Entre os dias 10 e 22 de setembro, uma operação emergencial de combate a incêndios foi realizada na Terra Indígena Karajá de Aruanã II, situada no município de Cocalinho, Mato Grosso. A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), por meio da Coordenação Técnica Local de Goiânia (CTL-GYN), prestou suporte logístico e operacional para combater o fogo. A ação garantiu a preservação de cerca de 70% da área total de mais de 893 hectares, essencial para a subsistência da comunidade Karajá.
A Terra Indígena Karajá de Aruanã II fornece recursos para atividades de pesca, caça, coleta e extração de materiais usados no artesanato e construções tradicionais. No entanto, o território tem se tornado cada vez mais vulnerável ao fogo. O incêndio, iniciado em focos provenientes de Mato Grosso e Goiás, representava uma ameaça significativa para a terra indígena.
Com o monitoramento ativo da unidade descentralizada da Funai em Goiânia, a ameaça foi identificada no dia 10 de setembro, permitindo uma resposta rápida. Em menos de 12 horas, a Funai acionou o Prevfogo do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Uma equipe de cinco brigadistas que atuava na Chapada dos Veadeiros foi deslocada de Alto Paraíso de Goiás para a cidade de Aruanã (GO), iniciando os trabalhos de campo em 13 de setembro. A operação contou também com o apoio da comunidade indígena Karajá, que ajudou a guiar a equipe aos pontos críticos.
Durante a ação, foram realizadas atividades como abertura de picadas (criação de trilhas ou caminhos estreitos em áreas de mata ou floresta densa, geralmente para facilitar o deslocamento de pessoas, animais ou até veículos em regiões onde o terreno é de difícil acesso), limpeza de áreas, criação de aceiros e combate direto às chamas.
Com a colaboração do SESI, que ofereceu alojamento, e da Prefeitura de Aruanã, que forneceu alimentação, a operação foi um exemplo de articulação intersetorial bem-sucedida. Ao final, aproximadamente 20 km de linhas de defesa foram abertas, permitindo a contenção do incêndio e preservação de uma grande parte do território, mesmo com as áreas rurais ao redor gravemente afetadas.
Apesar do sucesso, a ameaça de novos focos de incêndio persiste, devido às condições climáticas do Cerrado, como alta temperatura, baixa umidade e ausência de chuvas. A Funai, junto com a comunidade indígena e parceiros locais, segue monitorando a região, especialmente a Terra Indígena Karajá de Aruanã III, localizada em Goiás, para evitar novos incidentes.
Os incêndios que queimaram 2,4 milhões de hectares na Amazônia entre junho e agosto de 2024 emitiram 31,5 milhões de toneladas de CO2 equivalente. É quase o que a Noruega emite por ano (32,5 milhões de toneladas de CO2 equivalente). Comparado com o mesmo período de 2023, o aumento das emissões foi de 60%. A estimativa foi feita pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), que integra o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG).
A área analisada inclui florestas, campos e pastagens. Ao considerar somente a vegetação florestal, os incêndios impactaram 700 mil hectares, que emitiram 12,7 milhões de toneladas de CO2 equivalente. Esse valor é mais do que o dobro do emitido por queimadas em áreas florestais no mesmo período de 2023. As emissões oriundas de incêndios não são contabilizadas no inventário nacional (que só inclui o carbono de queimadas ligadas a desmatamento), mas têm sido relatadas pelo SEEG.
A análise do IPAM também destaca que as emissões continuam após o fim do fogo devido à decomposição da vegetação atingida. Estima-se que, nos próximos 5 a 10 anos, mais de 2 a 4 milhões de toneladas de CO2 equivalente poderão ser emitidas por essa razão.
“Um importante impacto dos incêndios florestais nas emissões não ocorre no momento em que a floresta está queimando, mas depois, quando principalmente as grandes árvores morrem e continuam a emitir CO2 por muitos anos, o que é chamado de emissão tardia. O pior é que uma floresta degradada pelo fogo se torna mais suscetível a outros incêndios, perpetuando um ciclo de degradação e emissões”, explica Ane Alencar, diretora de Ciência do IPAM.
“Temos um cenário assustador de florestas em pé, que deveriam estocar carbono pelas próximas centenas de anos, sendo devastadas pelo fogo e se tornando uma fonte significativa de gases de efeito estufa. Nos próximos anos, talvez não vejamos a fumaça, mas as emissões continuarão ali e, com elas, o aumento do aquecimento global”, completa Camila Silva, pesquisadora do IPAM.
Bárbara Zimbres, pesquisadora do IPAM, comenta que os dados mostram um impacto relevante nas emissões de gases de efeito estufa, que desacelera o que o país tem conseguido mitigar com a redução do desmatamento. Em agosto, o governo divulgou que a área de alertas de desmatamento em 2024 na Amazônia Legal foi a menor já medida pelo sistema Deter-B, do Inpe. O registro apontou 4.315 km², uma queda de 46% em relação ao ano passado. O dado indica que a taxa oficial de desmate, que será anunciada em novembro, poderá apresentar a segunda queda consecutiva de desmatamento na terceira gestão de Lula.
Os incêndios que têm se espalhado pela Amazônia são intensificados pelo clima seco que atinge o país. Segundo nota técnica divulgada em 5 de setembro pelo Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), a seca, além de ser muito intensa, já se configura como uma das mais longas dos últimos 70 anos. As causas resultam de uma combinação de fatores, como a fraca estação chuvosa, que não conseguiu repor a umidade do solo e da vegetação secos na temporada passada, o aquecimento global, que tem desequilibrado o clima, e a mudança no uso do solo, que degrada a vegetação, uma importante fonte de umidade.
