Além de essenciais para a manutenção da vida no planeta, as abelhas tem um complexo sistema de organização e diferentes formas de comunicação entre si e que variam de acordo com as espécies.
Para orientar outras abelhas campeiras sobre localização de alimentos, elas…dançam. “Já outras fazem movimentos com as asas e algumas fazem algum tipo de barulho”, explica a agrônoma Wilza Pinto, pesquisadora da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra).
Segundo a pesquisadora, essa são estratégias de comunicação importantes para a sobrevivência das espécies e das colônias. “Com esses movimentos, elas transmitem informações entre si sobre onde estão as fontes de alimento, incluindo a disponibilidade, a localização exata e o cheiro”, diz.
A coreografia e os movimentos conseguem transmitir com exatidão a localização. “Funciona como se fosse um gps”, diz Wilza Pinto.
Treme
A pesquisadora explica que as abelhas com ferrão Apis Mellifera fazem movimentos circulares para informar para o restante de suas companheiras de ninho a localização da fonte de alimento.
“Já as abelhas sem ferrão, ou nativas, podem se comunicar por meio de vibrações, assim como a Apis mellifera também faz. Elas literalmente fazem um treme treme. Quanto mais intensa a vibração, maior a qualidade do alimento”. E ainda há um terceiro grupo de abelhas sociais, conhecidas como mamangavas-de-chão, que produzem sons para transmitir informações.
Preservação
Essas pequenas dançarinas são essenciais para a vida no planeta. Estima-se que mais de 90% das plantas com flores dependem de polinizadores animais. Esses polinizadores estão distribuídos em 250 espécies, destes 87% são abelhas.
Wilza Pinto alerta que algumas espécies vegetais somente as abelhas polinizam. E que a relação entre abelhas e flores é de mutualismo, ou seja, ambas as espécies se beneficiam da interação.
“É importante preservar a vegetação primeiro para que as abelhas tenham condições de sobrevivência e vice-versa já que existe mutualismo na relação. Preservar o meio ambiente significa preservar todos os seres nele presente”.
Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com
Em editorial publicado no início de outubro, o Estado de S. Paulo fez pertinente análise da questão ambiental, salientando que, pressionado por governos, associações comerciais e produtores, a Comissão Europeia adiou em um ano a implementação de sua Lei Anti Desmatamento, que proíbe a comercialização de produtos de áreas desmatadas após 2020. É um alívio não só para o Brasil, mas para países diversos, dos EUA à China, além de nações latino-americanas, africanas e do Sudeste Asiático. O governo brasileiro tem um ano para trabalhar com produtores nacionais em busca de adaptação às regras, mas, sobretudo, para mobilizar sua diplomacia a se alinhar com outras partes interessadas ao redor do mundo e pressionar a Comissão Europeia: “o problema não é só, como ela alega, o prazo para a adequação às regras, mas os excessos dessas regras”.
A Lei europeia não distinguia entre desmatamento legal e ilegal, como previsto nas leis brasileiras. Na verdade, nosso Código Florestal é uma das legislações mais equilibradas e restritivas do mundo. Fazendeiros instalados na Amazônia são obrigados a manter a cobertura original de 80% de suas propriedades – nos outros biomas, esse porcentual é de 50%, sem serem remunerados pelos serviços ambientais prestados ao país. Segundo o IBGE, no Brasil, 66% do território é coberto por vegetação nativa, na Amazônia a cobertura é de 83%. Enquanto isso, na Europa, as reservas não ultrapassam, em média, 2% das áreas disponíveis, o que se pode constatar a olho nu. A agricultura brasileira ocupa apenas 10% do território, e, pelos critérios da ONU, tem baixo nível de emissões de CO2.
No que pertine ao bioma amazônico, particularmente, em novembro de 2023 os pesquisadores do Inpa, Charles Clement e Henrique Pereira, diretor do Instituto; Alfredo Oyama Kingo Homma, da Embrapa Amazônia Oriental, e Ima Vieira (Museu Goeldi) traçaram, em importante estudo, algumas considerações sobre o enigma bioeconomia e sua valorização econômica e social. O “paper” foi enviado ao Grupo de Trabalho da Sociobioeconomia, do MMA, e uma versão em inglês ao jornal holandês “Trees, Forests and People”, especializado em publicações (ciência e prática) relacionadas a recursos florestais. Conceitualmente, “parte do princípio de que a Amazônia está no centro das atenções mundiais em face dos altos índices de desmatamento e suas consequências ambientais”.
