O Projeto de Lei 2912/24 cria o Plano de Gestão Integrada de Recursos Hídricos na Região Norte. A proposta tem como objetivo garantir o uso sustentável das águas superficiais e subterrâneas. O texto acrescenta a previsão na Política Nacional de Recursos Hídricos.
O projeto estabelece o monitoramento e mapeamento contínuo dos recursos hídricos; a gestão integrada das bacias hidrográficas; a participação da sociedade civil e de organizações não governamentais na gestão dos recursos hídricos como diretrizes da proposta.
O autor, deputado Amom Mandel (Cidadania-AM), afirma que a medida é crucial para garantir o uso sustentável dos recursos hídricos na região Norte, promovendo uma gestão eficiente e participativa das águas superficiais e subterrâneas.
“O monitoramento e o mapeamento contínuos dos recursos hídricos são fundamentais para identificar a disponibilidade de água e detectar possíveis problemas, como a contaminação e a sobre exploração dos aquíferos”, disse.
Próximos passos
O projeto, que tramita em caráter conclusivo, será analisado pelas comissões da Amazônia e dos Povos Originários e Tradicionais; e de Constituição e Justiça e de Cidadania. Para virar lei, a proposta precisa ser aprovada pelos deputados e pelos senadores.
Situada na Reserva Extrativista Renascer, no município de Prainha, no Pará, a comunidade Santo Antônio é o lar de um grupo de moradores que, além do artesanato, dedicam-se à pesca, agricultura familiar e extrativismo. A sede da gestão da área de conservação está localizada em Santarém, mas a verdadeira alma da reserva está na vida cotidiana dessas famílias que dependem da floresta para seu sustento.
Nesse sentido, o documentário ‘Arte da Floresta: Uma Viagem sob os Olhares e Mãos de Artesãos Tradicionais’ foi lançado, em dezembro, como forma de valorizar o artesanato florestal.
Realizado pela Associação Tamuá, o projeto conta com apoio da Secretaria Municipal de Cultura de Prainha e da Prefeitura Municipal de Prainha, e tem a Farol do Norte Produções como produtora contratada. A produção foi viabilizada pela Lei Paulo Gustavo, reforçando o compromisso com a valorização da cultura e da economia sustentável da Amazônia.
O documentário apresenta o trabalho desses artesãos, que transformam materiais coletados na floresta – como cipós, madeiras caídas, folhas e galhos – em peças únicas e sustentáveis. Todo o processo é feito manualmente, em um profundo respeito à natureza e à biodiversidade local. Este trabalho artesanal, fruto de saberes passados de geração em geração, já ultrapassou as fronteiras da Amazônia, ganhando reconhecimento em feiras internacionais de produtos amazônicos e naturais.
“O artesanato é mais do que uma fonte de renda; é uma expressão viva da relação harmoniosa entre o homem e a floresta”, explica Leandro Xavier, diretor do documentário. “Queremos mostrar como essas comunidades conseguem aliar preservação ambiental e desenvolvimento sustentável, servindo de exemplo para o mundo”.
Além de destacar o trabalho artesanal, o filme aborda os desafios sociais e econômicos enfrentados pela comunidade. Ao documentar o cotidiano de Santo Antônio, o projeto busca valorizar a importância da economia sustentável na Amazônia, onde os recursos naturais são usados de forma consciente, garantindo tanto o sustento das famílias quanto a preservação do meio ambiente.
Com imagens exuberantes e depoimentos tocantes, ‘Arte da Floresta’ convida o público a conhecer a riqueza cultural e ambiental da Reserva Extrativista Renascer e a importância do artesanato como um elo vital entre as comunidades e a floresta.
Confira:
• Plataformas: https://youtube.com/@leandroxavierof e @leandroxavier.blog.br • Direção: Leandro Xavier • Proponente: Maria do Socorro Guedes Costa • Realização: Associação Tamuá • Apoio: Secretaria Municipal de Cultura de Prainha e Prefeitura Municipal de Prainha • Produção: Farol do Norte Produções
15 bairros da regional são cortados pela Avenida Sobral. Foto: Reprodução/Google Street View
“Quando eu cheguei, tudo isso aqui era mato”.
Não é incomum ouvir pessoas mais velhas falarem isso, especialmente em Rio Branco (AC), onde o desenvolvimento urbano está relacionado à exploração de terras por latifundiários. No caso da Baixada da Sobral, o maior aglomerado de bairros da capital acreana, isso se confirma.
Atualmente, a regional se confirma como o maior aglomerado de bairros de Rio Branco. No total, mais de 100 mil pessoas moram nos 18 bairros existentes na localidade, ultrapassando até a quantidade de moradores de Cruzeiro do Sul, segunda maior cidade do estado.
O bairro Sobral herdou o nome de uma fazenda que funcionava no local. A região cresceu em volta do estabelecimento e do Aeroporto Francisco Salgado Filho, que deu origem ao bairro Aeroporto Velho.
“Era o povo que vinha da zona rural, dos seringais, e não tinha conhecimento, não tinha intimidade com a rua. Vieram para cá, para a Baixada. Aquele pessoal antigo foi se juntando. Era uma fazenda, com o nome de Fazenda Sobral. Então, começou dali, e foi evoluindo. Na época que eu cheguei aqui, o que funcionava? Era o Aeroporto Velho, a única coisa que funcionava, era só até ali. O ônibus que vinha do Centro, só vinha até ali. Para cá, para cima, não tinha mais nada. Só tinha fazenda, gado, boi. Começou evoluindo, evoluindo, evoluindo, e já estamos em 18 bairros”, relembra.
Foto: Reprodução/Blog Fala Baixada
‘O sol brilha para todos’
Atualmente, compõem a Baixada da Sobral os seguintes bairros:
Preventorio Palheiral Bahia Velha Bahia Nova João Eduardo I João Eduardo II João Eduardo III Glória Pista Aeroporto Velho Airton Sena Boa União São Sebastião Boa Vista Sobralzinha Santo Afonso Plácido de Castro João Paulo
Entre os anos de 2008 e 2009, os moradores participaram de uma eleição que escolheu um nome para a regional. O nome, escolhido por votação popular, foi apresentado ao conselho municipal, mas não chegou a ser adotado oficialmente.
