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Pesquisa do Serviço Geológico do Brasil amplia conhecimento sobre Cráton Amazônico

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O Monte Roraima está situado no Escudo cristalino da Guiana. Foto: Reprodução/Embratur

Cinturões de rochas antigas, com idades entre 2,03 bilhões e 1,92 bilhão de anos, se estendem por centenas de quilômetros, abrangendo áreas do Suriname, da Guiana, do Brasil e da Venezuela, na parte norte do Cráton Amazônico, que ocupa a porção nordeste da América do Sul. Esses cinturões foram o tema do artigo elaborado pela pesquisadora em geociências do Serviço Geológico do Brasil (SGB) Lêda Maria Fraga e colaboradores, publicado na revista científica Precambrian Research.

Pela primeira vez, esses cinturões de rochas pré-cambrianas foram descritos em um artigo internacional. O estudo busca ampliar o conhecimento sobre o Cráton Amazônico, permitindo o desenvolvimento de modelos de evolução tectônica e metalogenética mais aprimorados.

Foram obtidas informações fundamentais para se entender os processos de formação e transformação dessa área do planeta, incluindo a realização de 27 análises geocronológicas, que permitiram determinar as idades das rochas que compõem os cinturões.

Foto: Divulgação/SGB

Curiosidade

Entre as curiosidades reveladas pelo estudo, destaca-se a existência de um mar na região nordeste da América do Sul, há cerca de 2 bilhões de anos. Além disso, entre 1,98 bilhão e 1,96 bilhão de anos atrás, essa área foi cenário de intensas atividades vulcânicas explosivas, eventos que marcaram profundamente sua formação.

O estudo contribui também para o conhecimento global sobre as transformações da Terra, reforçando a importância da colaboração científica na compreensão do passado geológico da América do Sul.

Acesse aqui o artigo completo.

*Com informações do SGB

O tempo do Colégio Estadual do Amazonas no governo de regime militar

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Antigo prédio da Polícia Federal na Rua Joaquim Nabuco. Foto: Reprodução/Facebook-Manaus de Antigamente

Por Dudu Monteiro de Paula

Em 1969, eu era aluno finalista do Colégio Estadual do Amazonas e na época de junho estávamos comemorando a festa junina com alguns amigos. Fomos comprar catolé para estourar nas festas, como fazíamos naquela época, só que nós resolvemos inovar: pegamos aquela parte do meio do papel higiênico, colocamos 4 ou 5 bombinhas, pólvora e levamos para o banheiro superior direito do Colégio Estadual, colocamos no último banheiro e fomos jogar bola.

Enquanto estávamos jogando bola, a bomba explodiu e nós saimos comemorando como se fosse festa junina mesmo. Entretanto, a época era muito difícil, em que o controle militar sobre a população era muito grande e, imediatamente, fomos todos detidos pela Polícia Federal. A partir daí passamos a ser investigados por eles.

E nós íamos a cada duas vezes na semana, na verdade nós éramos levados por eles, até a Polícia Federal na Joaquim Nabuco (rua no Centro de Manaus), onde hoje é a UniNorte. Uma vez lá, nós íamos para uma sala escura um por um, onde o cara metia uma luz na nossa cara e começava a dizer que nós éramos revolucionários, que nós queríamos mudar o país, que era pra gente dizer o nome do grupo terrorista que a gente participava etc e tal.

E nós íamos dando as informações verdadeiras, que não tinha nada a ver com isso, mas que eles não acreditavam em nenhum momento porque o Brasil vivia um a situação muito peculiar quanto a isso.

Passado um tempo, eu fui abastecer o meu Gurgel (carro) na Joaquim Nabuco com a Ramos Ferreira, e naquele posto de gasolina encostou do meu lado o João Bosco Falabella, que tinha uma motocicleta na época, uma Vespa, e nós começamos a conversar um com o outro. E nós estávamos abastecendo e conversando um com outro.

E eu dizendo pra ele: “Rapaz, nós vamos acabar sendo expulso do Brasil. Tudo porque nós fizemos uma brincadeira e está sendo interpretado como se fosse terrorismo. Ele respondeu: “Só porque nós estávamos soltando bombinha de São João”.

Foto: Dudu Monteiro de Paula

Era mesmo de São João! Lógico, nós fabricamos a bombinha, compramos o material e adaptamos no papel higiênico e BUUUM! O banheiro caiu todo! Mas não tínhamos a intenção revolucionária, era São João. Naquela época, quando pegavam alguém assim, não era nem exilado ou expulso do país. O fato é que depois a conversa alongou de outros assuntos e nós fomos embora.

Na segunda-feira seguinte, quando nos apresentamos para continuar os interrogatórios, o chefe da Polícia Federal recolheu todo mundo numa mesma sala. O homem se chamava Nobre Leão e nos disse: “Vocês estão soltos, nós sabemos de vocês!”. Daí deu uma lição de moral bem grande na gente, tipo: “Vocês são uns babacas! Vocês não são a favor da revolução…”.

Disseram que nós tínhamos sido inocentados, porque descobriram que nós tínhamos feito aquilo de brincadeira, mas que aquilo não era brincadeira de homem não. Devido a situação que vivia o Brasil, que nós não devíamos brincar daquele jeito. E isso aconteceu, eu terminando o ano e no ano seguinte eu me apresentei ao Exército para trabalhar.

E o que essa história conclui é que 10 anos depois, já de alguma forma o regime um pouco mais solto e já com algumas influências, descobrimos que quem nos salvou do processo todo foi o frentista do posto que era informante da Polícia Federal. Imagina isso, vou repetir: nós fomos soltos porque o frentista do posto era informante da Polícia Federal e ele ouviu nossa conversa e comunicou.

– Óh! Os caras fizeram de brincadeira, eu ouvi aqui no posto numa converse informal deles.

Foi como nos soltaram. Porque senão talvez eu nem estivesse aqui. Talvez tivesse sido tudo diferente. O que eu estou querendo dizer é que nós vivíamos num regime de recessão tão grande que as pessoas hoje nem imaginam como existiam informantes da Polícia Federal a respeito do sistema de governo brasileiro, em todo o país.

Então você imagina como era naquela época, vivermos fiscalizados ○ tempo todo, mas um desses fiscais nos salvou ou da expulsão do Brasil ou quem sabe da prisão de inocentes, que não tinham nada a ver com isso. E isso hoje ninguém entende!

Na televisão, eu ia falar e tinha o cara que 24 horas antes recebia o que eu ia dizer. Na hora ele ficava sentado no comando. Se eu dissesse qualquer coisa fora do script, ele ‘pum!’, tirava a televisão do ar. Eu ou qualquer um que o fizesse.

Eu conto isso hoje aos estudantes e eles não entendem, eles nem acreditam porque hoje tem internet, que “não tem como controlar”, mas antes não era assim. Então essa formação, foi diferente.

Eu sou do tempo que se você quisesse comprar um livro e ele custasse R$ 5,00, se tu fosses na tua casa buscar os R$5,00 quando tu voltava já era R$5,10. E tu ias pegar os 10 centavos para completar, mas quando voltavas já era R$5,20. Porque era inflação momento a momento.

Todo mundo tinha uma maquinazinha na mão e ficava ‘rec- rec- rec- rec’, remarcando os produtos. E isso eu não quero que volte nunca mais! E está voltando! As autoridades não aprendem nem com os erros do passado. Sempre acham que são os donos da verdade… Mas isso é formação educacional! E isso se perdeu…

Por hoje é só! Semana que vem tem mais! Fuuuuuuiiiiiii!!!!!

Sobre o autor

Eduardo Monteiro de Paula é jornalista formado na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), com pós-graduação na Universidade do Tennesse (USA)/Universidade Anchieta (SP) e Instituto Wanderley Luxemburgo (SP). É diretor da Associação Mundial de Jornalistas Esportivos (AIPS). Recebeu prêmio regional de jornalismo radiofônico pela Academia Amazonense de Artes, Ciências e Letras e Honra ao Mérito por participação em publicação internacional. Foi um dos condutores da Tocha Olímpica na Olimpíada do Rio de Janeiro, em 2016.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Software para monitoramento da tuberculose é desenvolvido em Mato Grosso

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Foto: Josilene Dália Alves/Acervo pessoal

Um projeto desenvolvido pelo Laboratório de Pesquisa em Epidemiologia e Geoprocessamento do Araguaia, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) Campus Universitário do Araguaia – Barra do Garças, tinha como objetivo a criação de um software inteligente (TB-MT Dashboard) que utiliza estatística espaço-temporal e inteligência artificial (IA) para apoiar a tomada de decisão no enfrentamento da tuberculose (TB) no estado.

O software oferece informações sobre territórios críticos com alto risco de ocorrência da doença e fornece previsões de cenários futuros relacionados a indicadores importantes da TB, como interrupção do tratamento e mortes.

O projeto foi financiado pelo Governo do Estado, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (Fapemat), através do Edital Fapemat 014/2022- Ciências Extas e da Terra, com parcerias de pesquisadores do Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT) e Universidade de São Paulo (USP).

A coordenadora da pesquisa, professora doutora Josilene Dália Alves, da área de Ciências da Saúde, explica:

Foto: Josilene Dália Alves/Acervo pessoal

De acordo com a pesquisadora, a TB permanece como um dos maiores desafios da saúde pública global, sendo a principal causa de morte por doenças infecciosas no mundo. No estado de Mato Grosso também é um problema de saúde grave inclusive com muitos casos entre crianças e populações privadas de liberdade, o que reforça a necessidade urgente de novas estratégias.

Nesse contexto as ferramentas, como o TB-MT Dashboard, colaboraram para um avanço científico e tecnológico no enfretamento da doença, contribuindo para o cumprimento das metas da Organização Mundial da Saúde (OMS) de atingir 95% de redução na mortalidade por TB e 90% de redução na incidência até 2035.

 Após a conclusão do projeto em Mato Grosso, o grupo de pesquisadores está empenhado no desenvolvimento de uma ferramenta com dados de todo o território nacional. Para isso um novo projeto já se encontra em andamento por meio da chamada nº 21/2023- Estudos transdisciplinares em saúde coletiva do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

A coordenadora informou que está em trâmite o pedido do Registro de Programa de Computador denominado “TB-MT Dashboard: Uma abordagem utilizando estatística espaço-temporal associada à aprendizagem de máquina”.

Fazem parte da equipe de Desenvolvimento de Software: professor doutor André da Silva Abade (IFMT), Anthony Muniz Prado de Oliveira (UFMT), Bruno Santos de Oliveira (UFMT), Vinicius Spanhol Ferrari (UFMT) e Vinícius Biazi Bastos (UFMT).

*Com informações da FAPEMAT

Norte tem maior queda de leitores e Amazonas tem pior índice de leitura da região

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Pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil” mostra que o Amazonas tem o pior índice de leitura da região Norte — Foto: Bruno Mazieri/Casarão de Ideias

O Amazonas registrou o pior índice de leitura da Região Norte, com apenas 40% dos entrevistados afirmando ter lido algum livro nos três meses anteriores à 6ª edição da pesquisa ‘Retratos da Leitura no Brasil’, divulgada em 18 de dezembro.

