A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e o Ministério dos Povos Indígenas (MPI) promoveram um amplo debate com outros órgãos do Governo Federal para aprimorar as medidas de prevenção e resposta aos eventos climáticos extremos nas terras indígenas.
A reunião ocorreu no último dia 10 no âmbito do Grupo de Trabalho (GT) permanente para qualificar o plano de ação e gestão de crise climática nos territórios tradicionalmente ocupados e assegurar o atendimento adequado às comunidades indígenas.
Em fase de implementação, o GT é uma iniciativa da Funai e do MPI com o objetivo de garantir maior efetividade das ações de adaptação às mudanças climáticas, causadas pelo desmatamento florestal, garimpo ilegal e outras ações que ameaçam o modo de vida sustentável dos povos indígenas.
No encontro, foi discutido o desenvolvimento de ações integradas subsidiadas por informações técnico-científicas para potencializar a atuação do Governo Federal na prevenção, planejamento e respostas à crise climática, que tem se manifestado de diferentes formas no território nacional, como enchentes e estiagens severas.
Foto: Lohana Chaves/FUNAI
Os técnicos presentes defenderam, entre outros pontos, a necessidade de uma base de dados padronizada e unificada para utilização conjunta dos órgãos federais. Foi apontada ainda a importância de envolver os estados e municípios, que também são responsáveis por assegurar os direitos dos povos indígenas, nas discussões para o desenvolvimento e implementação de políticas públicas de Estado para o enfrentamento e adaptação às mudanças climáticas.
Além da Funai e MPI, participaram da reunião representantes da Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) do Ministério da Saúde; Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA); Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (Cemaden/MCTI); Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (Cenad/MIDR); Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) e Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
Sesau alerta a população sobre a necessidade de se vacinar contra a doença. Foto: Divulgação/Ascom Sesau
A Secretaria de Estado da Saúde (Sesau), de Roraima, confirmou o segundo caso de febre amarela do tipo silvestre em 2024, em um paciente de 13 anos, da Guiana. O caso foi divulgado no dia 14 de outubro. A pasta deve se reunir com autoridades da Guiana e equipes do Bonfim, município na fronteira com o país, para discutir ações de controle.
De acordo com a Sesau, o paciente é da comunidade Awarewanau Village, no país vizinho. Ele manifestou os primeiros sintomas compatíveis com a febre amarela no dia 30 de setembro e foi transferido do Hospital de Lethem para o Hospital Geral de Roraima (HGR), em Boa Vista.
A confirmação da doença pelo Laboratório Central de Saúde Pública de Roraima (Lacen-RR) ocorreu no dia 11 deste mês. O paciente está em tratamento, com bom estado clínico, sob os cuidados da equipe de infectologia do HGR.
“A equipe de Infectologia do HGR prontamente organizou todo o protocolo de manejo deste paciente, incluindo a notificação e coleta de exames. Após isso, o paciente foi para a UTI e está respondendo bem ao tratamento”, ressaltou a gerente do Núcleo de Controle da Febre Amarela e Dengue, Rosângela Santos.
O primeiro caso de febre amarela silvestre deste ano foi identificado em março. O paciente, de 17 anos, morador de uma região próxima à cidade de Lethem, foi tratado e acompanhado pelos profissionais do HGR, seguindo todos os protocolos previstos pela Coordenadoria Geral de Vigilância em Saúde (CGVS), recebendo alta após cura.
Vacina previne
Com a confirmação de mais um caso importado, a Sesau alerta a população sobre a necessidade de se vacinar contra a doença. O imunizante está disponível em qualquer Unidade Básica de Saúde.
“É importante informar para toda a população que a melhor e maior prevenção é a vacina. Neste período de compras, em que ocorre a caravana de todos os municípios, inclusive de outros estados para Lethem, é necessário que as pessoas tenham tomado a vacina contra a febre amarela pelo menos 15 dias antes de viajar”, explicou Rosângela.
A população pode ajudar a fortalecer a vigilância da febre amarela comunicando às autoridades sanitárias caso encontre animais (macacos ou bichos-preguiça). A vigilância de epizootias é essencial para evitar casos em humanos.
“Se você viu um macaco morto ou doente, avise as autoridades de endemias do seu município para que as medidas necessárias sejam providenciadas. Isso não significa que ele esteja transmitindo, mas ele é o nosso alerta de que o vírus da febre amarela está circulando”, ressaltou.
O que é a febre amarela?
A febre amarela é uma doença infecciosa febril aguda, causada por um vírus transmitido por mosquitos infectados.
Em área rural ou de floresta, os macacos são os principais hospedeiros e a transmissão ocorre pela picada dos mosquitos transmissores infectados Haemagogus e Sabethes.
Nas cidades, a doença pode ser transmitida principalmente por mosquitos da espécie Aedes aegypti.
Não há transmissão direta de pessoa para pessoa.
Os sintomas iniciais da febre amarela são: febre, calafrios, dor de cabeça intensa, dores nas costas, dores no corpo em geral, náuseas e vômitos, fadiga e fraqueza.
Em casos graves, a pessoa infectada por febre amarela pode desenvolver algumas complicações, como febre alta, icterícia (coloração amarelada da pele e do branco dos olhos), hemorragia e eventualmente, choque e insuficiência de múltiplos órgãos.
Mais de 100 jovens de todos os estados da Amazônia Legal seguem em uma intensa imersão de debates para a criação de soluções inovadoras e sustentáveis no UNLEASH Amazon Innovation Lab. O programa internacional acontece até o dia 19 de outubro, na Escola Superior de Tecnologia da Universidade do Estado do Amazonas (EST/UEA) em Manaus.
A iniciativa visa capacitar jovens comprometidos em enfrentar os desafios reais de suas comunidades e desenvolver soluções escaláveis, inovadoras e sustentáveis. Esta é a primeira edição do UNLEASH realizada nas Américas e Manaus foi a cidade escolhida para a edição inédita do programa. As edições anteriores ocorreram na Groenlândia, Dinamarca, Singapura, China, Índia e Ruanda.
Nesta quarta-feira, dia 16, os participantes se dividiram em 27 grupos para debater e elaborar soluções em dois eixos centrais: “Proteção e Responsabilidade Ambiental” e “Desenvolvimento Sustentável e Bioeconomia”. Esses temas estão alinhados com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas.
O evento reúne participantes de comunidades tradicionais, ribeirinhos, indígenas e quilombolas, vindos de todos os estados da Amazônia Legal, que inclui Amazonas, Acre, Amapá, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e parte do Maranhão. Participantes de áreas urbanas desses estados também estão incluídos no programa.
Igor Ribeiro, um jovem quilombola do Maranhão, está participando do eixo de Proteção e Responsabilidade Ambiental no UNLEASH Amazon Innovation Lab. Ele destacou o desafio do êxodo rural em sua comunidade.
“É uma realidade difícil. Muitos jovens precisam deixar seus territórios, onde atuam como guardiões, para estudar ou trabalhar em outras cidades. Isso prejudica a continuidade da proteção ambiental por parte dos guardiões tradicionais”, explicou.
Foto: Thiago Herculano/UNLEASH
Igor também ressaltou que o êxodo rural está associado a várias questões secundárias, principalmente à ausência de políticas públicas essenciais, como educação e saúde, dentro desses territórios.
Já Sabrina Almeida, designer amazonense e facilitadora do UNLEASH Amazon, enfatiza que esse momento inicial visa ouvir as diferentes vozes para garantir que a região como um todo seja atendida.
“Às vezes, nós falamos da Amazônia como uma única entidade, mas na verdade há muitas faces entre os diferentes estados da região. E conseguimos reunir um público muito diverso de participantes, então enxergamos de diferentes perspectivas os problemas. Isso é muito importante para pensarmos em um futuro mais próspero e sustentável”, explica.
O UNLEASH Amazon trabalha com uma metodologia moderna, baseada em técnicas de Design Thinking e inovação social, o que proporciona várias ferramentas para que os jovens trabalhem suas soluções.
“Nós vamos trabalhar com problemas complexos, problemas que não podem ter uma única solução, pois seria necessário várias soluções ao mesmo tempo. Isso parece muito complicado de trabalhar, mas a nossa metodologia ajuda a deixar mais simples”, complementa Sabrina Almeida.
Dos 107 participantes, mais da metade são de comunidades tradicionais da Amazônia, segundo a organização do evento. Todas as equipes reúnem jovens de diferentes origens, garantindo mais representatividade e democracia nas soluções.
Ao final do programa, três dos 27 projetos apresentados receberão uma premiação em dinheiro. Além disso, a solução escolhida pelos próprios participantes receberá um prêmio de R$ 20 mil, enquanto outras duas propostas, selecionadas por especialistas, serão contempladas com R$ 15 mil cada.
Todos os projetos principais terão a oportunidade de continuar seu desenvolvimento em incubadoras, assegurando suporte e acompanhamento para que as ideias se transformem em iniciativas concretas.
A doma de bovinos de forma racional, sem violência, transforma o relacionamento do ser humano com os animais. O processo é uma forma de melhorar os procedimentos da propriedade que trabalha com esses animais, que ajuda a garantir a saúde patrimonial ao produtor e harmonia no ambiente rural.
O produtor rural de gado leiteiro, Aregeu Pereira, de Roraima, foi um dos dez pecuaristas da região beneficiados pelo curso de técnicas modernas de manejo de bovinos promovidos pelo Sistema Senar.
“Me criei tirando leite de vaca leiteira. Gostei das aulas porque na cria você tem outro tipo de doma, você aprende a domar a sua vaca sem depender de bater nela e sem depender de laço na cabeça”, comenta.
Foto: Reprodução / YouTube – Amazon Sat
O Instrutor do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural do Senar Roraima, Richardson Tanaka, esclarece que a técnica fica restrita somente ao bovino leiteiro.
“Ela foi desenvolvida para aplicar no gado leiteiro, para obter a facilidade do manejo das novilhas de primeira cria. A técnica foi criada para ser trabalhada em raças de bovino leiteiro, como o gado holandês, girolando e gir. Ele não serve para ser aplicado em gado de corte, como a raça nelore, em gado de corte já é outra técnica”, explica.
O técnico afirma ainda que, a produção leiteira dos bovinos tendem a aumentar após o uso da doma racional.
“Através de estudos, foi mostrado que essa técnica (doma racional de bovinos sem violência), utilizada no bovino leiteiro, traz um ganho de 40% na produção leiteira. Já vi casos de vaca que tirava 10 litros de leite e depois da doma aplicada o leite aumentou para 60 litros”, confirmou Tanaka.
Foto: Reprodução / YouTube – Amazon Sat
Uma das técnicas usadas na prática para a doma, é a proximidade através do cotonete (uma vara de 2 metros, com um saco de estopa enrolado na ponta).
Foto: Reprodução / YouTube – Amazon Sat
“A técnica foi desenvolvida para segurança da pessoa que está fazendo o manejo do animal. É com ela que você obterá a confiança do animal, até chegar ao primeiro toque. Ele é como se fosse um braço extenso do nosso corpo, conforme você adquire a confiança do animal, você vai diminuindo a utilização do cotonete. Você utiliza com movimentos que lembram uma mão fazendo carinho e não movimentos que pareça que está batendo no animal”, esclareceu o técnico do Senar Roraima.
Quanto tempo é necessário para um bovino ser domado sem o uso da violência?
Segundo Richardson Tanaka, se a técnica for aplicada corretamente, após três horas, já é possível passar a mão no animal, e que em torno de uma semana provavelmente você já consegue alcançar a confiança do bovino. Lembrando que tem que ser feito diariamente até chegar no objetivo desejando que é tirar leite, sem colocar corda e maltratar o animal.
As terras indígenas do Maranhão podem ser incluídas no Sistema de Gestão Fundiária (Sigef) e no Sistema Nacional de Cadastro Ambiental Rural (Sicar). A medida foi possível porque a Seção Judiciária do estado acolheu pedido da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e extinguiu o processo judicial movido contra a instituição, que determinava a exclusão das terras indígenas dos referidos sistemas.
“Cuida-se de importante decisão para os povos indígenas do Maranhão, pois garante mais proteção às terras indígenas, bem como permite que a Funai execute a política indigenista sem entraves judiciais”, afirmou o procurador-chefe da Procuradoria Federal Especializada junto à Funai, Matheus Antunes Oliveira.
O Sigef e o Sicar gerenciam informações ambientais dos imóveis rurais de todo o país. A inclusão das áreas indígenas favorece os direitos territoriais dos povos indígenas ao reconhecer os limites das terras tradicionalmente ocupadas.
Entenda o caso
A gestão anterior da Funai editou a Instrução Normativa (IN) nº 9/2020, que impedia a inclusão de áreas indígenas no Sigef e no Sicar. O Ministério Público Federal (MPF) questionou na Justiça Federal a validade da norma, por meio da Ação Civil Pública nº 1049919-30.2020.4.01.3700, em desfavor da Funai e do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
Além de pedir a suspensão dos efeitos da norma, o MPF solicitou que a autarquia indigenista incluísse novamente no Sigef e no Sicar as terras indígenas do Maranhão abrangidas pelas condições da IN.
