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Manifesto denuncia Amacro, invasões a territórios e mercantilização da natureza

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Foto: Renato Santana/Cimi

Amacro é o acrônimo dos estados do Amazonas, Acre e Rondônia. Assim como o Matopiba, acrônimo de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, se trata de uma região chamada de “zona especial de desenvolvimento sustentável”, criada em 2021 pelo governo federal, para o avanço das fronteiras do agronegócio, da mineração e de grandes empreendimentos. No caso da Amacro, o estado do Mato Grosso também faz parte.

Leia também: Desenvolvimento sustentável: saiba o que é o projeto AMACRO

Para tratar dos impactos deste avanço das fronteiras agropecuárias nos territórios ocupados por populações tradicionais e áreas de conservação, povos indígenas e pequenos agricultores dos estados que compõem a Amacro se reuniram em Porto Velho (RO), entre os dias 12 e 14 de novembro, para oficinas e discussões de estratégias com o objetivo de enfrentar a roda do desmatamento e destruição associada à Lei 14.701/23, a chamada Lei do Marco Temporal.

A “sustentabilidade” do projeto é questionada pelos povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, sem terras e ambientalistas. Segundo levantamento do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), só em 2022, por 36% do desmatamento na Amazônia Legal. A abertura de áreas para a agropecuária cresceu em média 5,61% por ano de 2018 a 2022, mais que o dobro da média para o bioma no Brasil.

Uma análise exclusiva da InfoAmazonia, com base nos dados da rede MapBiomas, aponta que em 20 anos, de 2003 a 2022, a área destinada ao agronegócio na Amacro mais que dobrou de tamanho e chegou a 7,2 milhões de hectares, um território maior do que o da Irlanda. Atualmente, em 13 dos 32 municípios que compõem a região, a agropecuária já ocupa uma área maior do que a floresta.

O mercado de carbono também foi abordado durante o encontro em análise sobre os impactos do dispositivo Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (Redd). “As terras indígenas passam a não ter mais usufruto exclusivo, são vigiadas, os desmatamentos não cessam e o povo acaba pagando a conta enquanto (indústrias) seguem poluindo. É uma enganação”, enfatizou Fernandino.

Ao término do encontro, os povos presentes redigiram um manifesto contendo suas mais destacadas motivações de resistência.

Leia na íntegra:

Manifesto contra as invasões dos nossos territórios, a mercantilização da natureza e a favor da vida

Nós, lideranças indígenas representantes dos povos: Nawa, Nukini, Huni Kuĩ, do estado do Acre; Apurinã, Jamamadi, Jaminawa, Mura e Munduruku, do estado de Amazonas; Arara,  Oro Eu, Cassupá, Aikanã, Oro Waram, Oro Mon, Aruá, Karitiana e Canoé, do estado de Rondônia; Enawene Nawe, Rikbaktsa, do estado Mato Grosso;  e comunidades tradicionais em conjunto com nossos parceiros: CIMI, CPT, Fundação Rosa de Luxemburgo, WRM e aliados da causa indígena,  reunidos entre os dias 12 e 14 de novembro de 2024 na cidade de Porto Velho, estado de Rondônia, debatemos sobre as ameaças aos direitos e aos nossos territórios, tais como: a desconfiguração dos direitos dos povos originários, com aprovação da lei 14.701/2023 aprovado pelo Congresso, uma afronta à decisão do STF que julgou o RE 1.017. 365 contra a tese do Marco Temporal.

Reafirmamos a posição da APIB de se retirar da Câmara de Conciliação criada pelo Ministro Gilmar Mendes. Expressamos nossa indignação com o fato do ministro, após a retirada da APIB, ter intimado, por meio do Ministério dos Povos Indígenas, “representantes” para comporem a mencionada Câmara. Nós não consideramos a Câmara de conciliação o mecanismo apropriado para resolver um tema sensível como os direitos originários e fundamentais garantidos pela Constituição Federal nos Art. 231 e 232 como Cláusula Pétrea, os direitos humanos não são negociáveis.

Sabemos que a COP 30 vai acontecer no Brasil. O governo não representa as comunidades indígenas e tradicionais de base na COP 30 e as lideranças indígenas que estão vinculadas ao governo não representam as comunidades indígenas e tradicionais de base. Queremos ressaltar que as lideranças indígenas e povos tradicionais das aldeias e comunidades querem ter informações sobre a COP e nos posicionar nesse debate. Entendemos os REDD (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal) e REM (programa do governo alemão para premiar “pioneiros do REDD”) como projetos de falsas soluções para a crise climática.

Denunciamos o avanço da nova fronteira agrícola chamada AMACRO (Amazonas, Acre e Rondônia) sobre os territórios indígenas e sobre a floresta trazendo grandes impactos aos povos indígenas e às comunidades tradicionais com o avanço da plantação de soja, milho, sorgo e uso abusivo de veneno nesses plantios causando doenças em nossas comunidades, poluindo os rios, lagos, igarapés e lençol freático, matando nossos peixes e contaminando todo o ecossistema.

Os grandes projetos de infraestrutura como hidrelétricas, BR 317, BR 319 Rodovia Binacional Cruzeiro do Sul a Pucallpa, no Peru, Ferrovia, ramais, portos impactando os povos indígenas, sobretudo as terras não demarcadas, violando direitos quando não são consultados conforme a Convenção 169 da OTI, que garante a consulta livre, prévia e informada.

Denunciamos o descaso do governo brasileiro e da Funai em relação aos povos indígenas isolados. O governo tem falhado em reconhecer, demarcar e proteger adequadamente os territórios desses povos, enquanto planeja ou apoia projetos que impactam áreas habitadas por estes povos. A mencionada Rodovia Binacional atravessaria o Parque Nacional da Serra do Divisor, uma das áreas de maior biodiversidade do Planeta e habitat de povos indígenas isolados. Da mesma forma, a proposta da “Ferrovia para o Pacífico”, discutida pelo governo há anos, representa uma ameaça direta à existência desses povos. Além disso, denunciamos as reiteradas iniciativas de prospecção de petróleo nesta região. Esses projetos, caso implementados, terão consequências catastróficas para a floresta e para os povos que nela habitam. Tememos que, com o novo porto de Chancay, no Peru, recentemente inaugurado com a presença do presidente da China, esses empreendimentos ganham novo impulso.

Com ausência do Estado, não demarcando e protegendo as terras indígenas, as comunidades estão à mercê da sua própria sorte com empresas aliciando os povos originários e tradicionais para aceitar contratos de REDD, sem que estes povos entendam como funcionam e o que são estes contratos de REDD. Após ter analisado e discutido esse tipo de projeto, chegamos à conclusão de que ele não pode trazer benefícios de longo prazo para nossas comunidades e nem para as catástrofes ambientais.

Ao contrário, traz divisão e conflitos internos e, ao restringir nosso uso tradicional da terra, ameaça nossa soberania territorial e segurança alimentar. Além disso, contribui com a contínua queima de combustíveis fósseis, uma vez que objetiva a emissão e venda de créditos de carbono, que na verdade devem ser chamados de permissões para poluir. Entendemos que as secas, incêndios e inundações, que cada vez mais frequentemente atingem nossas terras, se dão em consequência da poluição por parte das indústrias e não queremos ser cúmplices desta destruição da nossa Mãe Terra. Ao contrário, exigimos que as sociedades industrializadas, por serem os principais responsáveis pela crise climática, com a máxima urgência, ao invés de “compensarem” suas emissões, com estes enganosos créditos, as reduzam radicalmente.

Exigimos o cumprimento integral dos Art. 231 e 232 da CF que foram referendados pelo STF no julgamento do marco temporal, avançando com as demarcações das terras indígenas e a proteção destes territórios garantindo a integridade física das lideranças indígenas ameaçadas na luta pelo território.

Nos comprometemos em manter as comunidades em alerta para qualquer ameaça aos nossos direitos e aos nossos territórios.

Clamamos a todos os seguimentos da sociedade que se levantem contra os desmontes dos direitos indígenas, nossas terras não estão disponíveis para comércio, mineração e a substituição das nossas florestas para dar lugar ao agronegócio. Resistiremos!

Porto Velho, 14 de novembro de 2024.

*Com informações do Conselho Nacional Indígena

Rios da bacia do Amazonas têm menor nível da história em 2024, aponta análise da InfoAmazonia

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Imagem: Reprodução/InfoAmazonia

Os rios Amazonas, Purus, Madeira, Solimões, Negro, que estão entre os principais da bacia do Amazonas, e também o afluente Paraná do Careiro, enfrentaram uma seca sem precedentes em 2024.

Onze das 16 estações de monitoramento da altura dos rios da bacia (68% do total) registraram, até 29 de outubro, os níveis mais baixos dos últimos 122 anos, desde o início do monitoramento do Serviço Geológico do Brasil (SGB), segundo análise exclusiva da InfoAmazonia

O monitoramento do SGB na bacia do Amazonas abrange, além desses seis rios, outros dois: o Acre e o Branco (a reportagem usou o boletim da Bacia do Rio Amazonas, do SGB, que traz os oito rios mencionados. Além destes, os rios Japurá, Xingu e Tapajós também se destacam dentro da bacia, por suas extensões). Juntos, eles são responsáveis por abastecer populações urbanas, ribeirinhas e indígenas nos estados de Roraima, Acre e Amazonas. 

A bacia se estende além dos limites do Brasil, abrangendo também a Colômbia, o Peru, o Equador e a Bolívia, sendo a maior bacia hidrográfica de água doce do planeta, com 1.700 rios e os dois maiores arquipélagos fluviais do mundo: Mariuá e Anavilhanas. Além disso, o rio Amazonas, que integra a bacia, é o maior rio do mundo.

11 das 16 estações de monitoramento da bacia do Amazonas atingiram menor nível da história em 2024

Seca nos rios Amazonas, Madeira, Solimões, Negro, Purus e Careiro levou às menores cotas mínimas em 122 anos. Cada estação possui uma régua com uma marca zero, que representa o nível do rio no momento em que ela foi instalada. Os índices negativos estão abaixo dessa marca.

O rio Solimões tem quatro pontos de medição do nível da água localizados nos municípios de Tabatinga, Manacapuru, Itapeua e Fonte Boa. Cada um deles possui uma régua com gradações em centímetros com a marca zero, que representa o nível em que o rio estava no momento em que a régua foi instalada. A data da instalação varia e, no caso desses rios, ocorreu há cerca de 30 anos. 

Todas as quatro estações do rio Solimões registraram o menor nível da história, conhecido como evento mínimo. Em Fonte Boa, a seca mais grave havia ocorrido em 2010, quando o rio atingiu 802 centímetros (cm) em 22 de outubro. Em 2024, o nível chegou a 717 cm em 12 de outubro.

Seca no rio Solimões no município de Tabatinga

Estação de monitoramento do município atingiu o menor nível da história em 8 de outubro deste ano.

Fonte: Planet Labs. Inc., Serviço Geológico do Brasil (SGB) • Análise e visualização: InfoAmazonia

Na estação de Tabatinga, a cota (termo técnico para o nível do rio em altura) mínima histórica era de -86 cm (oitenta e seis centímetros abaixo da marca zero da régua), registrada em outubro de 2010. Em 2024, o evento mínimo atingiu -234 cm, também em outubro.

O povo Kokama vive agora às margens de um rio Solimões seco. São mais de 100 pessoas que moram à beira de um extenso banco de areia, numa praia formada após a seca, na Terra Indígena (TI) Assunção, próxima ao município de Alvarães, no Amazonas, a cerca de 531 km da capital Manaus. 

Terra Indígena Assunção vive a seca do rio Solimões

Fonte: Planet Labs. Inc., Serviço Geológico do Brasil (SGB) • Análise e visualização: InfoAmazonia

A TI ainda não é demarcada pelo governo federal e falta infraestrutura para amenizar os danos de eventos extremos. Por isso, os moradores da comunidade racionam água desde agosto. Parte deles usa a água do poço, enquanto a outra espera pelo dia seguinte para sua vez.

 A conselheira de saúde da TI, Maria Auxiliadora Kokama, conta que a situação se agravou na seca do ano passado e, neste ano, se repetiu. Quando conversou com a reportagem, em setembro, ela estava sem água na torneira, aguardando o dia seguinte para ter acesso.

Foto: Jullie Pereira/InfoAmazonia

 As faixas de areia aumentam a distância até os municípios mais próximos e provocam o surgimento de redemoinhos e tempestades de poeira. Os ventos sopram com tanta força que movimentam a areia, fazendo-a flutuar no ar e formar uma nuvem de poeira.

Por causa dessas tempestades de areia, da falta de água e do excesso de calor, o professor Gleison Martins, que ministra aulas de língua kokama e saberes ancestrais na comunidade, precisou reduzir a carga horária escolar. 

Martins tenta explicar às crianças que a seca é um dos eventos climáticos extremos e usa a situação como exemplo para falar sobre a importância da preservação da floresta. “Todo dia, nós vemos que o nosso Solimões está se tornando um deserto. Aqui, na frente, estava a nossa água para tomar nosso banho. Hoje nós estamos vendo uma pintura seca. Nossas crianças estão sentindo tudo isso”, conta. 

 Foto: Jullie Pereira/ InfoAmazonia

A pesquisadora Jussara Cury afirma que a estação de Tabatinga é a referência para a bacia, localizada no oeste, onde o Solimões entra no país.

De acordo com o último boletim divulgado pelo SGB, em 6 de novembro, a estação de Tabatinga está apresentando elevações diárias consideráveis, subindo 2,84 m naquela semana. Caso ocorra estabilidade nas elevações nos próximos dias, ainda deve levar semanas para que o restante da bacia atinja estabilidade. Em outros rios, como o Negro, na estação de Manaus, o nível continua a descer.

Foto: Paula Silva/ Instituto Mamirauá

Rios secaram mais cedo

No rio Negro, há quatro estações de monitoramento do SGB: Tapuruquara, São Gabriel da Cachoeira, Manaus e Barcelos, sendo que as duas últimas atingiram os menores níveis históricos este ano. Em Manaus, o rio chegou a 12,17 metros (m) em 8 de outubro. Dois dias depois, em 10 de outubro, atingiu outra marca histórica: 12,11 metros. A pior cota anterior era de 12,70 m, registrada em 26 de outubro do ano passado. Em Barcelos, o recorde de 2024 foi de 6 cm em 28 de fevereiro, enquanto a mínima anterior registrada era de 58 cm, atingida em 18 de março de 1980. 

Ou seja, em ambas as estações, o recorde ocorreu antes do que geralmente é previsto. A InfoAmazonia também verificou o padrão das datas em que os rios atingiram os níveis mais graves e verificou que isso também se repete nos outros rios: das 11 estações que registraram recordes neste ano, 10 tiveram eventos mínimos entre o final de setembro e o começo de outubro. A análise histórica mostra que o esperado era que isso ocorresse no final de outubro.

Desde que os efeitos do El Niño, fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico, começaram a ser sentidos em julho de 2023, a chuva diminuiu na Amazônia. Essa seca antecipada também está atrelada ao aquecimento das águas do Oceano Atlântico, que provoca a evaporação do ar, que chega à Amazônia e inibe a formação das nuvens carregadas. Com os dois fenômenos ocorrendo ao mesmo tempo, a região viu os rios apresentarem um cenário fora da normalidade.

Segundo os dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), publicados no início de novembro, 59% dos municípios do estado do Amazonas (37 dos 62 existentes) estão passando por níveis de seca severa e extrema. Em oito localidades, o evento ocorre há mais de um ano: Barcelos, Santa Isabel do Rio Negro, Codajás, Maraã, Guajará, Fonte Boa, Uarini e Ipixuna.

Foto: Paula Silva/Instituto Mamirauá

As comunidades ficam mais isoladas 

A cidade de Uarini, distante 595 km da capital Manaus, enfrenta condições de seca há 15 meses. A região é banhada pelo Solimões e seus afluentes. Lá, a jovem Bianca* Silva (*nome fictício, substituído a pedido da entrevistada), de 20 anos, precisou dar à luz à filha sem uma equipe médica completa, porque não teve tempo de chegar ao hospital.

A cidade de Bianca conta com uma unidade de saúde limitada e, quando necessário, os pacientes são encaminhados para Tefé, município que com a seca fica a 4 horas de distância. Em época de normalidade do rio, esse tempo se reduz para 3 horas.

No final da gravidez, ela já estava sendo orientada a ter um parto cesariano, realizado por meio de uma cirurgia com corte na parte inferior do abdômen. Quando começou a sentir as dores, em 12 de setembro, foi levada ao hospital de Uarini, onde duas enfermeiras e uma parteira estavam presentes. Para ela, o ideal seria fazer a cirurgia, mas não foi possível, já que a equipe médica necessária para a cesárea inclui também um obstetra e um anestesiologista.

A alternativa de viajar até Tefé para realizar o procedimento também estava indisponível. Com rios estreitos, rodeados por praias e com o surgimento de galhos e rochas no caminho, a viagem implicava o risco de naufrágio, tempestades de areia e acidentes com outras embarcações. “Eu não tinha passagem [dilatação] para ter o parto normal, mas acabaram me fazendo ter o parto normal mesmo. Minha filha já estava muito embaixo. Ela nasceu com uma manchinha vermelha no olho porque eu a ‘apertei’ muito durante a passagem”, conta a jovem.

Agora, Bianca e sua filha enfrentam o calor intenso da cidade. Na casa de palafita onde moram, os ventiladores são a única opção. Bianca tenta amenizar o calor colocando a filha nos locais mais frescos, mas o calor já começa a afetar a saúde dela. “Ela fica muito agoniada, com o rostinho vermelho. Deixo ela só de fralda, coloco no colchãozinho lá fora, mas está muito quente”.

Outro que precisou enfrentar a seca do rio Solimões para ter acesso ao hospital foi Mesaque Brandão, 16 anos. Jovem da Comunidade Vila Soares, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Amanã, no município de Uarini, ele quebrou o pé jogando bola em 19 de setembro. Sem uma rabeta em casa, precisava pedir emprestado uma embarcação e navegar cerca de 30 minutos até a cidade. 

Vídeo: Reprodução / Infoamazonia

A situação era difícil, porque o acidente ocorreu no final da tarde e navegar à noite é muito perigoso. Além dos impactos da seca, a região é conhecida pela presença dos piratas, homens que roubam dinheiro, objetos e embarcações nos rios. Brandão só conseguiu sair de caso no outro dia, pela manhã. 

“Eu estava chorando de dor e lá não tem posto de saúde. O jeito foi a gente vir para cá. A minha mãe veio me trazendo devagarzinho, vim segurando no ombro dela. Chegando no porto eu peguei uma moto, não estava mais aguentando, foi difícil”, conta.

Foto: Jullie Pereira/ InfoAmazonia

Como analisamos a seca na Bacia do Rio Amazonas?

Nesta reportagem, analisamos os dados semanais de nível dos rios (cotas) publicados em boletins do Serviço Geológico do Brasil (SGB) de janeiro a outubro de 2024, que também informam os níveis mínimos históricos de cada estação desde 1902.

O escopo da análise compreende 16 estações da bacia do rio Amazonas, monitoradas pelo SGB, distribuídas por 8 rios, são eles: Acre, Amazonas, Branco, Madeira, Negro, Purus, Solimões e Paraná do Careiro.

Para a análise e elaboração do gráfico que mostra a série histórica dos níveis dos rios, utilizamos os dados diários de cotas abertos da Agência Nacional das Águas (ANA) de 1920 a 2023.

Para reforçar nosso compromisso com a transparência e garantir a replicabilidade das análises, a InfoAmazonia disponibiliza os dados nesta pasta.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela InfoAmazonia, escrito por Jullie Pereira

Conservação das zonas úmidas em área da Amazônia peruana beneficia 15 mil habitantes

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Foto: Reprodução/Agência Andina

Com mais de 2,5 milhões de hectares de florestas, com capacidade de armazenar 6,8 bilhões de toneladas de carbono, o Projeto Datem Wetlands (PHD) promoveu melhor qualidade de vida para mais de 15 mil pessoas de cerca de 120 comunidades indígenas da província de Datem del Marañón, na região de Loreto, no Peru.

A importância destas zonas úmidas na zona oriental de Loreto reside no fato de, segundo um estudo de medição de carbono – realizado pelo Instituto de Investigação da Amazônia Peruana (IIAP) e Fundo Nacional de Áreas Naturais Protegidas pelo Estado (Profonanpe) – , o Abanico del Pastaza é a terceira maior reserva de carbono do mundo, depois dos ecossistemas da Região Central Kalimantan, na Indonésia, e Cuvette Central, na República do Congo. 

Esta é uma tarefa desenvolvida pelo Profonanpe e outros aliados que foi anunciada durante uma apresentação em Lima que contou com a presença dos principais protagonistas como os representantes de diversas comunidades que foram à capital peruana para divulgar o trabalho realizado e o que produzem.

Foto: Divulgação/Agência Andina

O objetivo é melhorar as capacidades das pessoas que vivem em ecossistemas de zonas úmidas ricos em carbono e reduzir as emissões de gases com efeito estufa causadas pelo desmatamento.

Balbuena explicou que tem sido de vital importância identificar quais são os recursos e o que querem fazer com eles e que agora, uma vez concretizados os seus negócios que estão a ganhar mercados, é necessário continuar a escalar para aumentar as suas vendas.

Sustentou ainda que tem sido dado total apoio a iniciativas para aumentar as vendas em vários setores ligados a frutas como o cacau.

Foto: Divulgação/Agência Andina

Entretanto, José Nieto Navarrete, chefe do Serviço Nacional de Áreas Naturais Protegidas pelo Estado (Sernanp), as zonas úmidas de Datem del Marañón são um ecossistema muito importante porque conservam as florestas, o que é significativo para a regulação do clima.

Acrescentou que embora estas florestas apresentem perigos e enfrentem atividades ilegais – como a mineração – , culturas ilícitas e desmatamento, projetos como os desenvolvidos pelas comunidades com os recursos das suas próprias áreas “mostram-nos o caminho correto de como devemos trabalhar com as pessoas”.

Por sua vez, o diretor executivo do Profonanpe, Anton Willems, destacou o apoio de diversas organizações nacionais e internacionais e da sociedade civil para a realização do Projeto Datem Wetlands após cerca de dois anos de trabalho com as comunidades e que agora pode-se ver o resultados, mas também a atitude de continuar a apostar e a crescer.

Nesse sentido, garantiu que com os novos aliados o trabalho pode continuar para conservar a zona úmida mais importante do Peru e uma das mais importantes do mundo.

Foto: Divulgação/Agência Andina

Para Willens, a iniciativa contribui para proteger um dos ecossistemas mais importantes do mundo declarado pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) em 2002. 

Ele explicou que trabalham lado a lado com mais de 100 comunidades de sete povos indígenas da Amazônia para que possam melhorar suas condições de vida através do uso sustentável de seus recursos não madeireiros e da pesca artesanal.

A ex-Apu da Comunidade Nativa Progreso e Parceira Tajima, Emilia Wishu Ukunchan, destacou o trabalho realizado pelos membros das comunidades, através de diversas associações e ao mesmo tempo agradeceu a oportunidade que lhes foi dada de produzir em diferentes atividades, o que os “deixa orgulhosos” porque lhes permite avançar ainda mais por serem cidades bastante remotas, para não dizer esquecidas.

Foto: Divulgação/Agência Andina

Projeto financiado pelo Fundo Verde 

O PHD é o primeiro projeto financiado pelo Fundo Verde para o Clima (GCF) na região, aprovado no âmbito da COP20 realizada no Peru e em aliança com organizações indígenas como CORPI SL, organização regional de Aidesep e Município Provincial de Datem del Marañón. 

O projeto chegou a U$ 9.138 milhões, dos quais 6,8 milhões foram contribuídos pelo GCF e 1,8 milhões pela agência Koica. As cadeias de valor mais importantes incluem itens como aguaje, cacau nativo e alguns peixes.

Para isso, foram implementadas 12 bioempresas âncoras e 49 unidades de bionegócios nos corredores que atravessam os rios Pastaza Morona e Marañón.  

Da mesma forma, foi alcançada a aprovação de 52 Declarações de Gestão (DEMA) e três Programas de Gestão Pesqueira (Promape) para utilização de recursos, numa área de 399 mil hectares.

Os bionegócios contam com 874 sócios, sendo 406 mulheres e 468 homens de comunidades indígenas. Os mesmos que estão formalizados em registros públicos e possuem Registro Fiscal e reportam suas vendas anuais à Sunat.

A iniciativa também garantiu que o desmatamento não aumentasse no seu âmbito de intervenção e, juntamente com organizações indígenas e governos locais , existe um nível de institucionalidade local para vigilância e monitoramento comunitário.

Profonanpe

O Profonanpe é o fundo ambiental do Peru e tem mais de 30 anos de experiência  na captação e gestão eficiente de recursos financeiros para a execução de programas e projetos que contribuem para a conservação da biodiversidade e para a mitigação e adaptação às mudanças climáticas.

*Com informações da Agência Andina

O futuro incerto dos botos da Amazônia no meio de uma seca histórica

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Boto-cor-de-rosa é encontrado morto em rio da Amazônia. Foto: Sea Shepherd Brasil

“Moro neste flutuante há 40 anos, e essa é a maior seca que eu já vi na minha vida. Dá para ver que a água baixou muito mais do que em 2023”, conta Carlos Magno, enquanto aponta para o ponto onde a água chegou no ano passado.

Carlos é mecânico de barcos e vive em um flutuante – uma casa sobre a água, construída geralmente de madeira ou metal – à margem do Lago Tefé, no município de mesmo nome, no coração do estado do Amazonas. Apaixonado pela vida junto ao lago, cercado pelas águas, floresta e animais, ele e sua família agora consideram se mudar para terra firme diante das secas cada vez mais severas.

“O flutuante já está todo em terra. Dê uma olhada aqui para ver o quanto a água desceu. Esta seca está quase 30 dias atrasada, não costuma chegar nesse ponto”, diz ele, preocupado. A água precisa subir para Carlos poder retomar o trabalho: com o baixo nível dos rios e lagos, as embarcações deixam de trafegar e ele perde clientes. Já está há dois meses sem trabalho.

O Lago Tefé, uma formação lagunar do Rio Tefé próxima ao encontro com o Rio Solimões, vem vivendo uma seca histórica este ano, atingindo o nível de apenas 4,54 metros – 13,5 metros abaixo de junho, no início da estiagem, quando chegou a 18 metros (veja gráfico abaixo). Além da drástica redução, a água restante registrou temperaturas altíssimas, chegando a 40,3 ºC – o mesmo patamar de 2023, conforme dados do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM).

Em toda a Amazônia, 69% dos municípios vêm registrando índices de seca ainda mais intensos que os de 2023 – um aumento de 56% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo o Índice Integrado de Seca (IIS). No Amazonas, o Boletim Estiagem 2024, divulgado pelo governo do estado, indica que mais 850 mil pessoas foram impactadas pela descida das águas, e todos os 62 municípios estão em estado de emergência. Segundo o Serviço Geológico Brasileiro (SGB), a estiagem pode se agravar ainda mais até o mês de dezembro.

“Nas últimas décadas, temos observado uma intensificação dos eventos hidrológicos extremos, com cheias e secas recordes ano após ano”, diz Ayan Fleischmann, pesquisador titular do Grupo de Pesquisa em Geociências e Dinâmicas Ambientais na Amazônia, do Instituto Mamirauá.

Outro monitoramento realizado por uma plataforma desenvolvida pela World Wildlife Fund Brasil (WWF-Brasil) e pelo MapBiomas, que acompanha 23 dos mais de 60 lagos da Bacia Amazônica, revelou que, desde agosto, as águas dos lagos conectados aos rios também têm atingido temperaturas mais altas.

Em 2024, doze desses lagos já estavam com temperaturas acima das registradas em 2023. Os dados também mostraram que esses lagos acumulam de cinco a nove meses com temperaturas médias superiores às do ano anterior, o que ressalta o estresse fisiológico dos seres vivos expostos repetidamente às altas temperaturas e baixos níveis de água.

É o caso dos botos.

A seca histórica no Rio Solimões reduziu drasticamente o nível do Lago Tefé, que atingiu apenas 4,54 metros em outubro. Foto: Alessandro Falco/ICMBio

Nas águas, uma tragédia anunciada

No Lago Tefé, em setembro e outubro de 2023, foram recolhidas 209 carcaças de tucuxis (Sotalia fluviatilis) e botos-cor-de-rosa (Inia geoffrensis), segundo pesquisadores do Instituto Mamirauá. Apenas no dia 28 de setembro, 70 carcaças foram encontradas na região, um evento de mortalidade sem precedentes para essas espécies. Naquele ano, a maioria das mortes foi relacionada ao superaquecimento das águas, que alcançaram temperaturas superiores a 40 ºC.

De acordo com estimativas do Instituto Mamirauá, o Lago Tefé abriga uma população de aproximadamente 900 botos-cor-de-rosa e 500 tucuxis. Com uma taxa de reposição anual de apenas 5%, a perda de mais de 200 animais em 2023 representou um impacto significativo para essas populações. Cerca de 80% dos animais mortos naquele ano eram botos-cor-de-rosa.

Ambas as espécies de golfinhos de água doce da Amazônia estão na lista vermelha de espécies ameaçadas da União Internacional para Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN). O boto-cor-de-rosa e o tucuxi são classificados como “em perigo” de extinção, o que significa que a espécie provavelmente será extinta em um futuro próximo. Esse é o segundo nível mais grave de ameaça na classificação da IUCN.

Em 2024, o ICMBio e o Instituto Mamirauá decidiram se antecipar à tragédia. “A seca foi tão intensa no ano passado que o rio nunca recuperou seu nível. Já começamos com déficit de água. A expectativa era de que a tragédia iria se repetir”, diz Miriam Marmontel, líder do Grupo de Pesquisa em Mamíferos Aquáticos Amazônicos do Instituto Mamirauá. “Nós estávamos preparados para uma nova emergência, com monitoramento mais intenso, capacitação de equipe e aquisição de equipamentos específicos.”

Diante do alto número de animais mortos, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) instaurou em 2023 a Emergência Botos Tefé, com apoio técnico do Instituto Mamirauá e parceria com diversas instituições, para averiguar a situação. O mesmo instituto também lançou, em setembro, a Emergência Fauna Aquática 2024, a fim de intensificar o monitoramento dos animais na região e evitar novas mortes. Mais de 50 profissionais ficaram responsáveis por monitorar as condições de água e o comportamento dos animais duas vezes ao dia.

Entretanto, a mortandade de botos não foi como o esperado. “Este ano secou mais, está uma quentura e a gente não viu boto morrer. Ficamos sem entender”, comenta Carlos, que em 2023 ajudou a recolher e transportar carcaças que, muitas vezes, encalhavam no seu quintal de casa.

Valdinei Lemos Lopes, que trabalha com botos há mais de 20 anos e já colaborou com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e o Instituto Mamirauá, acredita que os animais, prevendo uma estiagem ainda mais severa, se deslocaram para locais mais seguros. “Os bichos sabem mais que a gente; eles vivem lá. Ano passado, a seca chegou rápido e eles não tiveram tempo de sair do lago. Este ano, eles cuidaram de sair logo”, explica.

Segundo o pesquisador Ayan Fleischmann, o que evitou uma repetição da tragédia de 2023 foi a menor incidência de radiação solar. Este ano, houve menos dias seguidos de sol intenso e maior presença de chuva e nebulosidade, o que impediu que o lago se mantivesse a 40 ºC por longos períodos.

Resumindo: em 2024, não foram registradas mortes de botos relacionadas ao estresse térmico. No entanto, o ICMBio contabilizou 14 mortes de animais, incluindo oito botos-cor-de-rosa, quatro tucuxis e dois peixes-boi, todos com sinais de interação humana, como pesca, caça ou colisões. As carcaças desses animais estão sendo analisadas para determinar as causas exatas das mortes.

Mas o fator por trás das mortes desses animais continua sendo a seca. A questão é que, com o baixo volume das águas, mamíferos aquáticos ficam mais vulneráveis e expostos a interações negativas com humanos, como pesca, caça e atropelamentos por barcos.

Em Coari, cidade próxima a Tefé, a organização Sea Shepherd, que monitora a fauna local, contabilizou 37 carcaças na região, sendo 22 tucuxis, cinco botos-cor-de-rosa, dois golfinhos não identificados, quatro peixes-boi e outros quatro pedaços de peixe-boi. Embora alguns animais já estivessem em estágio avançado de decomposição, todos tinham indícios de ação antrópica. “Encontramos os animais com marcas de rede de pesca e facadas”, diz Nathalie Gil, diretora executiva da Sea Shepherd.

Nathalie relata que, logo na primeira semana de monitoramento, a equipe já observou sinais de caça ilegal à distância. Em uma ação com a Polícia Militar, encontraram uma boia com dois peixes-boi mortos.

“O peixe-boi é alvo de uma caça exacerbada, que é consumida internamente em Coari. Estamos falando de um consumo grande, de 15 a 20 animais caçados por dia”, fala Nathalie. O peixe-boi-amazônico é uma das 1.182 espécies brasileiras ameaçadas de extinção, com o status de “vulnerável” na Lista Oficial de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção.

A batalha entre botos e pescadores
Embora os botos não sejam alvo direto da caça, eles travam uma batalha contra os pescadores da região. Segundo o pescador Edinei de Lima Ferreira, o boto-cor-de-rosa é “preguiçoso”. O animal espera a malhadeira – uma rede de pesca composta por malhas – encher de peixes para rasgá-la e se alimentar. “O boto rasga a rede e nós perdemos o peixe todinho”, diz ele.

“A gente trabalha com tanto carinho, remenda, bota a rede no rio, mas o bicho vem e rasga tudo. Se pelo menos ele tirasse o peixe com educação, eu não ficaria com raiva”, conta Edinei. “Mas se pudesse mesmo a gente matava todos eles”, fala em tom de brincadeira.

No entanto, andando pela cidade de Tefé ou navegando pelas águas dos rios, é possível perceber que a tensão entre os botos e os pescadores é assunto sério. Valdinei Lemos Lopes, que tem anos de experiência com a espécie, conta que é raro encontrar na região alguém que goste do boto. “Tem gente que acha bonito, mas distante, não próximo. Ainda existe esse receio das lendas de que o boto pode fazer mal”.

No folclore brasileiro, o boto-cor-de-rosa é conhecido por sua mística capacidade de seduzir. A lenda diz que, em noites de lua cheia, o animal emerge dos rios transformado em um homem atraente, capaz de conquistar uma jovem e engravidá-la antes de retornar às águas.

Hoje, sabe-se que a lenda do boto tem forte relação com casos de violência sexual na região. No entanto, por muitos anos, ela alimentou a perseguição a esses animais, que eram mortos por medo de seus supostos poderes de sedução. Também há relatos de que partes do boto eram utilizadas como amuletos e que sua gordura servia para fins medicinais. Embora a lenda já não seja o principal motivo para a caça, a captura retaliatória ainda ocorre em alguns locais.

Na disputa entre pescadores e botos pelos recursos pesqueiros, o ressentimento dos pescadores vem chamando a atenção de pesquisadores. Para evitar conflitos, estão sendo desenvolvidos dispositivos sonoros que mantêm os botos longe das redes de pesca, prevenindo tanto a destruição das malhadeiras quanto retaliações contra os animais.

A WWF-Brasil, em parceria com a Sociedade para a Pesquisa e Proteção do Meio Ambiente (Sapopema), começou a testar essa tecnologia em junho de 2023, na comunidade Prainha I, localizada no Pará, na Floresta Nacional do Tapajós, onde os conflitos são comuns. Nos primeiros testes, houve uma redução de 40% dos danos às malhadeiras e um aumento de três vezes na quantidade de pescado. Porém, a eficácia diminuiu na segunda fase de testes, quando os botos passaram a se adaptar ao ruído e encontrar novas formas de aproximação.

Karen Lucchini, pesquisadora do Centro de Mamíferos Aquáticos, destaca que os esses dispositivos, chamados pingers, foram originalmente projetados para o ambiente marinho e que sua adaptação para o uso em rios exige ajustes importantes. Além disso, a adoção da tecnologia pelos pescadores é outro desafio. “Enfrentamos resistência dos pescadores, que temem que a pesca diminua com o uso dos dispositivos. Além disso, o custo dos aparelhos é elevado, e adaptar essas tecnologias de forma acessível ainda é difícil”.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Mongabay, escrito por Mayala Fernandes

Saúde bucal no campo: quase 1,5 mil crianças em Roraima recebem assistência odontológica

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O Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), em Roraima, realizou em escolas da Zona Rural dos municípios de Boa Vista e Cantá, uma ação social que beneficiou centenas de crianças, filhas de produtores rurais, com palestras e práticas sobre higiene bucal.

As crianças que vivem em áreas rurais tem dificuldades em procurar assistência ou tratamentos dentários, devido as condições financeiras ou até mesmo a dificuldade em chegar até a cidade por conta das localizações geográficas. 

Foto: Reprodução / YouTube – Amazon Sat

Nas condições de saúde bucal, os grupos de crianças enfrentam diariamente diferentes causas que os levam a vulnerabilidade como doenças bucais, má alimentação ou até mesmo a higienização oral irregular. 

O projeto Saúde Bucal no Campo, segundo a equipe técnica do Senar Roraima, deu assistência a 1418  crianças. Contou com seis odontólogos e cerca de seis pessoas da equipe técnica do Senar. O programa faz parte das iniciativas de saúde preventiva e tem como objetivo melhorar a qualidade de vida do homem e da mulher do campo.

Foto: Reprodução / YouTube – Amazon Sat

Para a equipe técnica que estava a frente da ação, a falta de acesso a informação para maiores cuidados odontológicos, é uma das motivações para que esse projeto exista e colabore com a melhor qualidade de vida da população rural.

Foto: Reprodução / YouTube – Amazon Sat
Foto: Reprodução / YouTube – Amazon Sat

Entre as principias atividades realizadas com as crianças durante a Saúde Bucal no Campo, estão as palestras educativas sobre saúde bucal, anamnese (entrevista inicial que coleta informações sobre a criança ou adolescente, sendo fundamental para o planejamento de um tratamento ou avaliação psicológica) e aplicação de flúor.

Reprodução: YouTube / Amazon Sat

Programa Paricá: edital impulsionará desenvolvimento sustentável no sudeste do Pará

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Foto: Divulgação/PPA

Paricá – territórios em ação’ é um novo programa de impacto socioambiental que visa promover o desenvolvimento sustentável na Amazônia Brasileira, apoiando projetos e iniciativas que contribuam com a conservação da biodiversidade, a redução da pobreza e a promoção da diversidade e equidade.

Fruto de uma parceria entre a Suzano, Plataforma Parceiros pela Amazônia (PPA), USAID Brasil e Aliança Bioversity & CIAT, a primeira edição do edital será focado em cinco municípios na região sudeste do Pará: Abel Figueiredo, São João do Araguaia, Bom Jesus do Tocantins, Rondon do Pará e Dom Eliseu.

“Essa parceria entre PPA e Suzano é muito importante para nós da USAID (…) representa um investimento de grandes empresas que são atores de impacto e reconhecem o seu papel em apoiar o desenvolvimento sustentável da região e da Amazônia. Isso é essencial”, afirma Catherine Hamlin, diretora de Meio Ambiente USAID Brasil.

Para realizar sua inscrição no edital, as organizações privadas sem fins lucrativos devem ser formalizadas há no mínimo dois anos, com registro legal no Brasil, e estarem alinhadas às políticas da Tese de Desenvolvimento Territorial da PPA e Estratégia de Sustentabilidade da Suzano.

Serão consideradas iniciativas que atendam a um dos eixos temáticos abaixo:
Eixo 1: Conservação Ambiental e Regeneração de Ecossistemas;
Eixo 2: Desenvolvimento Econômico Sustentável, Inclusão Social e Redução da Pobreza;
Eixo 3: Governança Territorial Participativa.

Foto: Divulgação/PPA

Com essa união de esforços, é possível contribuir para a qualidade de vida, geração de renda e fortalecimento da governança territorial das comunidades, por meio de projetos de capacitação, agroecologia e implementação de Sistemas Agroflorestais (SAFs).

Ao final do projeto, pretende-se estabelecer um modelo de desenvolvimento sustentável integrado, que possa ser usado como referência para outros parceiros e regiões do Brasil.

O período de inscrições do edital será de 27 de novembro até 16 de dezembro de 2024, às 23h59 (horário de Brasília).

Para mais informações, acesse AQUI.

Agricultor aposta na irrigação para enfrentar seca e melhorar produção em Roraima

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Foto: Oseias Martins/Rede Amazônica RR

Há mais de 30 anos, Washington Luís cultiva a terra na região do Cantá, Norte de Roraima. Atualmente, ele dedica a propriedade ao cultivo de cacau e banana, com planos de expandir a venda para o mercado local e outros estados.

Mas os desafios não têm sido poucos. A seca e a estiagem no início deste ano, causadas pelo fenômeno climático El Niño, prejudicaram o cultivo e trouxeram prejuízos. Por isso, ele resolveu investir na irrigação como saída para driblar imprevistos climáticos.

Ele explica que o baixo nível de água foi um dos principais problemas enfrentados em sua plantação: “Toda produção que a gente tem de plantio vai de água baixa. Já está dizendo, de água baixa, porque a água foi pouca”.

Para evitar novas perdas, Washington investiu em um sistema de irrigação. Ele criou um açude com capacidade de atender toda a propriedade. “Eu tenho um açude aqui de 50 metros por 25 de largura, com 3 de profundidade, que é o reservatório maior que eu tenho de água. A gente utiliza ele, dá cento e poucos metros daqui até lá”.

A água é distribuída por áreas divididas, e o sistema é usado todos os dias, principalmente durante os horários de maior calor. “A gente usa uma hora, uma hora e vinte em cada gleba. Então chega em torno de três, três horas e meia por dia. Mas assim, todo dia, no momento que o sol tá muito quente”.

Fenômeno climático afetou o estado

O El Niño é causado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico e, neste ano, aumentou o número de queimadas e provocou seca nos rios em Roraima. A expectativa de produtores e especialistas era pela chegada do La Niña, fenômeno oposto, que traria mais chuvas. Porém, até agora, ele não se confirmou.

Maria Clara, meteorologista, explica que a falta de chuvas está associada à ausência de “corredores de umidade”, que são zonas atmosféricas que favorecem a precipitação.

“Quando nós temos os corredores de umidade, aquelas zonas de convergência do Atlântico Sul que atravessam o Brasil e acabam conectando a umidade do Sudeste com a umidade da Região Norte, favorecem as chuvas em Roraima. Essa condição a gente está vendo muito pouco, ela tem acontecido muito pouco”, pontua.

Irrigação em fazenda no Cantá, Norte de Roraima. Foto: Oseias Martins/Rede Amazônica RR

Sem o La Niña e com as propriedades ainda se recuperando dos impactos do El Niño, o cenário preocupa agricultores. Para Haron Xaud, pesquisador da Embrapa, é essencial pensar em estratégias para reduzir os riscos nas culturas.

Segundo Haron Xaud, sistemas de irrigação são fundamentais para lidar com as irregularidades climáticas. “A irrigação deve sempre ser uma alternativa para os produtores, mas deve ser feita de forma licenciada, dentro de todos os preceitos de utilização na propriedade”.

Washington acredita que os esforços já dão resultado:

“A gente olha a planta, vê a planta toda bonita, toda desenvolvendo. Não tem nada que entristeça a gente, porque nem a própria planta tá triste. Todo tempo ela alegra que tem água o suficiente. Ela tem como base dar 70% a mais da expectativa do produto. Porque, sem irrigação, ela tem um período que não vai desenvolver. Irrigada e adubada, todo tempo ela tá produzindo e tá desenvolvendo”.

*Por Naamã Mourão, da Rede Amazônica RR

Intercâmbio sobre recuperação florestal é realizado pelo Pará e Acre 

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Foto: Divulgação/Agência Pará

Servidores da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas) do Pará participaram de um intercâmbio no Estado do Acre voltado à troca de experiências sobre recuperação ambiental e sistemas agroflorestais (SAFs). A iniciativa, realizada entre os dias 15 e 29 de novembro, envolveu gestores e técnicos das secretaria de Meio Ambiente do Pará e Acre (Sema Acre), fortalecendo a cooperação técnica entre os dois estados amazônicos.

O intercâmbio, que integra o projeto Amazon Sustainable Landscapes (ASL), contou com apoio de organizações como Conservation International (CI), Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) e Cooperação Alemã (GIZ). Os participantes compartilharam estratégias de implementação de Planos Estaduais de Recuperação da Vegetação Nativa (PRVN), ferramentas de monitoramento e metodologias aplicadas à regularização ambiental.

Foram apresentados os planos para recuperação de vegetação nativa dos dois estados,  com destaque para a Unidade de Recuperação Triunfo do Xingu (URTX), no Pará, e o Viveiro da Floresta, no Acre. Os debates incluíram soluções para a produção de mudas e sementes, logística de distribuição e organização de redes regionais, como a Rede de Sementes do Acre.

Foto: Divulgação/Agência Pará

Prioridade

Indara Aguilar, diretora de Mudanças Climáticas e Serviços Ambientais da Semas, destacou que a troca de experiências é importante para a recuperação florestal.

O coordenador do Centro Integrado de Geoprocessamento e Monitoramento Ambiental (Cigma), Cláudio Cavalcante, falou sobre o papel do intercâmbio no fortalecimento das políticas públicas ambientais.

Foto: Divulgação/Agência Pará
Os participantes aprofundaram conhecimentos sobre o Cadastro Ambiental Rural (CAR) e o Programa de Regularização Ambiental (PRA). A Sala de Situação do Acre, uma ferramenta de monitoramento estratégico, também foi apresentada como referência para suporte à gestão ambiental no Pará.

A agenda técnica incluiu visitas de campo a projetos de restauração ativa e propriedades de agricultores familiares beneficiados por SAFs.

Foto: Divulgação/Agência Pará

*Com informações da Agência Pará

Universidade paraense é destaque internacional em produção científica sobre biodiversidade

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Foto: Clarté/Ascom Ufpa

A Universidade Federal do Pará (UFPA) emergiu como uma das principais instituições latino-americanas na produção científica sobre biodiversidade, segundo o Relatório publicado pela editora holandesa Elsevier.

O documento Biodiversity research in 2024: a global perspective with focus on Latin America analisou aproximadamente 137 mil artigos publicados, entre 2019 e 2023, em periódicos indexados na base de dados Scopus, revelando que a América Latina respondeu por 11% da produção científica global na área durante o período. A UFPA destaca-se na nona posição geral e como primeira instituição da Pan-Amazônia.

O relatório destaca que o Brasil é o principal protagonista na região, responsável por 43,5% dos artigos publicados. Essa produtividade coloca o país em uma posição de liderança, à frente de outras nações, e reforça sua importância global, figurando como a quinta nação mais prolífica, atrás apenas dos Estados Unidos, da China, do Reino Unido e da Alemanha.

A UFPA se destacou como uma das instituições que mais contribuíram para a geração de conhecimento, refletindo o impacto e a relevância de suas pesquisas na Amazônia.

Além de uma produção quantitativa expressiva, os estudos brasileiros também demonstraram alta qualidade, como evidenciado pelo Índice de Citações Ponderado por Campo (FWCI). Com um FWCI de 1,24, a produção científica sobre biodiversidade no Brasil está acima da média global, indicando que as pesquisas desenvolvidas têm sido amplamente reconhecidas e citadas por outros cientistas.

A pesquisa em biodiversidade na América Latina, conforme o relatório, é notavelmente colaborativa: 51% dos artigos publicados foram resultado de parcerias internacionais, e 8,5% das publicações foram citadas em documentos relacionados a políticas públicas. Esse dado ressalta o papel fundamental da ciência latino-americana na formulação de políticas ambientais e sociais.

A biodiversidade da América Latina, especialmente da Amazônia, possui um valor incomensurável. A região abriga uma vasta porção das florestas tropicais do mundo e uma rica variedade de espécies. Contudo enfrenta desafios críticos, como a perda de 94% da vida selvagem, registrada entre 1970 e 2024, segundo o WWF.

*Com informações da UFPA

Projeto irá recuperar ecossistemas degradados no corredor amazônico dos Andes, no Peru

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Foto: Divulgação/Agência Andina

Um projeto de investimento público para recuperação de ecossistemas degradados no âmbito geográfico do corredor Andes-Amazônia, que envolve as regiões Amazonas e Cajamarca, no Peru, será executado pelo Ministério do Meio Ambiente (Minam) no primeiro semestre de 2025.

A informação foi relatada pelo diretor geral de Diversidade Biológica do Minam, Mirbel Epiqué, que explicou que esta iniciativa permitirá a recuperação dos territórios desses departamentos. Neste sentido, disse que no âmbito da execução será promovida a constituição de um banco de sementes florestais autóctones, de forma a fortalecer os processos de restauração das florestas locais.

Acrescentou ainda que esta ação conjunta envolve entidades públicas, setor privado, sociedade civil, universidades e atores sociais relacionados à conservação e recuperação da biodiversidade, com o apoio técnico do Projeto BLF dos Andes Amazônicos.

O anúncio foi feito no evento ‘Equilíbrio de experiências em restauração florestal e de ecossistemas’, realizado em Cajamarca pela Minam e pelo Serviço Nacional de Silvicultura e Vida Selvagem (Serfor), nos dias 21 e 22 de novembro.

Neste contexto, foi abordada a urgência do fortalecimento das redes de alerta precoce, da recuperação dos ecossistemas e da restauração florestal, bem como da geração de uma cultura de prevenção contra as causas da degradação, considerando os impactos das alterações climáticas.

O referido evento reuniu representantes de Minam, Serfor, municípios provinciais e distritais de Jaén e San Ignacio, setor privado, peritos locais, universidades e organizações da sociedade civil.

O BLF Andes Amazônico 2024-2029, liderado pela Practical Action in Peru, é um dos seis projetos financiados pelo UK Biodiverse Landscapes Fund (BLF), que são realizados em territórios transfronteiriços de alta biodiversidade e riqueza cultural.

*Com informações da Agência Andina