O documento enfatiza que “muitas propostas de desenvolvimento local baseadas nas cadeias de valor da bioeconomia florestal levam em conta a continuidade e a expansão do extrativismo de produtos da floresta, sem reconhecer as limitações deste sistema de produção nem seus impactos sobre o sistema capitalista observáveis quando a demanda do mercado consumidor aumenta”. Com efeito, “em um bioma com extensão continental como a floresta amazônica este é um desafio de grandes proporções”. Consideram que “a expansão de uma bioeconomia florestal associada à conservação do bioma requer atenção às pessoas do meio rural, tão importantes quanto a dimensão da biodiversidade, frequentemente esquecidas nas discussões”.
Os pesquisadores salientam a especial relevância de produtos alimentícios oriundos das florestas e defendem que políticas públicas e investimentos em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) “têm papel primordial no fortalecimento da bioeconomia no conjunto da sociobiodiversidade amazônica”. De sua efetiva implementação e avaliação de resultados derivam “a infraestrutura adequada para o desenvolvimento de novos produtos, garantia de preços mínimos, a valorização dos serviços ambientais prestados pelos povos tradicionais, a certificação de produtos, a busca de soluções técnicas e tecnológicas para aprimorar a produção com conservação e o melhoramento das plantas amazônicas potenciais, dentre outras iniciativas”. Em síntese, cabe à pesquisa apontar à instância política caminhos seguros para o desenvolvimento sustentável do bioma.
O fundamental a levar em conta no contexto da análise, entretanto, é reconhecer a extrema limitação da interação dos órgãos de ensino, pesquisa e extensão voltados a prover novos conhecimentos, produtos, processos e serviços para os setores industrial e agropecuário regional e brasileiro. É amplamente sabido que o trabalho de pesquisa realizado em profundidade, foco, comprometimento com as demandas da região e governança do sistema (de baixo nível) em articulação com entidades nacionais e estrangeiras líderes em cada setor são condições essenciais à otimização de investimentos públicos e em parcerias público-privadas tendo em vista a consecução desses objetivos.
Articulações, eficiência, produtividade são fatores que movem a ciência, baseada em informações e soluções que levam ao aumento da competitividade e sustentabilidade da economia. O que significa afirmar, por outro lado, a extrema necessidade de buscar parcerias públicas e privadas para pesquisa, criação, desenvolvimento, compartilhamento de infraestrutura visando manter um portfólio de ativos disponíveis para parcerias em diferentes estágios de maturidade tecnológica. Em síntese, são inúmeras as modalidades e as oportunidades para a inovação. Neste exato ponto é que se verifica o quanto o setor de pesquisa, desenvolvimento e inovação encontra-se distanciado, aqui e no Brasil, de nosso setor produtivo. Ao contrário do que ocorre na China, Japão, Coreia do Sul, União Europeia, Reino Unido e Estados Unidos.
Sobre o autor
Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).
O professor Fernando A. F. Melo, do Centro de Ciências da Saúde e do Desporto, da Universidade Federal do Acre (Ufac), publicou, em inglês e coautoria, artigo na “Scientific Reports” (n.º 14), revista do grupo Nature, abordando a epidemiologia da lesão renal aguda (AKI) em pacientes críticos na Amazônia brasileira. Também assinam o artigo Emmanuel A. Burdmann e Dirce M. T. Zanetta, da Universidade de São Paulo (USP); Etienne Macedo e Ravindra Mehta, da Universidade da Califórnia.
O estudo envolveu 1.029 pacientes adultos internados em três unidades de terapia intensiva de Rio Branco, entre fevereiro de 2014 e fevereiro de 2016. O objetivo foi avaliar a incidência e os fatores de risco da AKI na região. Os resultados revelaram que 53,3% dos pacientes internados nas UTIs desenvolveram a condição, destacando-se a alta prevalência em uma área com desafios estruturais.
De acordo com Fernando A. F. Melo, os resultados da pesquisa são comparáveis aos de países de alta renda, mas com taxas de mortalidade mais elevadas, refletindo os desafios enfrentados no contexto amazônico. “A incidência da AKI foi alta entre pacientes críticos na Amazônia”, disse.
“A publicação desse estudo reforça a relevância de se investigar a saúde em regiões com menos recursos, mostrando que é possível realizar ciência de qualidade na nossa universidade”.
Melo relatou que a pesquisa foi sua tese do doutorado interinstitucional entre Ufac e USP e um “doctoral fellow” na Universidade da Califórnia, onde ficou quase um ano fazendo as análises estatísticas iniciais; antes ele passou dois anos coletando dados nas UTIs de Rio Branco. “Foi uma grande vitória publicar numas das maiores revistas científicas do mundo”, finalizou. “O trabalho teve a parceria dos maiores nefrologistas do mundo [que também assinam o artigo].”
O estudo recebeu apoio das Fundações de Amparo à Pesquisa dos Estados do Acre e de São Paulo, envolvendo mais de 20 alunos da Ufac, além de profissionais da saúde, estatísticos e matemáticos.
O documentário “Mestre Dikinho e Tambores do Pacoval – Carimbó de Encantaria” foi lançado no dia 19 de outubro na sede da Associação de Moradores do bairro do Pacoval (AMPAC), em Soure – na Ilha do Marajó. O evento ocorreu no barracão onde há 15 anos são realizadas rodas de carimbó que contaram com a presença assídua e determinante de Mestre Dikinho, artista paraense que formou gerações de tocadoras e tocadores da ilha, além de ser uma referência para todo o Pará.
Dikinho faleceu na madrugada do dia 17 de julho deste ano, aos 83 anos, causando grande comoção no cenário cultural regional, pela relevância de sua trajetória não somente no Carimbó, quanto em outras expressões da Cultura Popular paraense, como o Boi, o Carnaval e o Bolero.
O documentário apresenta uma natureza atemporal, lançando um olhar íntimo sobre a vida e obra do mestre, possibilitando a eternização do seu legado em imagem e som, e registra os costumes, a biodiversidade e a cultura da Amazônia, possibilitando um olhar do mundo para esse lugar; da vida de um Mestre e o repasse de seus saberes; muitos episódios inusitados em mais de 80 anos de história; o Carimbó; a vida no Marajó, tradição e modernidade; búfalos e motos; do Tambores do Pacoval e seu protagonismo na transformação da realidade de um bairro pela cultura e organização comunitária; mulheres no tambor e na liderança, gerações em convívio e permanente aprendizado.
“Finalizar esse trabalho audiovisual que iniciamos em julho de 2019 é um sonho antigo da comunidade que se encontrou com o sonho de produtores independentes e começou a se tornar realidade. Antes do conteúdo em si, é importantíssimo dizer que houve uma intensa vivência de cada pessoa que compôs o documentário com o Mestre, desde a equipe técnica, passando por cada entrevistado. Ter convivido e feito carimbó com ele, vivido de perto toda sua vasta produção no âmbito da Cultura Popular, foi de uma dimensão indescritível. Ele era gigante em sua delicadeza e poesia sensível à densidade humana, imaginária e natural da Ilha do Marajó. Fico extremamente feliz por estarmos entregando este documentário à memória coletiva de nossa região. Perco inclusive as palavras para conseguir descrever tudo que representa esse material, idealizado coletivamente, que consegui produzir e agora entregaremos ao mundo. Nele, nosso querido Mestre se manterá eternizado, podendo ser visto, ouvido e sentido por todas as gerações que vierem após ele e cada um de nós”, afirma Luciane Bessa, produtora executiva da obra.
Foto: Beatriz Maia
Mestre Dikinho foi compositor, violonista, cantor e artesão marajoara. Cresceu entre campos e rios trabalhando como vaqueiro e pescador, imerso na poesia e encantaria da região. Da sua vivência surgiram canções em vários ritmos: do carimbó ao samba, do bolero ao xote e ao boi, que foram tocadas magistralmente pelo mestre em diversos grupos, desde os anos 60.
Passou mais de década junto ao “Tambores do Pacoval”. Também fez parte do grupo “Os Mansos” nos últimos anos de sua vida, junto ao seu grande parceiro de estrada, Mestre César do Regatão, além de amigo fiel, Yuri Guimarães.
O documentário é uma coprodução da Associação de moradores do Pacoval e a produtora Cris Salgado Films com a Universidade Federal do Pará através do Programa Coroatá. O filme traz entrevistas com o Mestre, seus amigos e parceiros de carimbó, além de clipes e animações sobre a encantaria do Marajó e registro de momentos marcantes da cultura na ilha.
Por estar localizado na bacia da foz do rio Amazonas, o litoral amapaense não possui praias de águas cristalinas e nem grandes ondas. No entanto, para quem vive na Amazônia, aproveitar o período de calor em praias típicas da região é um refúgio. Conheça algumas opções imperdíveis no Amapá:
Praia do Goiabal
Localizada no município de Calçoene, a 22 km da capital do Amapá, a Praia do Goiabal tem pouco mais de 4 km de extensão. Com águas escuras, que clareia no período de julho a dezembro, a praia possui um difícil acesso por uma estrada de terra.
Por ser afastada, a praia não é muito movimentada, sendo ideal para quem deseja relaxar e aproveitar as belezas naturais ou até mesmo acampar.
É possível também visitar o Parque Arqueológico do Solstício, onde há um círculo de pedras, apelidado de “Stonehenge do Amapá” devido à semelhança com o ponto turístico da Inglaterra. De acordo com suposições, o monumento foi construído como antigo observatório dos povos originários da região.
Praia do Goiabal, em Calçoene. Foto: Reprodução/Governo no Amapá
Praia da Boca do Inferno
Com uma areia escura e cortada pelo Igarapé do Inferno, a praia fica localizada na estação ecológica da Ilha de Maracá, a 306 km de Macapá (AP) pela BR-156. Cercada por uma mata fechada, para acessá-la é necessário atravessar o igarapé.
A ilha é uma área de preservação e pesquisa, portanto na região é proibida a pesca e a caça de animais. A conservação da fauna e da flora se torna um dos pontos de apreciação na ilha, que possui espécies de aves do mangue, como o guará vermelho e as garças.
Praia da Boca do Inferno. Foto: Reprodução/Praias do Brasil
Praia da Fazendinha
Localizada no distrito de Fazendinha, no município de Macapá, a praia é de águas fluviais banhadas pelo rio Amazonas. Muito procurado pela proximidade, já que fica somente a 13 km da capital.
Com diversas atividades ao ar livre e restaurantes, a Praia da Fazendinha é um ponto turístico de mais fácil acesso para conhecer as belezas amazônicas, com a água do rio e ondas que alcançam a areia da praia.
Praia da Fazendinha. Foto: Jhon Martins/Governo do Amapá
E aí? Você conhece outras praias que poderiam estar nessa lista?
Solta-asa-do-norte (Hypocnemoides melanopogon) no período de cheia dos rios, alimentando-se de uma aranha próximo à linha da água. Foto: Anaís Prestes
As várzeas amazônicas são florestas extremamente dinâmicas, devido à sua forte sazonalidade que é dada pela água, e não pelo clima. Isso acontece devido ao aumento do volume de água nos rios, que transbordam e inundam grandes áreas de florestas ribeirinhas todos os anos, transformando ambientes terrestres em ambientes aquáticos por vários meses. A vegetação nesse ambiente precisa ser adaptada às inundações, e muitas espécies de plantas regulam seus ciclos de vida de acordo com o ciclo dos rios.
Mesmo com as grandes mudanças no ambiente, há muitos animais terrestres, sem habilidades para a vida aquática, que se aventuram em viver nestes locais por toda a sua vida.
Mas assim como o ambiente é sazonal, o comportamento e uso do ambiente por estes animais também precisam ser sazonais. Então, sabendo que o ambiente permanece alagado por meses e que grande parte da floresta fica submersa e indisponível para animais exclusivamente terrestres, como essas espécies se adaptam e vivem nas várzeas amazônicas?
Para os aracnídeos, como as aranhas e opiliões, já há algumas respostas, e é incrível como cada espécie pode utilizar diferentes estratégias para sobreviver. Existem aranhas que possuem seu ciclo de vida sincronizado com o ciclo anual da inundação. Quando está seco, as aranhas colonizam o solo da floresta, alimentam-se e reproduzem-se entre as folhas caídas.
Quando a água começa a subir, essas aranhas já estão no fim de sua vida, e são seus filhotes que permanecem na floresta, subindo nas árvores e ocupando o ambiente vertical disponível acima da linha da água. Nas árvores, os filhotes crescem e, quando a água começa a descer, eles recolonizam o solo assim como seus pais haviam feito.
Há também um pseudoescorpião (também chamado de “falso escorpião”) que utiliza uma estratégia diferente. Ele habita o solo e lá permanece quando a floresta é alagada, no entanto, este pseudoescorpião regula sua fisiologia do corpo para permanecer em um estado de dormência na cheia, e volta a despertar no período seco.
As adaptações não se limitam aos aracnídeos, elas também foram observadas nas aves, um dos grupos mais biodiversos e estudados do mundo. No entanto, até pouco tempo não se sabia sobre as adaptações das aves a estes ambientes efêmeros das florestas de várzea.
Embora seja fácil imaginar que as aves simplesmente poderiam deixar a região voando, na realidade, a complexidade é maior devido à grande diversidade de espécies de aves, o que implica em diversos comportamentos e hábitos de vida. Um caso que chama a atenção são as aves que se alimentam de insetos (insetívoras) e que vivem no sub-bosque da floresta, ou seja, em um estrato mais próximo ao chão da floresta. Para estas aves, espera-se que elas não consigam fazer grandes deslocamentos.
Fêmea de papa-formiga-de-sobrancelha (Myrmoborus leucophrys), uma das cinco espécies de aves insetívoras de sub-bosque estudadas na floresta de várzea. Foto: Anaís Prestes
Até então, o que se sabia é que espécies de aves insetívoras de sub-bosque são as mais sensíveis a mudanças do ambiente, principalmente as espécies que vivem em terra firme, um ambiente que não está sujeito a inundações. Essas espécies são as primeiras a desaparecerem da região quando há algum distúrbio no ambiente, muitas vezes evitando, inclusive, locais próximos à borda da floresta. Se essas espécies de aves são tão especializadas em viver apenas no sub-bosque da floresta, sendo sensíveis a bordas e mantendo-se longe do dossel, como se adaptam quando seu ambiente de preferência está inabitável?
Para entender isso, realizamos um estudo com cinco espécies de aves insetívoras de sub-bosque das áreas de florestas de várzea do baixo rio Purus.
Descobrimos que essas aves permanecem no ambiente mesmo no período da cheia, e a sua principal adaptação é a movimentação vertical na floresta, que ocorre do período da seca para cheia.
Ou seja, como a floresta é alta, há uma parte da vegetação que não fica submersa, então as espécies ocupam uma altura da floresta quando está cheio de água e outra altura quando está seco. Apesar dessa movimentação, cada espécie possui sua preferência em relação à altura em que habita na floresta, algumas mais altas e outras mais próximas da linha da água.
Mesmo com a movimentação vertical na vegetação, algumas aves procuram permanecer em locais com a vegetação do micro-habitat, o local específico dentro ambiente maior, muito parecido com as que habitavam na seca. E outras espécies podem se adaptar ainda mais, procurando habitar locais específicos com a vegetação mais densa e fechada na cheia, comparada com os ambientes mais abertos que preferem na seca.
Os resultados da pesquisa evidenciam que as aves de sub-bosque das várzeas são altamente adaptadas às grandes mudanças sazonais da floresta.
Quando a água sobe, o espaço vertical da floresta para as aves diminui. As aves se adaptam movendo-se verticalmente, procurando ocupar parte desse espaço disponível, algumas preferindo ficar próximas à linha da água, enquanto outras optam por áreas mais elevadas na vegetação. Juntamente com elas, muitos insetos do solo e dos troncos também se adaptam, movendo-se verticalmente.
Isso pode ser vantajoso para as aves, uma vez que muitos desses insetos são suas presas. No entanto, há várias espécies ocupando um espaço menor, mas com a movimentação vertical dos insetos essas aves podem ter mais facilidade em encontrar alimento, já que durante a seca há mais locais de abrigo para esses insetos no solo da floresta.
Floresta de várzea na cheia com cigarras nos troncos das árvores próximo a linha da água. Foto: Anaís Prestes
Ciência se faz com parceria
O estudo apresentado neste texto é resultado da pesquisa realizada por Anaís Rebeca Prestes Rowedder durante seu curso de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Ecologia, no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). A orientação foi realizada pelo professor Mario Cohn-Haft e co-orientação de Thiago Orsi Laranjeiras, também com a parceria do doutor Torbjørn Haugaasen e colega em campo Benjamin Gilmore. Esta pesquisa contou com o apoio financeiro do governo federal por meio da bolsa de mestrado do CNPq e da Faculdade de Ciências Ambientais e Gestão de Recursos Naturais (MINA) da Universidade Norueguesa de Ciências da Vida (NMBU).
Para saber mais:
Adis, J. 1997. Estratégias de sobrevivência de invertebrados terrestres em florestas inundáveis da Amazônia central: Uma resposta à inundação de longo período. Acta Amazonica, 27(1): 43–54. (acesse aqui)
Rowedder, A. R. P., Laranjeiras, T. O., Haugaasen, T., Gilmore, B., Cohn-Haft, M. 2021. Response of understory avifauna to annual flooding of Amazonian floodplain forests. Forests, 12(8), 1004. (acesse aqui)
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Conexões Amazônicas, escrito por Anaís Prestes Rowedder
Cerâmicas milenares são encontradas em sítio arqueológico no Amazonas. Foto: Jean Beltrão/Rede Amazônica AM
A seca que afeta o Amazonas revelou cerâmicas milenares em um sítio arqueológico localizado no município de Urucará, no interior do Estado. As peças surgiram devido ao baixo nível da água, junto às rochas que exibem desenhos rupestres, descobertos ainda no ano passado durante outra estiagem histórica.
A baixa dos rios deste ano também revelou outros “tesouros” escondidos, como os destroços de um navio do século XIX, naufragado no Rio Madeira, e as ruínas do Forte São Francisco Xavier, submerso pelas águas do Rio Solimões, em Tabatinga.
Em 2024, o Amazonas enfrenta uma crise ambiental severa, com uma seca antecipada que já afeta mais de 800 mil pessoas, segundo a Defesa Civil.
Entre os artefatos encontrados, em Urucará, há um vaso de cerâmica bem preservado. A descoberta foi feita por um ribeirinho local, que pescava no Pedral do São José quando encontrou os vestígios históricos.
“Meu sobrinho que viu essa peça. Para gente é uma alegria, um privilégio ter encontrado algo tão grandioso no nosso município. Eu estou feliz, jamais tinha visto algo igual na vida, e ainda encontrar assim preservado é algo maravilhoso”, disse o pescador Edson Batista.
A cerâmica foi descoberta próximo a outro sítio arqueológico, onde gravuras rupestres vieram à tona, em 2023, e reapareceram este ano. De acordo com arqueólogos da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), os desenhos, que lembram “caretas”, têm mais de mil anos e estavam escondidos pelas águas.
Desde então, a preocupação com a preservação dos sítios arqueológicos têm crescido, especialmente com o aumento do interesse de moradores que visitam o local para ver de perto as marcas históricas.
O professor Arenilton Serrão, pesquisador da Secretaria de Educação e Cultura de Urucará, destacou a urgência de proteger a área.
“É uma preocupação muito grande da comunidade com esses locais de valor inestimável para o município. Nosso objetivo é manter esses locais, que se configuram como sítios arqueológicos, seguros e livres de depredações que possam danificar esse patrimônio, que não é só nosso, mas de toda a Amazônia”, declarou.
Segundo a prefeitura de Urucará, o município acionou o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), desde o ano passado, e aguarda a chegada de especialistas para realizar análises e estudos mais detalhados sobre as recentes descobertas.
A seca severa que afeta o Amazonas revelou cerâmicas milenares em um sítio arqueológico localizado em Urucará. Foto: ReproduçãoCerâmica foi descoberta próximo a outro sítio arqueológico, onde gravuras rupestres vieram à tona, em 2023, e reapareceram este ano. Foto: Reprodução
Vista aérea da orla de Macapá com destaque para o Macapá Hotel. Foto: Reprodução/Porta Retrato
O antigo Macapá Hotel, que estava fechado há cerca de 8 anos, ficou desativado e era recorrentemente invadido. O prédio disputado judicialmente foi construído no estilo colonial, na orla da cidade, entre a década de 40, no primeiro ano do ex-Território Federal do Amapá, e a década de 80. O espaço do hotel tem atualmente 11,5 mil metros quadrados.
Primeiro empreendimento do Estado no ramo da hotelaria, o prédio marcou época e era conhecido ponto de encontro dos moradores.
Em 2013 foi anunciado um projeto para transformar o Macapá Hotel em um centro de cultura de referência para a região Norte, com atividades de música, teatro e artes plásticas.
Em 2019, outro projeto previa a transformação do espaço em um complexo empreendedor, cultural e turístico, abrigando auditório, locais para exposição, restaurante, café, lago com peixes da região, e ainda uma lanchonete.
Destino
Porém, o antigo complexo hoteleiro ganhou um novo destino: será o primeiro Hub de Inovação do Amapá. Foi anunciado no dia 14 de outubro o início das obras para a requalificação do antigo hotel.
O local ainda vai funcionar como hotel, só que agora para empresas, como um complexo de tecnologia, conectando empresas, instituições de ciências e tecnologias, incentivando a participação de pessoas no empreendedorismo, além de promover o desenvolvimento regional, a partir da inovação.
A iniciativa tem o objetivo de fomentar o desenvolvimento de startups por meio da cultura inovadora, o lugar visa abrigar até 80 startups de diferentes estágios.
A estrutura do local vai ser totalmente requalificada, recuperando partes da fachada original do antigo hotel. Foto: Lidiane Lima/GEA
O novo local vai contar com coworking, laboratórios, salas de reunião, auditórios e outras acomodações, proporcionando a criação de um ambiente ideal para desenvolver atividades como capacitações, eventos de ideação, pitch day e mentorias.
A estrutura do local vai ser totalmente requalificada, recuperando partes da fachada original do antigo hotel. O David Covre, Secretário de Estado da Infraestrutura, disse que o plano é requalificar, mas manter partes da originalidade do antigo Macapá Hotel.
“Uma requalificação completa, o telhado todo novo, vamos recuperar alguns elementos da fachada, trazendo a originalidade do prédio, do antigo Macapá Hotel, vamos requalificar piso, parte elétrica, combate incêndio, um projeto maravilhoso que vai abrigar as empresas de tecnologia”, declarou David Covre, Secretário de Infraestrutura do Amapá.
Com investimentos de R$6,5 milhões de reais, frutos de recursos próprios do Governo do Estado. A previsão para a entrega do local totalmente revitalizado é para o primeiro semestre de 2025. A obra será feita por meio da Secretaria de Estado da Infraestrutura (Seinf).
*Com informações de Francisco Pinheiro (sob supervisão de Rafael Aleixo), da Rede Amazônica AP
Expedição coleta plantas arbóreas na Reserva do Rio Iratapuru, em Laranjal do Jari, no Amapá. Foto: Israel Cardoso/GEA
Pesquisadores do Amapá e dos Jardins Botânicos de Nova Iorque (EUA) e do Rio de Janeiro localizaram uma faixa de árvores consideradas gigantes com mais de 70 metros de altura na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Rio Iratapuru, no município de Laranjal do Jari, no sul do Estado.
As árvores são da espécie Dinizia excelsa Ducke, conhecidas como angelim-vermelho, e equivalem a um prédio de 24 andares. Os pesquisadores informaram que os angelins gigantes são encontrados em unidades de conservação no Amapá e no Pará, como: Parna das Montanhas do Tucumaque, Flona da Mulata, RDS do Rio Iratapuru, Esec Jari e Rio Paru.
“É uma faixa que essas árvores conseguem chegar a uma altura magnifica. Ao longo do rio, foi possível observar que os angelins estão acima de todas as outras espécies, pois, quando termina a copa de árvores normais, eles se estendem de 30 a 40 metros acima. Aqui é mais um território de árvores gigantes e mais um lugar documentamos na Amazônia”, informou Rafaela Forzza, coordenadora da equipe de botânicos.
Foto: Israel Cardoso/GEA
Foi na RDS do Rio Iratapuru que em 2021 pesquisadores do Instituto Federal do Amapá (Ifap) e da Universidade do Estado do Amapá (Ueap) localizaram a maior castanheira já mapeada no país, com 66 metros de altura.
Sobre a expedição
Os pesquisadores da Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amapá (Sema), da Universidade Federal do Paraná ((UFPR), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e dos Jardins Botânicos do Rio e de Nova Iorque realizam na reserva a coleta de amostras de plantas arbóreas e arborescentes.
Foto: Israel Cardoso/GEA
A pesquisa integra o Programa Nacional de Monitoramento da Biodiversidade (Monitora), que é apoiado pelo Programa de Áreas Protegidas da Amazônia.
São coletadas amostras de folhas e outros materiais presentes na floresta para serem analisadas. O objetivo é a identificação de padrões de distribuição e de diversidade e abundância das espécies existentes na RDS.
A Secretaria Estadual de Saúde informou neste sábado (19) que foi confirmado o diagnóstico de febre amarela em um macaco encontrado morto em uma comunidade indígena em Alto Alegre, no interior de Roraima. Com o registro, um alerta epidemiológico foi emitido para que os 15 municípios do estado intensifiquem as ações de vigilância quanto à circulação do vírus da doença.
A confirmação de que o macaco morreu devido à doença saiu na sexta-feira (18). Uma amostra de material biológico do animal foi analisada no Instituto Evandro Chagas (IEC), do Pará, uma referência na Amazônia. O diagnóstico de febre amarela em macacos é chamado de Epizootia.
O animal morreu no dia 18 de agosto. Além desse caso, a Saúde estadual também registrou esse ano dois casos de febre amarela em humanos, ambos em pacientes da Guiana, país na fronteira com o município de Bonfim, no Norte de Roraima. Os dois foram tratados no maior hospital do estado.
“Recebemos o resultado do diagnóstico laboratorial de um PNH [Primata Não Humano] de uma comunidade indígena de Alto Alegre, muito próxima à área urbana do município, encontrado morto em agosto. Houve essa epizootia, e o Núcleo de Controle da Febre Amarela e Dengue foi até o local. É uma região pertencente ao Dsei Leste, mas a equipe estadual foi até lá, coletou material desse animal, que foi enviado ao laboratório do Instituto Evandro Chagas, referência na região”, esclareceu a gerente do Núcleo de Controle da Febre Amarela e Dengue do Estado, Rosângela Santos.
A febre amarela é uma doença hemorrágica, causada por um vírus, do gênero flavivírus, que se destaca entre as doenças infecciosas imunopreviníveis. Ela é comum em 47 países de baixa e média rendas nos continentes africano e sul-americano.
Entre as orientações enviadas aos municípios, estão o alerta para que gestores das Secretarias Municipais de Saúde intensifiquem campanhas que sensibilizem a população sobre a necessidade de se proteger contra a doença por meio da vacinação.
O caso da epizootia, segundo a Saúde, é uma importante ferramenta para que o governo e prefeituras implementem ações para controlar os riscos de transmissão da Febre Amarela.
“Essas duas situações, os casos confirmados oriundos da Guiana e a epizootia confirmada em primata não humano em Alto Alegre, são fatores de grande relevância para que o Estado entre em alerta quanto à possível ocorrência de febre amarela silvestre. A vigilância de epizootias e a cobertura vacinal estão sendo intensificadas nos municípios, com foco principalmente naquelas pessoas que frequentam as matas, realizam atividades ligadas ao turismo ecológico, praticam caça e pesca ou são adeptas de caminhadas e trilhas, pois estão mais expostas ao risco de infecção pelo vírus”, destacou Rosângela.
Saiba mais sobre a febre amarela
A febre amarela é uma doença infecciosa febril aguda, causada por um vírus transmitido por mosquitos infectados.
Em área rural ou de floresta, os macacos são os principais hospedeiros e a transmissão ocorre pela picada dos mosquitos transmissores infectados Haemagogus e Sabethes.
Nas cidades, a doença pode ser transmitida principalmente por mosquitos da espécie Aedes aegypti.
Não há transmissão direta de pessoa para pessoa.
Os sintomas iniciais da febre amarela são: febre, calafrios, dor de cabeça intensa, dores nas costas, dores no corpo em geral, náuseas e vômitos, fadiga e fraqueza.
Em casos graves, a pessoa infectada por febre amarela pode desenvolver algumas complicações, como febre alta, icterícia (coloração amarelada da pele e do branco dos olhos), hemorragia e eventualmente, choque e insuficiência de múltiplos órgãos.