“O cenário é preocupante, pois os impactos a longo prazo de queimadas tão intensas não são totalmente claros. Há o risco de entrarmos num círculo vicioso de secas mais severas, incêndios mais intensos e aumento da mortalidade de árvores que, por sua vez, retroalimentam os estoques de combustível disponíveis para eventos de fogo futuros”, comenta Zimbres.
Halo solar foi registrado em Rio Branco no dia 1º de outubro. Foto: Ila Verus/Arquivo pessoal
No primeiro céu azul de Rio Branco (AC) após mais de um mês de fumaça que encobria a atmosfera, moradores registraram, no dia 1º de outubro, o fenômeno conhecido por “halo solar“.
Este fenômeno óptico, que também foi fotografado por moradores do interior do estado, forma um anel luminoso ao redor do sol.
O meteorologista e professor da Universidade Federal do Acre (Ufac), Alejandro Fonseca, disse que isto ocorre quando a luz do sol atravessa nuvens altas com cristais de gelo.
“A refração da luz se dá como mudança da direção de propagação de um raio de luz ao atravessar uma determinada substância. Essa mudança de direção está associada com uma propriedade das ondas, chamada de comprimento de onda (que se relaciona com a frequência e com a energia dessa radiação). Tal propriedade determina a cor da luz”, explica.
Embora o halo solar não seja classificado como um fenômeno raro, ele também não é algo que ocorre com frequência. A formação do halo pode acontecer em qualquer época do ano, desde que as condições meteorológicas ideais estejam presentes.
Apesar da formação ser semelhante à do arco-íris, o halo solar se diferencia pelo formato circular, gerado pela posição do observador. Enquanto o arco-íris se forma à frente da nossa visão, no horizonte, o fenômeno observado no Acre é sempre acima.
Foto: Ila Verus/Arquivo pessoalFoto: Larissa/Arquivo pessoalFoto: Artemisa/Arquivo pessoal
Fenômeno é indicação de chuva?
Fonseca disse que, apesar de não haver um período específico para que isso ocorra, em época de chuvas pode ser mais comum, já que a tendência é de que haja muita umidade na atmosfera.
Os halos solares, contudo, são difíceis de prever. Apesar do clima instável do Acre, com dias ensolarados acima do normal, o que determina a ocorrência desse fenômeno é a distribuição dos cristais de gelo em cada localidade.
Com a seca extrema castigando a Amazônia pelo segundo ano consecutivo, órgãos dos governos estaduais e federal têm evidenciado que os principais rios do bioma estão descendo a níveis baixíssimos, com graves impactos ambientais, sociais e econômicos. Agora, dados inéditos de uma plataforma desenvolvida pelo WWF Brasil e pelo MapBiomas, que monitora 23 lagos dos mais de 60 existentes na Bacia Amazônica com a mesma hidrogeomorfologia, revelam também que as águas dos lagos conectados a esses rios estão atingindo temperaturas mais altas, o que representa um grave risco para a fauna aquática, em especial para os botos.
Todos os 23 lagos monitorados pela ferramenta estão com a temperatura acima da média acumulada dos últimos cinco anos para o mês de agosto.
“O mais preocupante é que, em 23 de setembro, 12 desses lagos já estavam com temperaturas acima dos valores observados em 2023, ano no qual as águas atingiram temperaturas extremas, resultando em uma catástrofe para a população de botos da Amazônia”, afirma Helga Correa, especialista em conservação do WWF-Brasil e uma das coordenadoras da plataforma.
“Esses lagos também acumulam de 5 a 9 meses com temperaturas médias acima do observado em 2023, ressaltando o estresse fisiológico acumulado pela sucessiva exposição a altas temperaturas e baixos níveis de água”.
A necessidade de monitorar a temperatura dos lagos amazônicos surgiu a partir de setembro de 2023, quando o bioma também enfrentava uma seca extrema e 330 botos das espécies cor-de-rosa (Inia geoffrensis) e tucuxi (Sotalia fluviatilis) morreram nos lagos Tefé e Coari, ambos conectados ao rio Solimões, no interior do Amazonas.
“A partir daquela situação, surgiu a ideia de utilizarmos os dados de sensoriamento remoto para obter informações que nos permitissem monitorar a temperatura das águas, ranquear as áreas de maior risco e estabelecer prioridades de ação diante dos graves impactos da emergência climática na população de botos”, salienta Helga.
De acordo com o Instituto Mamirauá, já foi confirmado que a morte dos botos em 2023 foi causada pela alta temperatura da água, que chegou a 40 graus na ocasião. A plataforma também permite monitorar a área coberta por água nos lagos, já que a redução da quantidade está diretamente ligada ao aquecimento. A grande preocupação dos pesquisadores neste momento é que os níveis dos principais rios estão muito abaixo do normal em 2024.
No dia 30 de agosto, o Solimões atingiu a cota de 94 centímetros negativos, a mais baixa já registrada pelo Serviço Geológico Brasileiro (SGB) em toda a série histórica do monitoramento, iniciada em 1989. O recorde anterior era de 86 centímetros negativos, em 2010. A situação continuou se agravando e, no dia 20 de setembro, a cota chegou a 206 centímetros negativos.
Foto: Adriano Gambarini/WWF-Brasil
“No ano passado, quando ocorreu a tragédia com os botos, não tínhamos dados sobre as variações de disponibilidade e temperatura da água dos lagos. A nova ferramenta nos permitirá monitorar esses 23 lagos, que foram identificados como vulneráveis, para acompanhar as variações, a partir da comparação da temperatura e disponibilidade de água em diferentes anos, a fim de gerar alertas para orientar ações emergenciais em campo”, explica Helga.
