter resultados, e colocar os dados em uma escala maior. É algo fundamental, porque apenas o nosso trabalho de campo não é suficiente para ampliar esse conhecimento”,

comenta Higuchi, lembrando que todas as coletas são feitas com o uso da tecnologia, incluindo ferramentas desenvolvidas pela própria equipe da pesquisa.

A previsão é que se crie um algoritmo que permita a descrição do inventário das árvores, com resultados mais precisos e imagens obtidas remotamente, detalhando informações que podem servir de referência para análises do crescimento e desenvolvimento de florestas manejadas.

A base do programa de pesquisa é uma estação experimental do Inpa, conhecida como ‘ZF2’. Localizada a 90 km a noroeste de Manaus, a região possui 23 km de estrada não pavimentada. O projeto conta com um processo de capacitação em suas equipes.

“Nós temos a capacitação formal, por meio da pós-graduação, como o Programa de Ciências de Florestas Tropicais (Inpa/MCTI) e também a capacitação informal para alunos do ensino fundamental, do ensino médio e professores. Além disso, temos treinamentos para a Polícia Federal, o Instituto ICMBio (Instituto Chico Mendes de Biodiversidade) e o Ipaam (Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas)”, pontuou Niro Higuchi.

Indicadores da qualidade

Foto: Kevin Moraes/Decon Fapeam

O coordenador do INCT explica também que os estudos de indicadores da qualidade desse tipo de manejo podem ajudar também a entender a dinâmica das “florestas perturbadas e não perturbadas naturalmente”, aquelas impactadas pela seca e pela chuva convectiva (chuva rápida ou de verão) ou que são exploradas pelo homem em diferentes níveis.

Com relação às outras potencialidades geradas a partir deste estudo, novas tecnologias poderão ser aplicadas na confecção de instrumentos musicais, como o ukulele. E ainda na fabricação de diferentes peças na construção civil e no setor moveleiro. Tais artefatos são criados com base em resíduos madeireiros, toras de pequenos diâmetros, árvores naturalmente caídas e outras espécies de árvores amazônicas.

*Com informações da Fapeam

Cacique Raoni entrega carta sobre proteção das florestas e dos povos originários ao Papa

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Um encontro movimentou o Vaticano no dia 16 de maio. O Cacique Raoni entregou para o Papa Francisco uma carta com o pedido de ajuda no trabalho de conscientizar os políticos brasileiros sobre a importância da preservação do meio ambiente e dos povos originários.

O líder indígena viajou para a sede da igreja católica para participar do seminário “Da crise climática à resiliência climática”, promovido pelas Pontifícias Academias das Ciências e das Ciências Sociais e realizado de 14 a 17 de maio na Casina Pio IV.

Em seu discurso, o Papa sublinhou que “os dados sobre as mudanças climáticas pioram a cada ano e portanto, é urgente proteger as pessoas e a natureza”. Francisco parabenizou “as duas Academias por liderarem este esforço e produzirem um protocolo de resiliência universal. As populações mais pobres, que pouco têm a ver com as emissões poluentes, precisarão receber maior apoio e proteção”.

Foto: Reprodução/Vaticano

Os pobres são os que mais sofrem com as mudanças climáticas

“A destruição do ambiente é uma ofensa a Deus, um pecado que não é apenas pessoal, mas também estrutural, que coloca seriamente em perigo todos os seres humanos, especialmente os mais vulneráveis, e ameaça desencadear um conflito entre gerações”, disse o Papa, que perguntou: “Estamos trabalhando em prol de uma cultura da vida ou de uma cultura da morte?”

Estamos diante de desafios sistêmicos distintos, mas interligados: as mudanças climáticas, a perda da biodiversidade, a degradação ambiental, as desigualdades globais, a insegurança alimentar e uma ameaça à dignidade das populações envolvidas. Se não forem abordados de forma coletiva e urgente, esses problemas representam ameaças existenciais para a humanidade, para outros seres vivos e os ecossistemas.

“Mas que seja claro: são os pobres da Terra que mais sofrem, apesar de serem os que menos contribuem para o problema. As nações mais ricas, cerca de um bilhão de pessoas, produzem mais da metade dos poluentes que retêm o calor. Contrariamente, os três bilhões de pessoas mais pobres contribuem com menos de 10%, mas arcam com 75% das perdas resultantes. Os 46 países menos desenvolvidos, em sua maioria africanos, são responsáveis por apenas 1% das emissões globais de CO2. Ao invés disso, as nações do G20 são responsáveis por 80% dessas emissões”.

*Com informações do Vatican News

Paratleta amapaense bate recorde e conquista título mundial inédito no Japão

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A amapaense Wanna Brito segue fazendo história no paradesporto brasileiro. Nesta sexta-feira, 17, a paratleta conquistou a medalha de ouro no lançamento de club F32 (paralisados cerebrais), do Mundial de Atletismo em Kobe no Japão.

O título inédito foi garantido com a quebra do recorde da prova na competição, com a marca de 26,66m, que anteriormente era de 24,45m, da tunisiana Maroua Ibrahmi, registrada em Dubai 2019. Wanna Brito já havia sido medalhista de prata em Paris 2023.

“Deu certo, conseguimos repetir o que a gente estava treinando. No meio da prova, comecei a sentir muito frio e precisei ficar batendo na perna para esquentar. Mas depois consegui me recuperar e fazer o lançamento do ouro. Sou muito grata a tudo. Estou muito emocionada”, completou Wanna, diagnosticada com paralisia cerebral no momento do parto.

Wanna Brito no Mundial de Atletismo KOBE 2024, no Kobe Sports Park (Japão). Foto: Alessandra Cabral/CPB

Com o resultado o Brasil fechou o primeiro dia de competição com três medalhas as outras duas foram conquistadas com Petrúcio Ferreira, nos 100m da classe T47 (amputados de braço) e com o bronze da paulista Giovanna Boscolo também no lançamento de club.

A paratleta destaque do Amapá, que segue no Mundial do Japão para busca mais uma medalha para o Brasil, na prova do arremesso de peso em sua categoria, conta com apoio do Governo do Estado e integra a Secretaria de Estado do desporto e Lazer (Sedel).

Wanna Brito começou a competir há 4 anos e ascendeu no cenário mundial em Marrocos e Paris, em 2023, onde conquistou as primeiras medalhas internacionais. Além dos treinos físicos, a paratleta recebe acompanhamento psicológico. Apesar de novata, ela demonstra experiência em competições de alto nível e já se tornou um dos principais nomes do país no Mundo.

Giovanna Boscolo e Wanna Brito. Foto: Alessandra Cabral/CPB

Mundial de Kobe

O Campeonato Mundial de Atletismo Paralímpico de Kobe, acontece até 25 de maio. A competição estava marcada para 2021, mas por conta da pandemia de Covid-19, o Comitê Paralímpico Internacional adiou o evento para o ano de 2024. A delegação brasileira é composta por um total de 85 pessoas, entre atletas, atletas-guias, comissão técnica e áreas de apoio.

*Com informações do Governo do Amapá

Cientistas aprimoram metodologia para reduzir impacto da mineração na Serra dos Carajás

Cientistas validaram em laboratório uma metodologia que contribui para formar crostas ricas em ferro, ecossistemas únicos em biodiversidade da região amazônica da Serra dos Carajás, no Pará. As conclusões estão publicadas na edição de sexta (17) da revista ‘Frontiers in Microbiology‘ e são fruto de trabalho de pesquisadores do Instituto Senai de Inovação em Tecnologias Minerais, do Instituto Tecnológico Vale (ITV) e das universidades federais do Pará (UFPA) e Fluminense (UFF).

Os resultados mais promissores partiram de tratamentos com adição de açúcar para estimular o crescimento bacteriano e com a introdução de bactérias que utilizam o ferro para obter energia para seu metabolismo. Os cientistas constataram que a atividade desses microrganismos contribuiu para a formação de biofilmes de ferro entre os fragmentos de canga, como são conhecidas essas crostas ferruginosas, provocando a cimentação, ou seja, o endurecimento da superfície.

O experimento buscou reproduzir, de forma acelerada, as condições ambientais que resultaram na formação das cangas ao longo de milhões de anos para verificar possíveis cenários de restauração do ecossistema. Para isso, os pesquisadores expuseram solos ricos em ferro, ao longo de cinco meses, a ciclos de irrigação e ressecamento. As amostras foram submetidas a três diferentes estímulos relacionados à ação de bactérias. Posteriormente, os resultados foram comparados com o tratamento controle.

“Essa pode se tornar uma estratégia para restaurar esses ambientes e deixar a mineração mais responsável ou diminuir seu impacto. Se conseguirmos restaurar essas crostas em campo, conseguimos gerar ambientes para a fauna e para a flora raras”, conta o pesquisador do ITV Markus Gastauer, coordenador do projeto de pesquisa. Segundo ele, a ideia é proteger espécies vegetais que só existem nesse ambiente. “Hoje, em Carajás, temos 38 espécies que só ocorrem ali”, exemplifica.

Atualmente, os pesquisadores estão avaliando a atividade dos microrganismos existentes na região. O objetivo é otimizar o processo de inoculação das bactérias nas crostas selecionando aquelas que podem trazer mais resultados em alterações mineralógicas. O método ainda precisa ser testado em condições reais, fora do laboratório. “Em campo, há outros fatores que influenciam ou podem complicar o processo. No laboratório não chove, por exemplo. É por isso que esses são os próximos passos, para verificar se, em campo, esse método é factível”, conclui Gastauer.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Bori

Exposição revela memórias e incentiva reflexão sobre saúde mental no Amazonas

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O Centro Cultural Palácio da Justiça (CCPJ) recebe a quarta edição da exposição ‘Memórias da Loucura: Reflexão e Arte na Luta Antimanicomial’, em Manaus (AM), a partir de 18 de maio. A exposição reúne cerca de 50 obras criadas por pacientes do Hospital Colônia Eduardo Ribeiro entre 1985 e 1990.

Idealizado por Monique Marie Rothen, Rosangela Aufiero e Socorro Refkalefsky, o projeto incentiva a reflexão sobre a saúde mental e a luta antimanicomial.

A exposição conta com uma programação rica e diversificada, que inclui exposições de obras e rodas de conversas. Toda programação é voltada para a discussão de temas que envolvem saúde mental e conta com a presença de profissionais da área.

Foto: Divulgação/Secretaria de Cultura e Economia Criativa AM

Resgate

Rosangela Aufiero, que faz parte do movimento social Frente Ampliada em Defesa da Saúde Mental e Luta Antimanicomial do Amazonas, e também é psicóloga, tendo trabalhado durante 22 anos no Hospital Psiquiátrico Colônia Eduardo Ribeiro, destacou a importância de preservar estas obras.

Foto: Divulgação/Secretaria de Cultura e Economia Criativa AM

“Nos anos 80, pacientes internos, assessorados por uma equipe de artistas, criaram essas peças que hoje são resgatadas e exibidas ao público para evitar que se percam como muitas outras já se perderam”. afirma Rosângela.

Ela narra sua experiência pessoal, ressaltando a necessidade e importância de dar visibilidade a essas obras que carregam histórias e vivências significativas.

Reflexão e Debate

A exposição não só exibe arte, mas também propõe uma profunda reflexão sobre os modelos de tratamento da saúde mental, desde a institucionalização nos manicômios até os tratamentos modernos.

“Estamos no século da saúde mental”, afirma Rosângela, destacando que antes falar sobre ansiedade e depressão era um tabu. Hoje, a exposição incentiva o público a refletir sobre os manicômios, que podem existir tanto fisicamente quanto dentro das mentes das pessoas, e procurar por saídas de suas dores e medos.

Filme e outras atividades

Uma das grandes novidades desta edição é a produção de um filme sobre a exposição e que será exibido em looping durante o evento. Este filme, produzido com a colaboração da Secretaria de Cultura e Economia Criativa, valida a importância das obras, além de contar com a contribuição do atual curador das obras, Turenko Beça, e o primeiro curador, Ottoni Mesquita, ambos reconhecidos artistas, que contribuem para a narrativa e valorização das obras expostas.

As atividades paralelas, que incluem rodas de conversa a cada 15 dias, aos sábados, proporcionam uma oportunidade para debates aprofundados com movimentos sociais ligados à saúde mental. Estes encontros têm como objetivo ampliar a compreensão,sensibilização e conhecimento sobre os desafios e avanços na área.

Foto: Divulgação/Secretaria de Cultura e Economia Criativa AM

A quarta edição da exposição ‘Memórias da Loucura’ se apresenta como um espaço de arte, memória e diálogo, crucial para repensar e melhorar o cuidado e o tratamento da saúde mental em nossa sociedade. O evento é uma realização do Governo do Amazonas, por meio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa.

Programação completa:

18/05 – Abertura da Exposição Memórias da Loucura

01/06 – Roda de conversa: “Amazonas, do CPER aos CAPS, desafios e perspectivas” das 9h às 11h

15/06 – Apresentação do Maracatu Quebra Muros do Centro de Atenção Psicossocial CAPS III, Silvério Tundis, das 9h às 11h.

29/06 – Roda de conversa: “Promover e cuidar da saúde mental dos povos da Amazônia” das 9h às 11h

13/07 – Roda de conversa das 9h às 11h

27/07 – Roda de conversa das 9h às 11h

10/08 – Roda de conversa das 9h às 11h

Foto: Divulgação/Secretaria de Cultura e Economia Criativa AM

Amazon Sat é indicado a categoria ‘Meio ambiente’ do Prêmio iBest; saiba como votar

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Há mais de 20 anos, o canal temático sobre a Amazônia, o Amazon Sat, tem a missão de levar informações sobre a região amazônica para o mundo. E, em 2024, o canal foi indicado ao ‘Prêmio iBest!’ na categoria ‘Meio Ambiente e Sustentabilidade’ como um reconhecimento de seu papel social mais uma vez. Na última edição, o Amazon Sat ficou entre os 10 mais votados.

Para o coordenador de programação e conteúdo do canal, Lemmos Ribeiro, a indicação é importante para que outras pessoas no Brasil conheçam o trabalho que o Amazon Sat realiza. “Nosso objetivo é gerar reflexão no telespectador, para que ele entenda que precisa conhecer a Amazônia para respeitar e proteger”, afirma.

O ‘Prêmio iBest!’, uma realização da iBest Global, ocorre anualmente e é oferecido aos melhores profissionais e empresas do mercado digital do Brasil. As personalidades são indicadas e participam de uma votação dividida em categorias.

O prêmio é composto por 88 categorias e os vencedores são escolhidos por meio de duas votações: percepção popular e júri com especialistas (Academia iBest). Na categoria ‘Meio Ambiente e Sustentabilidade’, o Amazon Sat figura entre celebridades e instituições, como Ailton Krenak, National Geographic, Gisele Bündchen, Greenpeace, entre outros.

Foto: Reprodução/iBest

Categoria

A categoria ‘Meio Ambiente e Sustentabilidade’, a qual o Amazon Sat concorre novamente, avalia iniciativas digitais que criam, compartilham ou comercializam conteúdos relacionados e focados nos temas de meio ambiente, ecologia, ativismo ambiental, recursos naturais, sustentabilidade, economia circular, cadeia de produção, modelos, políticas e matrizes econômicas e energéticas sustentáveis e assuntos, discussões, notícias, informações, opiniões, bandeiras, assuntos correlatos e causas de interesse, seja em sites, apps e redes sociais. 

Acordo é firmado com foco na agropecuária sustentável no Pará

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No Pará, um acordo foi estabelecido na busca por um futuro mais sustentável. O Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade (Ideflor-Bio) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural no Pará (Senar-PA) celebraram em Belém, no dia 13 de maio, um ‘Termo de Cooperação Técnica’ com o objetivo de promover avanços na agropecuária e nas cadeias produtivas de base florestal.

O acordo prevê a implementação de métodos integrados, com destaque para os Sistemas Agroflorestais (SAFs) e de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF). Além destes, também constam projetos específicos voltados aos sistemas produtivos, com ações direcionadas à implantação, acompanhamento e consolidação de estratégias adaptadas à realidade do estado.

Para garantir a efetivação das atividades propostas, cada entidade designará profissionais que serão responsáveis por coordenar a execução do Termo e dos planos de trabalho subsequentes. Também estão previstos meios e condições para a operacionalização das atividades administrativas e de gestão, bem como a disponibilidade de vagas em treinamentos relacionados à formação profissional e de promoção social.

O presidente do Ideflor-Bio, Nilson Pinto, avalia que a parceria com o Senar-PA representa um importante passo para o fortalecimento da agropecuária sustentável e o desenvolvimento socioeconômico do estado. “São estratégias que estão alinhadas com práticas que visam a preservação do meio ambiente e a promoção de um futuro mais sustentável para a região. Incentivar esse tipo de trabalho é uma das nossas metas e com a contribuição do Senar poderemos atingi-los com seguridade”, afirmou.

Foto: Divulgação/IDEFLOR-Bio

O  documento estabelece, ainda, a colaboração mútua entre as partes envolvidas, visando a realização conjunta de atividades, desenvolvimento de ações relevantes para monitoramento de impactos, disseminação de técnicas alternativas no meio rural e a elaboração de propostas de projetos a fundos nacionais e internacionais. A intenção é fortalecer a atuação conjunta em prol do desenvolvimento sustentável e da conservação ambiental.

Atribuições

O Senar-PA vai disponibilizar profissionais qualificados e garantir suporte logístico necessário para a execução das ações previstas. A entidade também se responsabilizará pelo planejamento, execução, acompanhamento e avaliação das atividades, promovendo a divulgação das ações realizadas em parceria com o Ideflor-Bio.

Por sua vez, o Instituto se compromete a promover a execução do objeto do Termo de Cooperação, observando a qualidade técnica e os prazos estipulados. A instituição disponibilizará profissionais e suporte logístico para a realização das atividades, além de propiciar os meios necessários para que a parte cooperada realize acompanhamentos periódicos e atenda às normas de preservação ambiental.

O Termo de Cooperação Técnica terá vigência de 24 meses, podendo ser prorrogado mediante acordo aditivo específico, e entrará em vigor na data de sua publicação no Diário Oficial do Estado (DOE). O acordo representa um marco importante na busca por um desenvolvimento sustentável e na preservação dos recursos naturais do estado.

Na ocasião, também estiveram presentes o presidente do Conselho Administrativo do Senar-PA, Carlos Xavier; o vice-presidente do Ideflor-Bio, Thiago Valente; o diretor de Desenvolvimento da Cadeia Florestal, Vicente Neto; a gerente do Escritório Regional do Marajó Oriental, Osiane Barbosa; o gerente da Região Administrativa do Marajó, Hugo Dias; entre outros.

*Com informações do Ideflor-Bio

Roraima possui ao menos 24% da energia produzida por biocombustível

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Ao menos 24% da energia produzida em Roraima é fornecida por meio de biocombustível gerado por termelétricas localizadas em cinco municípios do estado. Fora do Sistema Integrado Nacional (SIN), o estado tem, predominantemente, o fornecimento nos 15 municípios feito por termelétricas da empresa Roraima Energia.

Capaz de alimentar a casa de 40,6 mil dos 166 mil consumidores atendidos pela Roraima Energia, a bioenergia gerada no estado vem de sete usinas que produzem biocombustível a partir de resíduos de madeira, o chamado cavaco, óleos vegetais e resíduos do óleo de palma, extraído da planta do dendê.

É neste contexto que atua a empresa Brasil BioFuels, do grupo BBF. Localizada em São João da Baliza, no Sul de Roraima, a usina atua há 15 anos com a extração do óleo da palma.

A equipe de reportagem do Grupo Rede Amazônica esteve na companhia para entender o ciclo completo da palma que envolve a operação: plantar, colher, esmagar o fruto, produzir biocombustível e gerar energia elétrica limpa aos consumidores de Roraima.

Além dos 24% de energia via biocombustível, Roraima tem o restante do fornecimento gerado por óleo diesel de 14 termelétricas, considerada cara e poluente ao meio ambiente. Os dados são da Roraima Energia, responsável por toda geração elétrica do estado, incluindo a de biocombustível.

Como é a energia da BBF

Ao todo, o grupo BBF tem mais de 15 mil hectares da plantação da palma no estado. De acordo com o diretor industrial do grupo, Cláudio Cavalcante, o grupo envia para a Roraima Energia 14 megawatts de energia por dia – é a partir daí que ocorre o fornecimento aos consumidores.

Por dia, a empresa extrai o óleo de mais de 300 toneladas de materiais do dendê. “Para produzir essa energia, utilizamos uma variedade de materiais do dendê, como fibras, cascas, nozes e palhas, totalizando cerca de 300 toneladas por dia”, disse o diretor.

Foto: Caíque Rodrigues/Rede Amazônica

A energia produzida pelas usinas, de forma geral, é injetada no sistema elétrico de Roraima, sem ser direcionada a clientes ou grupos específicos, conforme a Roraima Energia.

No total, a Roraima Energia atende todo o estado, um total de 207.891 consumidores.

Energia do óleo da palma

O Grupo BBF é responsável por plantar, extrair e produzir a energia em um processo que envolve quase mil funcionários, entre eles, mulheres migrantes que atuam diretamente na plantação. Desde o plantio até a colheita, tudo é dividido em etapas.

A semente do dendê é adquirida de outros países. Em Roraima, ela é plantada em um local de 5 mil hectares chamado de pré-viveiro, protegido para a semente germinar. Depois, na fase de muda, é transportada para o viveiro em um lugar que ocupa 45 hectares.

Plantação de dendê para a extração de biocombustível no Sul de Roraima ocupa mais de 15 hectares. Foto: Oseias Martins/Rede Amazônica

Após isso, a planta é colocada em uma área de 15 mil hectares onde deve produzir frutos por mais de 30 anos. Todos esse processo é comandado pelo gerente agrícola da empresa, Bruno Barcelos, de 37 anos. Ele trabalha com dendê há 13 anos, sendo três deles em Roraima.

“Atualmente, temos 2 milhões e 350 mil mudas no projeto. Elas ficam em um ambiente protegido por cerca de 3 a 4 meses, antes de serem transferidas para o viveiro. Após 8 a 10 meses no viveiro, as mudas são plantadas no campo, onde permanecem por 25 a 30 anos”, explicou.

Fruto do dendê maduro colhido na plantação da empresa BBF, no Sul de Roraima. Foto: Caíque Rodrigues/g1 Roraima

Todo o cultivo do dendê, de acordo com Bruno, é manual e possui uma média de cinco a seis toneladas de óleo por hectare.

“O solo é descompactado para permitir um crescimento adequado das raízes. Também realizamos a nutrição das covas onde as mudas serão plantadas. A colheita é feita manualmente ao longo do ano. Cortamos apenas os cachos maduros, que são identificados visualmente, em ciclos contínuos de 12 dias”.

Após a colheita de todo o material, tem início a parte industrial, comandada por Claudio. De acordo com ele, os frutos são debulhados, macerados e, em seguida, prensados para extrair o óleo de palma. Antes disso, ocorre a esterilização que dura uma hora e meia, enquanto as etapas seguintes levam cerca de 30 minutos, totalizando duas horas para extrair o óleo.

“Após a extração, o óleo passa por um processo de clarificação e é classificado antes de ser utilizado como combustível”.

“O uso desse óleo como fonte de energia é vantajoso devido à sua capacidade de ser utilizado imediatamente após a extração, contribuindo para a produção de energia limpa”,

explica ao diretor.

Além disso, todos os produtos derivados do dendê, incluindo o óleo, são aproveitados. A polpa é utilizada como ração animal, a fibra é queimada na caldeira para produção de energia elétrica, e os resíduos são usados como biomassa. “Desde 2018 a indústria de óleo está em operação, com a geração de energia iniciada em 2023”.

Envio de energia para Roraima

Há um acordo firmado entre as usinas de produção de biocombustível e a Roraima Energia. Conforme Claudio, o óleo produzido pela BBF é entregue à Roraima Energia, que distribui para os consumidores em um contrato firmado com o Governo Federal.

“O valor pago pela energia é determinado por um contrato estabelecido em leilões, e a tarifa oferecida é aceita pela empresa, garantindo a geração e o pagamento da energia produzida”.

A energia a fornecida pelos geradores na Roraima Energia que utilizam como fonte de geração o biocombustível/biomassa por sua vez, é distribuída ao subsistema no qual estão conectados, ou seja, o subsistema Boa Vista, que possui um total de 199.410 unidades consumidoras.

A bioenergia de Roraima é fornecida pelas seguintes usinas termelétricas:

– Usina Bonfim, que produz biomassa por resíduos florestais (cavaco), localizada no município de Bonfim, Norte de Roraima;
– Usina Pau Rainha, que produz biomassa por resíduos florestais (cavaco), localizada em Boa Vista;
– Usina Santa Luz, que produz biomassa por resíduos florestais (cavaco), localizada em Boa Vista;
– Usina Cantá, que produz biomassa por resíduos florestais (cavaco), localizada no município de Cantá, Norte de Roraima;
– Usina BBF Baliza, que produz biocombustível por resíduos de óleos de palma, localizada no município de São João da Baliza, Sul de Roraima;
– Usina BBF Forte São Joaquim, que produz biocombustível por meio de óleos vegetais, localizada em Boa Vista
– Usina Palmaplan, que produz biocombustível por meio de óleos vegetais, localizada em Rorainópolis, Sul de Roraima.

Amazônia Que Eu Quero

Projeto da Fundação Rede Amazônica, o Amazônia Que eu Quero chegou a mais uma temporada e tem como tema a bioeconomia. Na última semana, o CEO do Grupo Rede Amazônica Phelippe Daou Jr visitou a usina da BBF no Sul de Roraima, na expectativa de fechar parcerias..

“Há um grande potencial de crescimento na região de Roraima, que antes era pouco aproveitada, e estamos comprometidos em promover parcerias para impulsionar o desenvolvimento do estado, garantindo segurança jurídica em operações como esta”,

disse o CEO, enquanto conhecia as operações da empresa.
Phelippe Daou Jr, CEO da Rede Amazônica, visita usina de óleo de palma no Sul de Roraima. Foto: Caíque Rodrigues/g1 Roraima

Isolamento energético

Roraima é o único estado do país que não é ligado ao Sistema Interligado Nacional (SIN) e, durante anos, dependeu da energia fornecida pela Venezuela. No entanto, o país parou de enviar energia ao estado em março de 2019 e, desde então, o trabalho é feito por quatro termelétricas da Roraima Energia.

O parque térmico do estado é formado pelas usinas termelétricas de Monte Cristo, na zona Rural de Boa Vista, Jardim Floresta e Distrito, ambas na zona Oeste, e Novo Paraíso, em Caracaraí, região Sul do estado.

Estrada que dá acesso a reserva indígena Waimiri-Atroari. Foto: Valéria Oliveira/Arquivo g1 Roraima

Atualmente, duas turbinas da Usina Termoelétrica Jaguatirica II já estão em operação e ajudam a reduzir o consumo da usina termelétrica do Monte Cristo, que funciona a óleo diesel.

Os 715 km do Linhão de Tucuruí são apontados como o fim do isolamento elétrico e dos constantes blecautes. O início da obra foi foco de um impasse por 11 anos, já que 122 km de torres vão atravessar a reserva Waimiri Atroari.

Sem a energia importada, o custo para fornecimento elétrico estado é de R$ 8 bilhões por ano — conta que é dividida entre todos os consumidores de energia elétrica do país. E, para reverter esta situação, a solução é construção do Linhão de Tucuruí.

*Por Caíque Rodrigues, do g1 Roraima

Rede social indígena demarca tempos, espaços e sentidos nas origens do Brasil

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Detalhe de mapa de igarapés com nomes em Kubeo, elaborado por representantes das etnias yuremawa, yúriwawa e betówa. Foto: Diego Pedroso, 2014

O primeiro número da revista científica do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) em 2024 apresenta a vida das populações originárias que habitam porção mais a oeste da Amazônia: trata-se de um mapa de igarapés elaborado por representantes das etnias yuremawa, yúriwawa e betówa, apresenta em detalhe os cursos d’água, com os nomes na língua do povo Kubeo.

Isso porque para se ver no contexto dos sentidos das nomenclaturas, da flora e da fauna e do imaginário desses povos, é preciso mergulhar no imaginário dos povos originários da Amazônia. E esse mergulho foi dado pelo etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg há 120 anos em expedição pioneira no noroeste da região, em diálogo com o também pesquisador Emílio Goeldi.

Goeldi foi responsável pela criação e publicação do Boletim da instituição e o primeiro fascículo data de 1894. Com 130 anos de existência, o Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi é uma das publicações científicas mais antigas da América Latina em circulação. Acesse o primeiro boletim de 2024.

O dossiê ‘Temporalidades e interações socioambientais no noroeste amazônico’, publicado no Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi – Ciências Humanas, volume 19, nº 1, proporciona uma imersão na vida de indígenas e não indígenas naquela porção da Amazônia. O conjunto de artigos é organizado pelos pesquisadores Geraldo Andrello e Pedro Lolli, da Universidade Federal de São Carlos (SP), e Márcio Meira, do Museu Goeldi (PA).

Theodor Koch-Grünberg, 1924 (Familienarchiv Koch-Grünberg). Foto: Reprodução/Research Gate

Esse dossiê, dividido em dois números (o segundo sairá no último quadrimestre deste ano), é dedicado a Sueg–u Dagoberto Lima Azevedo e Ahk–uto Gabriel Sodré Maia, in memoriam, traz um compêndio de vinte artigos inéditos, resultantes de pesquisas realizadas na última década na região do noroeste amazônico, sob olhares diferenciados da etnologia indígena, antropologia, história, e cruzando fronteiras de disciplinas.

Como destacam Geraldo Andrello, Pedro Lolli e Márcio Meira, o foco desse dossiê está voltado aos aspectos variados da constituição da extensa rede social indígena na região do noroeste da Amazônia, bem como os impactos e as influências decorrentes do processo colonial ali iniciado no século XVII. Essa publicação celebra “os 120 anos da expedição do etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg pela região do noroeste amazônico, cuja realização se deu sob forte influência do então diretor do Museu Paraense, o suíço Emílio Goeldi”. Em outubro de 2024, se celebra o centenário da morte de Koch-Grünberg.

Rumos

Os pesquisadores informam que, no começo do ano de 1903, Koch-Grünberg, então pesquisador do Real Museu de Etnologia de Berlin, iniciava sua permanência no rio Negro pelos dois anos seguintes. No preâmbulo ao livro publicado com os resultados de suas pioneiras investigações etnológicas (Koch-Grünberg, 1995 [1909-1910], p. 35, 2005 [1909-1910], p. 7), afirmava que havia “escolhi[do] o noroeste do Brasil, na fronteira com a Colômbia e Venezuela, por apresentar problemas importantes e interessantes, do ponto de vista geográfico e etnográfico”.

“Há que se registrar, no entanto, que a intenção inicial de Koch-Grünberg era seguir rumo aos rios Purus e Ucayali, e quem o fez rumar para o rio Negro foi o diretor do Museu Paraense, Emílio Goeldi, com o argumento de que a região do Acre vivia então graves conturbações”,

relatam os pesquisadores acerca do material disponível no dossiê.

Essa iniciativa de Koch-Grünberg e a organização de uma coleção de 500 objetos etnográficos dos povos indígenas do rio Negro, salvaguardados na Reserva Técnica Curt Nimuendaju, e documentos essenciais da epopeia dos cientistas no noroeste amazônico estão sob a guarda do Arquivo do Museu Goeldi, em Belém.

Nos dois números do dossiê, o público vai poder conferir boa parte das localidades em que o etnólogo alemão foi recebido pelos povos Tukano, Arawak e Naduhup ao longo dos rios Negro, Içana, Aiari, Uaupés, Tiquié, Cuduiari, Pirá-Paraná e Apapóris.

Pioneirismo

“O legado mais importante da obra de Koch-Grunberg, produzida a partir de sua longa permanência em campo no noroeste Amazônico entre 1903 e 1904, foi certamente o estudo etnográfico primoroso que realizou entre os povos da família linguística Tukano oriental, ao longo do rio Uaupés. O etnólogo alemão foi um dos primeiros antropólogos profissionais a fazer pesquisas na Amazônia, no início do século XX. Por isso sua obra é pioneira em vários domínios, incluindo temas relacionados à arqueologia e à história indígena daquela região. Os estudos sobre organização social, cosmologia e de cultura material constituem uma das bases sólidas dos estudos que seguiriam seu caminho na etnologia da região, inclusive o de Curt Nimuendaju, feito em 1927. Um legado relevante foi, também, a imensa coleção de objetos etnográficos que reuniu, uma parte dela adquirida pelo governo do Pará e salvaguardada no Museu Goeldi desde 1904”, destaca Márcio Meira.

Acerca da importância decisiva da pesquisa científica sobre povos indígenas para a coexistência desses próprios grupos com os chamados homens brancos, Márcio ressalta que as pesquisas antropológicas têm como pressuposto fundamental o respeito à diversidade dos povos e de suas culturas.

“Nesse sentido, o conhecimento que é produzido pelos antropólogos é valioso para a garantia dos direitos dos povos indígenas, inclusive territoriais, diante dos desafios e da violência do chamado “mundo dos brancos”. Nos dias de hoje, os próprios indígenas têm se tornado antropólogos, ocupando espaços nas universidades e trazendo novos olhares e contribuições críticas para o conhecimento antropológico. Com esses avanços, oxalá o ensino de história e cultura indígenas, garantido pela Lei 11.645, venha a despertar entre os jovens de todo o Brasil um maior conhecimento da riqueza das culturas indígenas e de seu imenso patrimônio, que em muitos casos é compartilhado por toda a população do Brasil, e que nem sempre é reconhecido”, completa o pesquisador.

Rede

O levantamento de informações feito pelo conjunto de pesquisadores no dossiê indica que a região do noroeste amazônico é uma área de grande diversidade cultural e linguística que conforma uma vasta rede de relações sociais, integradas através de trocas matrimoniais, rituais e de bens.

É habitado atualmente, no território brasileiro, por 22 povos indígenas, agrupados em três grandes famílias linguísticas:

Tukano oriental (Cubeo, Desana, Tukano, Miriti-Tapuia, Arapasso, Tuyuka, Makuna, Bará, Barasana, Siriano, Carapanã, Wanano e Pira-Tapuia);

Arawak (Tariano, Baniwa, Kuripako, Warekena e Baré);

Naduhup (Hup, Yuhup, Nadëb e Däw).

Esses grupos ocupam cerca de 750 povoados de tamanhos variáveis, estabelecidos ao longo dos rios Negro, Uaupés, Tiquié, Papuri, Içana, Aiari, Xié, Curicuriari, Téa, Jurubaxi, Enuixi, Padauiri e vários outros afluentes menores, perfazendo, segundo o IBGE (2012), uma população indígena total de cerca de 48 mil pessoas, nos municípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos. As bacias desses rios são incluídas em um conjunto de nove terras indígenas, sendo oito delas contíguas, cuja extensão ultrapassa os 12 milhões de hectares.

A rede social dos povos indígenas da região tem sido estratégica para a perpetuação da identidade das etnias, ao possibilitar, entre eles próprios, a troca de bens materiais e imateriais (inclusive, narrativas míticas), entre outras referências sociais. Essa rede desafia pesquisadores indígenas e não indígenas, dada a sua complexidade e as mutações sofridas e em andamento em sua trajetória com seus respectivos formatos e significados, no sentido de garantir a (re)existência desses grupos sociais originários do país.

Resistência

Sobre essa rede preciosa no noroeste amazônico, o pesquisador Geraldo Andrello observa: “Desde os trabalhos pioneiros de T. Koch-Grunberg e Curt Nimuendaju, sabemos que a região do noroeste amazônico abriga um extenso complexo de povos indígenas, classificados em três famílias linguísticas, possivelmente distribuídos em mais de 300 comunidades ribeirinhas e interfluviais localizadas na bacia dos formadores do rio Negro (Uaupés, Içana, Xié e outros). Trata-se talvez do mais conhecido “sistema regional” na Amazônia indígena. A complexidade das relações entre os diferentes povos que participam dessa extensa rede expressa-se em vários níveis, do plano da organização e das trocas sociais (mais de 20 povos inter-relacionados por exogamia de clãs e línguas) a uma intrincada mitocosmologia elaborada em um sem número de versões. Esses planos implicam-se mutuamente, de modo que – e isto é um dos pontos que mais me chama a atenção nessa região – é impossível tratar-se exaustivamente desses temas de modo isolado”.

Um aspecto fundamental, como frisa Andrello, é que, não obstante a longa e violenta história da colonização da região (iniciada já na segunda metade do século XVII), seus povos puderam manter-se em seus territórios tradicionais, apesar dos dramáticos e sucessivos processos de escravização e descimentos (as tropas de resgate e os aldeamentos do século XVIII) e deslocamentos forçados para os seringais do baixo rio Negro (o recrutamento violento da mão de obra indígena durante o período da borracha).

“O século XX assistiu à implantação de uma das maiores estruturas missionárias da Amazônia, levada a cabo pelos salesianos, cujo trabalho de ‘catequese e civilização de índios’ baseou-se na instalação de enormes internatos escolares. Apesar dessa avassaladora experiência histórica, a grande vitalidade da extensa rede social indígena do noroeste amazônico no presente demonstra uma capacidade impressionante de resistência. Tal capacidade não poderia se originar de outra fonte senão da multiplicidade de povos e sua habilidade em reproduzir suas relações nas mais variadas e adversas situações. A vitalidade de seu modo de vida hoje e no passado é uma demonstração cabal da criatividade dos povos indígenas da Amazônia”,

arremata Geraldo Andrello.

Impactos

Para o pesquisador Pedro Lolli, é difícil sintetizar os principais impactos da chegada do colonizador branco na região. Isso porque as primeiras frentes pioneiras coloniais datam do século XVI e se intensificam a partir do século XVIII em diante. Há, portanto, muitas camadas históricas de uma sucessão de impactos no sistema social regional do noroeste amazônico. Mas de maneira esquemática e geral é possível destacar algumas ondas que marcaram épocas e que ainda se fazem sentir atualmente.

A primeira grande onda, como revela Lolli, veio com o avanço da indústria extrativista e a instauração de um sistema de dívidas – conhecido também como aviamento, instauração do sistema do aviamento – no qual os indígenas foram ora atraídos, ora capturados como escravos para servirem de mão-de-obra. Nesse período, o sistema regional sofreu uma grande perda populacional (como decorrência da violência colonial), ao mesmo tempo que uma grande dispersão populacional (seja empreendida por aquelas pessoas que fugiam das frentes pioneiras, seja por aquelas pessoas que eram capturadas e levadas para Manaus ou mesmo Belém).

Uma segunda grande onda de impacto coincide com o boom da exploração da borracha na passagem do século XIX para o XX e a instalação das missões salesianas na região. A chegada dos missionários salesianos introduziu um novo capítulo na violência colonial. Enquanto procuravam conter a sede de sangue dos grandes patrões da região, que matavam indígenas por esporte, os salesianos iniciaram um processo educacional que obrigava aos indígenas a mudarem radicalmente seu modo de vida. Isso incluía a proibição de falar a língua materna nas escolas, o abandono de importantes rituais, a demonização do conhecimento indígena, a incorporação de roupas e de casas nucleares. Houve, portanto, um profundo impacto cultural que se estendeu ao longo do século XX, tendo seu apogeu entre meados da década de 1950 até 1980, como repassa o pesquisador.

Uma terceira grande onda de impacto ocorre a partir da década de 1970, quando o governo da ditadura militar colocou em prática um novo projeto de ocupação para a Amazônia, onde o plano era levar o desenvolvimento econômico para a região. É um período de megaobras realizadas em nome de um desenvolvimento predatório (muitas das quais apodreceram na floresta sem sequer ter a funcionalidade pretendida), que atraiu significativa migração para a região da Amazônia. Os principais impactos nesse período foram a ameaça e a perda territorial por parte dos povos indígenas. Além disso, é uma época em que o impacto ambiental é avassalador e sem precedentes.

Acerca dos conteúdos publicados no dossiê do MPEG sobre o noroeste amazônico, Pedro Lolli destaca que os artigos reunidos no Boletim do MPEG expressam também um conjunto de pesquisas que se fundamentam em um trabalho colaborativo entre pesquisadores(as) brancos(as), sábios(as) indígenas e pesquisadores(as) indígenas e que vem trazendo importantes compreensões sobre o processo colonial que ocorreu na Amazônia. Uma das contribuições desses trabalhos é que o processo colonial na Amazônia não pode ser compreendido apenas numa chave histórica e que devemos levar em consideração as várias historicidades indígenas que se entrecruzam no processo histórico colonial. Não é mais possível pensarmos sobre os rumos da Amazônia sem levar em consideração essa diversidade de historicidades, que implica também em trazer para o centro da discussão os (as) próprios (as) indígenas.

“Devemos abrir nossos ouvidos a essas historicidades (ainda que saibamos, como bem nos chama a atenção Davi Kopenawa, sejamos resistentes em escutar), pois elas se confundem com a própria floresta amazônica. Lembro apenas, como poderão verificar na leitura do dossiê, que no noroeste amazônico a paisagem não são apenas árvores e plantas, mas casas de ancestrais e lugares onde eventos importantes aconteceram. Em suma, o que se pode entrever ao longo do dossiê é que não há floresta Amazônica em pé, sem os povos indígenas, e que não podemos entender a devastação da floresta sem trazer as perspectivas históricas dos povos indígenas sobre essa destruição”, conclui Pedro Lolli.

*Com informações do Museu Paraense Emílio Goeldi