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Técnica de plantio de povo do Alto Xingu aumenta a diversidade da mandioca

Ritual de boas-vindas na aldeia Ulupuwene marca parceria entre indígenas e pesquisadores. Foto: Celso Viviani

Em uma roça de mandioca na aldeia Ulupuwene, no Alto Xingu, estado de Mato Grosso, um ancião do povo Waurá espeta na terra estacas retiradas de diferentes variedades de mandioca, bem perto uma da outra. De cada uma brotam folhas e raízes. Quando crescem e formam arbustos, as plantas cruzam entre si. A técnica de cultivo estimula a produção de sementes de novas variedades da planta, evitando o empobrecimento genético típico das plantas clonadas, segundo estudo publicado em março na revista Science.

Leia também: Estudo mostra que indígenas tiveram papel crucial na disseminação da mandioca nas Américas

“A mandioca foi domesticada por povos indígenas há cerca de 6 mil anos na borda sul da Amazônia, que hoje corresponde aos estados de Rondônia e Mato Grosso”, conta o etnobiólogo Fábio Oliveira Freitas, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Recursos Genéticos e Biotecnologia, que coordenou uma equipe de pesquisadores de oito países.

A planta se tornou tão central na alimentação que foi sendo difundida na forma de estacas (partes do caule), desde antes do período colonial, por meio de trocas entre comunidades vizinhas, desde o sul dos Estados Unidos até a parte meridional da América do Sul.

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Os pesquisadores chegaram a essa conclusão a partir da análise do genoma de 282 amostras de mandioca domesticada (Manihot esculenta) e selvagem (Manihot flabellifolia) de coleções vivas de instituições de pesquisa ou de roças tradicionais, além de DNA extraído de coleções de herbários e artefatos encontrados em sítios arqueológicos. Além disso, usaram dados genômicos de 291 amostras de estudos anteriores, totalizando 573 genomas analisados.

“Muitos agricultores tradicionais, indígenas ou não, identificam as plantas que brotam de sementes e as deixam crescer”, relata Freitas. Se tiverem as qualidades que procuram – como um tamanho mais avantajado da raiz tuberosa ou um teor maior de amido –, passam a usá-las como fonte de estacas, que formam clones idênticos à planta-mãe. Segundo ele, o arbusto pode cruzar com espécies selvagens, que vivem nas cercanias das roças, incrementando a variabilidade no genoma.

“A clonagem fez com que todos os pés de mandioca das Américas tenham os mesmos marcadores genéticos de parentesco, como se fossem irmãos”, afirma o biólogo britânico Robin Allaby, da Universidade de Warwick, no Reino Unido, um dos autores do artigo. Em conversa com Pesquisa FAPESP, ele destacou que o padrão difere de culturas como o milho, que forma linhagens distintas.

“O estudo faz uma análise genética abrangente da mandioca, confirmando padrões genéticos que foram observados em estudos mais restritos”, avalia o etnobiólogo Nivaldo Peroni, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que não participou do estudo.

“No entanto, poderia ter ressaltado com mais ênfase a importância das comunidades tradicionais não indígenas na geração de diversidade – não apenas na Amazônia, mas em outros lugares do Brasil e das Américas”.

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Segundo Peroni, existem mais de 7 mil variedades de mandioca, criadas por comunidades com preferências próprias na hora de selecionar as plantas. O pesquisador tem estudado a origem e a circulação de variedades no contexto das comunidades tradicionais brasileiras e destaca que agricultores de origem açoriana que vivem na costa atlântica do centro-sul do país, como no estado de Santa Catarina, aprenderam a plantar mandioca com povos indígenas locais.

“No Sul predominam variedades extremamente brancas, refletindo o desejo de produzir algo parecido com a farinha de trigo da Europa”, acrescenta Peroni. No litoral do estado de São Paulo, ele encontrou mais de 50 variedades no município de Cananéia e mais de 30 em Ubatuba, com características próprias – muitas delas geradas a partir da brotação de sementes em roças e quintais de comunidades caiçaras.

O ancião Kuratu Waurá monta uma casa de Kukurro fincando estacas de mandioca. Foto: Celso Viviani

Por ser um alimento rico em nutrientes e de fácil reprodução e transporte, o tubérculo se tornou um dos principais itens da dieta indígena e parte da alimentação de 1 bilhão de pessoas no mundo, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Freitas e Allaby visitaram a aldeia Ulupuwene diversas vezes entre 2018 e 2023 para investigar o cultivo tradicional da mandioca, coletar amostras das variedades e entrevistar os moradores. “É uma técnica única, dominada por poucas famílias”, relata Freitas, que estuda a agricultura dos Waurá desde 1997.

Depois de preparar a roça, os indígenas formam montes de terra afofada, para facilitar a colheita do tubérculo, e espetam ramos que representam elementos da lenda que rodeia a produção da mandioca. O conjunto de estacas, eles chamam de casa de Kukurro, deus representado pela lagarta que come as folhas da mandioca. O crescimento da planta seria fortalecido pelos cantos rituais para Kukurro. As sementes formadas por essa mistura de plantas são uma fonte importante de variedade genética e costumam ficar dormentes até que o fogo, usado para limpar o terreno antes do plantio da roça, estimule sua germinação a partir do ano seguinte.

“As mulheres desempenham um papel crucial nesse processo”, ressalta a bióloga Carolina Levis, da UFSC, que não participou do estudo. “Elas costumam ser as principais responsáveis por cuidar das roças. São curiosas e deixam crescer as plantas novas, observando suas características.”

“Os Waurá são bastante seletivos”, acrescenta Freitas. “Escolheram quatro variedades originadas por sementes no período de nossas visitas, mas descartaram todas por avaliar que não tinham características novas.” Se a planta é aprovada, eles a batizam e incorporam à coleção viva da aldeia.

O vídeo Casa de Kukurro, produzido pela Embrapa em 2019 e disponível no YouTube, mostra o ritual que acompanha o plantio. Os Waurá não se incomodam com as lagartas que comem as folhas da mandioca: na mitologia da aldeia, é Kukurro que se alimenta e assim cuida das plantas. As mudas que nascem de sementes são chamadas kukurromalacati e são consideradas plantas que caem do céu.

“Identificamos 19 variedades de mandioca-brava em Ulupuwene”, relata Allaby. Segundo os pesquisadores, ao contrário das variedades conhecidas como aipim, macaxeira ou mandioca-doce, esse tipo de tubérculo pode ser letal se não for processado para a eliminação do ácido cianídrico, que tem efeito tóxico. “É preciso descascar a raiz, ralar e prensar a polpa, ferver para o ácido cianídrico evaporar e pôr o polvilho ao sol para secar”, relata Freitas. O polvilho é usado para fazer biju, principal item da alimentação Waurá ao lado do peixe.

Ao se casarem, as mulheres costumam levar a coleção de plantas de sua família até o marido e seguem trocando as plantas quando voltam para visitar os parentes. “O casamento pode ser interétnico e envolver grandes distâncias, aumentando a circulação de estacas”, acrescenta Levis.

“O estudo mostra o quão importante é a agricultura de pequena escala para a segurança alimentar”, afirma Allaby. Segundo ele, das 20 variedades de banana que existem no Brasil, só a nanica, que está se deteriorando geneticamente e pode desaparecer em questão de décadas, resiste ao transporte de navio até a Europa. “Os indígenas conhecem muito mais sobre a lavoura da mandioca do que nós”, reconhece. Segundo ele, a casa de Kukurro é uma técnica que pode ajudar a rejuvenescer, do ponto de vista genético, a diversidade da mandioca e de outras plantas e representa um exemplo marcante de como a ciência acadêmica tem a ganhar no intercâmbio com a ciência dos povos indígenas e tradicionais.

Artigo científico
KINSLER, L. et alHistoric manioc genomes illuminate maintenance of diversity under long-lived clonal cultivationScience. v. 387, n. 6738. 7 mar. 2025.

A reportagem acima foi publicada com o título “O plantio nativo da mandioca” na edição impressa nº 352 de junho de 2025.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Revista Pesquisa Fapesp, escrito por Gilberto Stam

Barragens no rio Madeira alteram rotas migratórias do peixe dourada, aponta artigo

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Foto: Reprodução/Jirau Energia

A construção de hidrelétricas no rio Madeira — um dos mais importantes da Amazônia e parte da região do Interflúvio Madeira-Purus — impactou drasticamente os padrões migratórios da dourada (Brachyplatystoma rousseauxii), um dos maiores peixes de água doce do mundo, muito apreciado na culinária amazônica.

Leia também: Gigantes do Rio Madeira: peixes que surpreendem pelo tamanho

A dourada é conhecida por realizar migrações de longa distância, percorrendo até 12 mil quilômetros entre as áreas de desova, na parte alta do rio Madeira, e os berçários no estuário do rio Amazonas. Essa jornada é essencial para o ciclo de vida da espécie, que depende da conectividade entre os rios para se reproduzir e crescer.

A construção das barragens de Jirau e Santo Antônio, em 2011 e 2012, alterou significativamente essa dinâmica. Utilizando a análise da microquímica dos otólitos — estruturas localizadas no ouvido interno dos peixes —, pesquisadores observaram uma drástica redução no número de indivíduos que retornam às áreas de desova após a construção das hidrelétricas.

Antes das barragens, 79% dos peixes apresentavam o comportamento de “retorno natal” (homing), ou seja, voltavam para desovar no mesmo local onde nasceram. Após a construção, essa proporção caiu para apenas 5%. A maioria dos peixes (95%) passou a ser considerada residente, permanecendo no rio Madeira durante todo o ciclo de vida.

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Dourada. Foto: Michael Goulding

Essa mudança de comportamento tem implicações ecológicas relevantes: os peixes residentes apresentaram um crescimento menor em comparação aos migratórios, o que indica que a falta de acesso às áreas de berçário no estuário do Amazonas pode comprometer o desenvolvimento da espécie.

Os dados foram publicados na revista Conservation Letters, no artigo intitulado “Quantitative impacts of hydroelectric dams on the trans-Amazonian migrations of goliath catfish” (“Impactos quantitativos das barragens hidrelétricas nas migrações transamazônicas da dourada”, em tradução livre).

O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Rondônia (Unir), Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e Instituto de Investigaciones de la Amazonía Peruana (IIAP) — instituições associadas à Aliança Águas Amazônicas —, entre outras. Eles concluem que é necessário restaurar a conectividade do rio para garantir a conservação da dourada.

A construção de passagens eficientes para peixes é apontada como medida crucial para que esses animais possam completar seu ciclo de vida e para assegurar a manutenção da biodiversidade na bacia amazônica. Veja imagens e saiba mais sobre a espécie aqui.

Referência: Hauser, M., Doria, C. R. C., Pécheyran, C., Ponzevera, E., Panfili, J., Torrente-Vilara, G., Renno, J. F., Freitas, C. E., García-Dávila, C., & Duponchelle, F. (2024). Quantitative impacts of hydroelectric dams on the trans-Amazonian migrations of goliath catfish. Conservation Letters, 17, e13046. https://doi.org/10.1111/conl.13046

Texto adaptado do artigo completo  disponível em aguasamazonicas.org.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Observatório BR-319

Dois aplicativos buscam ensinar nheengatu, idioma indígena que já foi o mais falado na Amazônia

Constituição Federal possui versão em nheengatu. Foto: Fellipe Sampaio/SCO/STF

“Purãga ara” quer dizer bom dia em nheengatu, idioma originado do tronco linguístico tupi com influência do português. Já foi o mais falado na Amazônia e ainda é usado por um total estimado entre 6 mil e 30 mil indígenas e ribeirinhos, principalmente no Brasil, Colômbia e Venezuela.

Leia também: Constituição Federal ganha versão indígena em Nheengatu

Para aprender essa língua, agora há dois aplicativos. O primeiro, Nheengatu App, foi lançado em 2021, com o apoio da Lei Aldir Blanc e da Secretaria de Cultura do Pará. Elaborado por Suellen Tobler Almeida, graduada em tecnologia de análise de sistemas, como parte de seu mestrado na Universidade Federal do Paraná (UFPR), contém exercícios, imagens, áudios e canções.

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Os alunos Vitor Bandeira e Gustavo Pacheco, da equipe que desenvolveu o trabalho. Foto: Reprodução/Insper

O segundo, anunciado este ano, foi uma encomenda da IBM, concretizada pelo engenheiro da computação Tiago Fernandes Tavares e por um grupo de alunos do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper).

Ainda sem site, o aplicativo integra tradutores, dicionários e corretores ortográficos para facilitar a produção de textos no idioma indígena. Saiba mais AQUI.

Nos dois casos, os desenvolvedores apresentaram as versões preliminares para indígenas voluntários, em busca de sugestões.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Revista Pesquisa Fapesp

Álbum de figurinhas com árvores mostra às crianças por que é importante preservar as florestas

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A Amazônia tem destaque na coleção com figurinhas de espécies de árvores. Foto: divulgação

A cinco meses da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), que será realizada em novembro em Belém (PA), crianças da capital paraense irão receber um presente especial: o álbum de figurinhas “Árvores do Mundo”, uma iniciativa da Vale que une ludicidade e educação ambiental para falar sobre sustentabilidade de forma leve e descontraída.

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A ação tem como objetivo sensibilizar o público infantil sobre a importância da conservação da natureza e promover o engajamento local em torno da conferência, que reunirá líderes globais para discutir o futuro do clima no planeta. A distribuição dos álbuns e figurinhas será gratuita e começa no dia 14 de junho em Belém (PA).

O álbum, criado em parceria com a agência Africa Creative, ilustra 60 espécies de árvores representativas dos cinco continentes, sendo 10 delas em versões especiais com realidade aumentada. Ao escanear o QR Code com o celular, as crianças poderão ver imagens tridimensionais das árvores e acessar informações educativas sobre cada uma delas.

A Amazônia tem destaque na coleção com figurinhas de espécies de árvores icônicas como castanheira-do-pará, babaçu, sumaúma e seringueira. Também estão presentes árvores de países como Estados Unidos (sequoia-vermelha), China (jasmim-do-imperador), Canadá (bétula-amarela), França (plátano), Itália (choupo-branco), Japão (glicínia), entre outros.

Leia também: Cientistas avaliam a diversidade de insetos da Amazônia, desde o solo até a copa das árvores

Distribuição gratuita e eventos nas Usinas da Paz

A distribuição dos álbuns e figurinhas será gratuita e começa no dia 14 de junho, com um evento de lançamento na Usina da Paz do bairro Jurunas, em Belém. Em seguida, a programação continua no dia 18 de junho na Usina da Paz do Bengui, e se encerra no dia 28 de junho na Usina da Paz da Cabanagem.

Durante os eventos, as crianças poderão participar de atividades como: apresentações culturais, brinquedo interativo “roleta da floresta”, que distribui figurinhas extras como prêmios, espaço instagramável para que os participantes se fotografem como se fossem figurinhas do álbum, e ainda vivenciar experiência de realidade virtual, conhecendo as ações de preservação ambiental desenvolvidas pela Vale na região amazônica.

As Usinas da Paz fazem parte do programa estadual Territórios Pela Paz (TerPaz), que promove inclusão social e cidadania em comunidades vulneráveis. Com mais de 70 serviços gratuitos, as unidades oferecem cursos profissionalizantes, reforço escolar, emissão de documentos, atividades esportivas e culturais, entre outros.

“O engajamento das novas gerações é essencial para que sejamos bem-sucedidos no combate às mudanças climáticas. A gente acredita que essa iniciativa conseguirá, de forma lúdica, despertar o interesse das crianças para um tema essencial nesse contexto, a preservação das florestas”, afirma Leandro Modé, diretor de Comunicação e Marca da Vale.

Leia também: De origem ribeirinha, Gracialda Costa Ferreira investiga a identidade das árvores

A Vale na Amazônia

Atuando de forma sustentável na Amazônia há 40 anos, a Vale contribui com a proteção de 800 mil hectares do Mosaico de Carajás, no Pará, em parceria com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). As operações da companhia ocupam cerca de 3% do Mosaico. Na última década, a Vale investiu mais de R$ 1 bilhão em ações socioambientais, pesquisa & desenvolvimento e incentivo à cultura. Deste total, R$ 910 milhões foram voluntários.