De acordo com os resultados obtidos até agora pela plataforma, o aumento da temperatura em relação à média dos últimos cinco anos chega a 1,5 °C em locais como o Lago do Rei, no rio Amazonas. Mas o dado mais impactante foram os 12 lagos que estão ainda mais quentes que em 2023, com uma diferença que chega a 0,86 °C no Lago Calado, próximo a Manacapuru (AM).
“Esse aumento pode parecer pequeno em termos de magnitude de temperatura, mas antecipa um alerta de risco de ocorrência de mortalidade de botos, uma vez que as temperaturas do ar também estão altas e a qualidade, devido às queimadas, também atinge níveis críticos”, declara a pesquisadora.
Lago Tefé mais quente que em 2023
De acordo com Juliano Schirmbeck, coordenador técnico do MapBiomas Água, a plataforma obtém dados a partir de duas fontes de sensoriamento remoto: o sensor Modis, do satélite Terra, e o sensor TIRS, do satélite LandSat, que passa com menos frequência. Combinando as duas fontes, é possível contar a história das variações nas temperaturas médias dos lagos.
“O LandSat tem uma alta resolução espacial, isto é, cada pixel da imagem equivale a uma área de 30 metros. Mas ele só passa sobre a região uma vez a cada 16 dias. Já o Modis tem uma resolução espacial menor e cada pixel equivale a um quilômetro. Porém, sua resolução temporal é bem mais alta: ele passa todos os dias. Quando juntamos os dois, obtemos de fato uma ferramenta de monitoramento robusta”, destaca.
A equipe está trabalhando com um histórico de cinco anos de dados de temperaturas com base no sensor Modis.
“Com isso, calculamos a média de temperatura para cada mês. Nossa principal referência é o ano de 2023, que foi marcado pelo evento crítico da morte de botos. Com isso, conseguimos avaliar as temperaturas atuais em relação às médias e em relação a cada mês de 2023”, frisa o pesquisador.
Foto: Adriano Gambarini/WWF-Brasil
No lago Tefé, por exemplo, onde morreram 209 botos em 2023, as temperaturas estão 0,8 °C acima da média dos últimos cinco anos e 0,2 °C acima de 2023, de acordo com os dados obtidos pela plataforma. “O problema é que ainda temos pela frente mais dois meses de estação seca na Amazônia e esses números são um indício de que no auge do calor, entre setembro e outubro, teremos temperaturas bem acima das registradas no ano passado”, diz Schirmbeck.
Alertas para a ação em campo
Mariana Paschoalini Frias, analista de conservação sênior do WWF-Brasil que também participou do desenvolvimento da plataforma, lembra que um dos propósitos da ferramenta é complementar o monitoramento dos botos que é feito continuamente, desde a crise de 2023, por uma força-tarefa liderada pelo Instituto Mamirauá e pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Além disso, a ideia é ampliar o uso da plataforma para áreas ainda não monitoradas e sem qualquer tipo de informação precedente, pois isso ajudará a dar escala ao problema e mensurar o nível de resposta necessária.
“O Instituto Mamirauá e o ICMBio têm o protagonismo nesse grupo de resposta à emergência que se dedica ao monitoramento, estudo e resgate dos botos. O objetivo do monitoramento por sensoriamento remoto feito pela plataforma é fornecer dados que permitam emitir alertas para equipes que direcionam as ações em campo”, declara Mariana. “Assim como para que outros tomadores de decisão em níveis estadual e nacional possam estruturar ações coordenadas”.
Segundo ela, embora as mortes em massa de botos tenham sido registradas apenas nos lagos Tefé e Coari, uma análise feita pelos pesquisadores do Instituto Mamirauá identificou um total de 23 lagos onde há presença de botos e que foram considerados áreas vulneráveis ao superaquecimento da água.
“Todos os 23 lagos têm uma geomorfologia semelhante e há potencial para a ocorrência do mesmo tipo de fenômeno. São lagos de conformação alongada que vêm do interior da floresta, começam a se alargar por grandes extensões muito rasas, até chegarem a um canal mais estreito onde se comunicam com o rio Solimões, drenando essa água superaquecida. Essas características contribuíram para a morte de botos nos lagos Tefé e Coari e por isso foram escolhidos como áreas prioritárias para monitoramento”, explica a pesquisadora.
Sempre que os satélites detectarem um aumento importante na temperatura da água de um desses lagos, um alerta será disparado para que as equipes possam se deslocar para um local específico e colocar em ação o protocolo de emergência -sob comando do ICMBio. “Esses alertas são essenciais para que tenhamos tempo hábil para agir”, diz Mariana.
Temperaturas podem subir rapidamente
Com o baixíssimo nível atual do Médio Rio Solimões, as temperaturas tendem a subir perigosamente nas próximas semanas, conforme uma análise feita pelo Instituto Mamirauá com dados coletados até o dia 2 de setembro.
De acordo com Ayan Fleischmann, coordenador do Grupo de Geociências do Instituto Mamirauá, esses dados foram obtidos a partir de sensores automáticos instalados em dois flutuantes no lago Tefé – que medem a temperatura a cada 10 minutos em diversas profundidades – e um monitoramento mensal em 24 pontos do lago.
“O nível do lago Tefé está em 6,35 metros, cerca de 1,6 metro acima do mínimo atingido no dia 23 de outubro de 2023. Quando a cota está abaixo de 7 metros, vemos que a água começa a ganhar calor muito rapidamente durante o dia. Já identificamos que o lago começou a esquentar nas últimas semanas. No dia 25 de agosto, alcançou 33 graus em toda sua profundidade – a maior temperatura do ano”, afirma Fleischmann.
Fotos: Adriano Gambarini/WWF-Brasil
O superaquecimento dos lagos amazônicos é resultado da combinação de vários fatores, como a redução da quantidade de água, excesso de radiação solar e água excessivamente turva, que facilita a difusão de calor no lago, segundo o pesquisador.