“A gente [conselheiros municipais] falava aqui da região, como era a nossa região, o que tinha de bom, o que tinha que se mudar. Foi crescendo [o bairro], e começaram a dar a ideia de escolher um novo nome para a regional, porque não tinha só a Sobral. E aí ficou Baixada do Sol, que tem a ver com movimento, com alegria. Porque aqui é periferia, mas o povo é alegre, o povo é hospitaleiro, o povo acolhe as pessoas. Não tem aquele negócio de andar no salto alto. O sol é aquela coisa lá em cima, né? Brilha, por onde você passa, ele brilha para todo mundo”, acrescenta Janete.
Na regional que acolheu pessoas de origens tão diferentes, a produtora cultural Arinete Araújo se encontrou. Ela também se lembra dos bairros ainda no estágio inicial de desenvolvimento.
“Quando eu cheguei, tinha três casas. Foram montando, depois disso surgiram vários moradores, e veio o primeiro presidente, que era conhecido por ‘Bazin’, e vieram outros. Aí foi tendo um início, um pontapé da comunidade aqui da Baixada, que foi um histórico. Eu comecei, depois de tudo isso, a participar da igreja, a gente foi para a Pastoral da Criança, onde atendíamos 53 famílias. Eu passei oito anos à frente, junto com a Janete [Figueiredo], que era a presidente, com outras meninas também, com o meu irmão, e outro pessoal da comunidade, ajudando as pessoas carentes. Aí, mesmo período, era na comunidade, nas ruas, formação, reunião, associação morador de bairro”, conta.
Com o passar dos anos e o envolvimento com a comunidade, Arinete também participou da formação da quadrilha junina Assanhados na Roça, que representa a regional, e já existe há cerca de 30 anos.
Arinete conta que a junina surgiu a partir de uma ideia de Janete, que notou a falta de opções de lazer e diversão na região, apenas alguns campos de futebol e igrejas.
Ela entrou na organização para ajudar na presidência por um mês, pois, como deficiente, tinha direito a um cartão de ônibus especial, o que facilitava na participação em reuniões no quadrilhódromo, que ficava longe da regional. Porém, acabou sendo escolhida como líder da junina, e ajudou a desenvolver.
“A gente corria atrás de ir para a reunião, e aí começou a vir um bairro, começou a vir outro, aí nós sentávamos com os moradores para escolher os nomes dos bairros. Participei de várias coisas, do João Eduardo também, que, através da igreja, a gente fazia todo o acompanhamento, aquela luta na assistência social, economia solidária, Mesa Brasil”, ressalta.
Célebres moradores
Goleiro titular da seleção brasileira de futebol na conquista do então inédito ouro olímpico nas Olímpiadas do Rio de Janeiro, em 2016, e vencedora do reality show Big Brother Brasil, da Rede Globo, em 2018. Estes são os dois maiores exemplos de moradores famosos da Baixada da Sobral.
Gleici Damasceno, de família humilde da periferia da capital, tem dois irmãos, 15 tias e 50 primos, e é a única deles a ter concluído o ensino médio e a fazer curso superior. Ela também é militante dos direitos humanos e da juventude negra. Após quase 90 dias confinada, Gleici venceu o reality com 57,28% dos votos. Pouco tempo depois da vitória, ela voltou à baixada, onde foi recebida por uma multidão.
Foto: Aline Nascimento/Rede Amazônica AC
“Não sabia a dimensão disso aqui. Parece que estou sonhando. Não sei explicar o que é porque nunca vivi isso. Estou nervosa, até tremendo”, contou Gleici.
E a grande população da baixada não costuma abandonar os seus. O goleiro Weverton ganhou uma homenagens dos torcedores acreanos na véspera da estreia da Seleção na Copa do Mundo do Catar, em 2022. Um boneco que simboliza o jogador acreano foi pendurado em cima de uma placa de sinalização na Avenida Sobral.
Vestido com camisa da amarela, o boneco foi colocado de braços abertos. Uma bandeira do Brasil também foi pendurada no mesmo local. O ge entrou em contato com familiares do jogador em Rio Branco, mas foi informado que nem o boneco e nem a bandeira foram colocados pela família.
Quem também homenageou Weverton foram as crianças da Creche Sorriso de Criança, situada na baixada. Ao lado dos educadores, as crianças produziram banners personalizados para o goleiro.
O Pará é o maior produtor de amêndoa de cacau do Brasil, responsável por quase 145 mil toneladas, o que supera em 53% toda a produção nacional. O Estado conta com mais de 31,5 mil produtores, segundo dados da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas do Pará (Fapespa). Medicilândia, Uruará, Anapu, Brasil Novo, Placas, Altamira, Vitória do Xingu, Senador José Porfírio, Tucumã e Pacajá são os municípios paraenses que mais produzem o fruto.
No contexto da economia mundial, o Brasil se destaca dentre os principais produtores, estando na sétima posição, com quase 270 mil toneladas em 2020, o que corresponde a 4,7% da produção global. E o Pará figura entre os maiores produtores do planeta, seguido pela Bahia.
A comercialização externa é outra dimensão da cacauicultura. De 1998 a 2022 o preço do cacau bruto paraense no comércio externo passou de US$ 1,6 por kg para US$ 3,4 por kg – um aumento de 118,4% no período.
Já o cacau em pó, com maior valor agregado, começou a ser mais comercializado pelo Pará a partir de 2018, saindo de US$ 2,2 por kg, para US$ 5,2 por kg, correspondente a quase duas vezes o preço do cacau bruto nos últimos anos.
Agricultura familiar
Esses dados mostram o resultado de investimentos do governo do Estado na cadeia produtiva do cacau. Atualmente, a Fapespa destina R$ 2.535.079,20 para dez projetos que envolvem cacau, sendo sete de pesquisa e três de apoio a Startups.
Grande parte do cacau produzido no Pará é oriundo da agricultura familiar, geralmente de sistemas agroflorestais (SAFs), os quais permitem um ecossistema diversificado e benéfico ao desenvolvimento das plantas e à qualidade do solo, garantindo maior eficiência.
O engenheiro agrônomo e florestal Deyvison Medrado, diretor Científico da Fapespa, explica que a sustentabilidade dessa cadeia produtiva é resultado de vários fatores, incluindo aumento da produtividade, com utilização de técnicas adequadas de manejo, como poda, controle de pragas e doenças, e uso eficiente de fertilizantes. Essas técnicas resultam em mais cacau produzido por hectare, aumentando a renda dos agricultores sem a necessidade de expandir a área cultivada.
Outro fator essencial é a conservação do solo e da água, uma vez que práticas como o plantio em contorno, cobertura do solo e sistemas agroflorestais ajudam a conservar esses dois recursos naturais, o que melhora a saúde do cacaueiro e protege o solo e os cursos d’água, garantindo sustentabilidade em longo prazo.
Foto: Divulgação/Fapespa
Diversificação
A sustentabilidade da cacauicultura também depende da diversificação de culturas, pois a integração do cacau com outras espécies em sistemas agroflorestais pode diversificar a renda dos agricultores, o que os ajuda a enfrentar flutuações de mercado e mudanças climáticas. A diversidade de plantas também pode melhorar o ecossistema agrícola.
Deyvison Medrado destaca ainda as certificações de mercado premium, práticas de manejo sustentável que permitem aos agricultores obter certificações, como Fair Trade ou Rainforest Alliance, que muitas vezes permitem acesso a mercados premium e preços mais competitivos para o cacau.
“Daí a importância de o Estado investir nas pesquisas, uma vez que o aprimoramento das técnicas de manejo agronômico do cacau potencializa a produtividade, a qualidade dos frutos e seus derivados, o que reflete no escalonamento das vendas”, informa o pesquisador.
Inovação tecnológica
Entre os projetos apoiados pela Fapespa está “Utilização de inteligência artificial para reconhecimento por imagem das principais doenças da cultura do cacau na região amazônica”, denominado “CIDD: Cacau Inteligente – Diagnóstico de Doenças”, cujo objetivo é prevenir possíveis pragas nas lavouras paraenses que acometem o cacau, como a vassoura-de-bruxa, a podridão parda e o mal do facão, que se destacam visualmente, permitindo que sejam detectadas com o uso de técnicas de reconhecimento de imagem (também conhecidas como técnicas de visão computacional).
“O impacto financeiro de uma praga pode ser devastador. Identificar o surgimento de pragas em estágio inicial é extremamente importante para que o produtor possa tomar precaução e evitar perdas. Poder ofertar isso para produtores, especialmente os pequenos, que não têm tanto recurso para investir em inovações tecnológicas, bem como em mão de obra especializada, vem a ser o maior resultado”, explica o coordenador do projeto, Marcus Braga, da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra).
O projeto coletou imagens de cacau de diferentes regiões do Pará, como Paragominas (no sudeste), Tomé-Açu (nordeste), Benevides (Região Metropolitana de Belém) e Altamira (oeste), e montou um banco de dados, que serviu de base ao treinamento para o modelo de inteligência artificial. A partir desse modelo, foi construído um aplicativo móvel (CIDD).
A pesquisa também resultou em parcerias com a República Dominicana para implantação do Projeto “Use of artificial intelligence for image recognition of the main diseases of cocoa cultivation in the Dominican Republic”, desenvolvido naquele país da América Central e financiado pelo FONDOCyT, do “Ministry of Higher Education, Science and Technology (MESCyT), que está em execução desde o início de 2024.
Prevenção
Entre os desafios futuros, o grupo de pesquisadores pretende acrescentar a tecnologia molecular (Ciências Ômicas) ao projeto, elevando o combate aos fungos para atingir um nível preventivo, e não apenas reativo. O grupo propõe a implantação de uma vigilância genômica do cacau, o que permitiria detectar de forma antecipada pragas bem mais severas, como a Monilíase.
“As pesquisas fomentadas pela Fapespa são fundamentais para o desenvolvimento de novos produtos e pela intensificação e o aprimoramento daquelas cadeias produtivas já existentes. No caso do cacau, nosso Estado já detém a maior produtividade do mundo, e certamente com essas novas tecnologias teremos a oportunidade de ampliar ainda mais essa vantagem competitiva”, enfatiza o presidente da Fapespa, Marcel Botelho.
Por Julio Sampaio de Andrade – juliosampaio@consultoriaresultado.com.br
Momentos mágicos. O Natal nos traz lembranças de lugares adormecidos, misturando nós mesmos com pessoas que fomos um dia e com pessoas que já não estão por aqui. Quanto mais idade, mais natais e mais misturas. Quando eu era criança, existia o Papai Noel. Quando minhas filhas nasceram, Papai Noel voltou. Na época, o Natal na casa dos meus pais tinha quase 10 crianças, e a família crescia a cada ano. A árvore cheia de presentes aguardava até meia-noite para que fossem abertos. Eu era o locutor oficial da distribuição. Gritava alto de fulano de tal para beltrano e entregava o presente que era aberto imediatamente, na presença de todos. Nos bastidores, fofocas de família, brigas de ocasião e, na hora certa, o clima de final de novela, com todos em paz, amando uns aos outros, como nos ensina o aniversariante.
A memória vai para a frente e estou agora em outro Natal. É literalmente outra vida. Minhas filhas já estão em seus próprios natais, em outras localidades. Meus pais, um dos irmãos e minha primeira esposa já não estão por aqui. Estou conhecendo uma outra família. Neste momento, eu já não sou o sogro, papel que me acostumei ao longo dos anos. Agora eu sou o genro. Nunca tive sogros antes, pois os pais da minha primeira esposa, com quem fui casado por mais de 30 anos, morreram antes de nos casarmos e o pai dela, nem cheguei a conhecer. Eu me tornei sogro muito novo e, agora, bem mais velho, virei genro.
A casa também estava cheia e as pessoas felizes. Era o mesmo Natal, mas não existem Natais iguais e este também era único. Também era mágico. Na nova condição de genro, sem pensar muito, fiz uma promessa aos meus sogros. Uma promessa que sempre esperei dos meus genros. Algo que todo pai pediria ao Papai Noel. Disse a eles: “farei a sua filha feliz”.
Fui sincero na minha promessa, mas não verdadeiro. Ninguém pode fazer ninguém feliz. Hoje, passados doze anos, e estudando melhor o assunto, sei que a felicidade precisa ser construída pela própria pessoa. Falamos sobre isso em outros artigos, quando tratamos da felicidade nas empresas. As organizações têm um papel, mas a cada pessoa cabe a responsabilidade de construir a sua própria felicidade.
É Natal e as famílias já se juntaram. Daqui a poucas horas, será a ceia e o Papai Noel é esperado. Não é possível juntar todo mundo. Uma filha e neta estão por aqui e outra filha e cinco netos estão no exterior. Mundo pequeno e mundo grande demais. Além de outros parentes nossos, por parte da minha mulher estão: filhos, irmãos, sobrinhos e os seus pais, que lideram a comunhão de todos.
Relembro a promessa que fiz aos meus sogros, agora meus amigos do peito: “farei a sua filha feliz”. Eles estranham e olham para ela. A filha deles está com um sorriso aberto e transborda alegria na maior parte de seus dias. Ela é, grata, possui um propósito, cultiva amizades e trabalha por atingir seus objetivos, além de gostar de ser útil. Ela é feliz. Ela constrói a sua felicidade e eu apenas busco ajudá-la nesta jornada.
Voltando às empresas e, também, ao papel de pais, amigos, ou profissionais, não é o que podemos fazer? Criar condições para que cada um construa a sua própria felicidade? Penso que é o melhor presente que Papai Noel pode nos dar neste e nos próximos natais. Que todos sigam construindo felicidade para o seu redor e para si mesmos. O mundo precisa, e a felicidade tem poder multiplicador, muito além do que podemos supor. Que os próximos natais sejam ainda mais mágicos e mais felizes!
Sobre o autor
Julio Sampaio (PCC,ICF) é idealizador do MCI – Mentoring Coaching Institute, diretor da Resultado Consultoria, Mentoring e Coaching e autor do livro Felicidade, Pessoas e Empresas (Editora Ponto Vital). Texto publicado no Portal Amazônia e no https://mcinstitute.com.br/blog/.
Desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA), da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) e pelo Instituto Tecnológico Vale (ITV), o artigo intitulado ‘The Importance of Traditional Communities in Biodiversity Conservation’ buscou mapear a literatura científica que explora a importância das comunidades tradicionais na conservação da biodiversidade. Destacando tendências, lacunas, contribuições das comunidades indígenas e não indígenas e áreas de maior relevância científica global, o estudo analisou 519 artigos científicos que foram publicados entre 1994 e 2024.
O artigo foi publicado na revista científica Biodiversity and Conservation e conta com autoria dos pesquisadores Everton Cruz da Silva (UFPA), Mayerly Alexandra Guerrero-Moreno (UFOPA), Fernando Abreu Oliveira (UFOPA), Leandro Juen (UFPA), Fernando Geraldo de Carvalho (ITV) e José Max Barbosa Oliveira-Junior (UFOPA). A pesquisa analisou os artigos científicos das bases de dados Scopus e Web of Science. O estudo destacou como o conhecimento ecológico tradicional e as práticas sociais têm sido fundamentais para a preservação de ecossistemas e recursos naturais.
O pesquisador da UFPA, Leandro Juen, aponta que as comunidades tradicionais “têm um conhecimento ancestral sobre os ecossistemas locais, acumulado ao longo de gerações, que muitas vezes supera em precisão as abordagens convencionais de manejo ambiental. Essas comunidades possuem práticas de uso sustentável dos recursos naturais, que não só garantem a preservação da biodiversidade como também asseguram sua própria sobrevivência e bem-estar”.
Foto: Divulgação/Acervo da pesquisa
Entre as principais contribuições identificadas no artigo estão o manejo sustentável, práticas culturais, educação ambiental, restauração de habitats e monitoramento comunitário. Outro destaque do estudo foi na relevância das populações locais na formulação de políticas públicas que valorizem seu conhecimento como uma ferramenta essencial para enfrentar os atuais desafios ambientais globais. Além disso, a pesquisa também evidenciou uma disparidade significativa na produção científica sobre o tema, com o Brasil e a Índia levando destaque nas produções, liderando as áreas mais estudadas.
A pesquisa também mostrou que, até os dias atuais, ainda se mantêm as desigualdades históricas de exploração de dados, recursos e infraestrutura de pesquisa, com um fenômeno conhecido como “ciência de paraquedas”, que reforça o neocolonialismo científico ao tratar as comunidades do Sul Global como objetos de estudo, sem reconhecer seu protagonismo e valorizar seus conhecimentos ecológicos tradicionais.
Para Leandro, o artigo é importante pois “destaca como essas práticas podem ser integradas às políticas de conservação, oferecendo soluções mais inclusivas e eficazes para os desafios ambientais que enfrentamos. Ele reforça a ideia de que a conservação não pode ser dissociada das pessoas que habitam essas áreas. Incorporar os conhecimentos e práticas das comunidades tradicionais pode promover um equilíbrio entre preservação ambiental e justiça social. Além disso, o estudo traz um alerta de que reconhecer e valorizar as comunidades tradicionais é urgente, especialmente em um contexto de degradação ambiental acelerada. Isso nos dá uma oportunidade única de aliar ciência, tradição e políticas públicas para construir um futuro mais sustentável”.