A pesquisa é uma iniciativa do Instituto Pró-Livro (IPL) e contou com parceria da Fundação Itaú e apoio da Associação Brasileira de Livros e Conteúdos Educacionais (Abrelivros), da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL). O levantamento foi feito pelo instituto Inteligência em Pesquisa e Consultoria (Ipec).

Além disso, a pesquisa revelou uma queda significativa no número de leitores na Região Norte, com a proporção de entrevistados que leem caindo de 63% para 48% entre 2019 e 2024, uma redução de 15 pontos percentuais em apenas cinco anos.

O levantamento foi realizado entre 30 de abril e 31 de julho de 2024, com 5.504 brasileiros em 208 municípios, abrangendo livros impressos, digitais, didáticos, bíblias e religiosos.

A pesquisa abrange tanto livros impressos quanto digitais, sem restrição a gêneros, incluindo livros didáticos, bíblias e religiosos.

Queda no número de livros lidos

Na região Norte, o levantamento foi feito de forma conjunta para os estados de Rondônia, Acre, Roraima, Amapá e Tocantins, que, juntos, alcançaram 54% de entrevistados que afirmaram ter lido algum livro em 2024. Em contrapartida, o Amazonas registrou apenas 40%, ficando abaixo da média da região.

No quesito média de livros em geral lidos nos últimos três meses anteriores à pesquisa, o Amazonas também representa o pior índice da região (1,77), assim como na média de leitura por vontade própria de literatura (0,41), que considera tantos os livros inteiros quanto aqueles lidos em partes.

Quanto ao número de livros lidos por ano, a Região Norte também baixou de 5,30 livros/ano em 2019 para 3,38 em 2024 – índice ainda menor do que os números de 2007 (3,90 livros/ano).

Panorama nacional

A primeira parte da pesquisa, divulgada em novembro deste ano, revela que o Brasil perdeu quase 7 milhões de leitores nos últimos quatro anos. É a primeira vez na série histórica que o levantamento conclui que a maioria dos brasileiros não leem livros.

O número de não leitores verificado em 2024 representa um aumento de cinco pontos percentuais em relação ao de 2019, que era a edição mais recente da pesquisa. Os dados deste ano são os que apresentam o maior total de “não-leitores” na série histórica do levantamento, que começou em 2007.

Considerando a estimativa populacional brasileira, os dados apontam que o país tem atualmente 93,4 milhões de leitores (considerando a população com cinco anos ou mais). Nos últimos quatro anos, houve uma redução de 6,7 milhões de leitores no país, de acordo com os dados.

*Por Sabrina Rocha, da Rede Amazônica AM

Maurício Ye’kwana é primeiro indígena a assumir chefia da Saúde Yanomami

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Maurício Ye’kwana é diretor financeiro na Hutukara Associação Yanomami. Foto: Evilene Paixão/HAY

O líder indígena Maurício Yek’wana, de 39 anos, foi nomeado, nesta quinta-feira (19), pelo Ministério da Saúda para ocupar o cargo de coordenador do Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami e Yek’uana (Dsei-YY). Em 33 anos de existência, esta é a primeira vez que um indígena ocupa a função de ficar à frente das ações de saúde na Terra Indígena Yanomami, a maior do país.

Ye’kwana foi nomeado três dias após o médico Marcos Antonio Pellegrin pedir exoneração do cargo. A nomeação de Maurício é assinada pela ministra da Saúde Nísia Trindade e foi publicada no Diário Oficial da União (DOU).

O Dsei-YY existe desde abril de 1991 é um órgão do Ministério da Saúde que é responsável pela saúde dos povos do território Yanomami. Desde fevereiro do ano passado, a região está em emergência de saúde pública para combater a desassistência aos indígenas, que enfrentaram surtos de malária e casos de desnutrição nos últimos anos devido ao avanço do garimpo ilegal.

Maurício Ye’kwana é diretor-financeiro na Hutukara Associação Yanomami, a mais representativa do povo e presidida pelo xamã e líder indígena Davi Kopenawa. Atualmente, ele ocupa a terceira posição mais importante na organização, que tem como vice-presidente o filho de Davi, Dário Kopenawa.

Sobre Maurício Ye’kwana

O novo coordenador é do povo indígena Ye’kwana, um dos que vivem na Terra Yanomami. Ele é da comunidade Fuduwaaduinha, na região de Auaris, ao Norte de Roraima, região da fronteira com a Venezuela. Tem experiência em gestão territorial e atua na fiscalização dos limites da terra indígena.

Desde 2008, atua na Hutukara Associação Yanomami (HAY), orgaização defende os direitos dos povos Yanomami e Ye’kwana.

Com forte atuação política, Maurício trabalhou na Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), integrando operações contra o garimpo ilegal em parceria com a Polícia Federal. Ele se destaca como mediador entre os povos indígenas e não indígenas, fortalecendo o movimento indígena em níveis regional, nacional e internacional. Participou de eventos da ONU, recebeu a Comissão Interamericana de Direitos Humanos na comunidade dele e esteve na Assembleia Geral da OEA, em Washington.

Em maio, Maurício visitou o Papa Francisco em Roma com outras lideranças indígenas, entregando uma carta sobre a proteção das terras indígenas. Também participou do Acampamento Terra Livre (ATL) denunciando violações contra o povo Yanomami. Ele representa o povo Yanomami em agendas climáticas internacionais, esteve na Alemanha, Colômbia e Azerbaijão, além de palestrar sobre a crise vivida pelos indígenas em conferências na França, Holanda e Suíça.

Lideranças comemoram nomeação

O xamã e presidente da Hutukara Associação Yanomami, Davi Kopenawa, a maior liderança Yanomami, considerou a nomeação de Maurício Yek’wana como um marco na luta dos indígenas, pois mostra que “estamos ocupando lugares de liderança”.

Davi destacou que a nomeação traz “muitos desafios, mas também muitas oportunidades”. Também afirmou que Maurício tem experiência com as atividades nas comunidades e vai trabalhar junto com o povo Yanomami: “Ele não estará sozinho”.

“Esse é um marco histórico, pois estamos assumindo papéis de liderança que antes eram ocupados pelos brancos. Estamos aqui para mostrar que somos capazes de dirigir e cuidar da saúde da nossa própria população”, finalizou Davi Kopenawa.

O presidente do Conselho de Saúde Indígena Yanomami e Ye’kwana (Condisi-YY), o líder Júnior Hekurari Yanomami recebeu com esperança a nomeação de Maurício, embora saiba que vai ser um desafio.

“A saúde do povo indígena vai ser um desafio muito grande pra ele, porque a sistema, o mundo não indígena é complexo pra gerenciar. Mas pra isso nós vamos estar juntos para apoiar e ajudar… costurar e procurar o caminho”.

“Primeira vez que um filho da terra, um Yanomami vai coordenar… vai cuidar o próprio povo, para recuperar a saúde, a segurança alimentar em tudo… então isso é importante”, comemora o presidente do Condisi-YY.

Terra Yanomami

Com 9,6 milhões de hectares, a Terra Yanomami é o maior território indígena do Brasil em extensão territorial. Localizado no Amazonas e em Roraima, o território abriga 31 mil indígenas, que vivem em 370 comunidades. O povo Yanomami é considerado de recente contato com a população não indígena e se divide em seis subgrupos de línguas da mesma família, designados como: Yanomam, Yanomamɨ, Sanöma, Ninam, Ỹaroamë e Yãnoma..

A Terra Yanomami está em emergência de saúde desde janeiro de 2023, quando o governo federal, a partir da posse de Lula (PT), começou a criar ações para atender os indígenas, como o envio de profissionais de saúde e cestas básicas. Além de enviar forças de segurança a região para frear a atuação de garimpeiros.

Apesar das atividades de combate ao garimpo na região deflagradas em fevereiro de 2023, os invasores continuam em atividade. O Ministério dos Povos Indígenas estimou em março deste ano que 7 mil garimpeiros permanecem na região.

*Com informações da Rede Amazônica RR

10 peixes encontrados na Amazônia que representam riscos para os humanos

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Piranha. Foto: I, Luc Viatour/wikipedia – CC BY-SA 3.0

A riqueza da biodiversidade presente nos rios da Amazônia costuma encantar os olhares curiosos que se voltam à região. Em meio a beleza que existe sob as águas, no entanto, vivem espécies de peixes temidas pelos riscos que apresentam aos seres humanos.

Mordidas, ferroadas e até choque elétrico estão entre os riscos que algumas espécies da região podem causar aos humanos. Embora possam trazer consequências à saúde humana, o doutor em ecologia aquática Edinbergh Caldas de Oliveira explica que esses tipos de peixes não costumam atacar sem antes se sentirem ameaçados.

O professor também recomenda que, em casos de acidentes, é importante buscar atendimento médico imediatamente para realizar o tratamento adequado.

O especialista listou dez peixes encontrados na Amazônia que representam risco de acidentes aos humanos. Confira:

Piranha

A piranha é um dos peixes que mais causam tensões aos humanos pelas histórias difundidas sobre a espécie – e que muitas vezes não passam de mitos.

“Os ataques com piranhas normalmente ocorrem quando o banhista se aproxima de um local onde tem um ninho desses animais”, diz Oliveira.

O especialista ainda ressalta que os ataques se limitam a uma ‘mordida de advertência’ que o peixe usa para afastar o invasor e que três espécies apresentam maior incidência nos rios amazônicos: piranha preta, piranha branca, e a piranha caju.

O professor também esclareceu alguns mitos. Um exemplo popular é de que cardumes de piranhas podem atacar seres humanos para se alimentar, porém não existe nenhuma comprovação científica do comportamento.

Arraia de água doce

As arraias são peixes que possuem um esqueleto constituído por cartilagem, assim como os tubarões, e podem habitar tanto em águas salgadas, como em água doce. O animal costuma ficar camuflado sob a areia.

Os acidentes com a espécie costumam ocorrer quando o ser humano pisa no animal, momento em que a arraia lança a sua cauda com ferrão e crava os espinhos no pé ou na perna da pessoa, liberando também uma toxina que causa bastante dor.

“É possível que permaneçam fragmentos do revestimento da cauda na lesão, aumentando o risco de infecção”, pontua o especialista.

Bagres

Lisos e pontiagudos, os bagres possuem diversas espécies encontradas em rios e lagos do Amazonas. Os acidentes geralmente acontecem no manuseio desses peixes, devido a presença de espinhos no corpo que podem perfurar a pele. “Há casos também de humanos que se feriram ao pisar no animal”, pontua o especialista.

Pirarucu

O pirarucu é uma das maiores espécies de peixes de água doce do mundo. Encontrados em toda bacia amazônica, esses gigantes podem alcançar até 4,5 metros de comprimento e pesar até 200 quilos. Devido ao tamanho, os acidentes podem acontecer no manuseio do animal: eles se debatem com muita força, podendo atingir uma pessoa gravemente.

O professor citou o caso de um pescador no munícipio de Maraã, interior do Amazonas, que morreu após o animal se debater e acertar a cabeça do homem, causando um traumatismo craniano.

Candiru

O candiru é uma da espécies de peixes que mais podem causar espanto aos banhistas dos rios do Amazônia. Eles podem ser divididos em candiru-açu necrófago, que se alimenta de material orgânico e faz a limpeza do ambiente aquático e o candiru-açu hematófago que pode entrar nas parte íntimas do ser humano e também se alimenta de carcaças de outros animais.

Um dos maiores mitos relacionados a espécie é a de que os candirus são atraídos pela urina humana. O grande perigo é de o peixe ser atraído pelo sangue humano, ainda assim, algo raro de acontecer segundo o especialista.

Traíra

A traíra é um peixe carnívoro que se alimenta de pequenos peixes, rãs e insetos. A espécie espera a presa imóvel, junto ao fundo de lama ou em locais de pedras na Amazônia.

“Os acidentes podem acontecer quando é feito o manuseio desse animal, que possui dentes afiados e grandes, e acabam mordendo caso a mão ou alguma parte do corpo seja aproximada da boca do peixe”, alerta Oliveira.

Baiacu amazônico

O Baiacu Amazônico é encontrando em várias regiões da Bacia Amazônica no Brasil, Peru e Equador. Possui comportamento pacífico e convive bem com outros da mesma espécie, porém, é um predador tóxico. “Ele possui uma toxina que pode prejudicar a saúde humana”, diz o especialista.

A toxina liberada pelo animal pode causar dormência no corpo, paralisação dos lábios e línguas, dor de cabeça, problemas gastrintestinais.

Poraquê

O poraquê é a maior espécie de peixe-elétrico existente e a mais comum na região amazônica. O peixe é o único que produz descargas elétricas fortes, que chegam a 500 volts, usadas para caça e defesa.

De acordo com o professor esse choque elétrico pode causar a tontura, fazendo o ser humano cair na água parcialmente inconsciente e se afogar.

Peixe sapo de água doce

O peixe sapo de água doce mede de 12 a 15 cm de comprimento e vive enterrado na areia ou na lama. A espécie é venenosa e possui espinhos ósseos na linha lateral e ao redor da cabeça que, uma vez pisado, pode causar ferimentos na planta dos pés.

Tubarão de cabeça chata

Por mais que seja um peixe de água salgada, a espécie de tubarão já foi encontrada em rios amazônicos, inclusive subindo o rio Amazonas e chegando até o Equador. “Uma espécie já foi capturada no município de Itacoatiara, interior do Amazonas”, afirma Oliveira.

A espécie pode atacar humanos e tem uma mordida muito potente. Além disso, podem causar um desequilíbrio ecológico no Amazonas.

*Por Lucas Macedo, da Rede Amazônica AM

Chamada Elos da Amazônia 2024 impulsiona empreendedorismo indígena científico

Foto: Divulgação

Um levantamento recente do Instituto Ethos revela que a população indígena representa 1% dos trabalhadores nas grandes empresas do país, ocupando apenas 0,1% das posições de liderança. Como uma resposta para ajudar a transformar essa realidade, a iniciativa Chamada Elos da Amazônia 2024 – Edição Empreendedorismo Científico Indígena está com inscrições abertas, em busca de promover o protagonismo indígena no cenário empresarial.

Com foco em reconhecer empreendedores indígenas que desenvolvam tecnologias inovadoras e disruptivas a partir da biodiversidade amazônica, a Chamada visa fomentar negócios competitivos, economicamente viáveis, ambientalmente equilibrados e socialmente inclusivos.

O edital selecionará duas startups lideradas por empreendedores autodeclarados indígenas, com sede em estados da Amazônia Ocidental (Acre, Amazonas, Rondônia e Roraima) ou no Amapá, e constituídas há no máximo cinco anos. 

As propostas devem demonstrar soluções tecnológicas aplicáveis ao mercado, podendo estar na fase de protótipo, validação ou em operação no mercado. As inscrições estão abertas até o dia 24 de janeiro de 2025 e podem ser feitas exclusivamente pelo site elosdaamazonia.org.br

Além do reconhecimento, os projetos selecionados receberão suporte técnico para transformar ideias em negócios viáveis. Entre os benefícios estão a preparação para execução de recursos via Programas de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), conexão com incubadoras e aceleradoras, e possível ingresso no Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio).

Cada startup selecionada pelo edital receberá R$1 milhão, sendo R$500 mil via PPBio para aceleração do negócio e R$500 mil para desenvolvimento de um projeto de tecnologia que será executado pelo Instituto de Desenvolvimento Tecnológico (INDT), via recursos da Embrapii.

Tecnologia com identidade amazônica

Foto: Michael Dantas

A iniciativa conta com a parceria do INDT, que apoia o desenvolvimento de tecnologias com alto potencial de impacto. Os critérios de seleção priorizam propostas alinhadas à sustentabilidade e ao uso consciente dos recursos da floresta. As tecnologias apresentadas podem incluir novos processos, sistemas ou aplicações baseadas na biodiversidade amazônica.

Para os idealizadores da Chamada, iniciativas como essa são fundamentais para promover o empreendedorismo indígena, transformando conhecimento acadêmico e tradicional em soluções de mercado. 

O edital é uma realização do Idesam, Programa Prioritário de Bioeconomia, agenda da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), e INDT. A chamada conta ainda com o apoio da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii).

Professor amazonense é selecionado como embaixador em Harvard e representará o Brasil nos EUA

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Foto: Reprodução/Facebook – Dalmir Pacheco

O professor Dr. Dalmir Pacheco, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas (IFAM-CMC), em Manaus, foi selecionado para ser um dos cinco embaixadores brasileiros na Brazil Conference at Harvard & MIT 2025.

Realizada anualmente desde 2015, a conferência é promovida pela comunidade brasileira de estudantes em Boston e tem como tema para a próxima edição ‘Uma Nova Década: Encontro de Gerações de Líderes’.

O objetivo é conectar e impulsionar líderes do presente e do futuro, promovendo discussões e soluções para a transformação do Brasil. Neste ano, o evento acontecerá nos dias 4, 5 e 6 de abril de 2025, nos Estados Unidos, reunindo lideranças de diferentes gerações e áreas de atuação.

O Programa de Embaixadores seleciona brasileiros que têm um papel ativo no desenvolvimento do país, por meio de iniciativas sociais, educacionais ou comunitárias. Além de contribuir com debates durante o evento, os embaixadores têm o compromisso de implementar ou dar continuidade a projetos de impacto social após retornarem ao Brasil, aproveitando a rede de conexões do programa para ampliar o alcance de suas ações.

Dalmir Pacheco

Foto: Divulgação

Doutor e Mestre em Educação pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), o professor Dalmir Pacheco é titular do IFAM – Campus Manaus Centro, além de escritor e palestrante. À frente do Espaço Curupira, núcleo de acessibilidade do IFAM, ele coordena diversos projetos voltados à educação especial, com destaque para o Projeto Arumã e o Projeto Apoema.

Em atividade há mais de 17 anos, o núcleo forma professores do ensino básico do interior do Amazonas na área de educação especial na perspectiva da educação inclusiva e produz materiais didáticos e paradidáticos com acessibilidade comunicacional.

A seleção do professor como embaixador reconhece seu impacto na inclusão educacional de pessoas com deficiência na região Amazônica, reafirmando o papel de educadores na construção de um futuro melhor para o Brasil.

Conflito por território é principal gerador de violência na Amazônia, aponta estudo

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Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

O conflito por controle de territórios e por uso da terra na Amazônia Legal é o principal gerador de violência armada atualmente na região. A conclusão é do estudo Cartografia das Violências na Amazônia, em sua terceira edição, lançado nesta quarta-feira (11), pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) em parceria com o Instituto Mãe Crioula (IMC).

O relatório aponta que, apesar da redução na taxa de desmatamento, ainda figuram no ranking das cidades mais desmatadas Altamira (PA), São Félix do Xingu (PA), Porto Velho (RO), Lábrea (AM), Novo Progresso (PA), Itaituba (PA), Colniza (MT), Apuí (AM), Pacajá (PA) e Novo Repartimento (PA). Sete delas constam no ranking das 100 cidades mais violentas da Amazônia, e nove estão no último relatório da Comissão Pastoral da Terra (CPT) que documenta conflitos fundiários.

“Os conflitos fundiários relacionados à regularização da posse da terra, que historicamente existem na região, têm se notabilizado pela produção da violência, incluindo a violência letal”, afirmou.

O levantamento de cadastro de propriedades rurais revela que mais de 20 mil imóveis estão localizados em terras indígenas (TIs) ou áreas de proteção ambiental. Há sobreposição de propriedades em TIs em 8.610 imóveis rurais. Em áreas de conservação ambiental, há 11,8 mil propriedades registradas.

Apesar do registro de queda nos últimos anos, a região permanece com altas taxas de mortes violentas. Em 2023, houve 8.603 mortes violentas intencionais (homicídios dolosos, latrocínios, mortes decorrentes de intervenção policial e mortes de policiais) na Amazônia Legal, uma taxa de 32,3 mortes para cada grupo de 100 mil habitantes, 41,5% maior do que a taxa brasileira, de 22,8 mortes para cada 100 mil habitantes.

Considerando o triênio 2021-2023, 445 dos 772 municípios tiveram taxas de mortes violentas intencionais (MVI) mais elevadas do que as da média do país. Tais cidades concentram 66,8% da população da região e 83,7% de todos os assassinatos. Ainda que o levantamento aponte a redução recente da violência na região, o fórum avalia que o quadro de violência continua alarmante.

O relatório apresenta os dados da violência letal na região nos últimos anos: entre 2021 e 2022, a queda foi de 1,1%; entre 2022 e 2023, redução de 5,1%; e no período 2021 a 2023 a redução chegou a 6,2%, acima da média nacional, que teve redução de 4,6% no período. Foram analisados dados dos nove estados da Amazônia Legal – Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e parte do Maranhão -, composta por 772 municípios. A análise busca compreender as conexões entre violência, crimes ambientais e o crime organizado na região.

Foto: Fernando Sette

Monopólio de facções

A redução da violência letal teve influência do estabelecimento de monopólios de atividades criminosas, segundo avaliação do fórum, e de uma estabilização nas relações entre as facções na maior parte da região. As facções criminosas estão presentes em 260 municípios, com predominância de membros do Comando Vermelho. O número supera as 178 cidades com presença de facções na edição do estudo em 2023.

“Conseguimos identificar a presença de facções em mais municípios do que tinha no levantamento anterior, e também cresceu a proporção desses municípios que são controlados por apenas um grupo. Ou seja, quando você tem territórios controlados por apenas um grupo, a tendência é que se reduza a intensidade do conflito e, portanto, a violência letal”, disse David.

Entre as 260 cidades com atividades de facções, 175 são dominadas por um único grupo criminoso – em 129, essa hegemonia pertence ao Comando Vermelho (CV); em 28, ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Em 85 dessas 260 cidades verificam-se disputas ou coexistência entre dois grupos ou mais.

O relatório indica que a ação das facções tem papel central não apenas em função da dinâmica do narcotráfico, mas em relação ao avanço do desmatamento, de outros crimes ambientais e com disputas fundiárias. O diretor-presidente do FBSP, Renato Sérgio de Lima, ressalta que o conflito pela terra na área é atualmente regulado pelo crime.

Histórico de conflitos

Além da ação das facções criminosas, que é mais recente, existe um histórico de conflitos fundiários na Amazônia Legal que não se pode perder de vista, de acordo com o diretor-presidente do Instituto Mãe Crioula e professor da Universidade Estadual do Pará, Aiala Colares Couto.

“Para que se entendam as dinâmicas criminais na região, há que se levar em consideração que a ação de grileiros, que mais tarde vai redundar em avanço das monoculturas, expansão dafronteira agropecuária e ampliação do garimpo, está inserida na mesma lógica da disputa por rotas de escoamento do narcotráfico. Nesse sentido, é sempre sobre controle territorial armado que estamos falando”, explicou.

Região de fronteira

“A gente tem estruturado essas conexões e sobreposições entre os fenômenos e temos documentado, desde 2020, a intensificação da presença de uma criminalidade organizada de base prisional, essa mais faccional relacionada com o tráfico de drogas, na região, por conta da importância geográfica, e também da conexão da atuação desses grupos com ilícitos ambientais”, destacou David Marques sobre os achados do estudo.

Ele ressalta que o problema do crime organizado e das facções é nacional. No entanto, o agravamento da situação na região amazônica, com uma intensidade que não se observava antes, tem relação com essa questão geográfica: a proximidade de fronteira com países produtores de cocaína, que é um mercado altamente lucrativo e importante dentro do funcionamento das organizações criminosas no Brasil.

Apesar do cenário de estabilização entre facções em grande parte da região amazônica, David destaca que a situação “é sempre muito dinâmica e esse equilíbrio é sempre muito tênue”. Segundo ele, cabe ao poder público fazer o enfrentamento das organizações criminosas de uma forma qualificada.

Os estados do Amapá e Mato Grosso, que tiveram aumento da violência letal nas comparações apresentadas no relatório, investiram, por exemplo, na estratégia da letalidade policial, colocando a polícia militar para entrar em confronto direto com as facções. David avalia que essa é uma resposta equivocada ao problema.

“Isso tem muito pouca efetividade. É com base na investigação que a desarticulação dessas organizações pode ser realizada”, avaliou o especialista, apontando a importância de medidas que envolvem o fortalecimento da investigação criminal e a conexão dos setores da segurança pública, como as polícias, os setores de justiça e outros órgãos.

Além disso, no Mato Grosso, mais especificamente na região de fronteira, objeto de intensa disputa de facções, há o agravamento da violência em decorrência do surgimento de uma dissidência da chamada Tropa do Castelar. O levantamento revelou que, em alguns dos municípios dominados por essa facção, integrada por criminosos muito jovens e, em média, mais violentos, os indicadores de mortes violentas intencionais aumentaram.

Foto: Alexandre Cruz Noronha

Enfrentamento das facções

O fórum defende que o enfrentamento a essas organizações criminosas seja uma prioridade não apenas na Amazônia, mas no Brasil como um todo. “Nesse sentido, levantamos alguns dados que são promissores para a região amazônica. Quando falamos de um enfrentamento mais qualificado, uma das grandes chaves é a investigação financeira, chamada em outros contextos de follow the money. Hoje, no Brasil, a unidade de inteligência financeira é o Coaf [Conselho de Controle de Atividades Financeiras]”, indicou David.

O órgão analisa movimentações suspeitas e se comunica com as autoridades competentes pela investigação de possíveis ilícitos. O levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública demonstra ainda que houve um crescimento relevante na produção dos relatórios de inteligência financeira (RIF) dentro do COAF.

“Entre 2016 e 2023, a produção de RIFs cresceu 101,7% no Brasil, e cresceu 300% em UFs da Amazônia Legal. Isso é um indicativo de que a produção de inteligência financeira na região tem crescido e aumenta o potencial de sucesso das investigações criminais que estão acontecendo nessa região.”

“A nossa hipótese é que esse crescimento de produção de inteligência financeira está associado, como no restante do Brasil, a um crescimento da percepção da importância tanto do tráfico de drogas quanto das facções criminosas no contexto da lavagem de dinheiro. É por meio da lavagem de dinheiro que essas organizações transformam o lucro proveniente dos ilícitos em capital econômico que depois pode ser revertido com impactos em mercados legais, nas próprias instituições e até em poder eleitoral, eventualmente”, disse o coordenador de projetos da entidade.

O estudo evidenciou ainda outro tipo de padrão de violência: aquele que se propaga após a realização de uma grande obra, como uma estrada ou uma hidrelétrica, ou que decorra da execução de projeto de extração de algum bem mineral, o que atrai trabalhadores forasteiros ao local.

A entidade avalia que é necessário que haja projetos para mitigar os impactos dessas obras na segurança pública, a exemplo do que existe na área ambiental. Há estudos de impacto socioambiental, mas não se avaliam os impactos na segurança pública, alertou o fórum.

TI Yanomami

Em Roraima, onde está localizada a Terra Indígena (TI) Yanomami, há queda de violência de uma forma geral. O relatório ressalta que, no estado, há a experiência da Casa de Governo, estrutura criada pelo governo federal para coordenar e monitorar presencialmente a execução do Plano de Desintrusão e de Enfrentamento da Crise Humanitária na Terra Indígena Yanomami.

O FBSP obteve, via Lei de Acesso à Informação (LAI), números oficiais a respeito de equipamentos apreendidos na operação. Foram apreendidas 25 embarcações e duas aeronaves, além de outras 61 embarcações destruídas, bem como 42 pistas de pouso.

Segundo o estudo, membros da facção Primeiro Comando da Capital (PCC) dominaram áreas de garimpo ilegal de ouro, o que agravou de maneira acentuada a violência e as condições de vida da população indígena local, que tem sido denunciadas, especialmente na gestão anterior do governo federal.

*Com informações da Agência Brasil

O interior de Rondônia não valoriza seus museus

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Museu de Guajará-Mirim está depredado. Foto: Auxiliadora Pinto

Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com

Rondônia enfrenta um problema que reforça a fama do Brasil como um país sem memória.

Atualmente, no interior do estado, apenas um museu está aberto à visitação pública: a Casa de Rondon, em Vilhena. Esse local abrigou um posto telegráfico entre 1911 e 1969, inaugurado pela Comissão Rondon.

Na verdade, não é o país que carece de memória, pois isso é algo inerente às pessoas. Todos têm suas memórias afetivas e, no fundo, a maioria reconhece o valor da preservação da história e da identidade coletiva. A falha é institucional.

A atividade museológica é multissetorial, englobando cultura e educação, que são as bases de toda sociedade. O problema é que nem sempre os gestores públicos se preocupam com seus museus, bibliotecas, centros de documentação, pinacotecas e outros espaços semelhantes.

A falha não está na sociedade, que não deve ser rotulada como “desmemoriada”. O problema reside naqueles que têm poder decisório e não priorizam esse segmento. Por quê? Talvez pela falta de educação patrimonial, começando pelos próprios gestores. Alguns deles podem nunca ter visitado um museu.

Até seis anos atrás, quatro museus funcionavam no interior. Agora, resta apenas o de Vilhena. A maioria era mantida pelo empenho e dedicação de historiadores, servidores públicos idealistas e agentes culturais. No entanto, como esses espaços não têm cargos efetivos, há uma “dança das cadeiras” a cada mudança de prefeito. E nem sempre quem assume a área de cultura por meio de portaria tem aptidão ou reconhece a importância da preservação memorialística.

O Museu Municipal de Guajará-Mirim, na fronteira do Brasil com a Bolívia, estava abrigado em uma antiga estação da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Apesar de passar por uma ampla reforma há doze anos, por falta de manutenção, o espaço está entrando em ruínas e todo o acervo foi extraviado. Além do prédio depredado, uma locomotiva ao lado, que foi revitalizada pela TV Globo para a minissérie Mad Maria, de 2005, também está abandonada, sem qualquer cuidado.

Em Presidente Médici, funcionava o Museu da Arqueologia Regional, com cerca de 300 mil peças, algumas com até 7 mil anos, sendo um exemplo de zelo. Ultimamente, encontra-se fechado, sem explicações. A antiga diretora, a historiadora Maria Coimbra, é uma referência em Rondônia na área arqueológica, tendo desenvolvido pesquisas fundamentais em dezenas de sítios arqueológicos da região.

Vizinha à cidade de Médici, Ji-Paraná é a segunda maior do estado. O núcleo urbano surgiu praticamente em torno de um velho posto telegráfico criado pela Comissão Rondon, na década de 1910. No local, funcionou o Museu das Comunicações a partir dos anos 1980, contando com um excelente acervo de peças em cerâmica e líticas, além de fotografias que narram a história da região. Foi fechado para reforma há cerca de três anos, sem previsão de reabertura.

Bons exemplos

A Casa de Rondon é, simbolicamente, o marco zero da cidade de Vilhena, com 105 mil habitantes. A casa foi fundada como parte da expansão telegráfica que integrou o antigo oeste do Mato Grosso (atual Rondônia) ao restante do país.

Um exemplo positivo é a Casa de Rondon, em Vilhena. Foto: Júlio Olivar

Tombada em 2015 pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), a Casa de Rondon dispõe de um acervo de fotografias, filmes e artefatos domésticos do imóvel original, onde vivia a Família Zonoecê, que administrou o antigo posto telegráfico de 1943 a 1969.

O ponto histórico passou por reforma em 2016, com recursos do Ministério do Turismo. Estava fechado desde 1996. Em 2024, foi reaberto graças a uma parceria entre uma cooperativa de crédito e a prefeitura.

A visitação pública ocorre diariamente, mediante agendamento na Secretaria Municipal de Indústria, Comércio e Turismo. Várias escolas frequentam a Casa de Rondon para entenderem melhor como se deu a ocupação do Planalto dos Parecis e a importância histórica das campanhas militares lideradas por Cândido Rondon no início do século passado.

Na capital, Porto Velho, funcionam importantes instituições que salvaguardam a história local: Museu do Complexo da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, Memorial Rondon, Memorial Governador Jorge Teixeira, Museu da Memória (antigo Palácio Presidente Vargas) e Museu Internacional do Presépio.

Sobre o autor

Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista