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Funai recebe lideranças do povo Korubo em Brasília após 27 anos do primeiro contato

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No encontro, os Korubo pediram melhorias em direitos sociais e qualificação do serviço de saúde na Terra Indígena Vale do Javari, no Amazonas.

Foto: José Rui Gavião/Funai

Pela primeira vez em 27 anos desde que aconteceu o primeiro contato com os Korubo, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) recebeu duas lideranças do povo indígena de recente contato que vivem na Terra Indígena Vale do Javari, no Amazonas. A visita aconteceu na segunda-feira (29), na sede do órgão, em Brasília.

É a primeira vez que integrantes da etnia visitam a Capital Federal por ocasião do Acampamento Terra Livre (ATL), evento que mobiliza, há 20 anos, milhares de povos no poder central do país para reivindicarem seus direitos. A agenda fechou o ciclo de delegações indígenas recebidas pela Funai no mês de abril.

As lideranças Korubo foram recebidas pela diretora de Administração e Gestão da Funai, Mislene Metchacuna, de ordem da presidenta Joenia Wapichana, que cumpre agenda no Pará. 

Acompanhada por servidores da Coordenação da Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari (CFPE-VJ), da Coordenação-Geral de Indígenas Isolados e de Recente Contato (CGIIRC), da Coordenação-Geral de Promoção aos Direitos Sociais (CGPDS), da Assessoria Parlamentar (Aspar) e da Ouvidoria da Funai, Mislene acolheu as demandas acerca das reivindicações apresentadas com relação ao monitoramento territorial, fiscalização, segurança alimentar, acessibilidade a direitos sociais e de cidadania e demais serviços públicos, compreendidos pelas lideranças Korubo como necessários, sobretudo, melhoria e qualificação do serviço de saúde indígena, de acordo com suas especificidades.

“Ficamos muito felizes em receber pessoalmente as demandas do povo Korubo. Tomamos nota de tudo que foi apresentado. E o que cabe à Funai, vamos conversar com as outras diretorias para tentar melhorar a estrutura de atendimento. E as outras que não são de competência da Funai, também vamos conversar com órgãos que têm sua responsabilidade na política indigenista”,

explicou a diretora de Administração e Gestão, Mislene Metchacuna.

A CFPE-VJ tomará todas as medidas necessárias para realização de exames médicos das duas lideranças korubo, para que possam retornar às suas aldeias com a devida segurança e, assim, prevenir quaisquer tipos de contágios aos demais indígenas recém-contatados.

Foto: José Rui Gavião/Funai

Promoção de direitos 

As lideranças vieram a Brasília acompanhadas do coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari, Iltercley Rodrigues, e do especialista em indigenismo Marco Túlio da Silva Ferreira, que também atua na CFPE-VJ. Além da Funai, os Korubo visitaram outros órgãos federais na capital do país, momento em que participaram, pela primeira vez, do Acampamento Terra Livre, ocorrido no período de 22 a 26 de abril, no Eixo Cultural Ibero-Americano.

Segundo Iltercley Rodrigues, essa mobilização inédita partiu das próprias lideranças Korubo, que já vinham manifestando o desejo de sair da aldeia em busca de melhorias para o povo, a exemplo da participação em uma das reuniões do Conselho Distrital de Saúde Indígena (Condisi), em 2023, evento do qual eles nunca haviam participado.

Percebendo esse anseio, a CFPE-VJ vem oportunizando esse contato com a sociedade, uma vez que, antes, o único contato que eles tinham era com os servidores do órgão indigenista.

“É um avanço porque estamos cumprindo o papel institucional da Funai de promover os direitos dos povos, a partir da perspectiva dos próprios indígenas. É um movimento muito mais deles do que nosso. É satisfatório contribuir para promover isso e fico mais feliz, ainda, em saber que eles estão nesse movimento de entender seus direitos e, a partir daí, criar suas próprias demandas”,

afirmou Iltercley Rodrigues.

A CFPE-VJ vem atuando para a concretização de diversas iniciativas na promoção de direitos, como ações de acessibilidade à documentação civil e educação indígena do povo Korubo. A expectativa, segundo Rodrigues, é estender a medida ao povo Tsohom Dyapá, também de recente contato. 

Foto: José Rui Gavião/Funai

Frente de Proteção Etnoambiental

A Coordenação da Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari é uma das 11 unidades descentralizadas da Funai especializadas na proteção de indígenas isolados e de recente contato distribuídas em sete estados da Amazônia Legal.

É com a ação executada por essas unidades que a Funai garante a autodeterminação dos povos indígenas isolados sem contatá-los e nenhuma interferência nos seus modos de vida. Também acompanha a garantia da promoção de direitos, respeitando as especificidades dos povos indígenas de recente contato.

A CFPE-VJ possui cinco bases distribuídas em pontos estratégicos da Terra Indígena Vale do Javari que monitoram a intrusão e invasão de não indígenas a fim de que a política pública de proteção ao isolamento voluntário e aos de recente contato se concretize.

Primeiro contato

O primeiro contato da Funai com os Korubo foi em 1996, feito pelo etnógrafo Sydney Possuelo, quando ele participava de uma expedição no Vale do Javari, no Amazonas. Considerado um dos principais indigenistas do país, Possuelo foi presidente da Funai de 1991 a 1993 e responsável pela criação da Coordenação-Geral dos Índios Isolados, em 1987.

O objetivo dessa coordenação era proteger os povos que viviam em regiões remotas do contato com “os brancos” para que não fossem vítimas de violência e de doenças. O referido departamento permanece na atual estrutura da Funai como Coordenação-Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC), vinculada à Diretoria de Proteção Territorial (DPT). É sob a coordenação da CGIIRC que atuam as Frentes de Proteção Etnoambiental.

6 grupos de trabalho são criados pela Funai para estudos em terras indígenas na Amazônia

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Lideranças indígenas estiveram presente no ato do pronunciamento que ocorreu no  final da programação do Acampamento Terra Livre.

Foto: Reprodução/Funai

A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) anunciou a constituição de Grupos Técnicos (GTs) para estudos de seis Terras Indígenas localizadas na Amazônia, no dia 26 de abril. Os GTs têm o objetivo de realizar os estudos multidisciplinares de natureza etno-histórica, antropológica, ambiental e cartográfica das áreas, trabalho que corresponde a uma das etapas do processo demarcatório.

A assinatura dos atos ocorreu na sede do órgão indigenista sob a condução da presidenta Joenia Wapichana. Também participaram lideranças indígenas da região e representantes governamentais, entre outros convidados.

Os GTs instituídos pela Funai se referem aos seguintes territórios:

Terra Indígena Baixo Marmelos – reivindicada por indígenas pertencentes às etnias Torá, Matanawi, Munduruku, Mura e Tenharim, localizada nos municípios de Humaitá e Manicoré, no Estado do Amazonas;

Terra Indígena Aldeias Santa Maria e Nova Bacaba (Baixo Rio Jatapu) – reivindicada por indígenas pertencentes às etnias Okoymoyana, Xowyana e Kararayana, localizada nos municípios de Urucará, São Sebastião do Uatumã e Nhamundá, no Estado do Amazonas;

Terra Indígena Baixo Rio Negro e Rio Caurés – reivindicada por indígenas pertencentes às etnias Baré, Tukano, Baniwa, Macuxi, Tikuna, Arapaso, Pira-tapuia, entre outras, localizada no município de Barcelos, no estado do Amazonas;

Terra Indígena Curriã – reivindicada por indígenas pertencentes à etnia Apurinã, localizada no município de Lábrea, no estado do Amazonas;

Terra Indígena Kapyra Kanakury – reivindicada por indígenas pertencentes às etnias Apurinã e Jamamadi, localizada no município de Pauini, no estado do Amazonas;

Terra Indígena Arapuá – reivindicada por indígenas pertencentes às etnias Macuxi e Wapichana, localizada no município de Alto Alegre, no estado de Roraima.

O anúncio se deu ao final da programação do Acampamento Terra Livre (ATL), maior mobilização indígena do Brasil realizada ao longo desta semana em Brasília. Durante a assinatura dos atos, Joenia Wapichana ressaltou que, com as medidas, a Funai dá mais um passo no cumprimento da sua missão constitucional.

“A constituição desses GTs é uma obrigação do Estado brasileiro. Isso não é um favor aos povos indígenas, é o cumprimento do dever constitucional do Governo Federal. Nós estamos aqui cumprindo com os nossos deveres”,

frisou Joenia.

Foto: Reprodução/Funai

Integraram a solenidade membros da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) e do Conselho Indígena de Roraima (CIR), bem como o secretário Nacional de Direitos Territoriais do Ministério dos Povos Indígenas (MPI), Marcos Kaingang, e o presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), César Fernando Schiavon Aldrighi.

Visitação em terras indígenas

Na mesma cerimônia, foram assinadas a Carta de Anuência para o Plano de Visitação Menanehaliti para a Associação Waymare e Associação Halitinã, e a Carta de Anuência para o Plano de Visitação para Associação Indígena Balatiponé. Os projetos de visitação turística e sustentável nos territórios indígenas são desenvolvidos por indígenas do povo Paresi no estado do Mato Grosso.

Demais anúncios

Mais cedo, a presidenta da Funai assinou um Termo de Doação de território para uso exclusivo do povo Maxakali de Minas Gerais. Durante a semana, a Funai também assinou um Acordo de Cooperação Técnica com a Instituto de Pesquisa e Formação Indígena (IEPÉ) para avançar na demarcação física da terra indígena Kaxuyana-Tunayana, no estado do Pará. A presidenta da Funai assinou ainda uma carta de intenções em conjunto com a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) para avançar nos processo de demarcação de terras indígenas na Amazônia.

Em 19 de abril, Dia dos Povos Indígenas, a Funai assinou um um Protocolo de Intenções com órgãos do governo do estado do Pará e a Federação dos Povos Indígenas do Pará (Fepipa) para avançar nos processos de regularização das terras indígenas e na gestão ambiental no estado.

O instrumento indica a intenção dos órgãos envolvidos de colaborarem entre si para celebrar um ACT com o objetivo de avançar na regularização fundiária e coordenar a elaboração, revisão e implementação dos Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs) e demais instrumentos de gestão a serem definidos em diálogo com os povos indígenas interessados.

A Funai também celebrou um ACT com a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e o Instituto Socioambiental (ISA) para fortalecer os direitos dos povos indígenas, a gestão ambiental e territorial e as políticas públicas a serem implementadas nas terras indígenas do Rio Negro, no estado do Amazonas.

Alenquer

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 Alenquer é um município do oeste do Pará.

Foto: Marcos Santos/Agência Pará

Município localizado no Pará, Alenquer tem uma área territorial de 23.645,452km² e uma população residente de cerca de 69.377 pessoas, segundo dados do Instituto Brasileiro de geografia e estatística (IBGE) no Censo 2022.

A origem de Alenquer tem registro desde o século XVIII, quando estabeleceram a sede da catequese no Rio Curuá. Naquele local, os indígenas Arabés enfrentaram uma série de doenças tropicais que os levaram até o Rio Surubiú, onde permaneceram.

Em 1775, o então governador do Grão-Pará, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, subiu o Amazonas dando nomes portugueses as antigas missões religiosas. Assim o Surubiú passou a ser chamado Alenquer, elevando à categoria de Vila através da Carta Régia, de 06 de julho de 1775. 

Depois disso, por um breve período, a partir de 1833, Alenquer passou a ser anexada a Santarém, conquistando sua autonomia definitiva em 23 de julho de 1848, sendo elevada a categoria de cidade em 10 de julho de 1881.

Alenquer é uma cidade rica em belezas naturais e como opção turística histórica está o sítio arqueológico Cidade dos Deuses, além do Lago do Cumurú, Cachoeira do Vale do Paraíso, Praia de Iracema, entre outros pontos. 

*Com informações da Prefeitura de Alenquer e IBGE

Ananindeua

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Ananindeua é um município paraense que chegou a pertencer a Santa Isabel do Pará e da própria capital, Belém. 

Foto: Leandro Santana

Ananindeua é uma cidade localizada no Pará que possui uma área territorial de 190,581km² e uma população residente, segundo o Censo IBGE 2022, de 478.778 pessoas.

O município chegou a pertencer a Santa Isabel do Pará e da própria capital, Belém. O nome da cidade vem do tupi e tem relação com a grande quantidade de árvores chamada Anani, já o sufixo ‘deua’ tem origem popular, que vem de “abundância”. Em 1943, Ananindeua torna-se município através do Decreto-Lei nº 4.505, cuja a instalação ocorreu em 3 de janeiro de 1944.

Quanto a geração de renda, a cidade segue em crescimento impulsionada pelo Distrito Industrial de Ananindeua, que conta com aproximadamente 60 empresas em uma área de mais de 470 mil hectares, com o 4º maior PIB do Pará (2018/IBGE).

Repletos de belezas naturais, é um verdadeiro paraíso escondido com praias paradisíacas, rios cristalinos e uma abundante floresta, além de uma rica cultura gastronômica.

*Com informações da Prefeitura de Ananindeua, Companhia de Desenvolvimento do Pará e IBGE

Anapu

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Anapu é um município paraense que a origem do seu nome, acredita-se, seja devido ao barulho produzido pelo rio de mesmo nome.

Foto: Reprodução/Youtube-TVAnapu

A cidade de Anapu fica localizada no Pará e possui uma área territorial de 11.895,270km², com cerca de 31.850 habitantes. Quanto a origem do seu nome, Anapu vem do Rio Anapu, que provém do tupi ′anã′, que significa Forte, Grosso e ′pu′, ruído: ruído forte. Acredita-se o nome se deve ao barulho produzido pelo rio.

A cidade foi elevada à categoria de município e distrito com a denominação de Anapu pela Lei Estadual nº 5.929, de 28 de dezembro de 1995, desmembrado dos municípios de Pacajá e Senador José Porfírio.

Entre os principais atrativos turísticos da cidade estão as festas tradicionais que celebram a cultura e a religiosidade da população, como de São Francisco de Assis, padroeiro da cidade, e o Festival do Açaí. 

Um ponto bastante visitado é o Memorial Dorothy Stang em homenagem à missionária norte-americana que dedicou sua vida em defesa dos direitos dos trabalhadores rurais na Amazônia. 

*Com informações Prefeitura de Anapu e IBGE

Câmaras elétricas e caixas térmicas para distribuição de soro antiofídico são enviadas a terra Yanomami

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Soro antiofídico é o medicamento utilizado para tratar mordidas de animais peçonhentos, como cobras, aranhas e escorpiões. Equipamentos também foram entregues ao Dsei-Leste, responsável pela saúde de outros povos indígenas de Roraima.

Foto: Divulgação/MS

Terra Indígena Yanomami, em Roraima, recebeu câmaras elétricas e caixas térmicas para a distribuição de soro antiofídico, medicamento utilizado para tratar mordidas de cobras, aranhas e escorpiões, as comunidades do território, facilitando o acesso a saúde. A ação foi anunciada nesta segunda-feira (29) pelo Ministério da Saúde (MS).

A ação faz parte da rede de suprimentos e da logística de soros, vacinas e imunoglobulinas do Programa Nacional de Imunizações (PNI) e deve aprimorar o acesso ao tratamento contra acidentes com animais peçonhentos.

Com ela, a distribuição de soros antiofídicos será descentralizada. A descentralização deve aumentar o número de pontos de atendimento aos indígenas que são picados por serpentes. O objetivo é reduzir o tempo de socorro às vítimas, diminuindo os riscos de morte e de sequelas permanentes.

As câmaras e caixas térmicas foram entregues ao Distrito Sanitário Yanomami (Dsei-Y) devido a maior vulnerabilidade aos ataques. São cinco câmaras elétricas, dez câmaras solares e 447 caixas térmicas entre 2,7 litros e 20 litros.

Conforme o MS, a população dos territórios indígenas correm risco quatro vezes maior de sofrer um acidente com animal peçonhento em comparação com as de outras regiões. Já a letalidade é seis vezes maior entre os indígenas.

Foto: Divulgação/MS

A consultora técnica da Coordenação Geral da Vigilância de Zoonoses e Doenças Transmitidas por Vetores do MS, Lúcia Montebello, explica que nesses casos a maior acessibilidade para diagnóstico e tratamento é essencial.

“A partir da necessidade, também programamos qualificação de médicos e enfermeiros. Os grandes desafios são a profissionalização dos profissionais e a estruturação dos polos base para que possam atender o paciente fazendo os primeiros socorros e iniciando a soroterapia. É exatamente isso que temos feito”, comentou a consulta técnica.

Diante desse cenário, o Distrito Sanitário Leste (Dsei-Leste), responsável pela saúde de indígenas de outros povos em Roraima, também recebeu cinco câmaras elétricas e 16 câmaras solares, além de 327 caixas térmicas. Os casos graves continuarão sendo transferidos para hospitais de referência do Sistema Único de Saúde (SUS).

A descentralização do serviço já ocorreu em sete Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI) do Amazonas, onde está parte da TI Yanomami, no começo deste ano. E deve ser implementada em outros estados do Norte que registram altos números de ataques e óbitos por acidentes com animais peçonhentos.

Reestruturação

Além do urso de caixas e freezers para armazenar os soros, o Ministério prevê o treinamento de profissionais de saúde para a aplicação do protocolo.

Segundo a técnica do PNI especialista em saúde pública, Josineia Oliveira, é necessário garantir a gestão de qualidade da temperatura e de armazenamento que é indicada pelo fabricante.

“Esse é um marco histórico. O PNI tem 50 anos de história e, com o avanço da tecnologia, temos equipamentos que garantem estabilidade térmica para o armazenamento adequado. Armazenar corretamente garante a eficiência”, completa Josineia.

O Ministério da Saúde ainda estuda o aumento de produtores credenciados. Atualmente, apenas um laboratório produz soro, mas a expectativa é que o número passe para três a partir de 2025.

“Hoje estamos em articulação com os laboratórios produtores. O Brasil é um país de tamanho continental, então esse processo é necessário e está em andamento”, adianta Lúcia.

Amazônia nossa Mãe, nossa vida

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Foto: Reprodução

Por Walace SO*

Queridas e queridos das beiras e beiradas dos nossos rios, do açaí com mandi, do dominó de fim de tarde e do tacacá ao anoitecer. Estou retornando após um período de restabelecimento de saúde e reorganização pessoal. E quero iniciar esse retorno com uma trinca de colunas sobre nossa terra, aliás, corrijo, sobre as águas que banham nossa terra e sobre a floresta que é nossa grande Mãe. Essa reflexão é necessária em consideração aos impactos eu estamos sofrendo diretamente em toda nossa região dos efeitos do aquecimento global.

E somos o lugar mais privilegiado pelo Divino Grande Arquiteto do Universo e mais esquecido pelo bicho homem e sua ganância. Somos sete estados em nossa região com suas capitais toda abençoadas pelas águas doces de Anhã, de Oxum, de Nossa Senhora Imaculada Conceição ou de Nossa Senhora Aparecida, cada um com sua fé, pois a tolerância religiosa é uma demonstração de civilidade e citei representações relacionadas a água da nossa herança dos povos tradicionais, africana e europeia.

Porque o negacionismo científico que tanto nos prejudica e ao mundo todo está baseado no fundamentalismo extremista religioso, que tenta legitimar os movimentos autoritários que florescem mundo a fora, desacreditar a ciência e manter a população diante do abismo da ignorância que facilita o controle social, a intolerância social e o enriquecimento dos mercadores da fé. Que refletem diretamente em nossa região todos cada ano com mais intensidade e devemos nos ter responsabilidade e consciência do nosso papel como defensores da nossa biodiversidade, da cultura amazônida, da floresta, dos nossos rios e do nosso povo.

Todas as nossas capitais de nossa região são banhadas por rios, nossa cultura é ribeirinha, nossa riqueza vem de nossos rios e deveria vir também do desenvolvimento de uma economia sustentável com arranjos produtivos ligados a floresta em pé. Somos uma grande hidrovia, um modal hidroviário que liga principalmente nossos estados e que estão sendo afetados com as secas cada vez mais intensas. Elas isolam nossas comunidades, porque dentro dos estados de nossa região e entre eles as estradas na maioria das vezes são inviáveis pela própria geografia da região. Uma pequena lista de rios que estão ligados a nossas capitais:

• Rio Madeira, Porto Velho/RO;
• Rio Acre, Rio Branco/AC;
• Rio Branco, Boa Vista/RR;
• Rios Maguari e Guamá, Belém/PA;
• Rio Jari, Macapá/AP;
• Rio Tocantins, Palmas/TO;
• Rios Negro, Solimões e Amazonas, Manaus/AM.

A floresta em pé garante a formação e abastecimento de água para o equilíbrio climático no fenômeno conhecido como Rios Voadores, que é o processo de evapotranspiração. Para exemplificar, somos a maior baia hidrográfica do planeta, com uma floresta tropical, toda a transpiração dela produz e regula o ciclo das águas ela transpiração da floresta, do solo e dos rios devolvendo para a atmosfera a água que se torna um fluxo continuo de manutenção das águas. Sem a floresta esse processo é precarizado, se reduz a quantidade de água na atmosfera e ficamos mais suscetíveis a variações climáticas bruscas, intensas e cada vez mais duradouras afetando ao mundo inteiro e essencialmente a nossa região.

Importantes órgãos ligados ao estudo climático como WWA (Word Weathear Attribution), UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Rede Clima (Rede Brasileira de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas) e Cemadem (Centro Nacional de Monitoramento Alerta de Desastres Naturais) já alertaram e preveniram sobre a seca que acontece desde 2023 com impactos desastrosos em nossa região. Mostrando que a possibilidade de seca meteorológica aumentou em 10 vezes e a de seca agrícola aumentou 30 vezes. Registramos maiores índices de seca dos últimos 120 anos. As pesquisas mostraram que os efeitos do aquecimento das águas equatoriais do Pacífico tiveram impactos conjuntos com o aquecimento global que foi ainda maior.

Dessa forma, projetos de economia sustentável, projetos adequados de manejo e novos arranjos produtivos relacionados à realidade do século XXI, são primordiais para a manutenção e preservação do clima, da nossa cultura, da nossa paz e desenvolvimento social. Além de garantir alguns séculos a mais para sobrevivência do nosso planeta. Essa é uma realidade que precisa ser debatida, realizada por nós que vivemos aqui para assumirmos o nosso protagonismo nesse processo e controle de como ele deve ser realizado.

E não temos políticas públicas e incentivos que possam expandir e concretizar esses projetos. Infelizmente ainda vivemos um projeto exploratório e predatório em nossa região, que produz riqueza para uma pequena elite, explora e não devolve para nossa região toda a sua potencialidade. Os políticos e a chamada elite daqui não estão interessados no real desenvolvimento social, racional e sustentável, mas na sua manutenção hegemônica de poder quando não assumem seu papel para a preservação adequada de nossas maiores riquezas a floresta e nossos rios.

Essa foi a primeira reflexão na próxima coluna iremos refletir a riqueza da floresta preservada, das nossas águas e como o capital percebe essa riqueza e se interessa por ela. A responsabilidade é nossa de ter o controle desse processo e preserva nossas riquezas culturais e materiais para todos. Bora refletir meu povo.

Sobre o autor

Walace Soares de Oliveira é cientista social pela UEL/PR, mestre em educação pela UEL/PR e doutor em ciência da informação pela USP/SP, professor de sociologia do Instituto Federal de Rondônia (IFRO).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista 

Estudo internacional fornecerá visão regional sobre poluição de mercúrio na Bacia Amazônica

O panorama está sendo desenvolvido com base no georreferenciamento das fontes de mercúrio e na quantificação do volume de emissões e liberações. Indígenas e comunidades ribeirinhas são os mais afetados.

A maior bacia hidrográfica do mundo está ameaçada pela contaminação por mercúrio. Entre os nove problemas transfronteiriços considerados prioritários pelos oito países amazônicos, o da contaminação das águas é tido como o mais grave.

Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), o mercúrio proveniente da mineração artesanal e de pequena escala (ASGM, na sigla em inglês) é um dos principais poluentes dos rios e representa uma ameaça significativa à biodiversidade, aos ecossistemas aquáticos e à saúde da população, além de produzir impactos socioeconômicos desfavoráveis.

Apesar das legislações vigentes nos países da região, a extração ilegal e informal de ouro na Bacia Amazônica aumentou nas últimas duas décadas. A poluição provocada pelo garimpo ilegal, ao contaminar os rios e os peixes, tem afetado de forma desproporcional os povos indígenas e as comunidades ribeirinhas, impactando a segurança alimentar dessas populações, que dependem da pesca como fonte de subsistência. 

Foto: Divulgação/Polícia Federal

O aumento de registros de poluição do meio ambiente e de contaminação e intoxicação humana colocam os países amazônicos diante da urgência de implementar políticas públicas para monitorar e controlar o uso e a movimentação de mercúrio na Bacia Amazônica, em cumprimento à Convenção de Minamata, da qual são todos signatários.

Para estimular e embasar a elaboração dessas políticas, o Projeto Bacia Amazônica (OTCA/GEF/PNUMA), que implementa o Programa de Ações Estratégicas para a Gestão Integrada dos Recursos Hídricos da região, está desenvolvendo o Panorama sobre a Contaminação do Mercúrio na Região Amazônica, um estudo científico para a quantificação das fontes de emissões e liberações, de acordo com a ferramenta Mercury Inventory Toolkit, elaborada pelo PNUMA em 2013, e a identificação das áreas de risco e vulnerabilidade à contaminação.

Realizado em parceria com o Institut de Recherche pour le Développement (IRD), instituição francesa de pesquisa e ensino, o panorama de mercúrio amazônico está sendo desenvolvido com base no georreferenciamento das fontes de mercúrio e na quantificação do volume de emissões e liberações. Quando concluído, será incorporado ao Observatório Regional Amazônico (ORA), o Centro de Referência de Informação da Amazônia da OTCA.

Segundo o professor Jeremie Garnier, um dos pesquisadores responsáveis pelo estudo, a etapa em curso de desenvolvimento do panorama está produzindo um inventário georreferenciado a partir de dados governamentais e de organizações não governamentais sobre as potenciais fontes de emissão de mercúrio.

“Na medida do possível, as potenciais fontes de mercúrio estão sendo verificadas a partir das imagens de satélite com vistas a comprovar a existência da atividade responsável pela suposta emissão, observando variáveis preditoras como a mudança do uso e ocupação do solo para delimitar as áreas onde há maior probabilidade de encontrar mercúrio antropogênico, aquele resultante de atividades humanas”,

explica Jeremie Garnier.

As informações georreferenciadas serão disponibilizadas no ORA, segundo as especificações da plataforma, e apresentadas aos países durante evento a ser em breve organizado pela Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA). Na ocasião, deve-se acordar métodos e procedimentos para a etapa seguinte, que é a da quantificação abrangente do volume de emissões e liberações totais de mercúrio na Bacia Amazônica, na qual será utilizada a ferramenta Mercury Inventory Toolkit.

Segundo Garnier, os dados georreferenciados e quantificados propiciarão estimativas mais próximas da realidade sobre a contaminação do mercúrio na região, uma vez que as avaliações existentes, mesmo aquelas produzidas para documentos oficiais em conformidade com a Convenção de Minamata, se limitam a identificar as principais fontes nacionais de poluição sem especificar as emissões na área da Bacia Amazônica. 

Diante dessa insuficiência de estimativas regionais, as ‘Avaliações iniciais da Convenção de Minamata (MIAs)’ conduzidas pelos países indicam a necessidade de mais pesquisa para entender melhor a extensão do problema do mercúrio na Amazônia, lacuna que a parceria Projeto Bacia Amazônica/OTCA-IRD busca superar.

 O ciclo do mercúrio e a presença do metal na Amazônia

O relatório preliminar sobre o processo de elaboração do Panorama sobre a Contaminação do Mercúrio na Região Amazônica, apresentado recentemente pelos pesquisadores Jeremie Garnier e Henrique Roig, descreve as origens e o ciclo do mercúrio e traz informações sobre o mercúrio natural e antropogênico presentes na Amazônia.

Essas informações constarão no panorama regional para sensibilizar e conscientizar instituições governamentais e não governamentais e a sociedade civil quanto ao perigo desse metal e à necessidade de monitorá-lo e estabelecer o controle de uso.

De acordo com o relatório, o mercúrio se origina de diversas fontes, tanto naturais quanto antropogênicas. Entre as fontes naturais, estão os processos erosivos e as erupções vulcânicas, que liberam pequenas quantidades de mercúrio na água e no solo. As fontes antropogênicas são as atividades de mineração, a agropecuária, a indústria médica e odontológica, o setor de energia e outros. Os múltiplos usos industriais e tecnológicos do mercúrio mostram a relevância do metal para a vida moderna.

Os ambientes tropicais geologicamente antigos, onde a formação do solo é mais intensa, como é o caso da Amazônia, podem ser mais ricos em mercúrio natural. Atividades antropogênicas como o desmatamento, a agropecuária e as queimadas de grandes áreas de florestas são fontes significativas de liberação do mercúrio natural acumulado e armazenado no solo.

Sem função biológica conhecida, o mercúrio circula no ambiente de modo complexo, tanto na forma líquida, quanto na sólida e gasosa, envolvendo-se em processos de oxidação e metilação que podem resultar em conversões bioquímicas altamente tóxicas, sendo a mais significativa o metilmercúrio.

Quando liberado durante o processo de extração do ouro, o mercúrio pode ser transportado pelo ar, percorrendo grandes distâncias e contaminando solos e cursos d’água através de deposição seca ou úmida durante a precipitação.

As emissões provenientes da mineração ocorrem também por meio de resíduos despejados em terra e em corpos d’água. Seja no transporte pelo ar ou na deposição na água e no solo, as emissões de mercúrio representam um risco relevante para a saúde ambiental e humana, contaminando sobretudo as comunidades das adjacências das zonas ocupadas pelo garimpo, mas também comunidades ribeirinhas e populações de cidades distantes.

“As vias de ciclagem do metal, dada a sua complexidade, dificultam a localização de zonas contaminadas, mesmo quando é possível localizar os pontos de emissão”,

explica o professor.

Foto: Reprodução/IBAMA

Foto: Reprodução/IBAMA

Primeiros dados regionais consolidados 

Com base nos dados nacionais informados nas Avaliações iniciais da Convenção de Minamata (MIAs) e nos Planos de Ação Nacionais (PANs), a equipe de pesquisadores consolidou em seu relatório preliminar as primeiras informações regionais sobre as áreas mais afetadas pelo mercúrio proveniente do garimpo e também sobre os impactos ambientais, socioeconômicos e a saúde humana.

Os estudos científicos e as informações contidas nas MIAs e nos PANs mostram altos níveis de mercúrio em amostras de peixes, solo e sedimentos e nos corpos de povos indígenas e comunidades ribeirinhas das cidades de Beni e Pando (Bolívia), Madre de Dios (Peru), Chocó (Colômbia), Napo e Zamora (Equador) e no Escudo das Guianas, região que abrange também o Suriname. Em todas elas, a mineração é intensa.

Além disso, as informações contidas nas MIAs e consolidadas pelos pesquisadores mostram que as principais consequências da contaminação por mercúrio na região amazônica são a degradação ambiental dos ecossistemas aquáticos, que torna os recursos hídricos impróprios para o consumo humano, além da degradação do solo e da biota e dos impactos na saúde da população.

As emissões de mercúrio do garimpo contribuem com a poluição dos ecossistemas e com outros efeitos ambientais, tais como as mudanças climáticas associadas a desmatamento e à erosão dos solos, que provocam o aumento das concentrações atmosféricas de gases do efeito estufa. Os registros mostram que esses impactos ambientais têm efeito duradouro.

No que diz respeito às consequências da contaminação por mercúrio sobre a saúde das populações amazônicas, os estudos científicos e as MIAs mencionam danos ao sistema nervoso central, como as perda de coordenação e equilíbrio motor, distúrbios renais, cardiovasculares e imunológicos, comprometimento da visão e do sistema respiratório.

Os altos níveis de mercúrio em mulheres grávidas, apontam as avaliações nacionais, têm prejudicado o desenvolvimento de fetos e comprometido a função cognitiva e as habilidades motoras de bebês, além de sua percepção sensorial.

Os impactos sociais elencados pelos países amazônicos dizem respeito ao deslocamento de comunidades, a perda de patrimônio cultural, além de conflitos envolvendo comunidades de mineração e outras partes interessadas.

As MIAs abordam também o mercado e o fornecimento de mercúrio na Amazônia. De acordo com os dados compilados pelo Projeto, os países amazônicos não produzem mercúrio em níveis significativos e, por isso, dependem das importações do metal. No entanto, a quantidade de mercúrio importado e as rotas de entrada em cada país são pouco conhecidas e alvo de preocupação dos respectivos governos. 

“A falta de informação é preocupante porque pode contribuir com o comércio ilegal e o uso de mercúrio na mineração artesanal e em pequena escala de ouro. A exemplo do que acontece a nível global, a importação de mercúrio pode levar ao comércio ilegal e ao crime”, 

afirmam os pesquisadores no relatório preliminar.

O Brasil não havia divulgado a sua MIA até o fechamento desta edição do boletim Águas Amazônicas. Seus dados, portanto, não aparecem no relatório preliminar deste estudo.

Os primeiros dados consolidados para o Panorama de Contaminação por Mercúrio da Região Amazônica, acrescidos dos mapas com informações georreferenciadas e dos dados a serem aferidos sobre o volume de emissões e liberações de mercúrio na Amazônia, estarão disponibilizados no Observatório Regional Amazônico (ORA), que está abrigado no site da OTCA.

A Convenção de Minamata sobre mercúrio

Minamata é uma cidade costeira do Japão que foi palco de um dos mais graves desastres ambientais do mundo, ocorrido em meados do século XX. À revelia da população, uma fábrica de produtos químicos despejou na baía um líquido contendo altas concentrações de metilmercúrio, contaminando os peixes que a cidade consumia. Cerca de 5 mil pessoas foram atingidas. Além das vítimas com sequelas graves, o número de mortos foi estimado em 900.

A Convenção que leva o nome da cidade japonesa é resultado de um processo de negociação global realizado no âmbito do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). O acordo convoca os 140 países signatários a elaborar um instrumento legalmente vinculante para o controle do uso e do comércio de mercúrio visando à proteção da saúde humana e do meio ambiente. 

Pesquisa maranhense analisa infecção do caramujo africano por larvas de parasitas

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Achatina fulica é uma exótica espécie conhecida como caramujo gigante africano e sua proliferação aumenta no período chuvoso.

Estudo realizado pela pesquisadora Alicia Caroline Melo Lima, trouxe à luz descoberta sobre infecção, por larvas de parasitos, no caramujo-gigante-africano. Intitulado ‘Ocorrência de Achatina fulica (Bowdich, 1822) infectado por larvas de nematódeos no estado do Maranhão, Brasil’, o trabalho tem como foco investigar, caracterizar e determinar a frequência de infecção por estas larvas, nessa espécie invasora.

Fruto da dissertação de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Conservação da Biodiversidade, da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), a pesquisa conta com apoio do Governo do Estado, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema).

O presidente da Fapema, Nordman Wall, destacou que a pesquisa é muito significativa e trará importantes avanços no conhecimento desta espécie, suas características e impactos para o ser humano e o ambiente.

 “Este estudo aponta para a necessidade de uma vigilância contínua e de mais pesquisas para melhor compreensão e gerenciamento de espécies invasoras, bem como na proteção da saúde pública e dos ecossistemas naturais. A pesquisadora vai fornecer uma base sólida para futuros estudos e ações de controle, destinadas a reduzir os impactos negativos deste caramujo nas regiões onde existe a proliferação dessa espécie. O estado segue firme no apoio e financiamento a estudos que venham garantir mais qualidade de vida e mais saúde aos cidadãos”, 

avaliou Wall.

Conhecido popularmente como caramujo-gigante-africano, a Achatina fulica é uma espécie exótica invasora originária da África, que tem sido motivo de preocupação em várias partes do mundo, devido ao seu potencial impacto na agricultura, ecossistemas naturais e na saúde pública. Uma das questões mais preocupantes é sua capacidade de abrigar parasitos que podem representar riscos para a saúde humana e animal.

Esses animais possuem uma capacidade de adaptação a ambientes alterados, podendo ser encontrados em locais como terrenos abandonados e até mesmo em lixões. Sua resistência aos períodos de seca e ao frio é notável, e sua dieta variada inclui uma ampla gama de alimentos disponíveis ao seu redor, tais como frutas, legumes, flores, folhas e até mesmo restos de lixo. Sem predadores naturais, o caramujo africano pode exercer um impacto negativo sobre a fauna de gastrópodes nativos.

Além disso, constitui-se como uma praga agrícola significativa e serve como hospedeiro intermediário para larvas de nematódeos que podem transmitir algumas doenças. Entre estas, a Meningite Eosinofílica e a Angiostrongilíase Abdominal, contraídas pela ingestão de verduras, frutas, legumes e hortaliças contaminadas pelo muco do caramujo.

Atualmente, esta espécie está amplamente distribuída em todo o território brasileiro e, apesar da presença generalizada, há uma ausência de dados científicos específicos sobre sua ocorrência no Maranhão.

“As informações disponíveis geralmente se limitam a relatos de moradores locais e cobertura em telejornais. O estudo busca preencher esta lacuna”,

frisou.

Foto: Divulgação/FAPEMA

Divulgação

Para reunir informações, a pesquisadora conta com a participação da população, por meio do projeto Ciência Cidadã, uma estratégia que engaja tanto amadores, quanto cientistas, na coleta de dados para pesquisas científicas.

“Essa colaboração é fundamental para obter uma compreensão mais completa da ocorrência e dos impactos causados pelo caracol africano no Maranhão”,

ressalta Alícia.

Todo o material coletado será examinado no Laboratório de Malacologia e no Laboratório de Parasitologia Humana, da UEMA. Com apoio do governo, por meio da Fapema, a pesquisadora avança no estudo. “A Fapema é importante por possibilitar a execução do estudo e nos possibilitar compreender mais sobre esta espécie, os potenciais riscos para a saúde pública e possíveis impactos na biodiversidade nativa”, explica Alicia Lima.

Inovação

Foto:Divulgação/FAPEMA

A pesquisa é inovadora para o Maranhão, ressalta Alicia Lima, destacando-se pela introdução da técnica de digestão artificial, adquirida por meio de treinamentos realizados no Laboratório de Referência Nacional em Malacologia da Fundação Oswaldo Cruz (LRNM/Fiocruz).

“Essa abordagem possibilita a recuperação de larvas de nematódeos vivas dos gastrópodes A. fulica, que representa um avanço na pesquisa parasitológica na região maranhense”,

afirma.

A pesquisa foi realizada sob a orientação das professoras Débora Martins Santos e Selma Cantanhede. Conta com parceria dos professores Lígia Tchaicka, Nêuton Souza, Luciana Alves Pereira; da bióloga Rayssa Marques Pinto; e dos alunos de graduação, Helena Reis e Diego Barros.

Mosquito transmissor da dengue X pernilongo: descubra diferenças e o que atrai cada um

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Cada vez mais presentes nas cidades, esses insetos agem em locais e horários diferentes. Entender o que eles buscam pode ajudar no manejo e na prevenção.

Exterminar criadouros, usar repelente e colocar telas protetoras nas janelas e portas são formas já conhecidas de evitar a proliferação do Aedes aegypti, mosquito transmissor de doenças como dengue, zika e chikungunya. Outra medida que pode ajudar neste sentido é saber como o inseto age, entender que ele tem horário e locais mais prováveis para sugar o sangue e aprender a não confundi-lo com pernilongos.

“Se um mosquito picar você em casa à noite, em uma cidade, por exemplo, há 99% de chance de ser um Culex quinquefasciatus, conhecido como ‘pernilongo comum’ ou ‘muriçoca’. O Aedes aegypti pica majoritariamente de dia porque o ciclo circadiano dele aponta a noite como momento de repouso”, 

relata a curadora da Coleção Entomológica do Instituto Butantan, Flávia Virginio.

Foto: Renato Rodrigues/Comunicação Butantan

As pernas listradas do A. aegypti, podem até ajudar na identificação, mas como essa é uma característica presente em algumas espécies do gênero Aedes, ela não é necessariamente uma garantia de que você esteja de frente com um A. aegypti. Um exemplo disso é o Aedes albopictus, que tem a mesma característica e também ocorre no Brasil. Por aqui, ele não é considerado um vetor da dengue, diferente do que ocorre no sudeste asiático, onde é o principal transmissor da doença.

O tamanho corporal dos mosquitos adultos também pode ajudar a diferenciá-los, embora isso possa variar dependendo das condições ambientais e da disposição de alimento que os representantes de cada espécie sejam expostos.

“O tamanho corporal muda conforme o sexo, sendo em geral, fêmeas maiores do que os machos. Considerando minha experiência vendo diariamente mosquitos das três espécies, em geral, o Culex quinquefasciatus costuma ser mais ‘robusto’ e maior que os Aedes aegypti e Aedes albopictus“, ressalta Flávia.

Porém, essas características podem variar se um exemplar de uma espécie comer mais do que o da outra durante a fase larval. “Certamente o que comeu mais será maior do que o que comeu menos”, reforça.

Atração por sangue

Os mosquitos A. aegypti e A. albopictus despertam com o nascer do sol, período conhecido como crepúsculo matutino, e procuram por alimento geralmente nas primeiras horas da manhã. O oposto ocorre com o pernilongo (C. quinquefasciatus), que tende a permanecer atrás de armários, sofás, em casas de cachorro ou outros lugares com pouca luminosidade durante o dia e sai do repouso no fim da tarde.

Seu pico de atuação ocorre por volta da meia-noite e vai decrescendo até a manhã do outro dia. Apesar de agirem em horários diferentes, tanto as fêmeas do Aedes aegypti quanto as do Culex quinquefasciatus vivem à base de sangue humano porque o líquido é essencial para nutrir seus ovos, embora também consumam seiva de plantas.

As fêmeas do A. albopictus também se alimentam de sangue, mas “se viram bem” sugando aves e mamíferos por viverem em áreas de mata ou de intersecção entre áreas rurais e urbanas, ocupando principalmente o que chamamos de “peridomicílio” o quintal destes ambientes. 

“Quando acaba o alimento das fêmeas do A. albopictus em áreas florestadas, o que já vem ocorrendo por causa do desmatamento e pela urbanização, elas vêm para as cidades e se alimentam de humanos também”, 

disse Virginio.

Ao sugar o sangue de alguém infectado pela dengue, o A. aegypti se contamina com o vírus, embora não possa transmiti-lo a outras pessoas instantaneamente. A fêmea não adoece como o ser humano, mas pode ter diminuição de sua capacidade de voo e reprodução. Em questão de dias se torna capaz de transmitir o vírus para o humano pela sua saliva. O mesmo ocorre com os vírus Zika e chikungunya.

Já os machos de Aedes e Culex se alimentam somente da seiva de plantas, fontes de carboidratos necessários para sobreviverem.

“Em raras exceções, até onde se sabe, alguns machos podem nascer infectados, devido à transmissão transovariana, onde a fêmea infectada passa o vírus para seus filhos, e consequentemente, estes machos podem transmitir o vírus sexualmente para as fêmeas. Mas isso ainda está sob investigação dos cientistas”,

afirma Flávia.

Temperatura e cheiros

Além do sangue, as fêmeas de Aedes e Culex também são atraídas por “cheiros” e gases expelidos por humanos e animais, captados através de quimiorreceptores nas antenas e em outras estruturas do corpo.

“Apesar de elas não possuírem narinas, como os humanos, quando sentem o ‘cheiro’ de suor, entendem que há vida ao redor e se aproximam para tentar se alimentar. É a mesma coisa quando sentimos cheiro de um bife na grelha e temos vontade de comer”,

explica a curadora.

Além do cheiro, estes mosquitos também são atraídos pela temperatura corporal humana e por pessoas que vestem roupas de cores mais escuras, como preta, azul e vermelha. Da mesma forma que existem cheiros atrativos, existem os odores que repelem os mosquitos. O exemplo mais popular são os repelentes de uso tópico ou de ambientes.

Infográfico: Milena Martins

Criadouros: onde e por que se formam

As fontes de alimento determinam inclusive onde ocorre a cópula e a postura dos ovos. As fêmeas do A. aegypti preferem sobrevoar ambientes domésticos e fechados para ficar mais perto de humanos. Por consequência, depositam seus ovos em criadouros artificiais instalados em terrenos ou quintais, tais como caixas d’água destampadas, vasos de plantas, pneus e garrafas vazias, que enchem de água na chuva.

Outros ambientes menos relatados em campanhas de combate ao mosquito também podem ser criadouros: brinquedo de crianças, baldes, até tampinha de garrafa pet. O mesmo ocorre com as fêmeas do A. albopictus, com a diferença de que elas optam por pôr os ovos em criadouros naturais como bromélias, buracos de árvores e troncos de bambus, que também acumulam água em períodos chuvosos.

Os ovos de ambas as espécies do gênero Aedes, que têm 5 mm de comprimento, são quase imperceptíveis ao olho humano e podem se manter intactos por até um ano em ambiente seco ou úmido, eclodindo somente quando submersos em água.

Da eclosão dos ovos surgem as larvas, que quadruplicam de tamanho em cerca de cinco dias até se transformarem em pupas, e, após dois dias de intensa metamorfose, se tornam adultas com capacidade de voo, momento considerado o “nascimento do mosquito”. Todo esse ciclo de vida do Aedes pode durar de sete a 10 dias dependendo do calor, um acelerador do processo.

“Em geral, nascem primeiro os machos, que ficam rodeando o criadouro. Depois nascem as fêmeas e eles fazem a cópula. A fêmea busca o alimento sanguíneo para nutrir os ovos, e os machos vão procurar outro criadouro para copular com outras fêmeas. Essa é a estratégia de reprodução clássica do A. aegypti e do A. albopictus”,

esclarece a entomóloga.

Durante a gestação dos ovos, fêmeas de A. aegypti infectadas com alguns arbovírus podem repassá-lo por transmissão vertical. “Na infecção transovariana, a fêmea repassa o vírus para os ovos, que em geral, seguem a proporção de metade de fêmeas e de machos. Esses machos, então, podem transmitir o vírus sexualmente para outras fêmeas durante a cópula”, explica.

As fêmeas de C. quinquefasciatus também se alimentam de sangue humano, com a diferença de sobrevoarem tanto ambientes internos quanto externos em busca do alimento. As fêmeas depositam seus ovos em água rica em matéria orgânica, especialmente em rios, córregos, piscinas sem tratamento com cloro, ou depósitos de água poluídos, onde ocorre a eclosão dos ovos em larvas em até 48 horas. Daí, são cinco dias até virar pupa e mais dois ou três dias até o nascimento do adulto.

“Estes locais são criadouros gigantes de Culex que se proliferam com mais facilidade durante o verão e se espalham cada vez mais rápido para regiões que não têm estes problemas”, ressalta a curadora.

Por que somente o A. aegypti transmite dengue no Brasil?

Das mais de 100 espécies do gênero Aedes já descobertas, por que somente o A. aegypti é capaz de transmitir a dengue aos humanos no Brasil? Flávia esclarece que até o momento não foi identificada a transmissão pelo A. albopictus no país, embora já tenha sido comprovada sua capacidade e competência vetorial para alguns vírus circulantes no Brasil. 

Isso significa que o mosquito consegue transmitir a dengue em condições laboratoriais controladas, só que até o momento não foi detectado nenhum exemplar desta espécie naturalmente infectado no Brasil.

“Na ciência não podemos apenas dizer, temos que provar que existe. Então, até que se prove, o A. albopictus não transmite a dengue no Brasil, porque não foi encontrado nenhum exemplar do mosquito naturalmente infectado. Mas como ele tem todas as competências, precisamos ficar ligados”,

expõe.

Já o A. aegypti é um vetor de aproximadamente 200 vírus, nem todos encontrados naturalmente no mosquito. Parte destes vírus foram testados em laboratório onde se constatou a competência do A. aegypti de infectar-se e ser vetor de todos eles.

“Para a ciência e para saúde pública estes estudos são importantíssimos porque se algum dia houver transmissão de alguns destes vírus entre humanos, já sabemos que o A. aegypti pode ser o vetor”,

disse Flávia.

Febre amarela urbana não tem relação com Aedes aegypti

O A. aegypti já foi vetor da febre amarela urbana no Brasil no começo do século 20 até a década de 1940, época que este tipo de transmissão foi erradicada do país. Atualmente, o mosquito vetor da febre amarela silvestre é o mosquito Haemagogus, que ocorre em áreas florestais e pode infectar humanos. A vacinação contra a febre amarela foi um dos fatores essenciais para evitar a proliferação da doença em áreas urbanas e silvestres.

“Enquanto o A. aegypti não for encontrado infectado com o vírus da febre amarela, a gente não pode dizer que a febre amarela urbana voltou a circular no Brasil. O Haemagogus vive em áreas florestadas e, mesmo que na última epidemia de febre amarela tenhamos encontrado mosquitos infectados com o vírus dentro da cidade, os pontos de transmissão sempre foram as áreas florestadas, o que chamamos de ‘silvestre'”,

explica a curadora.

Por isso, a transmissão naquela época continuou sendo chamada de febre amarela silvestre. “Até porque envolviam de alguma forma mosquitos, macacos, que são os hospedeiros ‘principais’, e os seres humanos, que são os hospedeiros ‘acidentais'”, conclui a entomóloga.