Na Floresta Nacional de Carajás, onde fica a maior mina de minério de ferro a céu aberto do mundo, estão catalogadas mais de 3 mil espécies de fauna e flora, além de 11 mil nascentes de água protegidas. Para proteger essa área, equipe de guardas florestais mantida pela Vale realiza patrulhamentos diários por terra, ar e água, além do combate a focos de incêndio. A atuação evitou, entre 2021 e 2024, 662 tentativas de atividades como garimpo ilegal, caça e pesca predatórias e extração de madeira.

Em 2019, a Vale se comprometeu com seis metas de sustentabilidade alinhadas à Agenda 2030 da ONU. Uma delas é a Meta Florestal Vale. A iniciativa prevê a recuperação de 100 mil hectares de áreas e a proteção de outros 400 mil hectares de florestas, além das fronteiras da companhia, até o final desta década. Esse compromisso voluntário vai além das exigências regulatórias, consolidando-se como uma estratégia inovadora de solução climática liderada pelo setor empresarial.

Cinco composições marcantes de Paulo Onça interpretadas por artistas consagrados

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Foto: Reprodução/Amazon Sat

O talento do compositor amazonense Paulo Onça ultrapassou as fronteiras do Amazonas e chegou aos palcos nacionais por meio das vozes de artistas consagrados da música brasileira e até internacionais.

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Com mais de quatro décadas de carreira e mais de 130 composições, Paulo Onça se destacou muito além do Amazonas e na Região Norte com seus trabalhos autorais, ao ter canções interpretadas por artistas renomados como Leci Brandão, Jorge Aragão, Exaltasamba, entre outros.

Leia também: Paulo Onça: o sambista amazonense de sucesso nacional

Confira cinco composições em que Paulo Onça participou e se tornaram sucesso por meio das vozes de artistas consagrados:

‘Feitio de Paixão’

Sem subornar teu coração, com feitio de paixão
Farei tudo pra ganhar tua confiança
Com a esperança de aprendiz
Juro que vou te fazer feliz

A música ‘Feitio de paixão’, nacionalmente conhecida na voz de Jorge Aragão, é uma composição feita em parceria entre Paulo Onça e Paulinho Carvalho. Esta é uma das canções de Jorge Aragão mais regravadas e também a obra mais tocada do artista nos últimos dez anos em rádios, shows, festas e sonorização ambiental no país. 

A canção foi gravada por Jorge Aragão em 1988, sendo uma das primeiras composições de Paulo Onça a ficarem em evidência no cenário nacional.

‘Ivete do Rio ao Rio’

“A grande Rio vem dar um banho de axé
Salve! Toda essa gente de fé
O tambor da invocada promete
Levanta a poeira Ivete”

A música ‘Ivete do Rio ao Rio’ é um samba-enredo da escola de samba Acadêmicos do Grande Rio para o carnaval de 2017, que homenageou a cantora Ivete Sangalo. A letra da música conta a história da cantora, desde a sua infância no sertão baiano até a sua trajetória musical, incluindo a passagem pela Banda Eva e sua carreira solo. A música também foi regravada posteriormente pela própria Ivete Sangalo

Entre os nomes na composição desta música, além de Paulo Onça, estão: Alan Da Costa De Vasconcelos, Carlos Luiz Lima Rodrigues, Marco Aurelio De Oliveira Damas, Rubens De Andrade Junior, Wanderson Luis Pinto Artigliri. Detalhe, Onça aparece com seu nome de batismo: Paulo Juvêncio De Melo Israel.

‘Cartilha do amor’

“Eu bem quis acertar fiz de tudo pra ver
O jardim florescer nosso amor perfumar
Mas quem dera se a paz de repente pudesse voltar
E abraçar tudo aquilo de bom que ainda restou
Foram tantas lições….é a prova geral
Na cartilha do amor não se pode ser colegial”

Conhece esse trecho? A música ‘Cartilha do Amor’, escrita por Paulo Onça e Royce do Cavaco, conquistou o cenário nacional ao ser gravada pelo grupo Exaltasamba. Com uma letra que aborda de forma sensível e madura os desafios da vida a dois, a canção se destacou por sua mensagem direta e emocional, estando presente no álbum ‘Eterno Amanhecer’, de 1992.

‘É melhor refletir’

“Dá pra notar no teu olhar
Má impressão ficou de um amor assim
Foi um vendaval, mal deu pra desfrutar
Daquele amor que foi total, o que sobrou fez tanto mal
Não sei se errei, mas eu sei
Que tenho meu valor
Não há motivo pra tanto rancor”

‘É melhor refletir’ surgiu de outra parceria de Paulo Onça com Royce do Cavaco. O samba ficou conhecido nacionalmente na voz da cantora carioca Leci Brandão em 1989. A música está presente no álbum da artista ‘As coisas que mamãe me ensinou’.

Composição em italiano?

“Senza paura consegna sacra
Viene a mostrarti intenso desiderato
Viene il tempo piu viene
Con quel cocktail de belezza”

Além de português, Paulo Onça também se arriscou a compor em italiano. A canção ‘Consegna Sacra‘, gravada pelo grupo Duo Napolitano foi escrita em conjunto com o então desembargador no Amazonas, Flávio Pascharelli, amigo de Paulo Onça, de ancestralidades no país europeu.