“Nos últimos dias choveu muito, o que resultou em um cenário mais favorável. Com isso, a temperatura ainda não chegou aos 40 graus, que é o limiar perigoso para os mamíferos aquáticos, mas estamos preocupados com as próximas semanas. No ano passado, observamos que 3 a 6 dias de sol intenso são suficientes para uma elevação rápida da temperatura, transformando o lago em uma verdadeira armadilha para os botos”, explica Fleischmann.
Mas o risco não se restringe apenas ao aumento da temperatura na água. “Com o stress hídrico – baixo volume e extensão do lago, os botos ficam mais vulneráveis e expostos a conflitos com pescadores e outras interações antrópicas negativas”, alerta a oceanógrafa Miriam Marmontel, líder do grupo de pesquisa em Mamíferos Aquáticos Amazônicos do Instituto Mamirauá. “Na última semana, no Lago Tefé, ao menos uma morte de boto ou tucuxi foi registrada por dia, resultante de interação desses animais com atividades de pesca, navegação e retaliação direta”, completa.
A plataforma desenvolvida pelo WWF-Brasil e pelo MapBiomas é aberta para consulta e pode ser acessada por cientistas, estudiosos do tema e instituições interessadas AQUI.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo WWF-Brasil, por Fábio de Castro
Desenvolvido pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), o Programa de Monitoramento de Água, Ar e Solos do Estado do Amazonas (ProQAS/AM) realiza uma nova expedição pelo rio Negro, um dos principais afluentes do rio Amazonas, entre setembro e outubro. Esta é a quarta expedição ao rio Negro da equipe de pesquisadores de um dos maiores programas de monitoramento de águas fluviais do mundo.
“Esta é uma campanha importantíssima. Vamos acompanhar os parâmetros de qualidade de água durante o período que está sendo previsto para ser o da maior seca da história. Vamos trazer informações que, no futuro, vão permitir saber o que estava acontecendo nesta época”, afirma Sérgio Duvoisin Jr., coordenador e criador do ProQAS.
Nesta campanha pelo rio Negro, participam uma comitiva de até 13 pesquisadores e uma equipe de sete tripulantes. O grupo acredita que, devido à estiagem, deve navegar até a cidade de Santa Isabel do Rio Negro, em uma expedição que deve durar cerca de 15 dias. Em outras épocas do ano, a viagem seguiria até São Gabriel da Cachoeira, na fronteira com a Venezuela e a Colômbia.
Entre as análises feitas pelos pesquisadores, está a avaliação sobre a presença de componentes ou substâncias introduzidas no rio pela ação humana. “Se eu acho mercúrio, por exemplo, é certo que foi trazido de fora e é um indício da presença de garimpo nas proximidades”, explica Duvoisin.
‘Campanhas’ é como os cientistas chamam as expedições que eles realizam pelos rios para realizar a coleta e análise de amostras de água, de sedimentos e de peixes. No caso do ProQAS, são realizadas a cada três meses.
O projeto desenvolve, desde 2022, pesquisas e atividades de monitoramento da qualidade da água, do solo e do ar no Amazonas. É o único programa de monitoramento da mais extensa bacia hidrográfica do mundo que ocupa, só no Brasil, 3,8 milhões de quilômetros quadrados, abastece milhares de pessoas e serve de fonte de água, pesca, agricultura e outras atividades e usos. No caso da água, é feito o monitoramento dos rios que banham Manaus, além do Negro e do Madeira.
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Os pesquisadores partem de Manaus a bordo do barco “Roberto Santos Vieira”, construído pelo Grupo Atem especialmente para o programa. Com extensão de 28 metros, a embarcação está equipada com quatro laboratórios de última geração, camarotes para a equipe e um refeitório. Roberto, que dá nome ao barco, foi um dos idealizadores do primeiro curso de Pós-Graduação em Direito Ambiental na Universidade Federal do Amazonas (UFAM). O combustível para cada expedição também é fornecido pela Atem Distribuidora.
Padrão para as águas do Amazonas: rio Negro será o primeiro
As expedições científicas trouxeram os insumos para o Amazonas ser a primeira unidade da federação do Brasil a ter um padrão de qualidade de água específico para cada tipo de rio: águas negras, brancas e cristalinas. O primeiro Índice de Qualidade de Águas (IQA), o de águas negras, foi entregue em agosto deste ano às autoridades estaduais de meio ambiente pela equipe do ProQAS/AM.
Hoje, o Amazonas utiliza o IQA desenvolvido em São Paulo para analisar a qualidade das suas águas. A proposta de índice para águas negras está sendo analisada pelo Conselho Estadual de Meio Ambiente do Amazonas (Cemaam), responsável por editar resolução tornando válido o novo parâmetro.
“O IQA que estamos propondo considera as características próprias das águas que banham parte do Amazonas. O ProQAS é uma ferramenta importante para o desenvolvimento de políticas públicas para preservação e melhor uso dos nossos mananciais. É a partir de dados que o gestor público conhece os problemas e define soluções”, afirma Duvoisin. A partir dos dados, também é possível identificar riscos que podem comprometer o ecossistema e a saúde humana.
O IQA para águas negras foi desenvolvido a partir do resultado de 340 mil análises, seguindo 164 parâmetros e 64 pontos de coleta, que vem sendo realizadas no Rio Negro desde 2022.
Expedição ao Madeira
Antes do Negro, a última expedição do ProQAS foi para o rio Madeira. O trabalho teve início em abril, por meio da campanha chamada “Iruri”, que foi acompanhada por pesquisadores da Universidade de Harvard (EUA).
A expedição – que incluiu 100 pontos de monitoramento, percorreu 932 quilômetros, analisou 161 parâmetros de qualidade por meio de 54 pontos de coleta – foi batizada com esse nome em homenagem aos povos nativos da região, que se referiam ao Madeira como Iruri, o rio que treme. A continuidade do trabalho no Madeira vai permitir a criação de um IQA de águas brancas. Em seguida, a equipe vai iniciar o IQA de águas cristalinas, a partir de campanhas no rio Tapajós.
O ProQAS conta com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), do Fundo Estadual do Meio Ambiente (Fema), da Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema), do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) e da Atem, a única instituição privada a contribuir na iniciativa.
Foto: Divulgação
Em Manaus, o monitoramento dos rios que abastecem a capital e região metropolitana trouxe elementos importantes para a definição do Plano Estadual de Recursos Hídricos e para apontar as bacias que estão degradadas e preservadas.
A partir deste ano, conta Duvoisin, o programa vai avaliar também a qualidade da água das microbacias que cortam a capital. “A ideia é ter uma radiografia mais precisa do que está ocorrendo em toda a cidade”, explica o pesquisador. O resultado do monitoramento de todo o programa é público e está disponível no site do ProQAS.
No monitoramento do solo, o ProQA coleta amostras e monitora 70 padrões de metais. Segundo Duvoisin, este é o primeiro mapeamento em calhas de rio de grande porte no país. Em relação ao ar, o programa foi responsável pelo desenvolvimento e pela atualização do aplicativo Selva, que informa, em tempo real, a qualidade do ar no estado do Amazonas. “É uma ferramenta muito importante, principalmente neste período de queimadas que estamos atravessando”, explica Duvoisin.
O governador do Pará, Helder ,Barbalho assinou o decreto que oficializa a criação do Parque Estadual Ambiental das Árvores Gigantes da Amazônia, publicado no Diário Oficial do Estado (DOE), na segunda-feira (30). A nova Unidade de Conservação (UC) está localizada no município de Almeirim, na região oeste paraense, e visa preservar ecossistemas naturais de grande relevância ecológica, além de promover pesquisas científicas e incentivar atividades de educação ambiental e turismo ecológico.
Com uma área de 560 mil hectares, o Parque será gerenciado pelo Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará (Ideflor-Bio). Esta é a 29ª UC sob a gestão do órgão, que busca equilibrar a proteção da biodiversidade com o uso sustentável dos recursos naturais. A criação da nova área protegida deriva de uma porção da Floresta Estadual (Flota) do Paru, que teve sua área reduzida de 3.612.914 hectares para 3.052.914 hectares com o decreto.
O principal destaque desta área é a presença de árvores gigantes, incluindo um exemplar de angelim-vermelho (Dinizia excelsa) com 88,5 metros de altura, considerada a maior árvore do Brasil e da América Latina, e uma das dez maiores do mundo. A UC foi estabelecida com o propósito de proteger essas espécies e preservar populações de flora e fauna ameaçadas de extinção, além de espécies raras e endêmicas que habitam a região.
“O Parque Estadual das Árvores Gigantes da Amazônia é um marco na preservação da nossa biodiversidade, garantindo que espécies únicas e de grande relevância ecológica continuem existindo para as futuras gerações”, afirmou o presidente do Ideflor-Bio, Nilson Pinto.
Segundo ele, a iniciativa é um passo fundamental para o fortalecimento da proteção ambiental no Pará, associando a conservação à geração de conhecimento científico.
Foto: Fernando Sette
O diretor de Gestão da Biodiversidade do Ideflor-Bio, Crisomar Lobato, destacou a importância da nova UC para o desenvolvimento do turismo sustentável e da pesquisa científica. “A criação do Parque oferece oportunidades para estudos aprofundados sobre as espécies que habitam a região e para a implementação de projetos de turismo ecológico que respeitem o meio ambiente e gerem renda para as comunidades locais”, enfatizou.
Regramentos
A zona de amortecimento do Parque terá um papel importante na proteção da biodiversidade e na compatibilização das atividades das populações tradicionais que vivem no entorno. A coleta de produtos como castanha-do-pará e camu-camu, bem como a pesca esportiva nos ecossistemas aquáticos, será permitida, respeitando a legislação vigente e as regras estabelecidas pelo futuro Plano de Gestão do Parque.
As atividades desenvolvidas pelas comunidades tradicionais e povos indígenas que habitam a região, como o acesso ao rio Jari, não sofrerão restrições, de acordo com o decreto. As ações e o modo de vida dessas populações serão respeitados, desde que em harmonia com os objetivos de preservação da UC.
O Conselho Consultivo do Parque, que será criado e gerido pelo Ideflor-Bio, terá como uma de suas funções a regulação das atividades já consolidadas na área, como a coleta de castanhas-do-pará, assegurando que essas práticas sejam mantidas de forma sustentável. O comitê também terá a missão de acompanhar o desenvolvimento das atividades de conservação e uso sustentável dos recursos naturais.
A criação do Parque Estadual das Árvores Gigantes da Amazônia também contribuirá para a proteção de áreas contíguas, tanto estaduais quanto federais, fortalecendo a rede de áreas protegidas na região. Com a preservação de uma rica biodiversidade, a nova UC se tornará um importante ponto de referência para a conservação na Amazônia.
Parceiros
Vale destacar, ainda, que para a criação da nova área protegida, diferentes parceiros contribuíram de forma direta para esse feito. Um Acordo de Cooperação Técnica (ACT) com a Fundação Amazônia Sustentável (FAS), apoiado financeiramente pelo Andes Amazon Fund (AFF), tem viabilizado a criação, recategorização e implementação de novas UCs, fortalecendo a gestão ambiental no estado, como no Caso do Parque Estadual das Árvores Gigantes da Amazônia.
Para o superintendente de Inovação e Desenvolvimento Institucional da FAS, Victor Salviati, “é com grande prazer que a Fundação, juntamente com Ideflor-Bio e AFF, integra a iniciativa do Parque Estadual das Árvores Gigantes da Amazônia. Esse Parque tem uma importância muito grande, não só pro estado do Pará, mas também para toda a Amazônia, porque ele vai proteger ainda mais um santuário de árvores gigantescas. Acreditamos que esse parque vai trazer não só a proteção do meio ambiente para essa região, mas principalmente desenvolver uma atividade turística baseada em ciência e conservação. Ou seja, essas atividades a serem permitidas nesse novo desenho de área protegida vai trazer ganhos sociais, econômicos e ambientais para o território”, frisou.
Em maio deste ano, uma equipe multidisciplinar de pesquisadores e técnicos do Ideflor-Bio, FAS e do Instituto Federal do Amapá (IFAP) percorreu rios e trilhas da então Flota do Paru, para aprofundar análises físicas e biológicas na região, o que levou à descoberta de um novo santuário de árvores gigantes. Esse levantamento forneceu subsídios para transformar parte da antiga UC de Uso Sustentável em uma nova área de Proteção Integral.
O Hospital Universitário Getúlio Vargas (HUGV), da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), vinculado à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), inaugurou um Centro de Saúde Digital em setembro. O trabalho irá facilitar o acesso aos serviços de saúde em áreas remotas e colaborar para a formação de novos profissionais no estado, com ênfase na inclusão de populações vulneráveis, especialmente as comunidades indígenas e ribeirinhas. A expectativa é de que o novo centro realize 320 teleconsultas por mês.
O novo espaço abrigará ações que já estão em andamento na instituição, como o Projeto de Telessaúde do HUGV-Ufam/Ebserh, que começou em junho deste ano.
“Nosso centro concilia vários projetos voltados para a telessaúde, abrangendo populações que vivem no interior do Amazonas. Ele integra, ainda, a UNA-SUS, que é a Universidade Aberta do Sistema Único de Saúde, monitorando e especializando quase dois mil médicos da região”, destacou Juscimar Carneiro, superintendente do HUGV-Ufam/Ebserh e coordenador da iniciativa.
As ofertas serão ampliadas nas áreas de cardiologia, endocrinologia e pediatria, permitindo que pacientes de áreas remotas tenham acesso a especialistas. “Este ambiente irá contribuir para reduzir custos com remoções e proporcionar satisfação aos pacientes que receberão atendimento em suas próprias localidades”, afirmou Pedro Elias, chefe da Unidade de E-saúde do HUGV.
Foto: Divulgação/HUGV/UFAM – EBSERH
Para a vice-reitora da Ufam, Therezinha Fraxe, que representou o reitor Sylvio Puga na solenidade da inauguração, o centro busca garantir que o maior número possível de pessoas da região receba atendimento pelo SUS. “O Amazonas é um estado que, pelas suas dimensões, é maior que muitos países da Europa, como Portugal, por exemplo. Por isso, estamos nos esforçando para que o HUGV atenda cada vez mais os povos da floresta. É um projeto histórico em nossa instituição”, ressaltou.
Segundo Francisco Campos, assessor da UNA-SUS, a parceria com o HUGV pode servir como modelo para outras iniciativas no Brasil.
“A inclusão de um hospital universitário na telessaúde é essencial para fortalecer a atenção em áreas remotas, onde o acesso a serviços de saúde é limitado, além de promover a formação de profissionais para entender as particularidades das comunidades locais”, disse.
“Projetos como esse têm o potencial de transformar a realidade da saúde pública, garantindo que mais pessoas recebam cuidados adequados, independentemente de onde vivam”, complementou.
Atendimento
Para acessar os serviços do Centro de Saúde Digital, os pacientes devem ser encaminhados pelas unidades básicas de saúde, Casas de Saúde Indígenas (Casais) e polos-base dos municípios do interior do Amazonas. Todos os casos serão acompanhados pelos médicos da atenção primária das áreas remotas do estado.
Voluntários e comunidades participam da limpeza dos rios. Foto: Divulgação/Mangues da Amazônia
O lixo marinho é um dos principais desafios socioambientais na costa amazônica, no Amapá, Pará e Maranhão – região que abriga a maior faixa contínua de manguezais do planeta. Descartados nas cidades, levados até o litoral pelos rios ou trazidos de outras partes do mundo pelas correntes oceânicas, os resíduos – sobretudo plásticos – demandam soluções que mobilizam comunidades costeiras em busca da conservação da biodiversidade e melhor qualidade de vida.
“Com a sensibilização ambiental, há uma maior percepção pública para a necessidade de mudar atitudes em relação ao lixo, prevenindo riscos à fauna e flora, aos meios de sustento e à saúde das pessoas”, afirma Marcus Fernandes, coordenador do Mangues da Amazônia e do Laboratório de Ecologia de Manguezal (LAMA), da Universidade Federal do Pará (UFPA), em Bragança (PA).
No projeto Mangues da Amazônia, realizado pelo Instituto Peabiru e Associação Sarambuí, com apoio do LAMA, a importância da destinação adequada dos resíduos inspira ações coletivas de limpeza de manguezais e praias, no contexto do uso sustentável dos recursos naturais.
Desde 2021, o projeto, que tem patrocínio da Petrobras e do Governo Federal através do Programa Petrobras Socioambiental, mobilizou quase mil pessoas nessa iniciativa, com mais de 5,5 mil quilos de resíduos coletados. Só em 2024, foram realizados dez mutirões de limpeza em diferentes municípios do Pará, no total de 741 participantes.
Com o apoio da Petrobras, “a iniciativa nasceu da importância de trabalhar a educação ambiental não só em salas de aula, mas ir a campo e envolver vários atores e parceiros nas localidades”, explica Dayene Mendes, pesquisadora do LAMA e coordenadora das atividades sobre resíduos no Mangues da Amazônia.
As ações se integram ao movimento global World CleanUp Day, realizado em setembro. Os materiais são coletados por grupos de voluntários em pontos estratégicos da zona costeira e separados para classificação e pesagem. Uma parte é destinada a cooperativas de reciclagem. Entre os resíduos mais comuns incluem-se cordas, redes e outros apetrechos da chamada “pesca fantasma”, na qual esses materiais – descartados no mar por barcos pesqueiros como lixo – acabam atingindo e matando caranguejos nos manguezais e peixes, tartarugas e outros animais nos estuários e no mar.
“Além da limpeza, a iniciativa tem sido importante na sensibilização dos moradores e na mudança de práticas como queimar o lixo nos quintais”, observa Dayene Mendes, pesquisadora voltada a estudos sobre microplásticos no ambiente marinho, tema abordado na sua tese de doutorado, apoiada pelo projeto Mangues da Amazônia.
Expansão das atividades socioambientais nos manguezais
A Amazônia estará sob os holofotes do planeta na COP 30 – a conferência do clima da ONU, no próximo ano, em Belém (PA). Ainda bem conservada, a costa atlântica da região, no Pará, é vitrine de soluções que conciliam uso sustentável da biodiversidade, geração de renda e mitigação climática. “O reconhecimento desse trabalho chega em momento oportuno para dar visibilidade aos manguezais, normalmente esquecidos nas agendas”, pondera John Gomes, gestor do Mangues da Amazônia.
Em 2024, em seu segundo ciclo de atividades, o projeto expandiu a abrangência para quatro municípios paraenses – Bragança, Tracuateua, Augusto Corrêa e Viseu. As ações ambientais, sociais e culturais beneficiam direta e indiretamente cerca de 15 mil pessoas na região, com estratégia de maior aproximação com a sociedade. A etapa atual é de validação científica das ações como frentes transformadoras, de modo a consolidar e replicar o modelo de atuação”, afirma Gomes.
No aspecto ambiental, o trabalho dá continuidade à recuperação de manguezais em áreas degradadas, totalizando 16 hectares até o momento, com uso de tecnologias inovadoras. Além do mapeamento participativo dos locais para plantio de mudas, com apoio das comunidades extrativistas, o trabalho monitora o retorno dos caranguejos às áreas já restauradas no passado.
Amostras de árvores são coletadas em diferentes áreas de pesquisa dos manguezais para o estudo de variabilidade genética, indicando onde estão as sementes que podem apresentar maior resiliência e sucesso no reflorestamento.
No campo social, além dos mutirões contra a poluição por resíduos, o projeto tem como destaque atividades educativas que envolvem mais de mil estudantes de diferentes faixas etárias: o Clube do Recreio (crianças de 4 a 6 anos), o Clube de Ciências (10 a 12 anos), o Protetores do Mangue (13 a 15 anos) e o AlfaMangue, voltado à alfabetização de crianças na idade entre 7 e 9 anos.
A agenda inclui excursões para visita a outras cidades, inclusive a capital, visando à troca de experiências e à abertura de novos horizontes. De igual modo, estudantes das maiores cidades chegam às comunidades e conhecem um novo mundo por meio da iniciativa “Escola Vai ao Mangue”.
“É essencial envolver as novas gerações no debate sobre desenvolvimento sustentável”, afirma Gomes. Há, ainda, o trabalho psicossocial junto aos estudantes e suas famílias, com encaminhamento para redes de apoio nos municípios atendidos pelo Mangues da Amazônia.
Uma capacitação de monitores de pesca em Araguatins, região do Bico do Papagaio, no Tocantins, marca o início de novo projeto da Embrapa junto a pescadores artesanais. O objetivo é, por meio de monitoramento sistemático dos desembarques pesqueiros, fomentar a estruturação dessa cadeia produtiva em dois estados: além do Tocantins, o projeto terá ações em Roraima.
O líder do projeto é Adriano Prysthon, pesquisador da Embrapa Alimentos e Territórios (Maceió-AL), ainda com ações na Embrapa Pesca e Aquicultura (Palmas-TO), onde atuou por mais de 13 anos. Ele também liderou outro projeto na mesma linha, o Propesca 1. Este novo pode ser considerado de certa forma continuação do primeiro, pois mantém a metodologia de atuação e parte da área de atuação.
“Além do monitoramento da pesca comercial (março a outubro), os monitores desta vez irão acompanhar também a pesca de subsistência, ou seja, a pesca para consumo familiar (entre novembro e fevereiro), visando principalmente a analisar o papel do peixe na segurança alimentar dos pescadores e suas famílias”, explica o pesquisador.
No Tocantins, o projeto vai monitorar os desembarques pesqueiros em cinco municípios: Esperantina, Araguatins, Xambioá, Couto Magalhães e Araguacema.
O trabalho dos monitores envolve acompanhar os desembarques dos pescadores e coletar dados de produtividade, renda, consumo, comercialização e gênero. Assim como no primeiro projeto. Agora, no Propesca 2, “a questão adicional da segurança alimentar será um componente importante nesta análise, considerando principalmente as diretrizes de redução da fome propostas pelo Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), demandante e financiador desta pesquisa”, completa Adriano.
Números e registros
No país, faltam dados sistemáticos e oficiais sobre desembarques da pesca artesanal desde 2011, o que dificulta a elaboração de políticas públicas para esse segmento. No Tocantins, há quase 7.400 pescadores artesanais ao longo das calhas dos rios Tocantins e Araguaia. Em Roraima, esse número é entre 5.000 e 6.000, concentrados na região Sul do estado, no polo de Caracaraí. Estima-se que a Amazônia brasileira movimente 600.000 toneladas por ano nesse segmento.
O projeto “A bioeconomia da pesca artesanal nos estados do Tocantins e de Roraima: caminhos seguros para a inclusão socioeconômica e a estruturação da cadeia produtiva” vai acompanhar dois anos de desembarques. A Embrapa Roraima (Boa Vista-RR) será a responsável pelo monitoramento naquele estado, da mesma maneira que foi durante o primeiro Propesca.
Adriano entende que os dados gerados em ambos os projetos farão com que as duas bacias hidrográficas (Tocantins/Araguaia e Baixo Rio Branco) tenham estatísticas confiáveis sobre a pesca artesanal.
“As informações serão mais consolidadas e baseadas numa metodologia já estabelecida. Uma vez que a série temporal será maior, poderemos observar, por exemplo, alguma tendência das capturas ou efeito de algum fator externo na pesca”, sugere.
E acrescenta: “Os dados serão analisados e posteriormente farão parte de um banco de dados nacional para a estatística pesqueira do MPA. No entanto, ações governamentais são necessárias para transformar a coleta sistemática de dados de desembarques em uma política pública permanente”. Cabe ao Estado, portanto ao ministério, gerar estatística pesqueira para fundamentar políticas públicas para o setor.
Capacitação
O início da fase de campo do Propesca 2 vai envolver monitores selecionados para o acompanhamento nos cinco municípios tocantinenses. Nesta terça-feira (01 de outubro) e na manhã de quarta, 02, o projeto será detalhado para eles, que verão como é o preenchimento das fichas de monitoramento e outros pontos do projeto. Teoria e prática serão trabalhadas em conjunto.
A partir dessa capacitação, eles estarão preparados para monitorar os desembarques pesqueiros em Esperantina, Araguatins, Xambioá, Couto Magalhães e Araguacema. Mais do que anotar números, estarão contribuindo para a geração sistemática e confiável de dados que poderão subsidiar a elaboração, por parte do governo federal, de políticas públicas que sejam eficientes para os pescadores artesanais brasileiros.
“Entendemos que a informação é um grande patrimônio para a pesca artesanal e fundamental para a gestão, trazendo à luz um setor produtivo historicamente invisibilizado. O caminho ainda é longo. Falta bastante engajamento das instituições estaduais e municipais. Mas estamos no caminho e o Propesca 2 reforça uma perspectiva de mudança positiva”.
Adriano Prysthon, líder do Propesca
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Embrapa
A Secretaria de Estado de Saúde do Acre (Sesacre) inaugurou no dia 30 de setembro uma plataforma virtual que busca facilitar o processamento de dados coletados pelas redes de saúde, como áreas de vigilância, assistência à saúde, logística, gestão de pessoal e recursos orçamentários, de modo a desenvolver a análise de tendências e padrões para promover suporte à tomada de decisões da gestão.
O painel do Centro de Inteligência Estratégica para a Gestão do SUS (Cieges), desenvolvido pelo Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), possibilita a construção de uma visão integrada que garante um planejamento mais preciso e uma gestão eficiente dos recursos públicos.
“Nós não conseguimos fazer saúde sem tecnologia e sem informação. Então, agradecemos a equipe do Conass, que viabilizou a implementação dessa plataforma pioneira pela Região Norte, ainda mais agora com a implantação do nosso prontuário eletrônico. Nós estaremos acompanhando o que está acontecendo no nosso estado”, destacou o secretário de Saúde do Acre, Pedro Pascoal.
O evento de inauguração que ocorreu no Museu dos Povos Acreanos teve a primeira palestra conduzida por Sandro Terabe, assessor técnico do Conass, que evidenciou a necessidade de uma plataforma que auxiliasse na gestão do SUS, ao apontar estatísticas produzidas por uma empresa alemã especializada em coleta e visualização de dados, que apontou que 36% dos dados gerados em todas as áreas são da área da saúde, (por meio de hospitais, clínicas, dispositivos, prontuários eletrônicos, estudos clínicos, entre outros), mas somente 2% desses dados são organizados e utilizados de forma eficaz.
“O Cieges nasceu no período da pandemia, quando nos víamos sem nenhuma informação sobre o que estava acontecendo a respeito daquela doença no nosso país e precisávamos correr atrás das informações. Nessa perspectiva que o Centro de Inteligência foi desenvolvido, para possibilitar que a gente pare de correr atrás e comece a correr à frente, nos antecipando, prevendo o que pode acontecer, trabalhando com as informações reais, precisas e oportunas”, pontuou Rita Cataneli, assessora técnica do Conass, que compôs a mesa de abertura.
Representantes da Sesacre, Conass, Conselho Estadual de Saúde do Acre e Centro Integrado de Geoprocessamento e Monitoramento Ambiental estiveram presentes. Foto: Izabelle Farias/Sesacre O presidente do Conselho Estadual de Saúde do Acre, Oswaldo Leal, e o chefe do Centro Integrado de Geoprocessamento e Monitoramento Ambiental, Claudio Cavalcante, também compuseram a mesa de abertura.
O Centro de Inteligência reúne informações que possibilitam ao gestor tomar decisões com base na realidade enfrentada no estado, oferecendo informações desde o atendimento de unidades básicas de saúde, unidades especializadas em atenção hospitalar, como também a possibilidade de informações referentes à influência do clima e como essas condições afetam a saúde dos usuários do SUS e dos trabalhadores da saúde.