No curso do processo, houve determinação judicial para a Funai excluir as terras indígenas dos sistemas. A autarquia indigenista, no entanto, se manifestou nos autos pedindo para extinguir a Ação Civil Pública. Isso porque a atual gestão da Funai editou a Instrução Normativa nº 30/2023 anulando a anterior, no caso, a IN nº 9/2020.
“[É] evidente a perda de objeto com relação à declaração de nulidade da IN 9/2020, ante a publicação da Instrução Normativa FUNAI nº 30/2023, que declarou a nulidade da Instrução Normativa n. 09/2020”, diz um trecho da decisão judicial proferida pela 3ª Vara da Seção Judiciária do Maranhão, acolhendo o pedido da Funai.
O documento editado pela gestão anterior da Fundação determinava a exclusão, do Sigef e do Sicar, das terras indígenas em processo de demarcação nas seguintes situações: área formalmente reivindicada por grupos indígenas; área em estudo de identificação e delimitação; terra indígena delimitada (com os limites aprovados pela Funai); terra indígena declarada (com os limites estabelecidos pela portaria declaratória do Ministro da Justiça e Segurança Pública); e terra indígena com portaria de restrição de uso para localização e proteção de indígenas isolados.
De acordo com a atual gestão da Funai essas condições violam os direitos territoriais dos povos indígenas, razão pela qual o órgão editou uma nova instrução normativa com efeitos contrários aos estabelecidos anteriormente.
Ribeirinhos relataram que foi a primeira vez que os destroços pareceram por completo. Foto: Reprodução
A seca severa que atinge o Rio Madeira este ano revelou destroços de um navio que historiadores afirmam ser do Século XIX. Os restos da embarcação estão encalhados na passagem do Pedral do Marmelo, localizado no município de Manicoré, interior do Amazonas.
No dia 16 de outubro, o nível do Rio Madeira atingiu a cota de 10,53 metros, segundo dados da Defesa Civil do Estado. O Amazonas enfrenta uma crise ambiental sem precedentes em 2024, com uma seca que chegou antecipada e já impacta mais de 800 mil pessoas no estado, segundo a Defesa Civil do Amazonas.
Os destroços históricos foram vistos pela primeira vez este ano por marinheiros e pescadores que transitavam pela região na última semana de setembro.
De acordo com o doutor em história social, Caio Giulliano Paião, ainda não foi possível determinar com precisão qual é a embarcação encontrada. Para isso, será necessária uma pesquisa no local para o cruzamento de dados com obras de autores que escreveram a respeito da navegação na Amazônia.
O professor diz, no entanto, que pelas características dos destroços que emergiram das águas, é possível afirmar que a embarcação é uma construção norte-americana conhecida como “chata”, feita para navegação em leitos rasos ou para evitar pedras e troncos submersos.
“Certamente é um navio construído entre a segunda metade do século XIX e início dos anos 1900. Agnello Bittencourt elencou alguns naufrágios que se encaixam nessas características no rio Madeira. Precisaríamos de uma pesquisa mais acurada, mas alguns nomes nos veem à cabeça pelas características dos navios e localização aproximada de seus naufrágios. Os vapores: Içá (1881-1893), Canutama (construído em 1900) e a lancha Hilda”, explicou o historiador.
A superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no Amazonas, Beatriz Calheiros, informou que teve conhecimento do aparecimento da embarcação, mas até o momento não existem mais informações técnicas do contexto histórico do navio.
“Embora possam ter relevância histórica, essas embarcações ainda não são oficialmente reconhecidas como patrimônio cultural, o que requer procedimentos formais”, explicou Beatriz.
Pessoas da região viram o navio pela primeira vez
Segundo os marinheiros que navegam pela região, as poucas partes dos destroços que ficavam visíveis em outras secas eram, muitas vezes, confundidas com pedras, mas foi apenas em 2024 que a embarcação apareceu por completo.
Chefe de máquinas de uma empresa de balsas que atua nesse trecho do Rio Madeira, Claudiomar Araújo, de 56 anos, explicou que já trabalha há muito tempo na região e, durante outras secas, o máximo que já tinha visto era a ponta do mastro do navio.
“Sempre nas secas do Madeira já chegou a aparecer a ponta dele, era até usado como referencial, mas era muito raro acontecer. Esse ano foi a primeira vez que ele apareceu mesmo. Eu trabalho há quase 15 anos viajando pelo Madeira e sempre seca muito, mas raramente a gente via algo do navio”, disse Claudiomar.
André Luiz Pinheiro é um ribeirinho que mora na região do Pedral e disse que cresceu ouvindo histórias do avô sobre uma embarcação que naufragou no local. Ele conta ter ficado muito feliz ao ver os destroços.
“Meu avô contava essa história para gente, nem meu pai tinha visto. Nos só ouvíamos histórias, a gente nunca tinha visto, agora a gente pode observar com a descida dos rios. Para gente é uma surpresa muito emocionante porque a gente só ouvia histórias que esse navio transportava borracha e minério”, relata.
Seca já revelou outros itens históricos neste ano
Em setembro, as ruínas do Forte São Francisco Xavier de Tabatinga foram reveladas com a descida do Rio Solimões. Localizado na margem esquerda do rio, abaixo do terminal hidroviário da cidade, o forte construído no século XVIII foi uma peça-chave para o domínio de Portugal sobre a região, em um período marcado pela disputa territorial com a Espanha.
No mês de agosto, dois canhões que eram usados para a proteção do Forte, foram avistados quando o Rio Solimões atingiu a cota de 49 centímetros, no trecho próximo a Manicoré, interior do Amazonas. Essa é maior seca dos últimos 42 anos na localidade.
Seca severa
Rio Madeira atingiu o pior nível da história neste ano. Foto: Reprodução
O Amazonas vive, em 2024, uma seca histórica em alguns dos principais rios que cortam o estado. Atualmente todos os 62 municípios do Amazonas foram declarados em estado de emergência devido à seca severa e às queimadas que afetam o estado este ano. Veja a situação em algumas cidades do estado:
Em Tabatinga, na região do Alto Solimões, o Rio Solimões está com -1,65 metros. Dados da Defesa Civil apontam que o rio chegou a descer em média, 5 centímetros por dia no último mês. A cidade registrou a pior seca da história.
Na cidade de Coari, na região do Médio Amazonas, o Rio Amazonas registrou a cota de 1,24 metros nesta quarta-feira (16), segundo medição da Defesa Civil do município.
Em Parintins, no Baixo Amazonas, o Rio Amazonas está em -2,05 metros. O cenário também é crítico na região, segundo o governo do estado.
No município de Itacoatiara, o mesmo Rio Amazonas está medindo 0,3 centímetros nesta quarta-feira (16). A cidade recebeu um porto flutuante, onde os navios cargueiros, que atendem as empresas do Polo Industrial de Manaus, transferem suas mercadorias para balsas que ainda conseguem chegar na capital amazonense.
Rio Negro na seca de 2024. Foto: Lucas Macedo/Rede Amazônica AM
O nível do Rio Negro, em Manaus (AM), registrou elevações pelo quarto dia consecutivo após atingir o recorde histórico com o nível mais baixo já registrado desde o início do monitoramento em 1902, com 12,11 metros. Nesta quarta-feira (16), o rio atingiu a cota de 12,20 metros. A subida, no entanto, não representa o fim da seca, afirma o Serviço Geológico Brasileiro (SGB).
As elevações têm sido registradas em Manaus desde o dia 13 de outubro, após o Rio Negro ter permanecido estável por 104 dias seguidos de descida. Desde então, o nível já subiu nove centímetros (até dia 16).
A repentina subida das águas pode ser explicada pelo fenômeno conhecido como “repiquete”, típico dos rios da região amazônica, em que os níveis oscilam, subindo e descendo, como uma espécie de efeito sanfona.
“Agora o Rio Negro está passando por uma redução na intensidade de descida, apresentando certa estabilidade e até pequenas elevações, mas ainda não é o final da estiagem”, informou a pesquisadora do SGB, Jussara Cury.
Cury explicou ainda que para que o ciclo de cheia seja iniciado é necessário que haja chuvas consistentes e bem distribuídas, tanto nas regiões de cabeceira quanto na parte central da bacia amazônica.
Devido à estiagem, a Prefeitura de Manaus decretou situação de emergência por 180 dias e interditou a Praia da Ponta Negra, após o rio ultrapassar a cota mínima de segurança de 16 metros.
Subida em outros rios do Amazonas
A pesquisadora também destacou que o processo não se limita ao Rio Negro, já que outros rios da Bacia Amazônica, como o Solimões, estão enfrentando o mesmo processo.
Em Manacapuru, o Rio Solimões enfrentou a pior seca de sua história. No sábado (12), o nível do rio chegou a 2,06 metros, e nesta quarta-feira (16) subiu para 2,14 metros.
No Alto Solimões, em Tabatinga, a situação foi ainda pior, com o rio atingindo uma cota negativa. Em 26 de setembro, o Solimões registrou o nível histórico de -2,54 metros. Embora o rio ainda esteja em cota negativa, houve uma recuperação, e nesta quarta-feira (16) o nível subiu para -1,65 metros.
Outro rio que apresentou elevação foi o Amazonas, em Itacoatiara. Na sexta-feira (11), o nível do rio caiu para cota negativa, atingindo -0,03 metro, e continuou descendo, chegando a -0,08 metro na terça-feira (15). No entanto, nesta quarta-feira (16), o rio voltou a subir cinco centímetros, marcando novamente a cota de -0,03 metro.
Além da capital, os 61 municípios do Amazonas também enfrentam uma situação de emergência devido à seca. Segundo a Defesa Civil, todas as calhas de rios do estado estão em estado crítico de vazante.
A estudante amapaense Ana Clara Souza, de 16 anos, embarca nesta sexta-feira (19) para Novo Hamburgo (RS). Ela vai apresentar na Mostra Internacional de Ciência e Tecnologia (Mostratec) um projeto que criou em Macapá a partir do uso de carcaças de caranguejo como fertilizante para plantações de soja.
O projeto é voltado para o melhoramento da produção do grão com o uso de resíduos orgânicos encontrados na região. A aluna descreveu a expectativa para participar do evento científico que vai receber delegações de todo o país e de outras partes do mundo.
“A expectativa é muito boa, por sair do estado pela segunda vez para representar o Amapá em uma mostra internacional de ciência. Espero que tenha uma boa colocação, não só isso, mas construir novos conhecimentos, amizades e a experiência no projeto. Considero que é um projeto de muita relevância social”, disse a aluna.
Adubo orgânico com resíduos de caranguejo-uçá. Foto: Aldeni Melo/Arquivo Pessoal
O projeto “K+” foi desenvolvido no laboratório de ciências da Escola Estadual Irmã Santina Rioli, em Macapá, onde Ana Clara estudou até o ano passado. Atualmente é ela é aluna da Escola Estadual Alexandre Vaz Tavares, também na capital.
A ideia recebeu orientação do professor Giovanne Tavares Ferreira e coorientação do professor Aldeni Melo. Para participar da Mostratec, o projeto foi aprovado e premiado na Mostra Amazônica, que ocorreu no fim de setembro em Macapá.
Sobre o projeto
O projeto recebeu o nome de “K+: análise da farinha do processamento da carcaça do caranguejo-uçá, como uso orgânico para fertilizantes na sojicultura”.
Para a produção da farinha do caranguejo-uçá, a aluna coletou carcaças e triturou no laboratório da escola. Foram realizados testes químicos e de amostragem de solo com o cultivo de alface e soja para analisar a biomassa produzida e a eficiência da farinha.
A proposta é criar uma alternativa inovadora para o melhoramento da produção de grãos como fonte de renda para moradores de comunidades do interior do estado.
Para testar a proposta, a aluna introduziu a agricultura da soja em uma comunidade com limitações de acesso.
Dona Dotora circulou pela mata da comunidade Mumbuca com a equipe de pesquisadores. Foto: Daniel dos Santos
Entre os dias 10 e 13 de outubro, comunidades quilombolas do Mumbuca e Prata receberam a primeira Expedição Quilombos-Jalapão, uma ação que une pesquisa científica e preservação dos saberes tradicionais locais. A iniciativa, promovida pela UFT, em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Tocantins (Fapt), tem como objetivo resgatar e valorizar o uso de plantas medicinais e contribuir para o desenvolvimento sustentável das comunidades quilombolas.
Realizada por meio da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade Federal do Tocantins (UFT), a expedição integra o projeto “Etnofarmacologia, etnobotânica e fitoterapia em comunidades tradicionais do Tocantins”. O projeto é financiado pela Fapt, através do edital Fapt/SES, com um investimento de R$ 50 mil. Além de documentar os saberes tradicionais relacionados ao uso de plantas medicinais, a expedição também tem como meta a publicação de um livro em 2025, no qual pesquisadores, estudantes e as próprias comunidades serão coautores.
Segundo o coordenador do projeto, Raphael Pimenta, a produção do livro, com as anciãs das comunidades quilombolas, não apenas preservará esses saberes, mas também permitirá a comercialização da obra, gerando renda para as participantes.
“Essa expedição trouxe várias ações importantes, entre elas auxiliar as anciãs a perpetuarem seus conhecimentos. A Fapt foi essencial ao garantir os recursos necessários para viabilizar essa iniciativa”, destacou o pesquisador.
O pesquisadores Amilcar Saporetti (IFSULDEMINAS), Priscila Souza (UFT) e Rodney Viana (UFT) são os botânicos responsáveis pela coleta, identificação e pesquisa na literatura sobre as plantas encontradas.
Entre as autoras do futuro livro está Noemi Ribeiro da Silva, matriarca do Quilombo Mumbuca e conhecida como a “Dotora” da comunidade por seus conhecimentos sobre plantas medicinais. Noemi ressalta a importância do projeto para as futuras gerações.
“Esse livro será uma orientação, uma garantia de que nossa história e saberes vão ficar para as novas gerações e para as que ainda virão”, declarou a anciã.
Fotos: Daniel dos Santos
A expedição também contou com a participação de Mônica Silva Ribeiro, quilombola e estudante do 5º semestre de Biologia (EAD) da UFT. Mônica é bolsista do projeto e tem a missão de entrevistar os anciãos da comunidade Mumbuca, registrando seus conhecimentos sobre plantas medicinais. Ela compartilhou sua empolgação em participar da criação do livro: “A expectativa está a mil! Nunca imaginei participar de algo tão grande. Esse livro será de grande importância para a comunidade”.
Além de documentar o conhecimento tradicional, o projeto visa implementar processos sanitários e científicos para a produção de fitoterápicos, gerando novas fontes de renda para as comunidades quilombolas por meio da venda desses produtos. Durante a expedição, a equipe também realizou atendimentos médicos, fortalecendo a relação entre a ciência tradicional e a comunidade. Mais de 50 atendimentos foram realizados pelos médicos e estudantes de Medicina que participaram da ação.
A expedição reforça o compromisso da UFT em promover pesquisas que valorizem a biodiversidade do cerrado e preservem os saberes culturais das comunidades tradicionais do Tocantins, além de colaborar com o desenvolvimento sustentável e a geração de novas oportunidades para seus moradores.
Fapt
A Fapt atua, por meio de financiamento de projetos de pesquisas, para garantir o desenvolvimento e a continuidade de ações que impactam diretamente a população do Estado, como explica a diretora científica e de inovação da Fapt, Munique Oliveira. “Conhecimentos tradicionais quando conectados à ciência se completam! É muito satisfatório poder estar aqui e participar desse resultado, que ainda é parcial, e que muito tem ainda para nos mostrar. A proposta da Fapt é continuar apoiando projetos, pesquisas que vão para além daquilo que a gente conhece, que possa chegar até a sociedade e possa conectar, juntar o conhecimento tradicional com o técnico. Isso é ciência!”, concluiu a diretora de CT&I da Fundação.
Participantes
A expedição teve participação dos professores do Colegiado de Medicina: Raphael Sanzio Pimenta, Flávio Milagres, Juliana Fonseca Moreira da Silva; o médico Wagner Fonseca Moreira da Silva; o professor do IFSULDEMINAS, Amilcar Saporetti Junior, através do termo de cooperação entre as instituições; professores do Colegiado de Biologia da UFT em Porto Nacional: Priscila Souza e Rodney Viana; os estudantes de Medicina: José Rafael Farias das Chagas, João Guilherme da Silva Araújo, Rayssa Nascimento Filgueira e Gabriel Gonçalves Durão; estudante do PPG Ciências do Ambiente, Paulo Henrique Barros Macedo; o professor de Pedagogia na UFT, Adriano Castorino; a professora Renária; a pesquisadora do IFTO, Érika Luz; e mais voluntários de empresas privadas, totalizando 35 expedicionários.
Comunidades Quilombolas
Os quilombos do Mumbuca e Prata são comunidades tradicionais que preservam a cultura e os saberes populares relacionados ao uso medicinal das plantas. Os quilombos contam com aproximadamente 200 moradores em cada um. A preservação dessas comunidades e de seus conhecimentos ancestrais é fundamental para a valorização da cultura local e para o desenvolvimento de novas fontes de renda para seus habitantes, como a produção e venda de fitoterápicos.
Atendimento médico
Além das atividades de pesquisa e coleta de plantas medicinais, a expedição contou com ações paralelas, como o atendimento de saúde à população local, fortalecendo a relação entre ciência tradicional e comunidade. Vários médicos e estudantes de medicina, levaram alento e saúde para a população durante os dias da ação e mais de 50 atendimentos foram realizados.
Em setembro, 5,5 milhões de hectares da Amazônia foram atingidos pelo fogo – um aumento de 196% em relação ao mesmo mês do ano passado. Desse total, 50% atingiu áreas de floresta, enquanto 30% correspondeu a pastagens. Dados foram gerados pelo Monitor do Fogo, iniciativa da rede MapBiomas Fogo coordenada pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM). A área queimada em 2024 no bioma já chega a 11,3 milhões de hectares, 143% a mais do que nos nove primeiros meses de 2023.
A Amazônia foi o bioma com a maior área queimada em setembro de 2024, correspondendo a 52% de toda a área queimada no Brasil no mês, que chegou a 10,6 milhões de hectares. O aumento do fogo se deve, em parte, ao avanço das chamas em Mato Grosso e no Pará, que lideram o ranking estadual de área queimada no mês de setembro. No total, foram 3,1 milhões de hectares queimados em Setembro no Estado do Mato Grosso, que possui áreas de Cerrado, Amazônia e Pantanal, enquanto o Pará queimou 2,9 milhões de hectares da Amazônia durante o mês.
“A intensificação dos incêndios na Amazônia em setembro pode ser explicada pelo período de seca, que geralmente ocorre entre junho e outubro, e que este ano tem sido particularmente intenso. Esses fatores agravam a situação na região, já bastante afetada pelas mudanças climáticas, facilitando a propagação do fogo e resultando em vastas áreas queimadas, com grande parte dos incêndios ocorrendo em formações florestais”, detalha Ane Alencar, diretora de Ciência do IPAM.
A Região Norte do Brasil tem passado por uma série de secas extremas desde 2023, prejudicando a recuperação da umidade da vegetação e facilitando a propagação de incêndios. Em 2023, os rios do bioma chegaram aos menores níveis registrados até então e em 2024, que já tomou o posto de pior seca da história da região, já são 770 mil pessoas diretamente afetadas pela estiagem, causando danos estimados em R$ 640 milhões apenas no Amazonas, segundo a Defesa Civil do Estado.
Setembro também foi marcado por recordes de área queimada em outros biomas brasileiros. No Cerrado, segundo bioma que mais queimou, 4,3 milhões de hectares foram queimados, atingindo principalmente áreas de vegetação nativa, pior índice dos últimos 5 anos. Além disso, o Pantanal teve 318 mil hectares atingidos pelas chamas durante o mês, sendo 92% desta área em vegetação nativa.
Ano do fogo
Com a área queimada mapeada em setembro, 2024 chega a 22,3 milhões de hectares queimados em todo o Brasil, área semelhante ao Estado de Roraima. Esse número representa um aumento de 150% em relação ao mesmo período de 2023, com 13,4 milhões de hectares a mais queimados, marcando o ano com maior área queimada desde o início das medições do Monitor do Fogo, iniciadas em 2019.
A vegetação nativa do Brasil concentrou 73% da área queimada, com destaque para as áreas de floresta, que concentraram 21% de tudo que queimou até aqui. Entre as áreas de uso agropecuário, as pastagens se destacaram, com 4,6 milhões de hectares queimados entre janeiro e setembro de 2024 – 188% a mais do que o registrado em 2023. Sozinha, a área de pastagens queimadas em 2024 já equivale ao Estado do Espírito Santo e 84% dela está concentrada na Amazônia.
“O uso do fogo em pastagens na Amazônia está fortemente relacionado à expansão da fronteira agrícola e ao desmatamento, sendo uma prática comum para eliminar a vegetação recém-convertida em pasto, controlar pragas e renovar o solo. Por ser uma técnica barata e fácil de aplicar, é amplamente utilizada. No entanto, essa prática é extremamente problemática na Amazônia, um bioma sensível, onde o fogo pode se alastrar e se transformar em incêndios florestais, especialmente durante períodos de seca extrema”, explica Vera Arruda, pesquisadora no IPAM.
No Cerrado, queimaram 8,4 milhões de hectares entre janeiro e setembro de 2024 – 85,3% atingiu áreas de vegetação nativa. Essa área é 117% maior do que a registrada durante o mesmo período em 2023. O Pantanal, por sua vez, teve 1,5 milhões de hectares queimados desde o começo do ano, um aumento de 2.306% em relação à média observada nos últimos 5 anos.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo IPAM, escrito por Lucas Guaraldo