O discente do Programa de Pós-Graduação em Ecologia da UFPA (PPGECO-UFPA), Everton Cruz da Silva, que participou da pesquisa e que é originário da Comunidade tradicional São Benedito do Ituqui, em Santarém, Pará, diz que “o desconhecimento sobre a importância dessas comunidades ainda persiste, mas é inegável que seu conhecimento é essencial para superar os desafios ambientais e promover justiça social e equidade”.
Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com
Como na vida e no cosmo nada permanece o mesmo desde a grande explosão que fez o Senhor do Universo criar tudo em sete dias, a Terra e seus habitantes. De fato, amanhã não somos os mesmos de hoje. Segundo o Yuval Harari, em “Uma Breve História da Humanidade”, há cerca de 13,5 bilhões de anos, a matéria, a energia, o tempo e o espaço surgiram naquilo que é conhecido como o Big Bang. Por volta de 300 mil anos após seu surgimento, prossegue, “a matéria e a energia começaram a se aglutinar em estruturas complexas, chamadas átomos, que então se combinaram em moléculas; a história dos átomos, das moléculas e de suas interações é denominada química”.
Ele faz um recorte do que muito tempo depois passou a ser conhecido como “história”, observando que “há cerca de 3,8 bilhões de anos, em um planeta chamado Terra, certas moléculas se combinaram para formar estruturas particularmente grandes e complexas chamadas organismos. Há cerca de 70 mil anos, os organismos pertencentes à espécie “Homo sapiens” começaram a formar estruturas ainda mais elaboradas chamadas culturas. O desenvolvimento subsequente dessas culturas humanas é denominado história”. Segundo Harari, “três importantes revoluções definiram o curso da história. A Revolução Cognitiva deu início à história, há cerca de 70 mil anos.
A Revolução Agrícola a acelerou, por volta de 12 mil anos atrás. A Revolução Científica, que começou há apenas 500 anos, pode muito bem colocar um fim à história e dar início a algo completamente diferente”. Afirma que “muito antes de haver história, já havia seres humanos. Animais bastante similares aos humanos modernos surgiram por volta de 2,5 milhões de anos atrás”. Os “humanos”, na verdade, mesmo que, desesperadamente tentam provar o contrário, não passamos de simples grãos de areia no seio de um vasto, incomensurável e insondável Universo que se sustenta nas galáxias, nas imensidões da abóbada celestial, nos sistemas solares, dentre os quais se destaca o nosso, ao que tudo indica, por suas características astrofísicas e geopolíticas, único.
Nesta quadra natalina e da proximidade do fim de mais um ano, ditas conjecturas, ao que presumo, assumem especial relevância e significado por nos induzirem a reflexões particulares sobre a essência e o real significado da vida. O dia a dia, as atribulações existenciais, os conflitos políticos e ideológicos, as crises econômicas, as adversidades e assimetrias diplomáticas, tudo somado nos conduz a refletir sobre as amplas possibilidades e talentos com que somos dotados e que podem ser utilizados para o bem ou para o mal, em proporções até hoje não precisamente dimensionadas. Mais ainda: nem sempre de acordo com nossas convicções sobre Deus, religiões e liberdades, o poder que tem o cidadão de exercer a sua vontade dentro dos limites que lhe faculta a lei.
Diante das complexidades que a vida inexoravelmente nos impõe, recorro a Rudyard Kipling e ao seu extraordinário poema “Se” por meio dos seguintes versos: “Se és capaz de manter tua calma, quando, todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa. De crer em ti quando estão todos duvidando, e para esses no entanto achar uma desculpa. Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes, e, entre Reis, não perder a naturalidade. E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes, se a todos podes ser de alguma utilidade. Se és capaz de dar, segundo por segundo, ao minuto fatal todo valor e brilho. Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo”.
O poema preconiza que a pessoa deve confiar em si mesma, no livre arbítrio, o poder que cada indivíduo tem de escolher suas ações; de exercer com autodeterminação sua capacidade de assumir riscos ao seguir em frente segundo seus próprios impulsos. Assim sendo, desejo a cada amazonense, a todos os brasileiros que as alegrias do Natal se prolonguem ao longo de 2025, pleno de realizações, paz, harmonia, tolerância e fé nos desígnios do Criador.
Feliz Ano Novo!
Sobre o autor
Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).
Projeto criado por estudante de 12 anos tem objetivo de reduzir os impactos das queimadas na Amazônia. Foto: Sabrina Rocha/g1 Amazonas
Dois estudantes adolescentes desenvolveram projetos que podem ser usados como soluções inovadoras para o enfrentamento de queimadas florestais e à previsão de seca nos rios do Amazonas. As iniciativas, apresentadas em uma mostra tecnológica em Manaus, tem como objetivo minimizar os impactos da crise climática na região.
Neste ano, o Amazonas viveu um cenário ambiental crítico devido à combinação de seca dos rios e queimadas. Na capital, o Rio Negro atingiu 12,11 metros, o menor nível já registrado em mais de 120 anos de medição. Além disso, um levantamento realizado pela WWF-Brasil, com base em dados do Programa Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), mostrou que o número de queimadas na Amazônia aumentou 43,7% nos 11 primeiros meses de 2024.
Davi Bonifácio Guimarães Sanches Ruiz, de 12 anos, é um dos criadores do projeto “Resfrecadinho”, que consiste em um sistema de extintores inteligentes instalados na floresta para combater incêndios.
Projeto “Resfrecadinho” consiste em um sistema de extintores inteligentes instalados na floresta para combater incêndios. Foto: Sabrina Rocha/g1 Amazonas
Em entrevista ao g1, o jovem explicou que a ideia surgiu a partir dos recorrentes problemas enfrentados pelo estado durante o período de estiagem, quando densas nuvens de fumaça encobriram o céu das cidades, principalmente devido às queimadas em áreas de mata.
“Quando a gente pensa em problemas que temos na Amazônia, a primeira coisa que a gente pensa é: fumaça, fogo, queimadas, então, por isso eu pensei [no protótipo]; acho que consegue ajudar a combater esses incêndios”, afirmou.
O jovem explicou que o sistema foi projetado para detectar níveis de focos de calor. Ao identificar a queimada, o sistema enviaria um sinal para dois outros dispositivos interligados, instalados em torres de transmissão com conexões via satélite. Esses dispositivos registrariam, por meio de imagens, a localização exata das chamas e, em seguida, as autoridades seriam avisadas para fazer o combate ao fogo.
Paralelamente, um alarme instalado nas árvores começaria a emitir um sinal sonoro, alertando as pessoas próximas sobre o incêndio. Quando acionado, o sistema dispara uma barreira de contenção, utilizando espuma mecânica ou água, para conter o avanço das chamas.
“Eu acho esse projeto muito importante porque pode impactar positivamente na vida das pessoas porque ele conserva as árvores, combate às queimadas e, também, pode ajudar os animais que ficam sem abrigo durante os incêndios”, destacou Davi Bonifácio.
A mãe do jovem, Melania Bonifácio, disse estar orgulhosa pela criação de Davi e contou que ele já revelou o sonho de colocar o protótipo em prática. “Ele chegou em casa e disse: ‘eu queria tornar isso realidade’, e eu falei que não era impossível, só precisava estudar e correr atrás”, salientou.
Sistema de previsão da seca
Na mesma mostra tecnológica, João Marcos Glória apresentou o “RiverTrack”, um sistema que utiliza Inteligência Artificial (I.A) para prever a estiagem nos rios do Amazonas. O jovem explicou ao g1 que, além de calcular o nível da seca para o próximo ano, o software também fornece dados sobre o mês em que a estiagem atingirá o ponto crítico, com a maior queda no nível das águas.
“Esse projeto é para um controle de estiagem, pra ver se o nível do rio vai descer muito, e assim prejudicar pessoas que moram perto do rio, além de animais que precisam dessa água para beber e se banhar”, disse.
João Marcos Glória apresentou o “RiverTrack” para prever estiagem dos rios do Amazonas. Foto: Sabrina Rocha/g1 Amazonas
O sistema ainda oferece informações adicionais, como a previsão do tempo e os índices de umidade na região.
Para o professor da Manaós Tech, Pedro Cabral, que orientou o desenvolvimento dos sistemas, o objetivo foi justamente aproximar os estudantes do mundo real, os desafiando a resolver problemas existentes.
“Quando eles atingem um certo nível de habilidade com softwares e programas que a gente utiliza, a gente traz eles para o mundo real e propõe um problema para que pensem e trabalhem para achar uma solução”, completou.
Elio Miraña ensina jovens da aldeia São Pedro do Cuiú Cuiú a realizar cantos e danças tradicionais do povo Miranha. Foto: Miguel Monteiro
“Esse projeto foi um sonho realizado dentro da nossa aldeia”, conta Israel Aparício, tuxaua de São Pedro do Cuiú Cuiú. “A realização do projeto despertou um interesse muito grande dentro da comunidade, o resgate da língua materna era algo que vínhamos sonhando bastante e nos incentivou a buscar a nossa própria organização para realizar esse sonho”, acrescenta.
Em novembro deste ano, foi realizado um encontro histórico entre indígenas Miranha do Brasil e da Colômbia, movido pela vontade de resgatar uma cultura que foi violentamente arrancada de um povo ao longo do tempo.
Os preparativos e a realização deste encontro foram marcados por iniciativas e trocas extremamente simbólicas entre os parentes que vivem às margens do mesmo rio, mas foram divididos por uma fronteira territorial e linguística. Neste processo, ao resgatar o seu passado, os Miranha esperam também consolidar a sua trajetória futura.
Histórico do Povo Miranha
A história entre os Miranha no Brasil e na Colômbia se conecta com a economia da borracha. A partir de meados do século XIX, o rio Japurá foi cenário de grandes seringais, gerando processos migratórios para este rio, sendo a etnia Miranha uma das submetidas a um sistema de exploração do trabalho para a extração da borracha até o início do século XX.
Desse modo, com seus territórios ancestrais situados na região dos rios Cahuinari e Caquetá na Colômbia (Japurá no Brasil), os Miranha habitantes no Médio Rio Solimões são os descendentes dos inúmeros processos de deslocamentos forçados da etnia ao Brasil, onde reconstruíram sua identidade e resistiram às tentativas sistemáticas de invisibilizar sua cultura na região , habitando atualmente quatro Terras Indígenas: Méria, Miratu, Igarapé Grande e Cuiú Cuiú.
Buscando reconhecer essas histórias, lideranças e gestores da aldeia São Pedro do Cuiú Cuiú, com aproximadamente 300 moradores, não mediram esforços para colocarem em prática um antigo sonho: o de promover o fortalecimento da cultura e da governança local e o resgate da língua materna. Desde dezembro de 2023, o grupo Miranha vem executando junto aos parceiros do Instituto Mamirauá, ACT – Amazon Conservation Team e CIMI – Conselho Indigenista Missionário, o projeto “Fortalecimento da História, cultura e resgate da língua materna”.
Para a equipe de apoiadores institucionais, o projeto emerge da premissa desses atores em buscar instrumentos que possibilitem ao grupo o amadurecimento das formas locais de governança do território e das práticas de gestão comunitárias. Para isso, o projeto foi proposto de modo que possibilitasse o engajamento diversificado de moradores, envolvendo crianças, jovens, adultos e anciões, com diferentes trajetos, experiências e conhecimentos, envolvendo lideranças, professores, agricultores, pescadores, estudantes, agentes de saúde indígenas, entre outros.
Nesse sentido, o projeto buscou gerar instrumentos didáticos e pedagógicos através dos quais o grupo da aldeia São Pedro possa ter contato e iniciar o processo de aprendizado da língua indígena, além da realização do Iº Intercâmbio Miranha Brasil-Colômbia. Para isso, ao longo do ano, o Instituto Mamirauá e ACT-Brasil apoiaram a organização de uma oficina de audiovisual com os moradores da aldeia São Pedro para que o grupo obtivesse autonomia para realizar seus próprios registros. Dessa forma, os moradores da aldeia produziram um conjunto de registros audiovisuais, compostos de narrativas de vida, histórias de formação do território, no passado e no presente.
Estas ações somaram-se às atividades de pesquisa documental sobre a história do povo e formação de seu território. Estas atividades preparatórias, incluindo a construção de uma maloca, caminhadas pelo território, reuniões para elaboração de roteiros para conteúdos didáticos e pedagógicos, mobilizou crianças, jovens, adultos e anciãos em um processo de aprendizado e produção coletivos de reconexão com suas próprias histórias e modos de vida Miranha. Em paralelo, a equipe organizadora Miranha do Cuiú Cuiú reunia-se virtualmente com os parentes colombianos para discussões e planejamentos do encontro, iniciando a realização do sonho do reencontro entre parentes.
Em novembro, entre os dias 23 e 28, a segunda etapa do projeto promoveu o intercâmbio que envolveu o grupo Miranha da aldeia São Pedro do Cuiú Cuiú e os parentes Miranha colombianos, da região do Rio Caquetá/Cahuinari. Do território colombiano, vieram quatro indígenas Miranha, um casal de anciões, Gregório Miranha e Angelina Bora-Miranha, um professor e pesquisador, Elio Miranha, e o presidente da organização indígena Miranha e Bora PANI, Roque Miranha. A PANI, cujo significado em Miranha é “Deus do Centro e seus Netos” (Piine Ayveju Niimu’e Iaachimu’a) é uma associação de autoridades indígenas tradicionais Bora-Miranha.
Foto: Miguel Monteiro
O Encontro
Após meses de expectativa, o início do encontro foi marcado por uma recepção calorosa e trocas comoventes. Em um primeiro momento, o grupo como um todo decidiu como seria a dinâmica dos próximos dias do intercâmbio. Decidiu-se que atividades cotidianas orientariam os dias de encontro, de modo que os aprendizados da língua estivessem relacionados com atividades práticas e culturais como a importância dos bailes tradicionais, facilitando a sua apropriação.
A partir de temáticas como alimentação tradicional, pintura corporal, cantos e danças; aulas-vivências geraram trocas de conhecimentos sobre os principais elementos da cultura Miranha. Também ocorreram momentos de trocas de conhecimentos e informações sobre a história dos grupos e dos territórios do Brasil e da Colômbia na maloca, que foram mesclados com atividades de aprendizagem práticas no território.
O fio condutor do encontro foi a proposta de que o coletivo estaria aprendendo a preparar um “baile” tradicional Miranha na maloca. Para isso, ao longo dos dias, os anciões Miranha, Gregório e Angelina, conduziram e ensinaram sobre os costumes e rituais de sua tradição, o significado dos cantos e danças e os grafismos e a pintura tradicional de jenipapo e urucum. Também ensinaram a preparar bebidas e alimentos tradicionais, como o “maao” – beiju, e o “ca`guunuko” – bebida de goma de tapioca e abacaxi. Com auxílio dos netos, Roque e Elio Miranha, os aprendizados transmitidos pelos anciões em atividades específicas transformavam-se em momentos de contato e conhecimento da língua materna, exercendo os aprendizados conjuntamente.
O encontro foi intensamente produtivo e emocionalmente forte aos participantes indígenas de ambos os países. Por um lado, o intercâmbio oportunizou cumprir com os objetivos centrais do projeto, relacionados com gerar instrumentos para o resgate da língua, fortalecimento da cultura e história indígena Miranha. Ao mesmo tempo, durante o encontro, os Miranha vivenciaram um momento histórico de reconexão entre os grupos, o reencontro de histórias políticas e trajetos de resistência deste povo, desta vez, reunidos não apenas para se conhecerem, mas com o anseio de traçarem juntos os caminhos futuros, envolvendo estratégias conjuntas de fortalecimento da língua materna e das formas de governança indígena em ambos os territórios.
Compromissos Futuros
A intensa troca de saberes e conhecimentos gerou um conjunto de materiais e conteúdos que serão subsídios para as ações do projeto em 2025, voltadas para a construção de materiais para uso na escola indígena e a realização do IIº Intercâmbio Miranha Brasil-Colômbia – em novembro de 2025, em território Miranha, na Colômbia.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Instituto Mamirauá, escrito por Patrícia Rosa e Miguel Monteiro
Coleta da argila em igarapé próximo a Taracuá. As mulheres costumam entoar cânticos e fazer benzimentos, que evocam cura e proteção durante o período de passagem pelas jazi-das, locais sagrados para as oleiras. Foto: Maurício de Paiva
Na Amazônia, o elo entre elementos forma a paisagem cultural da floresta. Terra, mata e água são componentes de uma complexa rede de relações que os povos locais compreendem como o “manejo do mundo”. Uma das formas como isso se apresenta é a arte cerâmica do povo Tukano, no Alto Rio Negro.
Em comunidades como Taracuá, localizada às margens do baixo Rio Uaupés – o segundo maior tributário do Rio Negro –, o trabalho de resgate do conhecimento ancestral mantém viva a tradição oleira até os dias de hoje. As últimas anciãs, detentoras dos saberes que incorporam a manufatura da cerâmica na região, transmitiram às filhas e netas um legado que imprime resistência e conecta passado e presente na Amazônia.
Fundada em 1987, a Associação das Mulheres Indígenas da Região de Taracuá (Amirt), a primeira integralmente feminina do Alto Rio Negro, ocupa lugar de destaque na cadeia produtiva da arte local. A comunidade compreende o “Triângulo Tukano” – Taracuá, Yauaretê e Pari-Cachoeira –, área delimitada por três distritos que, desde as primeiras décadas do século 20, conta com a presença dos missionários católicos salesianos.
O contato com o modelo de colonização trazido pelos europeus acarretou perdas significativas para as populações tradicionais, tais como a substituição gradativa dos artefatos confeccionados há milênios pelas mercadorias dos pehkasã – os não indígenas, em Tukano. Entretanto, a mobilização das ceramistas estimulou mulheres de diferentes gerações a se unir na luta pelo fortalecimento da identidade sociocultural e pela defesa de seus direitos, previstos na legislação vigente.
Carlos Augusto da Silva, conhecido como Tijolo, arqueólogo indígena, descendente das etnias Munduruku e Apurinã, esclarece que a cerâmica faz parte de um sistema de diálogo criado pelos povos da Amazônia para administrar a floresta. “Eles sabem quando colher as matérias-primas, como armazenar e lidar com os recursos naturais à sua volta. É assim que interagem com o meio, compartilhando com plantas e animais o ambiente ao redor”, comenta Tijolo, que é professor doutor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).
Há, portanto, uma conexão direta entre o trabalho das ceramistas e a construção de paisagens. Os diferentes tipos de queima são exemplos de uma contribuição intelectual milenar dos povos originários, capaz de gerar solos férteis, como as Terras Pretas Antropogênicas (TPAs). As casas de forno, onde o uso adaptado do fogo pelas mulheres é uma constante, constituem centros de cultivo da terra extraordinários.
“O fogo já vem do começo. Quando voltamos do mato, queimamos primeiro a casca do caraipé [conjunto de árvores nativas usadas para reduzir a plasticidade da argila]”, relata a artesã Maria Lucimar Araújo Costa.
“Após modelar as panelas, as vasilhas, colocamos uma ao lado da outra para moquear [etapa em que as peças são postas em contato com o calor emanado das chamas, ainda baixas]. É um processo longo. Tiramos e botamos a cerâmica de acordo com o tempo, depois viramos de novo. Tudo tem o acompanhamento do fogo, ele é muito importante”.
Na Amazônia, o manejo do ambiente ao longo do tempo garante a regeneração cíclica da biodiversidade. Há um grupo representativo de espécies vegetais com as quais as ceramistas interagem, seja durante a coleta da argila, extraída para a confecção das peças, seja na distribuição das plantas cultivadas nos quintais e nas roças. As mais de 20 mulheres associadas à Amirt são também “donas de roça” – nomenclatura utilizada pelos povos rionegrinos para qualificar àquelas que desempenham um papel fundamental no cotidiano das comunidades.
Maria Lucimar Araújo Costa atiça o fogo em casa de forno durante período de produção. O manejo do elemento é imprescindível no decorrer de todo o processo. Foto: Maurício de Paiva
Futuro ancestral
A arte Tukano de fazer cerâmica compõe o chamado Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro, reconhecido em 2010 como patrimônio cultural imaterial pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).
Alguns dos bens inventariados nesse sistema são plantas cultivadas, redes sociais de trocas de sementes, sistemas alimentares e artefatos da cultura material, o que inclui a arte cerâmica confeccionada em Taracuá. Sua disseminação é essencial para o resguardo da alta agrobiodiversidade da floresta. Entre hortas e pomares, no ir e vir das casas de forno para as moradias, os residentes acondicionam os produtos da roça, tiram azeite de pupunha, descascam mandioca, amolam terçado, ajeitam polpa de cupuaçu.
As mulheres rionegrinas carregam consigo o conhecimento tecnológico escrito na memória de seus povos. A queima das peças é tão bem feita por elas que as artesãs obtêm a medida ideal entre leveza e resistência. “A cerâmica é como um coração dentro do sistema. Há uma relação sentimental muito forte entre as populações locais e esta arte”, reitera o arqueólogo Tijolo.
A produção se divide em diversas etapas: cerca de 12 dias dedicados ao ofício, dos ritos que antecedem a coleta ao acabamento. Segundo a narrativa mítica dos Tukano, Di’i Mahso (Vovó Argila) é a guardiã das jazidas de argila, locais sagrados para as artesãs. A defumação – que exige extrema habilidade das ceramistas ao manejar o fogo – confere às peças, enegrecidas pelo contato com a fumaça, uma das marcas do povo Tukano.
“Nosso trabalho é muito importante. Vem dos antepassados e hoje nos estimula cada vez mais”, diz Rosalina Vasconcelos Solano, ceramista e presidente da Amirt. “Para nós, é um privilégio colaborar com a organização da comunidade, porque a associação é a única em atividade em Taracuá, e representa a região. Quando falam em sustentabilidade, o que pensamos é naquilo que vai ser melhor para todos”.
A valorização dos saberes tradicionais e da ciência mateira fortalece as cadeias produtivas sustentáveis, que conservam e restauram a vegetação nativa, além de garantir o bem viver das populações locais. “Para mim, trabalhar com as nossas próprias mãos é algo muito valioso: ensinar os nossos conhecimentos pra outras pessoas, pros nossos filhos, e nossos filhos vão ensinar para os filhos deles e assim a cultura vai expandindo”, afirma Maria Suzana Menezes Migues, uma das ceramistas veteranas da associação.
A maior parte das vendas da Amirt é destinada à Wariró, marca coletiva ligada à Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn). Com o Amireta, barco adquirido em 2018, a associação presta serviços para as comunidades indígenas, além de escoar a cerâmica e os produtos das roças locais. As peças produzidas pelas mulheres Tukano chegam a lojas de São Gabriel da Cachoeira, Manaus e São Paulo.
“Eu me sinto livre ao saber que temos uma renda familiar que não tínhamos antes, que as mulheres ganham mais autonomia e plantam uma sementinha para o grupo. Nós temos na natureza remédio, alimento, água limpa. Esta é a nossa casa. Nunca fomos guardiões porque somos os donos desta terra. Nós sempre estivemos aqui”, declara Suzana.
A reportagem integra o projeto “Amazônia: fogo contra fogo” e foi produzida com o apoio do Rainforest Journalism Fund, em parceria com o Pulitzer Center.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Mongabay, escrito por Carolina Pinheiro e com fotografias de Maurício de Paiva