*Por Hector Muniz, do Portal Amazônia

Quatro animais da Amazônia que são “infiéis”

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Fotos: Reprodução

O Dia dos Namorados é celebrado no dia 12 de junho no Brasil com muitas declarações de amor eterno. A fidelidade é um dos tópicos que envolvem essa relação, inclusive entre os animais amazônicos. Um exemplo clássico é a arara, que vive sua vida inteira ao lado do mesmo parceiro. Mas existe infidelidade no mundo animal?

Leia também: Amor na Floresta Amazônica: 5 animais que ensinam lições da natureza para o Dia dos Namorados

Na verdade, o conceito de “infidelidade” entre animais é diferente do sentido humano, pois para eles os sistemas de acasalamento se tratam de estratégias reprodutivas, para manter a espécie, sem necessariamente um vínculo romântico como ocorre entre seres humanos.

Por isso que alguns animais são monogâmicos, sim, mas boa parte segue a vida com múltiplos parceiros, sendo:

  • poliândricos: união em que uma só fêmea é ligada a dois ou mais machos ao mesmo tempo;
  • poligínicos: forma de poligamia em que um macho possui duas ou mais parceiras;
  • promíscuos: indivíduo que acasala com múltiplos parceiros.

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Assim, na Amazônia brasileira, muitos animais não seguem relações monogâmicas e acabam conhecidos por sua “infidelidade” que, na verdade, trata-se de uma estratégia evolutiva comum para aumentar o sucesso da sobrevivência da espécie:

Macaco-prego (Sapajus spp.)

O macaco-prego é um desses animais “infiéis”, pois seus sistemas de acasalamento são poligínico e promíscuo. As fêmeas acasalam com múltiplos machos durante o cio. Isso pode reduzir infanticídio, pois os machos não sabem quem é o pai.

Leia também: Conheça espécies de macacos que só são encontradas na Amazônia

Macaco-prego-castanho. Foto: Andra Waagmeester

Onça-pintada (Panthera onca)

Com um sistema de acasalamento do tipo promíscuo, tanto machos quanto fêmeas acasalam com múltiplos parceiros ao longo do tempo. A fêmea pode escolher o macho mais forte, mas copula com outros, e o macho vai embora após o acasalamento.

Leia também: Descubra 6 curiosidades sobre a onça-pintada

Onça-pintada. Foto: Emiliano Ramalho/Instituto Mamirauá

Jaçanã (Jacana jacana)

Esta ave tem um comportamento poliândrico. Como a fêmea é maior e mais territorial do que os machos, diferente da maioria das aves, ela acasala com vários machos dentro de seu território. E são eles os que constroem os ninhos e cuidam dos filhotes.

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Foto: Divulgação/Agência Ambiental Pick-upau

Boto vermelho (Inia geofrensis)

Os botos amazônicos tem o sistema reprodutivo promíscuo, no qual machos e fêmeas acasalam com múltiplos parceiros. Um dos comportamentos interessantes é que os machos competem entre si para conseguir “conquistar” as fêmeas. E a fêmea cria o filhote sozinha por um longo período, de 2 a 3 anos.

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Boto-vermelho, também conhecido popularmente como boto cor-de-rosa. Foto: Reprodução/AMPA

Casal paraense mapeia águas nas fronteiras do país durante viagem de motocicleta

Casal percorre fronteiras do Brasil em motocicleta. Foto: Isadora Pereira/Rede Amazônica AP

Para celebrar o Dia dos Namorados, Nesta quinta-feira (12), o Grupo Rede Amazônica conta a história do casal paraense Antonino Alves Brito, de 50 anos, e Maria José Brito, de 47 anos. Eles decidiram dar uma pausa na rotina e partir para uma aventura: viajar o Brasil inteiro em uma motocicleta. A parada da vez é o Amapá.

Eles já visitaram nove cidades do Brasil e pretendem percorrer mais de 15 mil quilômetros de fronteira terrestre e 7 mil quilômetros de fronteira marítima.

Maria é nutricionista e Antonino era secretário adjunto de educação na cidade em que morava. Mas, a rotina mudou quando o motociclista decidiu que era hora de juntar a paixão antiga pela estrada, com um projeto diferente e que contribuísse com melhorias para a sociedade.

“Como nós somos do Pará, de Parauapebas, aquilo ficou na minha cabeça. E viajar de moto é interessante porque tá só você, o capacete e a estrada. Então você tem muito tempo para pensar”, disse Antonino.

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A jornada do casal iniciou há 12 anos, apenas por diversão. Mas há 6 meses, os dois deram início à expedição ‘Água de fronteiras’, um levantamento sobre a qualidade das águas na fronteira do país. Ao final, um relatório será apresentado na COP30, que acontecerá em Belém este ano.

Foto: Isadora Pereira/Rede Amazônica AP

Quando Maria conheceu Antonino, ele já era um aventureiro das estradas. A mulher embarcou na aventura e seguiu com a criação do projeto em conjunto com o amado, movida pela pesquisa e pelo amor.

“Foi paixão também, por ser companheira dele […] São duas coisas bem importantes, o amor e confiança na pessoa. Isso me fez caminhar junto com ele e fazer esse trabalho, juntos”, disse.

Ele e a companheira se tornaram inseparáveis, enfrentando desafios e desfrutando de momentos incríveis em suas jornadas. Antonino falou que a companhia da esposa é indispensável nos momentos de pesquisa e aventura, o que torna todo o movimento ainda mais especial.

Os dois levam dos lugares onde passam, apenas as memórias um com o outro e as fotografias. As caixas na lateral da moto são o guarda-roupa do casal.

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Antonino contou ainda que muitos momentos foram vividos nas estradas. Apesar dos cenários lindos e marcantes como a passagem entre Paraguai e Uruguai, o casal já passou por momentos de sufoco na estrada.

“Passamos por um quase acidente no Nordeste em 2016. Por volta daquelas 18h, difícil de enxergar e chovendo […] muitos animais na pista. E naquele momento nós nos deparamos com três jumentos no meio da pista. Maria teve que gritar pra que eu pudesse despertar. Que eu tava vendo na realidade dois e eram três”, disse.

No Amapá, os aventureiros já visitaram Macapá, a cidade de Amapá, a Vila de Sucuriju, Calçoene, Oiapoque e Serra do Navio. O próximo destino é Santarém, no Pará.

Foto: Isadora Pereira/Rede Amazônica AP

“A gente está gostando muito do estado. É muita riqueza natural, muita água, muita gente interessante para a gente conversar. Nós gostamos muito daqui, muito bacana. É muita área ambiental preservada também. Um dos estados da Amazônia Legal que menos foi explorado. Então isso é bem interessante”, disse.

No início da vinda ao estado do Amapá, o motociclista contou que algumas pessoas o desencorajaram. Ele disse que o coração chegou a apertar ao ouvir sobre as dificuldades na estrada.

A gente tem se surpreendido com algumas falas como: “É muito difícil, não vai lá, é muito complicado”. E a gente vai lá e é um negócio diferente, é bacana. A estrada estava tranquila”, explicou.

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Em um vídeo, o casal registrou o momento de ida à praia do Goiabal, no município de Calçoene. Nas imagens é possível ver que uma cachoeira se abriu no meio da estrada. O casal fica com receio de atravessar devido à força da água.

Mesmo não sendo da área, casal buscou se especializar em recursos hídricos. Os dois apresentaram o projeto em fevereiro à Universidade do Estado do Pará (Uepa).

Casal segue viagem após visita ao Amapá. Foto: Isadora Pereira/Rede Amazônica AP

A Uepa fornece o apoio técnico-científico e orienta as análises hídricas com a utilização dos equipamentos corretos, para que o trabalho seja validado.

“O princípio foi apreensivo, por ser um projeto muito grande, abrangente, mas graças a Deus hoje eu fico muito feliz. Também estou estudando sobre recursos hídricos, fazendo uma especialização e isso está abrindo os olhos cada vez mais sobre a importância que tem a água para todos nós, sobre o nosso meio ambiente, que a gente deve tanto cuidar”, disse Maria.

*Por Isadora Pereira, da Rede Amazônica AP

Fraseologias demonstram “jeitinho paraense” de se expressar quando o assunto é namoro

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Foto: Reprodução/Design by Freepik

Se o paraense se apaixona, se casa, está interessado por alguém ou se é infiel, pode ter certeza de que ele tem um jeito bem específico de expressar isso. Quem nunca ficou ‘encegueirado’ ou ‘virou canoa’ por alguém? Ou tem um amigo que não pode namorar que já ‘quer se amigar’?

Na ciência, essas expressões são chamadas de “fraseologias”, construções linguísticas formadas por, no mínimo, duas palavras, que se instituem pelo uso, pela frequência e não pedem permissão da gramática normativa para existir.

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Uma forma de resistência, já que as fraseologias emergem de um contexto social que deve ser valorizado, como explica a professora Carlene Salvador, do curso de Letras-Língua Portuguesa, da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), campus Belém (PA). A professora coordena o projeto de pesquisa ‘Banco de Dados fraseológicos do Pará’ e já reuniu mais de duas mil fraseologias no estado.

“Muitas vezes essas expressões nascem a partir de um grau de informalidade e se fazem entender completamente, com uma linguagem que chega na população, que a identifica, mas que são discriminadas pela norma culta. O que se percebe é que as fraseologias emergem independente do nível de formação do falante e algumas extrapolam a bolha de onde costumam emergir”, diz.

Quando o assunto é relacionamento, ela explica que o paraense tem formas específicas e objetivas de se expressar: “Fraseologismos são revestidos de dois troncos, a metáfora e metonímia. Então o falante vai buscar, nessas unidades, refletir como é o seu dia a dia, como são seus sentimentos, atividades no trabalho. Ele vai representar nessas unidades essa configuração mais regional, que é como a fraseologia representa parte da vida desse indivíduo, quando ele diz, por exemplo, “tu é canoa”, é porque a ponta da canoa é guiada por alguém que não está na ponta, mas atrás. O falante vai usar unidades que estão dentro do seu campo lexical”, diz.

Já outras fraseologias surgem como uma forma de fugir do comum e ser original.

“Algumas fraseologias da nossa região são muito relacionadas à sexualidade. E esse caráter metafórico eu vejo como um sentido de burlar um tabu, de ser direto em uma unidade que trata desse assunto. Há formas consideradas ‘mais sensíveis’ de falar sobre o ato sexual. Mas quando o paraense usa fraseologias ao invés de dizer “fazer amor”, por exemplo, é uma forma de sair do tabu”, diz.

Dependendo da região, algumas fraseologias são mais frequentes ou recebem influências de outros estados. “Existem expressões ditas em Belém que não são frequentes no sul do Pará e vice-versa. As comunidades linguísticas se comportam de forma diferente de acordo com a localização geográfica. O território implica no falar e na valorização da língua”, diz Carlene Salvador.

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Mesmo rica na forma de se expressar, a professora explica que na região Norte ainda há uma escassez de trabalhos na área fraseológica.

“Nós queremos institucionalizar essas fraseologias, estudá-las, colocá-las em dicionários. Essas expressões são deixadas à parte, porque são consideradas apenas como gírias. E não são simplesmente gírias, são nossa cultura. O estudo que estamos fazendo não é apenas uma contribuição para a linguística, mas uma valorização cultural da parte descritiva, não só normativa. É preservação da língua, daquilo que só tem aqui, e emergiu daqui”, diz a professora.

O projeto tem três fases: coleta, análise e catalogação. E 22 municípios já tiveram o mapeamento realizado.

Confira cinco fraseologias mapeadas no projeto:

“Tá encegueirado” – Muito apaixonado, que não enxerga mais nada além da pessoa amada

“Tu é muito canoa” – Gosta de estar sempre acompanhado do parceiro, o parceiro que guia as atividades

“Bora se amigar” – Se juntar, morar juntos

“Levaram a moleca do irmão” – Traição, infidelidade

“Tu já quer” – Se interessar por algo ou alguém

*Com informações da UFRA

Focos de calor no Amazonas têm nova queda: 37,5% em maio de 2025, informa Ipaam

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Monitoramento realizado pelo Ipaam no estado registrou queda dos focos de calor. Foto: Reprodução/Arquivo Ipaam

O Amazonas registrou uma queda no número de focos de calor em maio de 2025, de acordo com o Instituto de Proteção Ambiental do estado (Ipaam). O órgão informou que, do dia 1º até 31 de maio, foram identificados 25 focos de calor, enquanto no mesmo período do ano passado haviam sido registrados 40, o que representa uma redução de 37,5%.

Focos de calor são pontos de alta temperatura em um determinado local. São detectados por satélites de monitoramento e usados para identificar possíveis queimadas ou incêndios, mas não representam necessariamente um incêndio florestal.

Leia também: Registro de desmatamento e focos de calor cai no Amazonas em março, aponta Ipaam

O número de áreas desmatadas também apresentou uma redução. No último mês, foram identificados 9.649 hectares de desmatamento, enquanto no ano anterior o total foi de 12.229 hectares, resultando em uma diminuição de 21,09%.

A coordenadora do Centro de Monitoramento Ambiental e Áreas Protegidas (CMAAP), Priscila Carvalho, ressaltou a cautela na análise dos dados sobre focos de calor e destacou a cooperação entre os entes ambientais e as Forças de Segurança

“O Ipaam monitora as áreas desmatadas e acompanha os focos de calor, colaborando com os bombeiros na atuação e prevenção. A integração entre os órgãos ambientais e as autoridades competentes é fundamental para garantir a proteção da nossa floresta e a redução desses índices”, explicou.

Dados e multas

Os municípios que lideraram os registros de focos de calor em março foram, segundo o Ipaam:

  • Manicoré: 14
  • Autazes: 3
  • Iranduba: 2

Já em relação aos municípios com as maiores áreas desmatadas foram:

  • Apuí – 4.015 hectares
  • Lábrea – 1.342 hectares
  • Novo Aripuanã – 851 hectares

O desmatamento ilegal, conforme o Decreto Federal nº 6.514/2008, pode resultar em multas de R$ 5 mil por hectare ou fração da área afetada. Esse valor pode ser dobrado em caso de uso de fogo ou incêndios ilegais. Além disso, as áreas desmatadas podem ser embargadas e os equipamentos utilizados na prática ilegal podem ser apreendidos.

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Queimadas não autorizadas em áreas agrícolas, destinadas à renovação de pastagens ou cultivo, também são passíveis de autuação, com multas de R$ 3 mil por hectare, conforme o mesmo decreto.

*Por Lucas Macedo, da Rede Amazônica AM

Os hábitos franceses em Porto Velho do início do século 20

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Avenida Sete de Setembro, seus botequins, cafés, cinema, saraus, boemia, moda, poesia e um coreto em plena via pública. Foto: Autor desconhecido/CDH-RO

Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com

Durante a Belle Époque Tropical (1871-1920), o francês era a língua da sofisticação, símbolo de cultura, arte, moda e gastronomia em todo o mundo. Em Porto Velho – assim como em Manaus e Belém –, esse refinamento europeu encontrou solo fértil, impulsionado pelo Ciclo da Borracha e a prosperidade da época, moldando costumes e comportamentos.

As mulheres adotavam vestidos ajustados com cinturas bem marcadas, mangas volumosas e adornos delicados, como rendas e bordados. O espartilho era indispensável, assim como a moda do “peignoir” e da anágua. Sombrinhas e bengalinhas complementavam os trajes femininos.

“Chegaram pelo último vapor, de Paris e Hamburgo, chapéus e enfeites os mais modernos para senhoras. Tem sempre um grande sortimento de toucas e véus para luto”. Foto: Reprodução/Acervo Alto Madeira

Já os homens preferiam vestimentas formais: calças justas, coletes, casacos refinados e “cravates”, sendo comum a venda de colarinhos avulsos. O chapéu era um item essencial para ambos os sexos, com modelos adornados para as mulheres e estilos europeus para os homens. As crianças também seguiam a tendência: os meninos vestiam fatinhos e “bonets”, enquanto as meninas ostentavam vestidos enfeitados com fitas e laços.

Essa atmosfera requintada fomentou o surgimento de modistas e alfaiates especializados em tecidos nobres. Acessórios como leques, bengalas e chapéus eram indispensáveis.

Entre ceroulas e discos para gramofone, a última moda para homens em Porto Velho. Foto: Reprodução/Acervo Alto Madeira

O estilo de vida também incluía perfumes sofisticados, cinema, instrumentos musicais e uma gastronomia refinada, elementos que promoviam uma valorização da vida e da autoestima.

Um dos reflexos desse cenário foi a loja Au bon marché, que comercializava perfumes, armarinhos e calçados. Seu nome era uma homenagem à Le Bon Marché de Paris, considerada uma das primeiras lojas de departamento do mundo e pioneira na transformação do varejo desde sua fundação em 1838. Inicialmente propriedade de Salin Bouez, a filial porto-velhense passou posteriormente para Abdon Jacob Atallah, consolidando-se como um ponto de referência na cidade.

Propaganda da época. Foto: Reprodução/Acervo Alto Madeira

Cafés à moda parisiense

O Café Central, embora administrado inicialmente por espanhóis, trazia fortes referências aos hábitos franceses e se destacava como o mais movimentado. Concorria com estabelecimentos igualmente requintados, como a Rivas – que combinava café e restaurante – e o Café Rio Branco, conhecido por suas exclusividades: sorvete, água gelada da marca Astra, proveniente de uma fonte paraense, o renomado café Moka e uma seleção de importados, incluindo avelãs, passas e outras iguarias exóticas.

Outro reduto de elegância e convívio era a Phenix, um botequim-cafeteria de origem portuguesa, que oferecia uma variedade de sabores e experiências. Seus frequentadores desfrutavam de bilhares, aperitivos finos, frios, frutas, mariscos, coalhada, queijos e requeijões mineiros, além dos irresistíveis doces de cupuaçu e araçá-do Pará. A atmosfera era enriquecida por música ao vivo todos os dias, interpretada por um terceto. O local mantinha ainda uma parceria estratégica com a empresa Fontinelle & Cia, de Manaus, que viabilizava a operação de um cinema, tornando a experiência ainda mais completa.

A elite porto-velhense também cultivava o gosto por eventos refinados. Reuniões privadas, conhecidas como soirées, eram comuns nas residências da cidade, oferecendo jantares requintados, vinhos selecionados e o popular creme de chocolate, verdadeira sensação da época. O termo francês soirée designa encontros sociais realizados à noite, onde música, dança, literatura, teatro e boas conversas fluíam naturalmente.

Além dos cafés e botequins, os bailes de máscara, à fantasia e de carnaval eram promovidos pelo Clube Internacional, celebrando o glamour e o espírito festivo da cidade. Concursos elegiam as donzelas mais belas de Porto Velho por meio de votos impressos em cupons fornecidos pelo jornal local. A música desempenhava papel fundamental nesses eventos, com a Orquestra Filarmônica de Santo Antônio marcando presença e enriquecendo as celebrações com suas apresentações memoráveis.

Esses cafés e encontros sociais não eram apenas espaços de convívio, mas verdadeiros cenários onde a sofisticação e o charme europeu se manifestavam, moldando um período de requinte e transformação cultural na nascente cidade, surgida em 1907 com a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré e instalada, oficialmente, em 1914.

A chegada das bebidas e o florescimento do cinema

A boemia porto-velhense ganhou um novo encanto em 1912 com a introdução de duas marcas genuinamente manauaras: o Chope Amazonense e a Cerva XPTO. Essas bebidas rapidamente conquistaram os paladares da cidade. O responsável por apresentar essas novidades foi Carolino Corrêa, representante vindo de Manaus, que ajudou a consolidar a cultura da cervejaria na região.

O rótulo da famosa XPTO. Abreviação de “ΧΡΙΣΤΟΣ” (Christos), que significa “Cristo” em grego. Era também uma gíria equivalente a “Ok” em Portugal. A indústria foi adquirida pela Brahma em 1972. Foto: Reprodução/Blog do Rocha

Desde 1912, Porto Velho contava com o Cine Caripuna, inicialmente chamado Lé Cinéma, fundado pela influente Família Bouez. Já em 1917, a cidade viu crescer o prestígio do Cine Phenix, que se tornou a principal casa de espetáculos e também servia como auditório para apresentações musicais.

Equipado com tecnologia da empresa francesa Pathé Fréres, adquirida pela Fontinelle & Cia, de Manaus – parceira dos Irmãos Rosa –, o local mantinha uma sofisticada cafeteria e bar ao lado. Em seus salões, os concertos ao bandolim dos músicos Hormisdas Oliveira e João Pinto da Silva, em 1917, foram recebidos com grande entusiasmo.

Os irmãos Rosa. Foto: Divulgação

O envolvimento dos Irmãos Rosa no cenário cultural de Porto Velho foi marcante. Em 1923, inauguraram o Cine-Bar Rosa, vinculado ao Café Phenix, onde arrendaram equipamentos da Fontinelle, sediada em Manaus. O avanço continuou após a Belle Époque. Em 1925 surgiu o Cine-Bar Ypiranga, que além das projeções cinematográficas, abrigou o Grêmio Dramático Pela Pátria, fomentando eventos artísticos e encontros sociais. No mesmo ano, foi fundado o Cinema Avenida, ampliando as opções de lazer na sempre festeira cidade de Porto Velho.

Sobre o autor

Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista