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Tecnologias monitoram biodiversidade, árvores e ar da Amazônia

Foto: João Cunha

O canto dos pássaros. A vibração que a onça-pintada emite ao caminhar pela mata. A comunicação entre os pirarucus na profundeza dos rios. No interior da Amazônia, sons da floresta funcionam como uma orquestra harmônica. Mesmo ouvidos destreinados conseguem perceber a sinfonia. Mas, se um dos “instrumentos” desafina ou para de tocar, o descompasso também é evidente.

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O pesquisador Emiliano Ramalho coordena o Projeto Providence, que monitora espécies amazônicas. Foto: Marcello Nicolato

A analogia entre a música e a biodiversidade amazônica é do biólogo carioca Emiliano Ramalho, de 46 anos, que mora há mais de duas décadas na floresta. É a melhor forma que ele encontrou para explicar como o monitoramento contínuo dos animais ajuda a avaliar o funcionamento do ecossistema e se há sinais de alerta.

Ramalho é diretor técnico-científico do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, na cidade de Tefé, no Amazonas, uma entidade vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Ele coordena desde 2016 o Projeto Providence, que usa sistemas automatizados de som e imagem para estudar as espécies amazônicas. São mais de 40 sensores espalhados pela floresta, que realizam monitoramento em tempo real, 24 horas por dia e sete dias por semana.

Cientistas do Instituto Mamirauá investigam comportamentos das onças-pintadas na Amazônia. Foto: Emiliano Ramalho

Emiliano Ramalho já trabalhou especificamente com a contagem de pirarucus, no início da carreira, e depois se tornou um dos maiores especialistas em ecologia e biologia de onças-pintadas, principalmente em ambientes de várzea. Em um cenário que sofre inundações durante três a quatro meses por ano, o felino se adapta e passa a viver no topo das árvores. O comportamento foi registrado cientificamente pela primeira vez pelo pesquisador.

O biólogo costuma dizer que a “onça-pintada é fundamental para a conservação da floresta e a floresta é essencial para a sobrevivência da onça-pintada”. Nesse sentido, o equilíbrio social e natural passa, necessariamente, por estratégias de conservação da biodiversidade amazônica. É esse trabalho, aperfeiçoado pelos instrumentos tecnológicos, que move Ramalho a acreditar em um futuro melhor.

Ecologia digital

Uma outra forma de entender as dinâmicas climáticas da Amazônia é olhar para árvores e vegetações. Esse tem sido o caminho percorrido pelo cientista paulista Thiago Sanna Freire Silva, ecologista digital, como gosta de se intitular, que leciona informática ambiental na Universidade de Stirling, na Escócia, e coordena projetos de monitoramento de florestas inundáveis.

O foco principal do cientista está em entender como mudanças na hidrologia, no nível da água durante secas e cheias, afeta o ecossistema, principalmente em um cenário em que esses fenômenos se tornaram mais extremos. Para ter uma visão analítica mais ampla, ele escaneia extensões grandes da floresta com a tecnologia light detection and ranging (Lidar), um sensor capaz de emitir lasers, mapear e gerar cenários em 3D.

Ecologista digital, Thiago Silva dá aulas de informática ambiental na Universidade de Stirling, na Escócia. Foto: Tânia Rêgo

O cientista explica que a análise ajuda a entender os padrões em níveis macroestruturais, a partir de grandes escalas e padrões de funcionamento da floresta. E que os resultados são aprimorados ao dialogarem com os estudos em nível micro e local. Diante do ritmo acelerado de impactos e prejuízos ao ecossistema, é preciso pensar primeiro em adaptações, antes de vislumbrar regenerações ambientais.

“Um dos grandes problemas dessas grandes crises climáticas é que a gente não tem como frear, pela velocidade e o tamanho delas. Só o que a gente pode fazer é se adaptar, entender melhor o que está acontecendo e conseguir prever com antecedência como essas mudanças vão se acumular ao longo das décadas. Assim, podemos pensar em estratégias melhores de como preservar essas florestas e ajudar as pessoas que dependem desses ambientes”, projeta Silva.

Ao rastrear a saúde das zonas úmidas durante anos, o cientista distingue as áreas que precisam ser protegidas antes que os danos se tornem irreversíveis. Enquanto há estudo, há esperança.

“Qualquer cientista que trabalha com ecologia e mudanças climáticas vive uma montanha-russa de sentimentos. Em alguns momentos, você fica completamente pessimista. Em outros, tem uma explosão de otimismo. O mais importante é que a gente tem buscado engajamento com as comunidades locais, as pessoas que têm maior capacidade de realmente proteger e fazer diferença. E que às vezes podem até não perceber o poder que elas têm”, diz o pesquisador.

Floresta estressada

No caso da cientista Luciana Gatti, os sinais do desmatamento e da crise climática são percebidos no ar. Ela é química e coordena o Laboratório de Gases de Efeito Estufa (LaGEE) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Desde 2003, atua em pesquisas na área de mudanças climáticas, com foco no papel da Amazônia na emissão e absorção de carbono.

Cientista Luciana Gatti coordena o Laboratório de Gases de Efeito Estufa (LaGEE) do Inpe. Foto: Luciana Gatti/Arquivo Pessoal

A medição das emissões de gases do efeito estufa começou em 2004, na Floresta Nacional do Tapajós, no Pará. A partir de 2010, conseguiram expandir os trabalhos para outras localidades da Amazônia. Aviões de pequeno sobrevoam pontos específicos da floresta, onde amostras de ar são coletadas e armazenadas em frascos, para posterior análise em laboratório.

Com isso, poderia ser calculado se a floresta estava se comportando como fonte ou sumidouro de carbono. Ou seja, se ela mantinha a capacidade de absorver mais gases do efeito estuda do que eram emitidos.

“A primeira constatação foi a de que uma região da Amazônia é muito diferente da outra. A maior parte dos cientistas usa um número ou uma taxa e aplica para o bioma inteiro. Vimos que, quanto mais desmatada a floresta, mais a região tinha perdido volume de chuva e aumentado a temperatura ao longo de 40 anos. E isso acontecia principalmente durante a estação seca, especificamente entre os meses de agosto a outubro, no período da seca. Desmatamento não é só perda de carbono e emissão de gás estufa. É também mudança da condição climática para a floresta que ainda não foi desmatada”, explica Luciana.

Em outras palavras, a floresta que está sendo modificada pelo desmatamento ao redor vive em uma situação de “estresse”.

Malas de amostragem da coleta de carbono na Amazônia. Foto: Luciana Gatti

Em um cenário ideal, o balanço de carbono da Floresta Amazônica deveria ser neutro, com equilíbrio entre emissões e absorções. Mas, com o desmatamento, a própria floresta passa a ser fonte de carbono e perde a capacidade de regular o clima. Segundo a cientista, não há outra solução a não ser interromper a destruição e priorizar projetos de restauração florestal.

“Nós precisamos de um plano de sobrevivência para restaurar as áreas perdidas da Amazônia. Eu tenho uma sugestão: vamos colocar como meta reduzir o rebanho bovino brasileiro em 44%, já que é a principal causa de emissão de gases estufa e a maior parte do desmatamento vira pasto”, defende Luciana. “Nosso plano de sobrevivência é plantar árvore. É ela que vai abaixar a temperatura, nos proteger das ondas de calor, dos eventos extremos. Quem disse que destruir a floresta é progresso é ignorante. A salvação dos brasileiros passa por salvar a Amazônia. Sejamos todos ativistas”, defende a pesquisadora.

Série sobre a Amazônia

A reportagem faz parte da série ‘Em Defesa da Amazônia’, que abre o ano da 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP30), a ser realizada em Belém, em novembro deste ano. Nas matérias publicadas na Agência Brasil, povos da Amazônia e aqueles diretamente engajados na defesa da floresta discutem os impactos das mudanças climáticas e respostas para lidar com elas.

*O conteúdo foi publicado pela Agência Brasil, escrito por Rafael Cardoso (A equipe viajou a convite da CCR, patrocinadora do TEDxAmazônia 2024)

Empresários da Amazônia buscam protagonismo na COP30

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

A menos de um ano da realização da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), entre 10 e 21 de novembro, a cidade de Belém (PA) passa por uma transformação na sua infraestrutura e oferta de serviços. Assim como suas vias, prédios e praças, micro e pequenos empreendedores também se preparam para receber os visitantes e oferecer o melhor da já tradicional hospitalidade amazônica.

Novas tecnologias na moda, produção de biojoias associada ao reaproveitamento, inovação em artigos de decoração com matéria-prima da Amazônia são alguns dos produtos que serão apresentados aos visitantes que chegarão ao estado do Pará para a conferência global do clima.

O governo brasileiro espera receber cerca de 100 mil visitantes ao longo das duas semanas de conferência, entre chefes de Estado, participantes e turistas que pretendem visitar a cidade no mesmo período. Em 2024, Baku, no Azerbaijão, recebeu 54.148 participantes presenciais entre delegações, observadores, convidados e equipe de suporte inscritos na COP29.

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Atualmente, Belém possui 18 mil leitos em hotéis e deve alcançar 22 mil nos próximos meses com a inauguração de novas unidades já em construção. O secretário extraordinário para a COP30, Valter Correia, declarou que, além das iniciativas do empresariado paraense, o governo federal garantirá a construção de 500 apartamentos modulares no padrão cinco estrelas, além da disponibilização de dois navios utilizados em cruzeiros internacionais com capacidade de acomodar até 5 mil pessoas.

O número de unidades de hospedagem em residências e locais para temporada nos aplicativos mais utilizados no país também crescem a cada dia. São espaços que já eram usados para hospedagem de visitantes em festividades como o Círio de Nazaré, quando a cidade reúne milhares de turistas do próprio estado e de outras cidades brasileiras, principalmente. Em 2023 foram 80,5 mil turistas, segundo dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese-PA).

Capacitação

O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), por exemplo, firmou parceria com um dos aplicativos para capacitação dos proprietários desses espaços e, apenas em 2024, o número de anfitriões na plataforma subiu de 700 para 3,5 mil, informou a instituição.

Uma dessas empresárias é Betty Saldarriaga, que é proprietária de um spa com hospedagem pós-cirurgia plástica. Ela possui unidades tipo suítes duplas, com duas camas de solteiro, que resolveu disponibilizar também para o turismo, inicialmente durante o Círio de Nazaré.

Segundo Betty, a capacitação recebida pelo Sebrae foi fundamental para diversificar a oferta de seu negócio, partindo também para a hospedagem de turismo por meio de uma plataforma. O modelo de negócio era desconhecido pela empresária. “Quando eu fui atender uma paciente, ela me passou o endereço, eu fui até ela. E quando eu cheguei lá, ela me disse que o apartamento não era dela, que ela não estava muito confortável, porque o apartamento não estava oferecendo muitas condições para ela. Aí me explicou e me mandou o nome da plataforma e eu procurei o Sebrae para entender melhor”, lembra.

Após a capacitação, Betty passou a disponibilizar as unidades com agenda de atendimento livre nas ocasiões em que a cidade de Belém tem aumento na demanda por hospedagem turística, como a COP30. “Todo mundo está falando aqui em Belém sobre isso. Inclusive eu estou indicando pessoas que têm suas casas, esses apartamentos, algum imóvel, para aproveitarem a oportunidade e receberam essas pessoas. Eu acho que vai ter bastante gente que vai ajudar bastante como no Círio”, diz.

De acordo com Magno, somente em 2024, o Sebrae realizou 18 mil atendimentos de empresas, dos setores de hospitalidade, alimentos e bebidas, mobilidade e economia criativa, interessadas em se preparar para a COP30. “As empresas nos procuram em busca de orientações em assuntos como gestão financeira, precificação, estoque e atendimento, mirando o aumento de demanda que já chegou a seus negócios com a visibilidade trazida pela conferência da ONU”, diz.

Foto: Divulgação

Inovação

Uma dessas empresas é da design Nilma Arraes, que produz biojoias e objetos autorais com responsabilidade ambiental. A empresária, que já passou por várias capacitações e também atua como consultora do Sebrae, vem inovando no reaproveitamento de materiais descartados de forma abundante na região. “O foco do meu produto, desde sempre, ele tem tudo a ver com a COP, porque eu trabalho a sustentabilidade e o social também, além de eu trabalhar o meio ambiente. O meu trabalho é focado em não usar material que vai destruir e sim em reaproveitar aquilo que iria para o lixo”, explica.

Partindo dessa ideia, Nilma desenvolveu uma matéria-prima chamada Maria, uma abreviação para mistura de açaí com resina e insumos da Amazônia, com a qual produz biojoias e outros acessórios. Para a COP30, lançou a linha de luminárias, chamada Luz de Rios, elaboradas a partir do reaproveitamento de escamas do peixe pirapema, muito presente na costa paraense e consumida na culinária regional.

A estilista Val Valadares foi além e fez uma parceria com outra empresa paraense, responsável por iniciar um novo ciclo da borracha na Amazônia, e juntas lançaram uma coleção de moda feita de látex.

A empresa parceira trabalha com 1.570 famílias de seringalistas, na Ilha do Marajó, a partir de tecnologias sociais que profissionalizam, comercializa biojoias de látex produzidas por mulheres de seringueiros e fornecem matéria prima para indústria de calçados. “Todo seringueiro cadastrado nesse processo, ele põe uma etiqueta lá no Marajó, quando ele pesa o produto. Ela vem com o nome dele direitinho, chega aqui na fábrica, a gente pesa, confere a qualidade da borracha e deposita o dinheiro”, explica Francisco Samonek, coordenador do projeto que estruturou a marca.

Segundo Francisco, a capacitação oferecida pelo Sebrae permitiu que a marca se estruturasse com registro, inserção no mercado, divulgação e precificação, por exemplo. Também foi o ponto de conexão entre as duas marcas. “Estamos trabalhando para capacitar os pequenos negócios locais para que quem venha ao Pará tenha acesso às belezas e riquezas da floresta pelas mãos de quem vive dela.”, reforça Rubens Magno.

Protagonismo


Os empresários também esperam o protagonismo na COP30. A estilista Val Valadares conta que, além de elevar o padrão da costura na Amazônia, sonha abrir um ateliê escola, para multiplicar receita de uma marca que iniciou na comunidade Quilombola Jacundaí, no município de Moju, e que já alcançou as passarelas da Semana de Moda em Milão.

Nilma também tem projetos de expandir os negócios e envolver ainda mais gente na cadeia produtiva de suas criações. “Eu movimento seis pessoas que trabalham como ourives, além de comprar as escamas de um fornecedor de pescados, mas já trabalhei com outros profissionais que me ajudaram em momentos diferentes”, diz.

O protagonismo de quem produz e protege a Amazônia, também é o reconhecimento aguardado por Francisco. “A nossa expectativa maior é fazer nossa apresentação no mercado internacional. A gente está apostando muito na COP com uma grande oportunidade de a gente ser visto”, conclui.

*Com informações da Agência Brasil

Parque Ambiental Chico Mendes: conheça o refúgio de biodiversidade em Rio Branco

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Foto: Reprodução/Prefeitura de Rio Branco

O Parque Ambiental Chico Mendes (PACM), localizado em um espaço de 57 hectares que preserva uma grande porção da floresta amazônica, é um tesouro natural que convida a comunidade a explorar, aprender e se conectar com a biodiversidade regional. Inaugurado em 2 de julho de 1996, em Rio Branco (AC), o parque é uma homenagem viva ao líder seringueiro Chico Mendes, cuja luta pela preservação dos povos da floresta e pelo manejo sustentável dos recursos naturais marcou a história do Brasil e do mundo.

Mais do que um espaço de lazer, o parque é um laboratório vivo de conservação ambiental. O local abriga fauna e flora amazônica essenciais como marcadores da qualidade ambiental da região. Seu zoológico, por exemplo, é lar de 276 animais, incluindo 33 espécies de mamíferos, aves e répteis típicos da Amazônia, proporcionando uma oportunidade única para a comunidade científica, pesquisadores e estudantes explorarem a biodiversidade local.

Além disso, o parque se destaca por seu compromisso com a preservação dos recursos naturais e pela disseminação de práticas sustentáveis. O espaço colabora com iniciativas de manutenção de um banco genético de espécies regionais, um projeto que busca proteger a riqueza biológica da floresta.

Foto: Reprodução/Prefeitura de Rio Branco

Educação

O parque tem como missão sensibilizar as atuais e futuras gerações sobre a importância da preservação ambiental. Para isso, promove programas de educação ambiental que combinam aprendizado com experiências práticas em meio à natureza.

O espaço é planejado para receber visitantes de todas as idades, oferecendo infraestrutura completa com administração, área de alimentação, estacionamento para 300 veículos, banheiros acessíveis e diversos ambientes de convivência.

Entre as atrações, destacam-se trilhas ecológicas, áreas para piqueniques, uma réplica de uma casa de seringueiro, uma maloca indígena e lendas da floresta, além de uma academia ao ar livre e espaços recreativos para crianças.

Memorial

Um ponto de visita imperdível é o Memorial Chico Mendes, onde os visitantes podem aprender mais sobre a vida e o legado do seringueiro. O memorial celebra a luta de Chico Mendes pela preservação da floresta amazônica e pelos direitos das populações tradicionais.

Visitar o parque é uma oportunidade de se reconectar com a natureza e compreender o papel que cada pessoa desempenha na preservação ambiental.

O Parque Ambiental Chico Mendes está localizado na Rodovia BR-317, km – 02 – Vila Acre. O horário de funcionamento é de terça-feira a domingo, das 6h às 17h. Informações pelo telefone (68) 3221-0961.

Você conhece a origem do bairro Praça 14 de Janeiro em Manaus?

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Praça 14 de Janeiro: História de um bairro que surgiu da revolta popular e já teve três nomes. Foto: Willian Duarte/Rede Amazônica AM

Berço do samba, símbolo de devoção a Nossa Senhora de Fátima e referência no comércio automotivo, o bairro Praça 14 de Janeiro, na Zona Sul de Manaus (AM), celebroa 141 anos em 2025. Criado após uma revolta contra o governo, o bairro teve pelo menos três nomes antes de voltar ao original, em 1950.

No livro ‘Bairros de Manaus’, o historiador Gaetano Antonaccio relata que o bairro tem uma forte conexão histórica com a revolta popular de 1892, que resultou na deposição do governador Gregório de Azevedo. Sob a liderança do senador Almino Affonso, do empreiteiro Leonardo Malcher e do ex-governador Lima Bacuri, a população exigiu mudanças devido à insatisfação com a administração, marcada por atrasos salariais e descaso com a população local.

“A alegação era de que o governador estava com o pagamento do funcionalismo público em atraso, sem dar assistência compatível com a riqueza da borracha aos moradores da capital e do interior, além de não cumprir compromisso financeiro com os fornecedores do estado”.

No ápice do confronto de 14 de janeiro de 1892, Almino Affonso foi ferido, um soldado da Polícia do Amazonas foi morto com um tiro no peito, e diversos civis foram perseguidos pelas forças de segurança.

Foto: Matheus Castro/Rede Amazônica AM

Bairro já teve três nomes

De acordo com o historiador, o bairro Praça 14 de Janeiro teve pelo menos três nomes ao longo de sua história:

  • O bairro começou como “Praça 14”, nome dado pelos moradores após a revolta de 1892 contra o governo de Gregório de Azevedo.
  • Em 1912, passou a se chamar “Praça Dr. Pedrosa”, em homenagem ao governador Jonatas Pedrosa.
  • Em 1939, foi renomeado para “Praça Portugal” pela Colônia Portuguesa no Amazonas.
  • Em 1950, retornou ao nome original, “Praça 14 de Janeiro”, por meio da Lei n. 257, atendendo a um desejo dos moradores.

Berço do Samba e Centro de Tradição Religiosa

A Praça 14 de Janeiro é marcada pela histórica Igreja de Nossa Senhora de Fátima, um dos templos católicos mais antigos de Manaus. Além disso, o bairro é reconhecido como o “Berço do Samba”, por ser o palco da fundação da Escola de Samba Vitória Régia, celebrando a tradição do carnaval manauara e mantendo viva sua importância cultural.

A Paróquia de Fátima, que celebrou 50 anos em 2024, tem suas raízes em 1939, quando fiéis já se reuniam no local para devoções e missas. Só após anos de devoção, o local foi reconhecido oficialmente como uma comunidade pela Arquidiocese de Manaus.

“Com a construção de uma capela toda em madeira no ano de 1939, no dia 13 de maio, em homenagem à Nossa Senhora de Fátima, foi celebrada a primeira missa no bairro, comemorando-se a construção do Santuário de Fátima”.

Foto: Willian Duarte/Rede Amazônica AM

Embora a Escola de Samba Vitória Régia seja atualmente a mais representativa da Praça 14, o bairro já teve outras agremiações, como a Escola Mista da Praça 14, fundada em 1947. Essa escola iniciou os desfiles na Avenida Eduardo Ribeiro, conquistando o título de campeã no mesmo ano. A Vitória Régia, por sua vez, estreou no Carnaval de 1976, consolidando-se como um dos pilares do samba local.

Foi no local onde hoje está a escola de samba que os moradores da Praça 14 se reuniam inicialmente para as reivindicações do bairro.

“A região era conhecida como Jaqueirão, onde os moradores se reuniam para as reivindicações”, conta o historiador.

A Praça 14 também abriga o quilombo centenário São Benedito, um símbolo da luta e resistência dos moradores descendentes de escravos do Maranhão. Este é o primeiro território quilombola urbano da Amazônia, preservando a história e cultura de seus ancestrais.

Referência no comércio automotivo

A Praça 14 também é conhecida como um importante centro comercial, com destaque para as lojas de revenda de carros e acessórios automobilísticos. A Avenida Tarumã, uma das principais vias do bairro, concentra centenas de estabelecimentos desse segmento, tornando a área um reduto de negócios no setor automotivo.

O bairro Praça 14 também abriga escolas como Plácido Serrano, Primeiro de Maio e Luizinha Nascimento, além de ser sede de importantes instituições públicas, como a Procuradoria Geral do Estado (PGE) e o Tribunal Regional do Trabalho (TRT-AM). O local também guarda o barracão da Escola de Samba Meninos Levados, tornando-se um centro de educação, cultura e administração pública em Manaus.

*Por Matheus Castro, da Rede Amazônica AM

Desafio do tamanho de uma floresta: competição internacional estimula criação de tecnologias na Amazônia

Brazilian Team conquistou a terceira colocação na competição internacional Xprize Rainforest. Foto: Divulgação

Uma competição internacional, uma equipe brasileira e um horizonte de desafios para pesquisadores do Instituto de Biologia da Unicamp (IB) na floresta amazônica. A bióloga do Museu da Diversidade Biológica do IB, Simone Dena, os professores do IB André Freitas e Luiz Felipe Toledo e o doutorando Axel Minouwa, também do Instituto, integraram o Brazilian Team, formado por mais de cem pesquisadores de universidades brasileiras e terceiro colocado na Xprize Rainforest.

A competição internacional estimula o desenvolvimento de tecnologias para o mapeamento da biodiversidade de florestas tropicais e, durante cinco anos, promoveu a investigação sobre a relação entre a biodiversidade e as mudanças climáticas. A última etapa foi em julho de 2024 e reuniu quase 300 equipes de pesquisa de 70 países.

Saiba mais: Equipe brasileira é premiada na competição internacional Xprize Rainforest

Realizada na floresta amazônica, esta etapa envolveu a disputa pela documentação de espécies em 24 horas; muitas ainda desconhecidas da ciência, como as duas que o grupo coordenado por Dena identificou. A pesquisadora trabalha com bioacústica, uma ciência que estuda os sons emitidos por animais, e na Unicamp também realiza pesquisas na Fonoteca Neotropical Jacques Vielliard.

O convite para participar da equipe brasileira veio da necessidade de auxílio na captação e na análise dos sons de animais na floresta Amazônica. “Sabemos que são espécies novas, porque já existem estudos que demonstram que são. Agora o trabalho é fazer a descrição formal dessas duas espécies”, afirma. Como a pesquisadora não coletou exemplares das novas espécies, apenas seus sons, a suspeita é que pertençam ao grupo dos anfíbios.

Durante os experimentos na floresta, foram aplicadas tecnologias de ponta para realizar as amostragens de forma rápida e remota, por meio de processos automatizados e de inteligência artificial. Sensores, coletores, drones e até robôs adentraram a floresta, criando cenas próximas às dos filmes de ficção científica, que mostram objetos não identificados em ambientes remotos.

Os pesquisadores realizaram o mapeamento de espécies em cem hectares de floresta sem a presença humana e se concentraram na comunidade do Tumbira, reserva de desenvolvimento sustentável do Rio Negro. Foram coletadas amostras de espécies e vestígios de DNA em cursos d ‘água, no dossel das árvores e em áreas de serapilheira, forração de folhas e galhos que se depositam naturalmente sobre o solo. As informações foram relatadas em 48 horas, e, além de três espécies novas, foram identificados 266 animais, como preguiças, macacos, morcegos, peixes e insetos já descritos pela ciência e até mesmo espécies em escala microscópica, como as que Minowa estuda. “São os bichos de que ninguém gosta, mas geralmente são indicadores de que o ambiente é saudável”.

A observação de Minowa revela a importância de investigar os impactos das mudanças climáticas sobre a biodiversidade amazônica, um dos principais objetivos da competição internacional. Mas, na opinião de Freitas, é preciso dar um passo ainda mais importante antes desta investigação, trabalhando na contagem e na identificação de espécies que estão com o tempo contado de existência.

“Trabalhos mostram quantos pesquisadores precisam trabalhar continuamente, por décadas, para descrever toda a diversidade biológica. Temos que correr contra o tempo, porque algumas espécies estão em museus para serem descritas, mas já estão extintas na natureza”, afirma.

Freitas e outros colegas do IB realizaram à distância o levantamento de borboletas e mariposas encontradas nas 24 horas da última etapa da competição. Muitas delas têm exemplares expostos no museu no IB, mas a maior parte ainda precisa passar pelo processo de identificação. Entre estas, o pesquisador tem a expectativa de encontrar espécies ainda não descritas, principalmente mariposas.

Trata-se de um trabalho que não tem prazo para ser concluído, assim como a descrição das novas espécies encontradas pelo grupo da bioacústica. De concreto, fica a certeza de que a troca de experiências entre pesquisadores de vários países e universidades e o acesso a novas tecnologias são essenciais para a execução de uma tarefa tão complexa e desafiadora quanto fascinante, como o mapeamento da biodiversidade das florestas tropicais e os impactos das mudanças climáticas.

“Certamente, o projeto que nos levou ao terceiro lugar já contribuiu com informações importantes, mas é preciso saber quantas espécies existem, e, depois disso, podemos começar a pensar no que está acontecendo ao longo do tempo”, conclui Freitas.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal da Unicamp, escrito por Hebe Rios

Amazonas FC terá o treinador mais velho do Brasil em 2025

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O técnico mais longevo do futebol brasileiro, Aderbal Lana, de 78 anos, foi anunciado pelo Amazonas FC. Conhecido como a “Velha Raposa”, o treinador falou pela primeira vez sobre a aposentadoria que, segundo ele, é uma ideia que vem sendo cogitada há alguns anos. Nas palavras de Lana, o Amazonas, seu décimo clube no futebol amazonense, deve ser o último da carreira.

O treinador mineiro, radicado no Amazonas, é o técnico com mais títulos estaduais do Brasil. Lana levantou 10 taças do Barezão, no comando de quatro clubes: Nacional, Rio Negro, São Raimundo e Manaus.

Este ano, ele volta a treinar um time da Série B do Brasileiro, que também irá disputar a Copa do Brasil e a Copa Verde. A poucos dias da estreia na temporada, Lana encara os desafios com uma certa naturalidade.

A segundo Lana, expectativa é na maior naturalidade possível porque a gente já está acostumado com isso. E aqui no Amazonas, esse ano, é uma montagem de equipe. Sabemos que a maioria dos jogadores foi embora, outros chegaram. O tempo está um pouco curto para o que nós queremos, mas estamos trabalhando para que tenhamos uma equipe forte.

Sabedoria para encarar as críticas

Antes de ser anunciado oficialmente, os bastidores do Amazonas indicavam a chegada do experiente treinador. A decisão pela escolha do nome gerou críticas internas e externas. Algo com que Lana se acostumou a lidar com o tempo.

Tenho muito desafeto no futebol, porque nunca deixei de falar o que sinto e nunca deixei de tomar posição quando sito que tenho que tomar.

Quando perguntado se o torcedor poderia presenciar a cena clássica do treinador fumando um cigarro à beira do campo, Lana não hesitou em responder.

Na beira do gramado, tenho respeitado as leis do futebol. Não pode. Mas quando estou folgado, se quiser fumar, é um atrás do outro- completou ele.

Aderbal Lana estreia no comando do Amazonas contra o Sete FC, no dia 25 de janeiro, às 15h30, no estádio Larissa Silva, em Presidente Figueiredo, (de Manaus), pela primeira rodada do Campeonato Amazonense 2025.

*Por Bruno Rodrigues, da Rede Amazônica AM

Cineastas nortistas abordam a realidade sem estereótipos, mas financiamento ainda é um desafio

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Foto: Divulgação/@1coletivoarte

No Norte do Brasil, um cinema feito de histórias que abordam questões sociais, políticas e culturais próprias desse território é conduzido por realizadores independentes com recursos escassos, mas não, por isso, menos dedicados. Exercendo o projeto de um cinema nacional, para além do rótulo de “regional”, a produção audiovisual nortista têm ganhado destaque nos últimos anos no cenário nacional, com uma presença expressiva nos principais festivais de cinema brasileiros.

Leia também: 5 opções de cinema para aproveitar a rota alternativa em Manaus 

Em 2022, o longa-metragem Noites Alienígenas, dirigido por Sérgio de Carvalho, do Acre, chamou atenção ao ser exibido no 50° Festival de Gramado e conquistar cinco prêmios, incluindo uma menção honrosa pela atuação do ator e diretor amazonense Adanilo. O filme gira em torno do cotidiano de jovens da periferia de Rio Branco, afetados de forma violenta pela chegada de facções criminosas vindas do sudeste do país para o norte.

Em uma região historicamente marginalizada no cenário do cinema nacional, a produção audiovisual nortista desponta como ato de afirmação cultural. São filmes com narrativas capazes de romper com estereótipos e trazer à tona realidades únicas da Amazônia.

Olhares atentos aos territórios

Longe de retratar a Amazônia como cenário exótico, como é comum em produções de realizadores de fora da região, os cineastas nortistas usam histórias para além da floresta, narrando a complexidade da vida urbana, as lutas dos povos tradicionais e a relação dos povos amazônicos com a crise climática.

Gabriel Bravo de Lima, jornalista e cineasta de Manaus (AM) define sua obra como uma exploração do tema familiar, desde as relações afetivas à estrutura social. “Busco explorar essa área limítrofe onde a família representa apoio, mas também opressão”, diz o jovem realizador. Em 2024, o cineasta venceu duas categorias (Voto Popular e Menção Honrosa Cine Vídeo Tarumã) na sexta edição do Festival de Cinema da Amazônia – Olhar do Norte, um dos maiores festivais do segmento na região, com seu curta-metragem Na dança que cansa voavas, no qual acompanha o rompimento de uma relação.

Em 2020, ele já havia conquistado o prêmio de melhor roteiro na terceira edição do Olhar do Norte, por seu primeiro curta-metragem, No dia seguinte ninguém morreu. No entanto, Gabriel não sente que há espaço suficiente para as narrativas nortistas no mercado audiovisual nacional. “É muito comum ter festivais, mostras, espaços em streaming ou salas de cinema sem nenhuma ou pouquíssima representação nortista”, lamenta.

Para produzir e distribuir seus filmes, a principal dificuldade que o cineasta enfrenta é financeira. Ele financiou a produção do seu primeiro curta com investimento de edital público, destinado aos novos realizadores do Amazonas.

De Belém (PA), a cineasta Mayara Sanchez gosta de escrever narrativas amazônicas contemporâneas. Dramas familiares e narrativas coming of age que discutem gênero e sexualidade e representações femininas são apresentados em filmes como Essa Cidade Se Esqueceu como Planta, lançado em 2023.

Para cumprir com o desafio, é preciso se adaptar ao modus operandi do fazer cinematográfico nas condições amazônicas de longas distâncias, onde os eventos climáticos influenciam as ordens de cronogramas de filmagens. “Também surgem inúmeras outras dificuldades burocráticas devido a questões próprias do território, que implicam em um fazer cinematográfico específico dentro da realidade amazônica”, diz a cineasta.

Com mais de 20 anos de trabalho em produção audiovisual, Juraci Junior atua em Rondônia como diretor, ator, redator e apresentador, com uma trajetória autoral marcada pela busca das histórias de relação das pessoas com as águas da Amazônia. Os rios atravessam diretamente sua criação visual. Seu primeiro curta-metragem, Balanceia (2017), co-dirigido com Thiago Oliveira, leva para as telas as sensações de um viajante que viaja de barco de Parintins (AM), rumo a Manaus, depois de conhecer o Festival Folclórico da ilha. Na animação Nazaré: do verde ao barro (2021), o tema central é o movimento de sobe e desce dos rios e a relação de ribeirinhos com este fenômeno.

Já no documentário Resistência (2023), o diretor fala da tragédia conhecida como “epopeia amazônica”, a construção da ferrovia Madeira-Mamoré, em Porto Velho (RO). O monumento é uma marca colonial que deixou feridas na história dos povos tradicionais da região. “Aqui, as cicatrizes dessa história são tocadas, relevando traumas e questionamentos sobre a tantas mortes causadas pela obra, além dos moradores perceberem que a cidade cresceu de costas para o rio Madeira”, observa Juraci.

Em ritmo de reflexão sobre os eventos climáticos extremos, responsáveis pela desertificação dos rios amazônicos pelo segundo ano consecutivo, o cineasta finaliza seu curta-metragem de animação Pela Água, Sempre!, com co-direção de Douglas Magalhães. “É interessante justamente neste momento de seca extrema, onde os rios perdem sua forma e presença, causando tanta dor a todos nós, e lançam um grito de alerta sobre o futuro do planeta.”

Identidades em movimento

As obras de Bruma de Sá, cineasta de Manaus, flutuam entre temáticas orgânicas, corpo e psique. Ela começou sua trajetória artística como atriz, e quis desenvolver projetos que envolvessem a corporeidade. “Quando estava começando, eu fazia coisas mais experimentais e cruas. Na faculdade, minha pesquisa, Estar Entre (2021), foi desenvolvida a partir das minhas memórias quando criança habitando alguns móveis da minha antiga casa, e como meu corpo interagia e se relacionava, quase como uma dança, com a câmera”, disse.

Estar Entre tornou-se uma obra super orgânica pelos materiais que foram utilizados na produção de seis vídeos experimentais. Um deles é manuseado com uma mistura de água com goma de tapioca sob tecido voil, feito com os fios da trama torcidos e com baixa densidade.

Com o filme Duplo Retrato (2024), um curta-metragem que estreou na última edição do festival Olhar do Norte, a artista desenvolveu uma personagem que passa por momentos turbulentos com ela mesma, uma narrativa complexa que retrata a psique de Julia. “Para isso, utilizei a casa e a duplicata para demonstrar a instabilidade psicológica e depressão que a outra versão dela estaria passando. Acredito que essas são as obras principais e que elas falam muito sobre a sensibilidade da vida”.

Aida Harika Yanomami e o xamã Edmar Tokorino Yanomami, trabalhando nas edições do filme Uma Mulher Pensando (RR) (foto: Aruac Filmes). Foto: Reprodução/Aruac Filmes

Financiamento segue como desafio

Nortista que mora no sul do país e que trabalha de forma independente, Bruma enfrenta um cenário complexo ao tentar conseguir que suas obras tenham investimento e verba orçamentária para serem concluídas. “Aqui no sul, eu sinto que é muito difícil furar a bolha porque as coisas já estão estruturadas do jeito que elas são. É muito difícil que esses projetos sejam realmente contemplados porque na hora da avaliação, o que mais pesa é o portfólio e o nome das pessoas que fazem parte do projeto.”

Rodrigo Aquiles, diretor e montador cinematográfico de Macapá (AP), aborda em suas obras questões sociais e políticas: “Meu trabalho é a minha forma de contribuir para o debate com o foco na questão racial na Amazônia, as obras são meus pilares”, diz. Para ele, falta espaço para as narrativas nortistas no cenário do cinema nacional, apesar de existir um apelo por histórias estereotipadas. “As narrativas sobre a Amazônias que estão em vigor, ao meu ver, são saturadas. O público precisa e anseia novas narrativas e novas formas de contar as histórias da Amazônia. Mas não existe esse espaço, a gente não consegue encontrar esse espaço dentro dos streamings e dentro dos festivais pelo Brasil”, alerta.

O recurso no seu estado é escasso, garante. “É bem complexo fazer cinema independente com o risco de que eu não vou conseguir distribuir esse cinema e não conseguir ter um retorno financeiro. Tem que ter algumas linhas de financiamento específicas para os produtores independentes”, defende.

Narrativas indígenas em destaque

Adanilo, ator, dramaturgo e diretor originário manauara, dedica-se há quase 10 anos a uma pesquisa sobre os povos indígenas das Amazônias e da América Latina de maneira geral. Seus trabalhos trazem temas ligados também às periferias. Conhecido por seus papéis como ator, Adanilo já atuou em longas como Marighella, Noites Alienígenas e O Rio do Desejo. Em 2023, esteve em Cannes por sua atuação em Eureka, longa-metragem do diretor argentino Lisandro Alonso, exibido fora de competição. O filme mergulha em tempos e espaços distintos que mostram o avanço da violência contra os povos indígenas, seja pelo garimpo nas florestas ou pela vulnerabilidade social nos territórios.

Sua primeira direção foi no filme 521 Anos / Siaa Aira (2021), realizado de forma independente. Em 2023, estreou no festival Olhar do Norte o curta Castanho gravado na Comunidade Cachoeira do Castanho, a 24 quilômetros de Manaus, em Iranduba, em novembro de 2021. A história gira em torno da personagem Maria, interpretada pela atriz Sofia Sahakian, uma mulher estrangeira, latino-americana, que tem a chance de conviver com Dona Belém, papel interpretado pela artista amazonense Rosa Malagueta, e seu filho Cícero, interpretado por Israel Castro. “As narrativas do norte sempre estiveram mal retratadas, estereotipadas, por isso é tão importante que nós pessoas do norte consigamos cada vez mais protagonizar as nossas histórias, porque a gente é que sabe como fala da gente”, diz o artista.

O cinema indígena feito no norte utiliza o audiovisual como ferramenta de expressão de resistência e de denúncia. Na última década, os cineastas indígenas ocuparam espaços de produção, direção e narração de suas próprias histórias, o que significa a valorização da cosmovisão, dos saberes tradicionais e das lutas por direitos indígenas.

Muitos desses filmes são produzidos de forma coletiva, com as comunidades participando ativamente de todas as etapas da criação. Um dos destaques do cinema indígena é Morzaniel Ɨramari Yanomami. Nascido na aldeia Demini, na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, Morzaniel é cinegrafista e documentarista desde 2010, formado pelo projeto Pontos de Cultura Indígena. No mesmo ano, produziu e lançou o filme Xapiripë Yanopë – Casa dos Espíritos, que venceu o prêmio de Melhor Filme Júri Popular na I Bienal de Cinema Indígena – Aldeia SP. Em 2014, lançou o filme Urihi Haromatipë – Curadores da Terra-Floresta, que venceu o prêmio de Melhor Filme na mostra competitiva do Forumdoc.BH.

Em 2023, os curtas roraimenses Mãri hi – A Árvore do Sonho, de Morzaniel Ɨramari, Thuë pihi kuuwi – Uma Mulher Pensando e Yuri u xëatima thë – A Pesca com Timbó, de Aida Harika Yanomami, Edmar Tokorino Yanomami e Roseane competiram foram exibidos no tradicional Festival de Veneza, no “Eyes of the Forest”, durante um dia dedicado ao primeiro cineasta Yanomami, Morzaniel Ɨramari, ao cinema indígena Yanomami no Brasil.

A cineasta Aida Harika Yanomami, que vive na aldeia Watorikɨ, região do Demini, na TI Yanomami, faz filmes e fotografias e participou da produção e direção de dois dos três curtas. Ela integra o coletivo de comunicadores Yanomami criado em 2018 pela Hutukara Associação Yanomami com apoio do Instituto Socioambiental. “Thuë pihi kuuwi – Uma Mulher Pensando”, de 2022, foi o primeiro filme produzido por mulheres Yanomami e teve sua exibição na 26ª Mostra de Cinema Tiradentes.

O ator e cineasta Adanilo. Foto: Divulgação

Entraves para o desenvolvimento

Embora seu destaque seja evidente, o cinema feito no norte enfrenta desafios particulares pela falta de apoio institucional, financiamento e a falta de valorização da identidade cultural da Amazônia. Iniciativas como a Lei Paulo Gustavo trouxeram algum alívio, mas os investimentos ainda são insuficientes para sustentar a indústria local de maneira robusta. Produzir filmes na região requer recursos. Os cineastas fora dos grandes estúdios lutam para conseguir financiamento, seja de fontes privadas ou públicas.

“O acesso é difícil tanto pela escassez, quanto também pela falta de conhecimento para disputar esse financiamento. É preciso dedicar tempo para entender como o mercado funciona e praticamente todos os produtores independentes dividem a atuação com audiovisual com outra profissão. Para quem está iniciando tudo parece complexo e burocrático”, observa o amazonense Gabriel Bravo de Lima.

Nenhuma produção audiovisual da região norte foi contemplada no edital Novos Realizadores da Agência Nacional do Cinema (Ancine), de 2023. O cinema produzido na Amazônia foi mais uma vez esquecido no que diz respeito aos investimentos para as produções audiovisuais locais.

Mesmo depois de produzir o filme, conseguir distribuí-lo em salas de cinema, plataformas de streaming ou festivais é outra grande barreira. As grandes redes de distribuição costumam priorizar filmes de apelo comercial, por exemplo.

“Duplo Retrato foi uma obra que aconteceu e foi realizada dentro de uma instituição pública, o curso Técnico de Produção de Áudio e Vídeo do Colégio Estadual do Paraná, é uma produção que aconteceu tendo apoio e incentivo dos professores do curso e essa pequena rede de apoio foi essencial para obra acontecer e ser distribuída. O maior desafio é realmente a falta de recursos. Artistas que vivem no norte são afetados pela centralização dos investimentos que, em grande maioria, estão concentrados nas regiões Sul e Sudeste. São menos oportunidades”, lembrou Bruma de Sá.

Adanilo complementa citando a carência de programas de capacitação técnica na região, como cursos de cinema e audiovisual que ajudem a formar profissionais locais.

A falta de políticas públicas direcionadas à cultura é um obstáculo significativo para o desenvolvimento de cineastas emergentes do norte. Isso impacta a produção de diversos realizadores. “O cinema nortista como um todo não tem como se desenvolver, em toda a sua capacidade técnica e criativa, sem o investimento contínuo dos estados. Depender apenas de recursos federais fez com que, desde a pandemia, o setor cinematográfico ficasse abalado, e até agora não voltou ao fluxo de produção de antes. Isso impacta diretamente no desenvolvimento dos artistas e dos projetos daqui. É comum falarem dos ‘grandes valores’ dos editais de cinema. Mas entre a palavra no papel e o filme da tela, existe um caminho grande de desenvolvimento, produção, distribuição, que por vezes duram anos, envolvem uma grande equipe e muitos investimentos”, diz Mayara Sanchez.

Coletividades

A organização de cineastas e produtores em redes e coletivos tem sido uma das formas mais eficazes de enfrentar as dificuldades. Gabriel Bravo de Lima diz que a proximidade com outros cineastas, principalmente iniciantes, serve para trocar ideias e compartilhar experiências. “A ideia de coletividade para mim se tornou indispensável, dentro das minhas produções busco ao máximo proporcionar uma independência para quem trabalha comigo (muitas vezes artistas, sejam do audiovisual ou não) também se expressarem”, pontua. Em 2023, ele fundou sua própria produtora junto com amigos, chamada 1coletivo, para agregar projetos de diferentes artistas e áreas. “É uma luta que ainda estamos no início, mas é empolgante”.

A cineasta Bruma de Sá atualmente é sócia de uma produtora audiovisual, a Voyarte, junto com o artista e seu companheiro, Mauro Gruber. A realizadora também encontrou uma rede colaborativa com as artistas Raia Schnaider e Mate Bertucci. “Essa rede fortalece e faz com que essas produções realmente aconteçam”.

Para Mayara Sanchez, a organização de cineastas e produtores em associações ou sindicatos têm um impacto significativo na criação de oportunidades de trabalho e financiamento. “Um dos problemas mais agravantes no mercado local é a prática desrespeitosa, e eu acho que poderia dizer até neo-colonizadora, das produções nacionais que vem filmar nos estados daqui e não pagam os trabalhadores locais da mesma forma que paga a equipe de fora. É só através da organização coletiva que o mercado local consegue se proteger desse tipo de prática”, manifesta.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Nonada Jornalismo, escrito por Nicoly Ambrosio

A queda da borracha na Amazônia

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FotoMarcely Gomes/Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Amazonas

Por Abrahim Baze – literatura@amazonsat.com.br 

O declínio da borracha na Amazônia passou a concretizar-se em 1900, quando a tenacidade anglo-saxônica exibiu ao mundo as quatro primeiras toneladas procedentes de seringais plantados.

Nos primeiros meses a notícia causou apenas controvérsias. É que dominava, entre nós, a crença de que a Hévea da Amazônia não se adaptaria facilmente em qualquer outra região. Além do mais, os próprios técnicos norte-americanos asseguravam que o produto de plantação jamais chegaria a ser artigo considerável.

Enquanto vinham a baila pontos de vista assim desencontrados, Wickham e outros faziam intensas experiências nos viveiros contando para isso com amplos recursos financeiros.

Assim é que de 4 toneladas iniciais, em 1900, subestimadas inclusive por técnicos americanos, a produção inglesa cresceu de ano para ano, à semelhança de uma avalanche: em 1910, 8.200t; em 1920, 304,816t; em 1930, 800.808 toneladas. Crescimento que em momento algum sofreu solução de tenuidade como determinação inexorável.

Evidentemente, assim aconteceu. A produção brasileira entrou em colapso. Era a famosa ‘Queda da Borracha’, com todo o seu cortejo de horrores para o comércio local. De 37.938 toneladas, em 1910, fomos diminuindo para 23.216; para 14.260 em 1930; até o cumulo dos absurdos com 6.500 toneladas.

Diante de tamanha desigualdade de produção entre o poderio de além fronteiras e a falta absoluta de planos de defesa da Hévea, não foi possível resistir por muito tempo. Centenas de organizações comerciais desapareceram na voragem das falências. Deu-se o êxodo dos seringais. Só os heróis permaneceram as margens dos altos rios, lutando sem tréguas pela sobrevivência.

Manaus experimentou dias amargos com seu principal produto de exportação cotado a preços irrisores e com os demais produtos – a castanha, a madeira, as oleaginosas, peles e couros – explorados pelos abutres da negociata em tais emergências. Deixou de ser aquela capital deslumbrante de que falavam com exaltações visitantes ilustres.

Porto quase sem movimento. Escassas as arrecadações da Fazenda Estadual. Em consequência disso, o funcionalismo em atraso por vários meses. Teatro Amazonas, sem condições de contratar companhias, como fizera desde a inauguração.

O decênio 1915-1925 transcorreu, assim, em meio às mais aflitivas provações. Desapareceram no sorvedouro das falências, ensejando o desespero a capitalistas e o desemprego a assalariados, centenas de casas comerciais, até então consideradas verdadeiras potências do crédito, interessadas na exportação da borracha, que chegou a empalhar como café.

De 1925 em diante, mediante o amparo decisivo do Governo Federal, os preços da goma-elástica passaram a subir. Houve como que um surgimento em toda a Amazônia. Como veremos mais adiante, estava em prática inteligente política, tendo por objetivo neutralizar os efeitos da Resolução de 1924.

Em 1938, finalmente a borracha alcançou preços mais compensadores. A praça de Manaus voltou a ressurgir das cinzas, como a fênix da lenda e toda a população enveredou por novos caminhos, como a preocupação de melhores dias.

Sobre o autor

Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Elos da Amazônia: chamada abre participação para empreendedores indígenas do Amapá

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Empreendedores indígenas amapaenses podem participar da chamada Elos da Amazônia. Foto: Michael Dantas/Idesam

Um levantamento recente do Instituto Ethos revela que a população indígena representa 1% dos trabalhadores nas grandes empresas do país, ocupando apenas 0,1% das posições de liderança. Como uma resposta para ajudar a transformar essa realidade, a iniciativa chamada Elos da Amazônia 2024 – Edição Empreendedorismo Científico Indígena está com inscrições abertas, em busca de promover o protagonismo indígena no cenário empresarial.

Com foco em reconhecer empreendedores indígenas que desenvolvam tecnologias inovadoras e disruptivas a partir da biodiversidade amazônica, a Chamada visa fomentar negócios competitivos, economicamente viáveis, ambientalmente equilibrados e socialmente inclusivos.

O edital selecionará duas startups lideradas por empreendedores autodeclarados indígenas, com sede em estados da Amazônia Ocidental (Acre, Amazonas, Rondônia e Roraima) ou no Amapá, e constituídas há no máximo cinco anos.

As propostas devem demonstrar soluções tecnológicas aplicáveis ao mercado, podendo estar na fase de protótipo, validação ou em operação no mercado. As inscrições estão abertas até o dia 24 de janeiro de 2025 e podem ser feitas exclusivamente pelo site.

Além do reconhecimento, os projetos selecionados receberão suporte técnico para transformar ideias em negócios viáveis. Entre os benefícios estão a preparação para execução de recursos via Programas de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), conexão com incubadoras e aceleradoras, e possível ingresso no Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio).

Cada startup selecionada pelo edital receberá R$ 1 milhão, sendo R$ 500 mil via PPBio para aceleração do negócio e R$ 500 mil para desenvolvimento de um projeto de tecnologia que será executado pelo Instituto de Desenvolvimento Tecnológico (INDT), via recursos da Embrapii.

Tecnologia com identidade amazônica

A iniciativa conta com a parceria do INDT, que apoia o desenvolvimento de tecnologias com alto potencial de impacto. Os critérios de seleção priorizam propostas alinhadas à sustentabilidade e ao uso consciente dos recursos da floresta. As tecnologias apresentadas podem incluir novos processos, sistemas ou aplicações baseadas na biodiversidade amazônica.

Para os idealizadores da Chamada, iniciativas como essa são fundamentais para promover o empreendedorismo indígena, transformando conhecimento acadêmico e tradicional em soluções de mercado. ‘’Acreditamos que uma tecnologia pode surgir de qualquer lugar: de experiências empíricas, saberes tradicionais ou pesquisas laboratoriais. O importante é prepará-la para o mercado e gerar renda para as comunidades indígenas”, reforça Geraldo Feitoza, Diretor Executivo do INDT.

O edital é uma realização do Idesam, Programa Prioritário de Bioeconomia, agenda da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), e INDT. A chamada conta ainda com o apoio da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii).

Conheça a biodiversidade protegida das áreas de conservação regional de San Martín, no Peru

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As áreas de conservação regional Cordilheira Escalera e Shunte e Mishollo – Boshumi, localizadas na região de San Martín, abrigam uma fauna variada e uma biodiversidade única. Foto: Divulgação/Agência Andina    

A região de San Martín, no Peru, possui duas áreas de conservação regional (ACR): Cordillera Escalera e Bosques de Shunte e Mishollo – Boshumi, áreas naturais protegidas estabelecidas pelo Estado peruano que servem para conservar as diversas formas de vida presentes na natureza, os diferentes ecossistemas e processos naturais que, juntos, geram grandes benefícios.

Foto: Divulgação/Agência Andina

Estas áreas são propostas e geridas pelos governos regionais e são complementares às áreas naturais protegidas nacionais. Além disso, são espaços que permitem o desenvolvimento de atividades econômicas sustentáveis ​​e de cadeias de valor baseadas na gestão dos recursos naturais e no turismo.

Na região de San Martín, estão localizadas duas áreas de conservação regionais onde se guarda e protege a biodiversidade dos frágeis ecossistemas das florestas nubladas montanas e dos ambientes peruanos de yungas e paramos, que fornecem às populações locais, contribuindo para a mitigação do clima. mudar. Vamos conhecer a biodiversidade e a variada fauna que abrigam.

Área de Conservação Regional Cordillera Escalera: ‘Onde nascem nossas águas

Foto: Divulgação/Agência Andina

É a primeira Área de Conservação Regional do Peru, criada em 22 de dezembro de 2005 através de solicitação que o Governo Regional de San Martín fez ao Estado, estabelecendo-se como tal pelo Decreto Supremo 045-2005-AG. Com uma área de 149.870 hectares, abrange cinco distritos da província de San Martín (San Antonio de Cumbaza, Tarapoto, Banda de Shilcayo, Shapaja e Chazuta) e quatro da província de Lamas (Pinto Recodo, Caynarachi, Barranquita e San Roque de Cumbaza).

A Cordilheira Escalera é fonte de abastecimento de inúmeros bens e serviços fornecidos pela floresta, destacando-se água e, entre outros, sementes, carne de caça, palmeiras, entre outros, para sete comunidades nativas Quechua Lamista e Chayahuita que mantêm conhecimentos sobre a conservação e utilização dos recursos naturais da floresta, bem como a diversidade biológica existente na área.

Dentro da área protegida surgem cinco importantes sistemas de água (Shanusi, Caynarachi, Mayo – Cumbaza, Shapaja – Chipeza e Pampayacu – Charapillo) que beneficiam mais de 450.000 pessoas.

Área de Conservação Regional das Florestas Shunte e Mishollo – Boshumi

Foto: Divulgação/Agência Andina

A Área de Conservação Regional Boshumi foi instituída como tal em 15 de dezembro de 2018, pelo Decreto Supremo 016-2028, com uma área de 191.405,53 hectares, localizada nos distritos de Campanilla e Huicungo na província de Mariscal Cáceres; e nos distritos de Pólvora, Shunté e Uchiza na província de Tocache, região de San Martín.

Na área existem charnecas (tipos de terrenos áridos e não cultivados) que captam e regulam a água da bacia do alto Huallaga, abastecendo mais de 69 mil pessoas. A área é um espaço de transição entre a puna úmida dos Andes centrais (ecorregião de pastagens e matagais de montanha) e as yungas peruanas (ecorregião de floresta tropical e subtropical úmida), onde existem amplitudes altitudinais entre 800 e 400 metros acima do nível do mar.

Foto: Divulgação/Agência Andina

O objetivo do ACR Boshumi é conservar as charnecas e os serviços ecossistêmicos que prestam em benefício das populações locais, bem como a sua contribuição para a mitigação das alterações climáticas nas regiões de San Martín e La Libertad, que são habitats de espécies endêmicas (únicas na área) e ameaçadas, como o urso de óculos, o macaco-lanudo de cauda amarela, a onça-pintada, o condor andino, entre outras espécies.          

Você pode encontrar até 1.500 variedades de flora entre árvores como cedro, parafuso, pumaquiro, incenso; palmeiras como huasi, palmeiras de cera; bromélias, samambaias e uma variedade de orquídeas. As florestas Shunté e Mishollo cumprem funções importantes, como o armazenamento de carbono atmosférico para ajudar a controlar o aquecimento global.

O Governo Regional de San Martín declarou a criação da ACR de interesse regional em dezembro de 2016, o que permitiu que 26% da superfície da região seja uma área natural protegida e 38,24% seja uma área de proteção e conservação ecológica.

*Com informações da Agência Andina