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O que você vê nos outros e à sua volta?

Por Julio Sampaio de Andrade – juliosampaio@consultoriaresultado.com.br

A história se passa no antigo reino de Cristal, nos tempos de Atlântida. Conta a lenda que uma grande epidemia ameaçava dizimar todo o reino, mas que os deuses da compensação o salvaram exigindo em troca a vida do Rei Gransábio I, fundador e unificador do reino. Antes dele, a região era uma verdadeira barbárie, com miséria, doenças e conflitos por toda a parte, um inferno. Justus Sereno, com o poder do olhar, da escuta e de fazer perguntas, unificou as diversas tribos e foi conclamado Rei Gransábio I, iniciando um período de grande prosperidade do reino.

Questionado sobre como tinha conseguido tal feito, Gransábio I disse que havia recebido dos deuses da sabedoria um grande poder, um segredo, que tornaria tudo mais fácil, mas que só poderia ser revelado a seu sucessor no momento de sua morte. A partir de então, a missão caberia a seu filho Iuvenis Sereno, que seria proclamado Gransábio II.

Sacrificar a própria vida para salvar o seu povo era o que caberia a um governante, segundo as leis da compensação e o rei aceitara o seu destino, preparando-se para revelar o tal segredo a seu filho Iuvenis. Infelizmente, porém, tudo ocorreu muito rápido. Numa noite fria de sexta-feira, quando as nuvens cobriam todo o céu, os deuses do tal acordo aparecerem para cobrar a dívida. O rei imediatamente caiu na cama com uma febre alta e mal teve tempo de balbuciar as suas últimas palavras ao filho. Foram apenas duas expressões: os outros e o espelho. Gransábio I partiu deixando para Iuvenis um enigma, sem a solução do qual não poderia assumir o reino de Cristal e garantir prosperidade ao seu povo.

Consultado sobre como Iuvenis poderia decifrar o enigma, o oráculo disse: vá para as ruas, misture-se com o povo e a verdade se revelará. Disfarçado de um jovem filósofo, Iunus seguiu por 40 dias, para os quatro cantos do reino, perguntando a um e a outro: o que une o espelho aos outros? Alguns, sem saber de quem se tratava, riam de sua cara, outros se irritavam e o mandavam trabalhar. Poucos lhe davam atenção e arriscavam dizer alguma coisa.

Uma mulher que parecia reflexiva disse: os outros me servem como um espelho para me mostrar que estou sempre evoluindo. É o que eu ouço dos outros.

Um homem que ouvia discordou e complementou: se é um espelho ele me mostra o que eu sou e o que os outros esperam de mim. Não preciso mudar e, sim, ser coerente.

Um artista proclamou: o que vejo nos outros são defeitos por toda a parte e de todos os tipos. Quando me vejo no espelho, percebo que sou uma pessoa melhor dos que os que me cercam.

Uma mulher que vivia na janela, sorriu levemente para Iunus e parecia viajar no tempo: o que vejo nos outros, sobretudo nos ricos e poderosos, é um espelho do que sonho em ser um dia. Vejo o meu futuro.

Um velho malvestido e malcuidado ruminou: não gosto do que vejo no espelho e muito menos nos outros. É tudo muito feio e ruim. Se pudesse, acabava com tudo isso em uma única vez. De que vale todo o progresso se a felicidade não existe?

Com estas e com tantas outras expressões tão diferentes, como resolver o enigma, pensou Iunus. Uma segunda consulta ao oráculo, no entanto, revelou um novo cenário: “você já esteve com a verdade, só que não a reconheceu. Ela está agora bem perto, tão perto, que você só precisa olhar para o espelho”.

E foi, então, que Yunus recebeu dos deuses da sabedoria a revelação que o tornou o Rei Gransábio II, qualificando-o a lidar com todos os tipos de diferenças. Ao contrário de outras nações que sucumbiram à pandemias, catástrofes e afundamentos, como foi o caso de Atlântida, Cristal se tornou por séculos uma referência de um lugar em que predominava a saúde, a paz, a prosperidade, ou seja, a felicidade.

O segredo de Cristal ainda continua desconhecido para a maioria de nós mortais: o que vemos nos outros e à nossa volta, seja bom ou ruim, é espelho do que existe dentro de nós.

Sobre o autor

Julio Sampaio (PCC,ICF) é idealizador do MCI – Mentoring Coaching Institute, diretor da Resultado Consultoria, Mentoring e Coaching e autor do livro Felicidade, Pessoas e Empresas (Editora Ponto Vital). Texto publicado no Portal Amazônia e no https://mcinstitute.com.br/blog/.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Cadastros de novos empreendimentos turísticos aumentam 74% no Pará, aponta MTur

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O Brasil se prepara para receber o mais importante evento para a discussão das mudanças climáticas no mundo, a COP 30, que acontecerá em 2025. E o Ministério do Turismo tem atuado para fortalecer a estrutura turística da capital paraense, Belém (PA), que será a sede do evento e deverá receber cerca de 50 mil pessoas.

Para recepcionar todos os turistas com serviços qualificados, o MTur tem implementado uma série de ações de preparação do estado para a Cúpula. Uma das atividades realizadas é a aproximação com os prestadores de serviços turísticos, com o intuito de orientá-los e conscientizá-los sobre a importância da formalização do setor, por meio do registro no Cadastur, o Cadastro de Prestadores de Serviços Turísticos, do Ministério do Turismo.

Graças a essas iniciativas, houve um aumento de 74% no número de novos cadastros de empreendimentos turísticos no primeiro semestre de 2024, em comparação com o segundo semestre do ano anterior. “Esse crescimento é essencial para melhorar a prestação de serviços da rede hoteleira, bares, restaurantes, pousadas e todo o empresariado turístico da capital paraense e região metropolitana.

Com o Cadastur, o empreendedor passa a ter acesso a programas do Ministério do Turismo, como o Fundo Geral do Turismo (Fungetur), que oferece linhas de financiamento com juros mais baixos, entre outros benefícios que ajudam o setor local a se desenvolver, gerando emprego e renda e promovendo um turismo de qualidade na região.

Outro benefício são os cursos de capacitação disponíveis na plataforma Qualifica Turismo, que oferece aos profissionais do setor, como garçons, taxistas, motoristas de aplicativos, funcionários de meios de hospedagem, entre outros, cursos de inglês, atendimento em libras, formação para condutor de turismo náutico, e diversos outros cursos que abrem portas no mercado de trabalho e qualifica a mão de obra turística.

Em todo o Pará, atualmente estão registrados 3.265 empreendimentos turísticos no Cadastur, que atuam regularmente e estão capacitados para oferecerem aos visitantes melhor estrutura e segurança de apoio nas atividades desenvolvidas.

Preparação

O Ministério do Turismo tem promovido uma série de ações de preparação do setor para a COP 30. Entre elas, foi realizado um aporte de R$ 100 milhões do Fundo Geral de Turismo (Novo Fungetur) para a concessão de financiamentos em condições especiais a empreendimentos turísticos privados do estado, contemplando a realização de obras e obtenção de capital de giro.

Outra medida é a implementação de um projeto de desenvolvimento do turismo de base comunitária na cidade de Belém e nas ilhas metropolitanas dos arredores da capital paraense, em parceria com a Caixa Econômica Federal e a Embratur. A iniciativa contará com um investimento de R$ 6 milhões do Fundo Socioambietal da Caixa e possibilitará expandir a oferta de experiências autênticas e que envolvem a participação ativa de comunidades nativas da região.

*Com informações do Ministério do Turismo

Crédito de R$ 1,62 bi para proteção de território Yanomami vai à promulgação

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O Senado aprovou nesta quarta-feira (10) a Medida Provisória (MP) 1.209/2024, que abre crédito extraordinário de R$1,62 bilhão para proteção das comunidades que vivem em território ianomâmi. O texto, que recebeu parecer favorável do relator na Comissão Mista de Orçamento (CMO), senador Sérgio Petecão (PSD-AC), vai à promulgação.

Os recursos da medida, que tem força de lei, são para atividades emergenciais de assistência sanitária aos ianomâmis e demais povos da região em estado de emergência de saúde, como a retirada de garimpos ilegais da área indígena. O anexo da MP detalha os programas e ações em cada área beneficiada.

O governo justificou os créditos com base na conservação ambiental e no desenvolvimento socioeconômico sustentável da região. Foram contemplados os ministérios da Defesa; da Justiça; do Meio Ambiente; do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar; do Desenvolvimento e Assistência Social; da Pesca; dos Direitos Humanos; e dos Povos Indígenas.

A maior parte dos recursos, R$ 309,8 milhões, foi destinada ao Ministério da Defesa, para uso das Forças Armadas e do Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam) nas ações emergenciais.

No Ministério da Justiça, os recursos serão direcionados principalmente para a Força Nacional de Segurança Pública (R$ 29,9 milhões), com a contratação de servidores e o aprimoramento das ações de segurança; e para o Departamento de Polícia Rodoviária Federal (R$ 19,7 milhões), para operações de policiamento e enfrentamento da criminalidade e corrupção.

Já no Ministério do Meio Ambiente, foram beneficiados o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), com R$ 64,9 milhões; e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), com R$ 38,1 milhões. Os recursos serão destinados à fiscalização ambiental relacionada à proteção da vida, saúde e segurança em terras indígenas, bem como à gestão de unidades de conservação.

O crédito extraordinário contempla, ainda, investimentos no desenvolvimento agrário e na agricultura familiar, no combate à fome, na pesca e aquicultura,  e nos direitos humanos que beneficiem os povos indígenas. 

*Com informações da Agência Senado

MCTI anuncia investimento de R$ 500 milhões na Amazônia Legal

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O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) vai investir R$ 500 milhões no desenvolvimento de tecnologias e atividades econômicas inovadoras e sustentáveis na Amazônia Legal. Os recursos serão destinados pelo Pró-Amazônia, programa criado pelo Conselho do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) para articular iniciativas locais e gerar conhecimento sobre a sociobiodiversidade amazônica.

A gestão desse processo é da Subsecretaria de Ciência e Tecnologia para a Amazônia (SCTA) do MCTI, criada em 2023 para cuidar de temas amazônicos. Segundo o coordenador geral de Programas e Projetos para Amazônia do MCTI, Eliomar Mota da Cunha, a SCTA é uma ação estratégica da pasta para ampliar sua atuação na Amazônia Legal.

Este ano, a reunião da SPBC tem como tema ‘Ciência para um futuro sustentável e inclusivo: por um novo contrato social com a natureza’. Para o coordenador, é uma oportunidade para a SCTA estreitar laços com a comunidade científica da Amazônia Legal. “O mundo inteiro está com os olhos voltados para a Amazônia e Belém é a porta de entrada. Realizar a SBPC aqui é algo simbólico e, para nós, da SCTA, é muito importante estar presente em um evento deste porte, pois mostra o tamanho da nossa responsabilidade para com a ciência e a tecnologia aqui na região amazônica”, diz.

Coordenadora geral de Articulação e Fomento da SCTA, Cassia Damiani explica que o principal projeto da pasta para a região é o Pró-Amazônia. “O programa tem quatro linhas da atuação concebidas para articular os projetos de ciência e tecnologia na região”, explica Cassia.

A primeira linha do Pró-Amazônia é voltada para a infraestrutura de pesquisa científica e tecnológica com foco na recuperação e criação de laboratórios e institutos de ciência e tecnologia na Amazônia Legal.

Uma segunda vertente se destina ao apoio a projetos de inovação de empresas nas áreas de bioeconomia, cidades sustentáveis, descarbonização de processos produtivos, transformação digital, restauração florestal e monitoramento ambiental. No valor de R$ 100 milhões, o edital de fomento para essa linha de atuação foi lançado nesta segunda-feira (8) pelo MCTI, em parceria com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).

A terceira linha de fomento do programa da SCTA vai para projetos de pesquisa e desenvolvimento tecnológico em rede, com o objetivo de apoiar ou criar centros avançados em áreas estratégicas para o desenvolvimento sustentável da região. Por fim, a quarta linha do Pró-Amazônia se destina ao apoio a projetos de cooperação internacional, visando ao desenvolvimento sustentável.

“A primeira linha é uma das que mais dialogam com as necessidades objetivas debatidas na SBPC, que é a de estruturação e apoio à infraestrutura de laboratórios, institutos de ciência e tecnologia e inovação”, afirma Cassia. A coordenadora informa que o programa prevê investimentos de R$ 110 milhões para reestruturação da infraestrutura local, além de R$ 10 milhões para recuperação do herbário do Inpa e outros R$ 20 milhões para recuperação do Museu Goeldi. Dentro dessa proposta, a ministra de Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, anunciou na segunda-feira (8), o investimento de R$ 20 milhões para a criação do Museu das Amazônias, em Belém.

“O nosso principal objetivo nesse edital da linha 1 é recompor ou criar institutos de ciência e tecnologia e laboratórios nas regiões fora das capitais, no interior dos estados amazônicos”, explica a coordenadora, que também destaca a abertura do edital de chamamento para empresas de bioeconomia, que já está aberto, como parte da segunda linha do Pro-Amazônia. “Queremos dinamizar a potencialidade de inovação e negócios das empresas da região”.

A coordenadora pontua ainda o investimento de R$ 150 milhões para a formação de uma rede de pesquisadores, como parte da terceira linha do Pro-Amazônia. “Isso está muito em sintonia com a proposta da pasta e da SBPC, de articular desenvolvimento, sustentabilidade e inclusão, pois vai proporcionar uma efervescência de pesquisadores em rede, que têm vinculo com projetos na Amazônia legal. É um esforço de fixação desses pesquisadores na região, que evadem por falta de condições objetivas”, diz Cassia.

“Os demais editais estão prontos e serão lançados nos próximos dias. Não são só promessas, eles já se transformaram, inclusive em termos de referência”, conclui a coordenadora da SCTA.

A chamada pública para o edital de subvenção de empresas pode ser acessada AQUI.

*Com informações do MCTI

Saberes e culturas ancestrais na educação indígena são fortalecidas por Escolas Vivas

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A proposta de uma educação anticolonial, vivenciada em diferentes territórios indígenas, é o que busca Duã Busã, professor, pajé e líder da etnia Huni Kuï. O educador vive e trabalha na aldeia Coração da Floresta, no Alto Rio Jordão, divisa do estado do Acre com o Peru. Em suas aulas, ele aplica os princípios do movimento Shubu Hiwea (Escola Viva), que luta para sustentar mundos. Para atravessar a perspectiva formal da escola que prioriza letras e números, a Escola Viva adentra a floresta e usa plantas, rios, sonhos e atividades do cotidiano como instrumentos pedagógicos que acordam memórias ancestrais.

Este pensamento é uma resposta crítica à violência colonial presente no ensino indígena no Brasil, marcado por séculos de imposição da cultura cristã e europeia aos povos indígenas, com a catequização forçada executada por jesuítas e missionários. Devido à catequese, os saberes indígenas foram adormecidos e deixaram de ser praticados. A pedagogia integracionista não respeitava as práticas e conhecimentos ancestrais de diferentes etnias e povos.

Como forma de expandir os saberes compartilhados pelo pajé Duã Busã e fortalecer as culturas indígenas dentro dos territórios, nasceu a iniciativa das Escolas Vivas, coordenada por Cristine Takuá, educadora, artesã, escritora, parteira e pensadora do povo Maxakali que habita há 20 anos a Terra Indígena Ribeirão Silveira, dos Guarani-Mbya, no litoral norte de São Paulo. Ela também é fundadora do Instituto Maracá, entidade voltada para a promoção da cultura, arte e literatura indígena.

O projeto recebe ainda contribuições de outras lideranças indígenas, como Ailton Krenak, e é apoiado pelo Selvagem – ciclo de estudos sobre a vida, espaço que compreende diversos temas a partir da integração de conhecimentos indígenas, científicos e filosóficos.

A mestra indígena é responsável por dialogar com as escolas vivas acompanhadas pelo programa em cinco territórios entre São Paulo, Minas Gerais, Acre e Amazonas: Shubu Hiwea (Escola Viva Huni Kuï), do povo Huni Kuï ; Apne Ixkot Hâmhipak (Aldeia Escola Floresta), do povo Maxakali; Mbya Arandu Porã (Ponto de Cultura), do povo Guarani Mbya; Bahserikowi (Centro de Medicina Indígena), dos povos Tukano, Desana e Tuyuka; e Wanheke Ipanana Wha Walimanai (Escola Viva Baniwa), do povo Baniwa.

Escola Viva Baniwa. Foto: Divulgação/Ciclo Selvagem

Ela foi professora por 12 anos na Escola Estadual Indígena Txeru Ba’e Kuai’, no litoral de São Paulo, território onde vive, e saiu da unidade de ensino por não aceitar o sistema colonial que lá se impõe: “um currículo quadrado e desrespeitoso com a cultura de cada povo”, avalia.

O objetivo das escolas vivas é despertar em crianças, jovens e adultos indígenas a vontade de dar continuidade a transmissão de saberes ancestrais dentro dos territórios, em um processo geracional. São espaços de resistência criativa formadora de outros mestres e mestras dos conhecimentos indígenas. 

Além disso, as escolas vivas se preocupam em cuidar dos territórios e conseguir manter as crianças e jovens sonhando e praticando os conhecimentos ancestrais para que as futuras gerações não esqueçam mais. “Não deixem adormecer toda a riqueza dos saberes de saúde dos avós”, completa Takuá.

De acordo com a educadora, é a partir da compreensão de que cada povo tem um modo particular de preparação e proteção de sua gente, desde antes do nascimento até depois da morte, que as escolas vivas operam seus currículos e atividades, em contraponto às escolas formais clássicas. 

“As escolas vivas se diferenciam das outras escolas na medida que não priorizam o conhecimento ocidental, mas sim o saber oral dos anciãos, das plantas e dos sonhos. Não temos um currículo definido, mas uma infinidade de trama de possibilidades de transmitir o conhecimento respeitando o dom e principalmente, o tempo de cada pessoa”, explica Cristine.

Culturas contracoloniais

Nascida na comunidade de Assunção, no Baixo Rio Içana, na Terra Indígena Alto Rio Negro, em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, a antropóloga, fotógrafa e pesquisadora indígena Francy Baniwa, do povo Baniwa, pesquisou e escreveu durante seis anos o livro Umbigo do Mundo para documentar as histórias da origem de seu povo. 

Sua preocupação como mulher indígena e pesquisadora era fortalecer entre as novas gerações as danças de seu povo e as práticas cotidianas como cuidar da roça e fazer beiju. Essas atividades permearam a infância de Francy, diferente do que ela observa com a infância de sua filha, por exemplo, vivida entre território e cidade.

A obra foi feita em diálogo com seu pai, Francisco Luiz Fontes Baniwa (Matsaape), narrador das histórias orais tradicionais do povo Baniwa, e seu irmão Frank Fontes Baniwa (Hipattairi), autor das 74 aquarelas criadas para o livro. Desse trabalho, surgiu a possibilidade de realizar o sonho coletivo da aldeia Assunção de fortalecer a transmissão de saberes dos mais velhos e aprender com eles, que são os pilares e a fonte de sabedoria da comunidade.  

A Wanheke Ipanana Wha Walimanai (Escola Viva Baniwa) foi inaugurada no território do Alto Rio Negro em março deste ano, em uma emocionante celebração que mobilizou toda a comunidade de Assunção. “Foi um momento muito importante porque a comunidade começou a entender que a gente precisa publicar mais livros, que a oralidade precisa ir para a escrita e quem pode fazer isso somos nós professores e alunos indígenas”, relata.

Mulheres reunidas na Escola Viva Baniwa. Foto: Francy Baniwa

A comemoração com danças, cantos e rituais contou com a presença dos 12 conhecedores da Escola Viva Baniwa, todos professores indígenas e mestres da comunidade. O calendário e o planejamento da escola são específicos e decididos entre a aldeia e os conhecedores, para construir um espaço de saberes que pretende valorizar a cultura desse povo entre os mais jovens. 

A Escola Viva Baniwa trabalha com eixos temáticos que interseccionam arte e educação, por meio de confecção de cestaria de arumã; confecção de instrumentos musicais, de pesca, de caça e tecelagem em tucum; e uso das artes visuais, do audiovisual e da fotografia.

A liderança Cristine Takuá descreve que o papel da arte e da cultura no eixo de ensino das Escolas Vivas é a extensão do que já acompanha os povos indígenas a cada passo, “seja preparando um remédio, fazendo um parto, preparando uma armadilha, entoando um canto sagrado, tecendo uma rede, preparando uma argila que se transformará numa panela, a arte é o coração da cultura e segue nas escolas vivas sendo praticada e valorizada”.

A musicalidade é outro aspecto abordado pela Escola Viva Baniwa, onde os cantos, danças e performances musicais fazem parte das atividades conduzidas pelos conhecedores Baniwa. As línguas Baniwa e Nheengatu também são centrais na metodologia de ensino. 

A expectativa é integrar ao projeto as outras 95 comunidades Baniwa que existem na Terra Indígena Alto Rio  Negro e incentivar a nova geração a ocupar espaços de referência na comunidade, como futuras lideranças e sábios. São Gabriel da Cachoeira é o município com maior diversidade indígena do país. São 23 etnias diferentes. 

Os Baniwa têm uma relação especial de respeito com a terra. Segundo Francy Baniwa, sua comunidade sempre foi escola viva por manter práticas milenares que remontam aos conhecimentos da natureza e a manutenção da língua materna.

A escola viva somos nós dentro dos territórios, a escola viva é você conhecer o seu território  e saber que naquela terra firme dá para fazer uma roça. A escola viva é saber que dá para plantar e que vai ter muita fartura, seja de banana ou pimenta. A Escola Viva é saber que naquele rio existem diversos tipos de peixes e dominar esse conhecimento do território”, manifestou a liderança.

Oralidade priorizada

Inauguração da Escola Viva Baniwa. Foto: Francy Baniwa

O papel do ensino da oralidade para as novas gerações constitui um caminho para que os saberes ancestrais sejam “sempre trilhados pelos mais jovens e assim eles seguirão repassando todas essas memórias às futuras gerações”, garante a educadora Cristine Takuá, que reforça o conhecimento dos povos indígenas transmitido de forma oral por meio de cantos, narrativas, diálogos com as plantas e com os animais.

Para a antropóloga Francy Baniwa, o exercício da oralidade e da prática entre pessoas e o seu território configura como escola viva nos afazeres do cotidiano, como acordar pela manhã e se banhar no rio. São escolas vivas as mulheres, crianças e homens indígenas que conhecem o seu próprio mundo. “É esse conhecimento nosso que temos de único, a língua, as narrativas presentes, as regras da floresta e os segredos”.

A Escola Viva Baniwa trabalha para que a consciência da importância da oralidade seja estabelecida entre as novas gerações Baniwa. A intenção de Francy Baniwa é transmitir o entendimento sobre as narrativas Baniwa que falam de cura e do cuidado com a alimentação, para que essa memória não seja esquecida.

Francy acredita que o conhecimento da oralidade de um povo é a chave para que os jovens não fiquem perdidos sobre o que são as narrativas, em um escuta constante com os mais velhos. Seu medo é que os filhos e netos esqueceram de onde vieram. Para isso, fortalece a Escola Viva Baniwa com o ensinamento específico Baniwa.

“Sentar, abrir a mente e deixar entrar e fluir e viajar nas narrativas é você percorrer esse trajeto de universidade que a gente faz. A oralidade precisa estar viva porque se a gente não fortalecer hoje, daqui uns 20 anos os nossos filhos e netos não vão saber de onde vieram e porque vieram”.

Produção de conhecimento e ciência ancestral

Em Manaus, no Amazonas, o Bahserikowi (Centro de Medicina Indígena) é outro projeto contemplado pela iniciativa das Escolas Vivas. O centro disponibiliza tratamentos tradicionais de cura e proteção guiados por pajés das etnias Desana, Tuyuka e Tukano.

São os Kumuã — anciãos indígenas conhecedores da medicina da floresta — os especialistas que dominam as práticas milenares de cuidado da saúde na medicina dos povos indígenas do Alto Rio Negro, como o Bahsese (“benzimento”, na língua Tukano) para tratar doenças ao invocar substâncias curativas dos vegetais, minerais e animais, e o Wetidarese (proteção) para afastar agressões pessoais.

As plantas medicinais também são usadas para curar diversos tipos de doenças no espaço idealizado pelo antropólogo indígena da etnia Tukano João Paulo Lima Barreto. O Bahserikowi é resultado da luta pelo respeito às medicinas tradicionais indígenas. No mundo ocidental, essas práticas ainda são vistas apenas como espirituais, e por isso não fazem parte das Práticas Integrativas e Complementares (PICS), regulamentadas e oferecidas gratuitamente à população pelo Sistema Único de Saúde (SUS). 

O Bahserikowi – Centro de Medicina Indígena está localizado no Centro Histórico de Manaus. Foto: Pedro Tukano

Ivan Tukano, cofundador e coordenador do centro, afirma que o lugar foi criado porque a medicina ocidental não aceita que os especialistas indígenas tenham preparo para cuidar da saúde das pessoas. Ao longo dos oito anos de existência do centro, já passaram pelos benzimentos mais de 13 mil pessoas. 

Para além das consultas e tratamentos de saúde, o Bahserikowi é uma escola viva  e centro de estudos avançados sobre os conhecimentos e práticas indígenas. Uma casa de oficinas de saberes indígenas para jovens indígenas e não indígenas, de festas tradicionais e de formação de futuros novos Kumuãs. 

“O Centro de Medicina Indígena foi fundado com o objetivo de mostrar para a sociedade não indígena que nós temos a nossa própria medicina, onde as pessoas possam ter contato com os nossos especialistas de cura  e a partir disso usufruir, ver e sentir as nossas práticas”, completa Ivan.

A reivindicação é para que o conhecimento dos Kumuã seja incorporado às políticas públicas de saúde. “A palavra para nós é concreta, diferente do mundo não indígena que  dá importância a aquilo que está escrito. Através da oralidade, nos formamos pessoas que entendemos  o nosso mundo, que cuidamos da saúde, do corpo, da floresta, porque o nosso corpo tem esta conexão com a natureza”, diz.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Nonada Jornalismo, escrito por Nicoly Ambrosio

Amor-Perfeito: biscoito típico de Tocantins entra para lista de Patrimônio Cultural e Gastronômico

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Com formato de coroa e feito com polvilho, leite de coco, manteiga, açúcar e uma pitadinha de sal. Este é o biscoito amor-perfeito, um dos mais famosos do Tocantins. Produzido de forma artesanal, tem como principal produtor o município de Natividade, no sudeste do Estado.

Seu sucesso se deve à família de Ana Benedita de Cerqueira e Silva, a ‘Dona Naninha’, que popularizou o biscoito em todo Estado e que, agora, entra para lista de comidas que são Patrimônio Cultural e Gastronômico do Tocantins.

Além do popular doce, o famoso espetinho também foi decretado Patrimônio Cultural e Gastronômico com a lei sancionada no Diário Oficial do dia 9 de julho (página 6). Eles se unem ao chambari, à buchada e ainda à paçoca de carne seca, receitas consideradas patrimônio desde 2017. O novo texto com a adição foi publicado no Diário Oficial, alterando a lei nº 3.252 (de 31 de julho de 2017).

Dona Naninha, que seguia a tradição culinária fazendo-a famosa no Estafo morreu em 14 de abril do ano passado aos 85 anos.

Novo Herbário do INPA vai receber investimento de R$ 10 milhões do MCTI

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Durante a 76ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Belém (PA), a ministra de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Luciana Santos, anunciou o investimento de R$ 10 milhões para construir o novo Herbário do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI), uma das maiores coleções de plantas da Amazônia.

Na oportunidade, a ministra também nomeou o diretor do Inpa, o professor Henrique Pereira, como coordenador brasileiro do Centro Franco-Brasileiro de Biodiversidade Amazônica (CFBBA), uma cooperação que foi retomada em março de 2024 entre o Brasil e a França. Os anúncios foram feitos na segunda-feira (8).

O recurso para o projeto do herbário faz parte de uma negociação do Ministério de Ciência e Tecnologia (MCTI) com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Luciana Santos enfatizou a necessidade de proteger o maior acervo de plantas amazônicas.

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Atualmente, quase 300 mil espécimes estão depositadas no Herbário (plantas e fungos), a maior coleta de espécimes vegetais para a Amazônia brasileira e o quinto maior Herbário do Brasil. O Inpa, unidade vinculada ao MCTI, está localizada em Manaus (AM).

De acordo com o diretor do Inpa, esse aporte será destinado a um projeto sob encomenda que visa a construção de um novo espaço para abrigar o acervo do herbário, que hoje ocupa um dos prédios mais antigos do campus do Instituto.

“Necessitamos de instalações adequadas, mais amplas, então esse novo projeto irá permitir duplicar a capacidade da Coleção de Plantas. Será um herbário diferente, interativo, com espaço para reuniões, para visitação pública. E esse novo herbário também irá abrigar laboratórios temáticos, na área de palinologia, estudo de fungos, de pólen, será um complexo de estudo da flora amazônica”, contou Pereira.

No total, serão investidos R$ 500 milhões em programas para a região amazônica com recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), para os programas Pró-Amazônia e Segurança Alimentar e Erradicação da Fome. Foram destinados R$ 360 milhões para o Programa Pró-Amazônia e R$ 184,2 milhões para o Programa de Segurança Alimentar.

Cooperação com a França

O anúncio de Henrique Pereira como coordenador brasileiro do Centro Franco-Brasileiro de Biodiversidade Amazônica (CFBBA) aconteceu na reunião com outros dirigentes de unidades vinculadas do MCTI. “Foi uma surpresa, nós sabíamos que era aguardado o anúncio do escolhido para coordenar a parte brasileira, mas foi uma surpresa. Agora é receber as devidas orientações e começar o trabalho”, pontua o diretor do Inpa.

Pereira comenta, ainda, que o Inpa já foi sede de uma missão permanente da agência de cooperação científica da França, hoje conhecida como IRD, por mais de 20 anos. “Quem sabe uma das metodologias seja a retomada de missões de pesquisadores visitantes entre Brasil e França, até porque ainda hoje mantemos cooperações com a França, mas muito menos intensas”, frisa.

A ideia do Centro é ser uma rede constituída pelas instituições francesas e brasileiras de ciência que atuam no tema da biodiversidade na região amazônica. Outro ponto favorável ao Centro é o fato que a França tem um território na Amazônia, a Guiana Francesa.

“A maior fronteira da França é com o Brasil, na fronteira entre o Amapá e a Guiana Francesa, então esperamos ter uma inserção das organizações do estado do Amapá, onde devem se concentrar parte das atividades, nessa região de fronteira”, completa Pereira.

Leia também: Portal Amazônia responde: a maior fronteira da França é com o Brasil?

O Inpa e outras instituições brasileiras, como a Universidade Federal do Amazonas (Ufam), cooperam há muitos anos com o Institut de Recherche pour le Développement (IRD) da França. Além disso, o governo francês coopera com outros países amazônicos, como, por exemplo, a Rede HyBam. A relação de fronteira com os países Guiana e Brasil torna essa escolha do Brasil mais distinta.

*Com informações do INPA

Festival Folclórico de Parintins é manifestação da cultura nacional, avalia Senado

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O tradicional Festival Folclórico de Parintins, no Amazonas, e os Bois Garantido (vermelho) e Caprichoso (azul) estão a um passo de serem reconhecidos como manifestação da cultura nacional. A Comissão de Educação e Cultura (CE) aprovou nesta terça-feira (9) o Projeto de Lei (PL) 2.610/2023, que tem esse objetivo. O texto recebeu parecer favorável do senador Plínio Valério (PSDB-AM) e, como foi alterado pelo relator, volta para a análise da Câmara dos Deputados.

O Festival Folclórico de Parintins, que põe frente à frente os Bois Caprichoso e Garantido, ocorre há quase 60 anos sempre na última semana de junho. Um corpo de jurados é convidado a avaliar, a cada edição, as performances dos grupos e decidir o campeão. Na Arena do Bumbódromo, a 370 quilômetros de Manaus, um público apaixonado veste as cores preferidas e torce pelo seu boi. 

Plínio Valério aponta que o Sistema Nacional de Cultura detalha, entre os deveres do Estado, a garantia de plena liberdade de expressão artística. Ele apresentou emenda para que o poder público, além de garantir a livre atividade do festival, também destine recursos ao evento.

O Iphan, em 2018, reconheceu o Complexo Cultural do Boi Bumbá do Médio Amazonas e Parintins como patrimônio cultural imaterial.

*Com informações da Agência Senado

Origem amazônica do cacau é comprovada por meio de DNA e revela forte rede de comércio pré-colombiana

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Quem encontra um cacaueiro vicejando numa agrofloresta amazônica não imagina quanta história carrega o fruto. Por muito tempo se creditou a origem do cacau ao endereço errado. Evidências arqueológicas apontavam o sul do México e a América Central, a chamada Mesoamérica, como local onde se iniciou a domesticação do fruto há cerca de 4 mil anos. Acreditava-se que, apenas depois, o cacau teria sido levado à América do Sul.

Foi no início dos anos 2000, junto com uma equipe de arqueólogos e antropólogos franceses e equatorianos, que Valdez começou a estudar evidências que pudessem trazer novos conhecimentos sobre os povos antigos que prosperaram no Alto Amazonas, parte andina da Bacia Amazônica localizada no Equador, Peru, Colômbia e Venezuela.

Entre diversas descobertas, os pesquisadores se surpreenderam ao encontrar o DNA do cacau em cerâmicas milenares de uso doméstico e para tradições funerárias. Isso levou a uma reavaliação da origem do fruto: com raízes sul-americanas, as evidências apontam que há cerca de 5.500 anos o cacau já circulava por 19 culturas pré-colombianas.

“A característica mais importante de nossa pesquisa é o fato de colocar as culturas do Alto Amazonas em seu devido lugar, como um povo inovador e fundamental no surgimento dos fenômenos civilizatórios”, diz Valdez. “Agora a sua importância é duplamente reconhecida. Os amazônicos foram capazes de grandes conquistas civilizacionais e a interação regional foi um fator importante”.

Escultura asteca do século 15 com fruto de cacau. Foto: Reprodução/Museu do Brooklyn

Cacau para além da vida

O trabalho dos pesquisadores revelou 400 sítios arqueológicos na região e evidenciou a interação que existia entre os habitantes da Amazônia, das terras altas dos Andes e das planícies e margens da costa do Pacífico.

Ao descobrir as partículas de cacau nas cerâmicas de civilizações de mais de 5 mil anos, a pesquisa revelou que o cacau já era um alimento básico entre os povos daquele tempo. “Estas evidências apareceram no interior de vasos funerários que acompanharam vários indivíduos para a vida após a morte. As mesmas evidências foram também encontradas nas escavações domésticas”, conta Valdez.

Na época, o cacau era degustado em forma de polpa, como bebida, e em receitas elaboradas com o pó da semente torrada, além de ser usado como antisséptico para fins medicinais.

A descoberta foi publicada num artigo em 2018, mostrando que na Alta Amazônia o cacau já existia 1.500 anos antes do que na Mesoamérica.

Foto: Marlon del Aguila Guerrero/CIFOR.

A partir desta descoberta, os estudos sobre o cacau se intensificaram na região. A análise de DNA de mais de 350 peças arqueológicas de museus e de novas escavações, abrangendo um período de quase 6 mil anos, revelou que cerca de 30% delas guardam rastros do fruto.

O novo artigo relata que as partículas de cacau encontradas em cerâmicas de 19 culturas pré-colombianas revelam a mistura genética entre espécies de cacau distantes geograficamente entre si, apontando para as trocas e interações que devem ter ocorrido entre povos da Amazônia e costa do Pacífico e para a adaptação da planta em ambientes diversos.

“Esses dados mostram para nós que o cacau é uma planta sul-americana que foi levada há muito tempo, milhares de anos atrás, em redes de troca desde o centro de sua origem, que está ali na fronteira atual entre o Peru e Equador, no oeste da Amazônia, no sopé dos Andes, e foi levado dali para outras regiões da América do Sul e também para outras regiões das Américas”, avalia Eduardo Góes Neves, arqueólogo e diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP).

Os pesquisadores sugerem que a história complexa da domesticação do cacau é a base das populações atuais de cacaueiros e este conhecimento pode contribuir para o gerenciamento dos recursos genéticos da planta em tempos de mudanças climáticas.

Entre rios e montanhas

Os primeiros registros históricos do cultivo do cacau na Amazônia brasileira estão ligados à colonização portuguesa e datam da segunda metade do século 17.

Fernando Mendes, engenheiro agrônomo que trabalha com cacau há 44 anos, conta que o fruto teria sido combustível de discórdias entre o Marquês de Pombal e os jesuítas, que na época viam na sua comercialização uma fonte substancial de renda.

Sempre se soube, no entanto, que a domesticação do cacau em terras ameríndias é muito mais antiga do que a invasão dos europeus. “Em sua segunda viagem à América em 1502, Cristóvão Colombo estava em Honduras quando encontrou uma canoa indígena e lá dentro tinha frutos de cacau. Ele ficou muito impressionado com aquele fruto que não conhecia”, conta Mendes, autor de diversos livros sobre o cacau e coordenador regional de pesquisa e inovação da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac).

Segundo o pesquisador, é difícil precisar quando o cacau entrou em terras brasileiras e igualmente complexo avaliar o início de sua domesticação, que deve ser mais antiga do que os 5 mil anos comprovados pelas partículas detectadas nas peças de cerâmica.

Mendes aponta que a milenar domesticação do cacau por terras amazônicas tornou a espécie mais resistente às mudanças climáticas porque a planta se adaptou ao cultivo em sub-bosque, protegida da luz direta do sol.

Por ser uma planta perene e dispensar o uso do fogo, em sistemas agroflorestais o cacau contribui, inclusive, com a mitigação das mudanças climáticas e ajuda na regeneração da floresta.

“Desde 1996, a Ceplac, na Amazônia, tem como diretriz só oferecer assistência para os produtores que fazem um plantio em áreas antropizadas, nunca utilizando áreas de mata virgem”, diz Mendes. “A nossa contabilidade informa que, de 1996 a 2023, o programa de cacau no estado do Pará já recuperou cerca de 160 mil hectares de áreas”.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Mongabay, escrito por Sibélia Zanon

Primeira etapa: Estação de Tratamento de Esgoto Raiz tem 45% de execução da obra concluída

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A primeira etapa da construção da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Raiz já alcançou 45% de execução da obra. O empreendimento faz parte do programa “Trata Bem Manaus”, que tem como objetivo a universalização do serviço de coleta e tratamento de esgoto. Nesta primeira fase, já será possível tratar mais de sete milhões de litros de esgoto por dia.

A ETE está localizada na rua Independência, no bairro Raiz. O local fica às margens do Igarapé do 40, considerado um dos principais corpos hídricos que cortam a capital amazonense. A nova estação irá garantir que todo esgoto coletado da região passe por tratamento e retorne à natureza livre de contaminações.

O projeto está dividido em quatro etapas. A primeira tem previsão de conclusão neste ano e irá beneficiar mais de 55 mil pessoas. Os outros módulos entrarão em execução, gradativamente, com operação total em 2027.

“Esta é uma obra importante, pois estamos falando que em menos de quatro anos, vamos devolver para o Igarapé do 40, mais de 31 milhões de litros de esgoto tratado. É um benefício que chega para a população, que terá mais qualidade de vida e saúde, e para o meio ambiente. Estamos dentro da maior bacia hidrográfica do mundo e obras como esta são um salto importante para a preservação da natureza”, destaca o diretor-presidente da Águas de Manaus, Diego Dal Magro.

Foto: Divulgação/Águas de Manaus

O empreendimento conta com a mão de obra direta de mais de 100 pessoas. Iniciada no início deste ano, a obra já concluiu a etapa de fundação das principais estruturas. A partir de agora, estão sendo construídas as grandes estruturas como tratamento preliminar, desidratação do lodo, sala de polímeros e subestação, para posteriormente serem realizadas as instalações mecânicas e elétricas.

O andamento da obra também é acompanhado pelo poder concedente do município. O vice-prefeito, Marcos Rotta, esteve no local e destacou a importância da ETE para melhoria da qualidade de vida da população. “Esta obra vai, sem sombra de dúvida, vai mudar a vida de muitas pessoas. Estamos falando de mais qualidade de vida para mais de 220 mil pessoas. Esta é uma forma indelével. A parceria entre a prefeitura e a concessionária irá melhorar o esgotamento sanitário e a saúde pública em Manaus”, destacou Rotta.

ETE Raiz

A estação será uma das maiores da capital amazonense. Ela irá ocupar uma área de 9,6mil m² e terá capacidade de tratar mais de 31 milhões de litros de esgoto por dia. A ETE irá receber o esgoto produzido e coletado nos bairros Petrópolis, Japiim, Praça 14 de Janeiro, Cachoeirinha, São Francisco e Armando Mendes.

A obra é um dos empreendimentos do Trata Bem Manaus. O programa prevê a universalização do serviço de coleta e tratamento de esgoto em menos de 10 anos. Com investimentos de mais de R$2 bilhões, a Águas de Manaus irá realizar a implantação de mais de 2,7 milhões de metros de rede coletora de esgoto, além da ampliação e construção de mais de 70 estações de tratamento, espalhadas por todas as zonas da cidade.

*Por Águas de Manaus