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Luminárias são criadas a partir de pedaços de árvores encontrados em trilhas na Serra do Tepequém

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Luminária feita com raiz de uma árvore queimada. Foto: Yara Ramalho/Rede Amazônica RR

Unir a paixão pela natureza com a arte. Esse tem sido o trabalho da guia de turismo e artista plástica Ana Karla Vieira Bastos, de 42 anos, que transforma partes de árvores recolhidas em trilhas em luminárias sustentáveis. As peças são feitas na Serra do Tepequém, a principal região turística de Roraima.

“É o que eu vivo, é a minha realidade, minha vida, minha fonte de renda, a única porque eu trabalho exclusivamente com o turismo e a arte atualmente. Hoje representa tudo na minha vida, é com amor que eu faço tudo isso”, afirmou a artista.

Localizada no município de Amajari, ao Norte do estado, a Serra do Tepequém é um dos lugares mais visitados por apresentar atrações como cachoeiras, um platô que chega a quase 1.022 m de altura e pelo clima ameno durante a noite, proporcionado pelas serras.

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A inspiração para transformar os pedaços de madeira em obras de arte surgiu depois que a guia turística começou a recolher os fragmentos de trilhas onde realiza excursões. A ideia, no início, era apenas manter os caminhos mais “limpos” e evitar que turistas se machucassem durante o percurso.

Enquanto usava uma plataforma de descoberta visual, Karla encontrou imagens de luminárias rústicas feitas em madeira. Os modelos despertaram na guia o desejo de produzir as próprias peças com o que era encontrado nas trilhas.

“Eu observei que tinham troncos que se desprendiam das árvores, caiam e poderiam machucar meus turistas. E aí eu fui tirando, fui fazendo várias coletas desses troncos e depois eu passando o Pinterest, eu fui olhando as luminárias rústicas e disse: ‘eu vou fazer então a luminária do Tepequém’ […] foi uma inspiração divina mesmo”, contou a artista em entrevista ao Grupo Rede Amazônica.

Ana Karla é guia de turismo e produz luminárias com pedaços de árvores encontrados em trilhas, em Roraima. Foto: Yara Ramalho/Rede Amazônica RR

As luminárias do Tepequém, como são chamadas, são feitas com o âmago da árvore — parte central do tronco — que se desprende da planta e cai no entorno dela, e até com raízes queimadas por incêndios florestais. As árvores não são cortadas, tudo é feito com o que a “natureza não quer mais”.

A confecção das peças é totalmente manual e dura, em média, 45 dias. Elas começaram a ser produzidas no início de 2024, com o apoio do arqueólogo Ednelson Pereira, na Casa dos Artistas em Tepequém.

A produção não envolve nenhuma alteração no formato original da madeira. Após serem recolhidos, os pedaços de madeira são higienizados e passam por um tratamento para prevenir o aparecimento de fungos e cupins.

Depois, as peças são pintadas com um verniz natural para manter a cor original da madeira. O último passo é a instalação da lâmpada amarela, também conhecida como luz quente. A ideia é aproximar a pessoa da floresta.

“Se você coloca [a luminária] num cantinho, assim, de um ambiente, o formato da árvore te remete à floresta. Então, é uma conexão, você fica zen mesmo, você relaxa com aquela luz, com aquele ambiente mais calmo. É essa sensação de relaxamento que ela causa, sabe?”, explicou Ana Karla.

Luminárias sustentáveis são feitas na Serra do Tepequém, ao Norte de Roraima. Foto: Yara Ramalho/Rede Amazônica RR

A comercialização das luminária também começou no ano passado e, desde então, mais de dez peças já foram vendidas. Os valores variam entre R$ 180 e R$ 1,5 mil, dependendo do tamanho e do tempo para a finalização da peça. “É uma peça única, exclusiva, ninguém vai ter outra peça igual a essa no mundo”, garantiu Ana Karla.

Recomeço

Natural de Fortaleza (CE), Ana Karla mora em Roraima há cerca de 20 anos. Em 2020, após enfrentar complicações da Covid-19, ela decidiu se mudar da capital Boa Vista para a Serra do Tepequém, buscando melhores condições de saúde com o contato com a natureza. Lá, ela iniciou a atuação como guia de turismo.

“Eu me mudei logo depois de um Covid grave, decidi morar na Serra e fazer meus exercícios respiratórios por lá, porque nós temos um oxigênio 100%. E aí veio a ideia de um amigo: ‘Karla, por que você não conduz? Nós temos poucas mulheres nessa área aqui no Tepequém’. E eu fui querer saber como que funcionava isso”, explicou a guia e artista plástica.

Com o incentivo do amigo, Karla começou a estudar a história da região e se formou como guia de turismo em 2024, por meio de um curso do Instituto Federal de Roraima (IFRR) que capacita moradores da Serra do Tepequém.

Luminárias e terrarios produzidos na Serra do Tepequém estão em exibição em Boa Vista. Foto: Yara Ramalho/Rede Amazônica RR

“Eu falo com paixão do Tepequém. Eu falo que o Tepequém é como um recomeço para mim. Eu me apaixonei pela fauna, pela flora, o barulho [do lugar]”, afirmou ela.

Hoje, Ana Karla se dedica exclusivamente a orientação turística e a produção de luminárias sustentáveis. De acordo com ela, o objetivo do trabalho é conscientizar as pessoas sobre a preservação da floresta.

Exposição

As obras estão em exposição no shopping do bairro Caçari, em Boa Vista, e podem ser vistas até o dia 31 de julho. Promovida por um grupo de artistas da Serra do Tepequém, a exposição busca valorizar as produções locais.

Além das luminárias, entre as obras expostas estão terrários, recipientes de vidro que abrigam diversos tipos de plantas. As peças também contém musgos e pedras encontradas na própria Serra do Tepequém, incluindo cristais.

*Por Yara Ramalho, da Rede Amazônica RR

Hanseníase: descoberta do Mycobacterium lepromatosis revisa história da doença nas Américas

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Foto: Cláudio Salgado.

Durante cinco séculos, acreditou-se que a hanseníase, popularmente conhecida por lepra, uma doença que afeta principalmente a pele, os nervos periféricos, os olhos e as vias aéreas superiores, causada pela bactéria Mycobacterium leprae, havia sido introduzida nas Américas pelos colonizadores europeus, pelos africanos tornados escravos e pelos indianos levados para as Guianas também como escravos.

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Um estudo publicado no volume 388, em maio passado, pela revista Science, no entanto, mostra que a história da hanseníase é bem diferente do que se acreditava: antes mesmo da chegada daquelas correntes migratórias, a hanseníase já estava presente nas Américas. A constatação deve-se à descoberta da presença de outra bactéria, o Mycobacterium lepromatosis, na ossada de indígenas pré-colombianos no Canadá e na Argentina. 

A descoberta foi realizada por pesquisadores da Universidade do Colorado e por cientistas de outras instituições com quem a universidade norte-americana tem parceria, como o Laboratório de Dermatologia e Imunologia da UFPA, coordenado pelo médico Claudio Guedes Salgado, professor titular do Instituto de Ciências Biológicas da UFPA, que é um dos autores do artigo. 

O grupo de cientistas já sabia, desde 2008, da existência do Mycobacterium lepromatosis, mas não havia vestígio da sua presença até então. A descoberta recente em indígenas do Canadá e da Argentina é o diferencial que possibilitou afirmar a existência da hanseníase antes mesmo da chegada dos colonizadores e povos escravizados nas Américas.

Para o cientista Claudio Salgado, é muito provável que, para além do Canadá e da Argentina, o resto do continente também tenha registro da hanseníase causada pelo Mycobacterium lepromatosis, embora nas amostras estudadas no Laboratório de Dermatologia e Imunologia da UFPA ainda não tenha sido detectada a presença desta bactéria. 

Leia também: Ação integrada visa controlar parasitoses intestinais e hanseníase no Território Yanomami

“O que se sabia, até então, é que a hanseníase era causada unicamente pela bactéria Mycobacterium leprae. A descoberta mudou a história da hanseníase. Interessa-nos saber, por exemplo, como conseguiram controlar o Mycobacterium leptomatosis? As pessoas foram isoladas? Não sabemos nada sobre os procedimentos adotados. O certo é que a bactéria desapareceu, sendo, então, substituída pelo Mycobacterium leprae”. Segundo Salgado, “é como estivéssemos olhando um telescópio focado para trás da história. Isto é uma coisa fascinante do ponto de vista da ciência, algo como olhar as estrelas para entender de onde viemos”. 

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Foto: Cláudio Salgado.

A descoberta insere o tratamento da hanseníase em uma nova dimensão.

“Estamos interessados em entender melhor como essa descoberta pode ajudar a tratar melhor os pacientes e as pessoas que poderão um dia ter a doença. Precisamos trazê-las para novos exames no laboratório para saber sobre a presença ou não dessa nova bactéria”, informa o pesquisador.

O exame para detecção do tipo de bactéria não era realizado porque os cientistas de todas as partes do mundo entendiam que o Mycobacterium leprae era a única bactéria causadora da hanseníase, com uma variação genética muito pequena. “Hoje, dispomos de técnicas moleculares, que não são complexas, tipo PCR [Reação em Cadeia da Polimerase, uma técnica laboratorial usada para amplificar regiões específicas do DNA], empregadas no diagnóstico da doença e identificação do tipo de bactéria”.

Cultivo in vitro 

Durante séculos, o mundo achava que só existia o Mycobacterium leprae como causador da hanseníase. Ela não teria mutações, ou seja, não teria gerado outras micobactérias. Uma das causas do pouco conhecimento sobre ela se deu pela dificuldade em cultivar o Mycobacterium lepra em laboratório.

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Foto: Cláudio Salgado.

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“Como a ciência não consegue cultivá-lo, estudou-se ele muito pouco”, ressalta o Dr. Claudio Salgado. 

O que os cientistas sabem da hanseníase vem da prática clínica e da imunologia, ciência que estuda o sistema imunológico, responsável pela defesa do organismo contra agentes estranhos, como vírus, bactérias e outros patógenos.

Neste sentido, de acordo com o coordenador do Laboratório de Dermatologia e Imunologia da UFPA, a hanseníase tem uma variação muito interessante do ponto de vista clínico de um paciente para o outro – alguns conseguem controlar bem a doença, outros não – o que serviu como um modelo para a imunologia. 

“A gente estudou muito a imunologia desde a década de 1950, e a bactéria foi deixada de lado, porque não conseguíamos cultivá-la, diferentemente do que ocorre com o Mycobacterium tuberculosis, o bacilo de Koch, causador da tuberculose”.

A causa da dificuldade em cultivar o Mycobacterium leprae ocorreu porque ele perdeu alguns componentes do seu maquinário genético. O laboratório da UFPA, porém, está desenvolvendo pesquisa genética com o cultivo in vitro.

“Trata-se de outra linha de pesquisa nossa. A dificuldade se dá porque a Mycobacterium leprae é uma bactéria muito lenta, ou seja, mesmo que você coloque in vitro, ela demora muito tempo para se multiplicar. Segundo a literatura, leva entre 10 e 15 dias para se multiplicar. Veja, nós estamos falando de bactéria, um organismo com capacidade de se multiplicar muito rapidamente, por minutos, segundos, dependendo do tipo de bactéria”. 

Como se trata de uma bactéria lenta, ao penetrar no organismo humano pelo nariz (a única forma de transmissão é pelo ar), ela circula na corrente sanguínea, entra no nervo periférico e fica lá de maneira quase silenciosa, multiplicando-se. Uma vez que essa multiplicação é lenta, o organismo humano vai se adaptando, então, os sintomas demoram a aparecer.

Foto: Cláudio Salgado.

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“Os sintomas demoram a aparecer, perde-se um pouco de força, há uma alteração de sensibilidade. A pessoa atingida pela hanseníase tende a associar esses sintomas a outras causas, por exemplo, à idade. Quando os sintomas se manifestam mais intensamente, o diagnóstico é mais fácil de ser feito, mas, então, já estamos diante de um problema maior”, explica Claudio Salgado.  

A hanseníase é uma doença que causa manchas, caroços ou inchaços na pele, além de perda de pelos, especialmente nas sobrancelhas. Em casos mais avançados, podem surgir feridas na pele, mutilações e lesões mais graves nos nervos, levando à fraqueza muscular e a deformidades.

Anteriormente, o paciente era submetido a um tratamento impensável hoje, como a segregação, mesmo sem consentimento, em um leprosário, tal o que existiu na Colônia do Prata, em Marituba, onde está localizado o Laboratório e a Unidade de Referência Especializada (URE) Marcello Cândia.

Leia também: Hospital Colônia de Marituba: leprosário se tornou referência no tratamento da hanseníase

Claudio Salgado, porém, entende que o isolamento continua até hoje: “Atualmente, quando há o diagnóstico, as pessoas se afastam do convívio da pessoa doente, ela fica solitária, muitas vezes perde o emprego, são coisas que ocorrem com frequência, mas que não deveriam acontecer. Quando alguém é diagnosticado com a doença, as pessoas mais próximas precisam ser submetidas ao exame de contato para saber se também estão ou não doentes”. 

O médico da UFPA alerta, ainda, para a necessidade de o pessoal especializado em hanseníase ter expertise suficiente para identificar a doença em sua forma mais precoce, antes de chegar àquele quadro mais evidente de perda de movimento e de partes do corpo.

“Precisamos identificar e tratar essas pessoas. A Biologia Molecular, uma área que envolve a genética e a bioquímica e auxilia a entender a vida em nível molecular, é a nossa grande aliada atualmente”, afirma.

A equipe liderada pelo Dr. Claudio Salgado faz visita aos pacientes em suas residências, em que colhe material e os examina regularmente.

Laboratório de Dermatologia e Imunologia

O Laboratório de Dermatologia e Imunologia da UFPA, especializado em tratamento da hanseníase, foi fundado em 2001, dentro da Ex-Colônia do Prata, em Marituba, no estado do Pará, com a finalidade de dar suporte de pesquisa à Unidade de Referência em Dermatologia Sanitária “Dr. Marcello Cândia”, mantido pela Secretaria de Saúde do Estado, em parceria com a Sociedade Pobres Servos da Divina Providência, entidade católica proprietária do prédio. 

Foto: Cláudio Salgado.

“Eu passava o dia inteiro lá, fazendo atendimento, inclusive almoçava com os padres da Sociedade. Um dia, eu falei que precisava fazer pesquisa e os irmãos disseram que havia uma casa ali perto, onde funcionou o antigo Marcello Cândia. Naquela época, eu havia submetido um projeto de pesquisa a um edital da Secretaria de Ciência e Tecnologia, do governo do estado. Então, perguntei ao diretor da Sociedade que, se meu projeto fosse aprovado, a Sociedade reformaria a casa. Ele respondeu que sim. E, de fato, ganhei o edital, eles cumpriram a promessa, a casa foi reformada e virou o laboratório no qual estamos há 24 anos”, conta o médico Claudio Guedes Salgado, que havia regressado do doutorado no Japão, em 1999, quando recebeu convite feito pelo então diretor do Marcello Cândia, Dr. Paulo Mendonça, para trabalhar no atendimento de pacientes com hanseníase naquela unidade.  

Já em 2002, após o médico ser aprovado em concurso para a UFPA, o dinheiro do projeto repassado pela Sectam foi empregado na montagem do Laboratório, no qual trabalhou nos cinco primeiros anos mediante convênio entre UFPA, UEPA, Sociedade e Sespa.

Ao final do convênio, o trabalho não parou. Atualmente, a equipe de pesquisadores do laboratório é formada por Claudio Salgado; pelos biólogos e professores efetivos da UFPA Patrícia Fagundes da Costa e Moisés Silva; pelo fisioterapeuta Josafá Barreto, da UFPA-Campus Castanhal; pelo médico Pablo Pinto, do Instituto de Ciências Médicas; e pela professora substituta Raquel Bouth. Nestes 24 anos de existência, o Laboratório de Dermatologia e Imunologia da UFPA formou mais de 20 mestres e mais de 10 doutores. 

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Atualmente, o professor Claudio Salgado faz parte do Comitê Ciências Biológicas II da Capes e foi recentemente eleito conselheiro da International Leprosy Association (ILA) para as Américas. Ele diz que o Laboratório de Dermatologia e Imunologia possui bons equipamentos e que tem, pela frente, um enorme campo aberto para pesquisas, sendo uma referência em pesquisas sobre hanseníase no Brasil.

Os estudos que estão sendo realizados sobre o Mycobacterium leprae contam com as parcerias de outros importantes laboratórios, como o Instituto Pasteur e a Universidade do Colorado, no exterior, o Departamento de Dermatologia da USP Ribeirão Preto e o Instituto Lauro de Souza Lima, em São Paulo, além do Laboratório de Genética Humana e Médica, do Instituto de Ciências Biológicas da UFPA. 

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Universidade Federal do Pará, escrito por Walter Pinto e com fotos de Cláudio Salgado

13 festivais imperdíveis para conhecer a cultura amazônica

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Festa do Guaraná em Maués. Foto: Fernando Cavalcanti/Ambev Brasil

A cultura amazônica é vasta e, apesar de ter influências de outros locais, consegue adaptá-la à sua realidade. Um exemplo disso é o volume de festivais que acontecem na região. Eles celebram características locais, colheitas, animais, manifestações típicas, entre tantas outras.

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Existem muitos festivais populares internacionalmente, como o Festival Folclórico de Parintins, no Amazonas, mas muitos outros festivais regionais revelam a grandiosidade do território amazônida. Confira alguns deles realizados no Pará e no Amazonas:

Festival Encontro das Águas – Porto de Moz (PA)

O Festival Encontro das Águas começou em julho de 2019 em Porto de Moz, no Oeste do Pará, e às margens do Rio Xingu. O evento encena o duelo entre a onça-pintada e o jacaré-açu, expressão das heranças culturais indígenas.

É realizado em julho e o evento é dividido entre os grupos que levam os nomes dos rios: Xingu e Amazonas. Cada um possui mais de 1.200 integrantes, que trabalham ao longo do ano na criação das alegorias e demais elementos ornamentais que compõem as apresentações do festival.

O “Encontro das Águas” leva ao público lendas da região através da dança, da música e da arte, dando ao público uma oportunidade para quem quer aproveitar as praias do município, apreciar a boa gastronomia e testemunhar o duelo que simboliza a beleza e a força da Amazônia paraense.

Festival Encontro das Águas. Foto: Reprodução/Equatorial Energia

Festival do Camarão – Afuá (PA) 

Veneza Marajoara, como é conhecido o município paraense de Afuá, distante aproximadamente 2 horas de lancha de Macapá (AP), realiza o Festival do Camarão há 40 anos. É realizado no fim de julho, na Quadra de Esportes Dr. Nelson Salomão, conhecida como ‘Camaródromo’.

O Festival marca uma tradição na ilha que tem como suas principais características a fartura de camarão, açaí e o seu meio de transporte: as bicicletas. Inclusive a festa começa com uma ‘biciata’ e conta com diversas atrações musicais.

Leia também: ‘Veneza marajoara’: Conheça Afuá, a cidade das bicicletas

Festival do Camarão. Foto: Reprodução/Prefeitura de Afuá

Festival dos Botos – Alter do Chão e Santarém (PA)

O Festival dos Botos, realizado em Alter do Chão (PA), é uma manifestação cultural emblemática da Amazônia. A festa reúne tradição, lendas regionais e consciência ambiental, atraindo visitantes do Brasil e do mundo para a vila conhecida por suas belezas naturais e sua rica herança cultural.

Inspirado nas lendas do boto cor-de-rosa — criatura mítica que, segundo a tradição, transforma-se em um jovem sedutor durante as noites de festa —, o evento resgata narrativas que há gerações povoam o imaginário das comunidades ribeirinhas. A festividade, que teve início como uma celebração simples entre pescadores, hoje envolve apresentações folclóricas, danças, música e encenações teatrais que exaltam a conexão entre os povos da floresta e os rios amazônicos.

Geralmente realizado em setembro, o Festival é palco de disputa entre duas agremiações principais, que representam os botos rosa e tucuxi, e que encenam com criatividade e emoção as histórias do boto e sua relação com os humanos. A celebração destaca a importância da preservação dos rios e da fauna aquática, reforçando mensagens de sustentabilidade e respeito à natureza.

Além de promover a cultura local, o festival impulsiona o turismo em Alter do Chão, contribuindo para o fortalecimento da economia ribeirinha. A iniciativa conta com apoio de autoridades locais e organizações culturais, reafirmando seu papel como um dos eventos mais importantes do calendário amazônico.

Botos Rosa e Tucuxi se enfrentam no festival. Foto: Reprodução/Prefeitura de Santarém

Festribal – Juruti (PA)

O Festribal de Juruti (PA) nasceu como uma ramificação do Festival Folclórico de Juruti. A celebração apresentava cordões de pássaros, quadrilhas, bumba-meu-boi e carimbó. Em 1993, surgiu uma dança com coreografia indígena de nome ‘Tribo Munduruku’.

Como não havia essa categoria no festival, no ano seguinte foi criado um outro grupo intitulado ‘Tribo Muirapinima’ para concorrer com os Munduruku. A primeira disputa entre as duas tribos ocorreu em 1995.

Saiba mais: Festribal: conheça festa que marca a disputa entre as tribos Munduruku e Muirapinima no Pará

O palco das apresentações do Festribal é o Tribódromo, arena onde as tribos se apresentam. No espaço, as tribos Muirapinima (vermelho e azul) e Munduruku (vermelho e amarelo) se enfrentam pela conquista de mais um título.

Festribal, no Pará. Foto: Divulgação/Agência Pará

Festival cultural dos Povos Indígenas do Alto Rio Negro (Festribal) – São Gabriel da Cachoeira (AM)

O Festribal amazonense celebra a diversidade dos povos indígenas no estado. O evento, criado em 1998, exalta a diversidade étnica indígena dos povos pertencentes à região, conhecida como ‘Cabeça do Cachorro’. Considerado a maior manifestação cultural dos povos originários da floresta, o Festival Cultural dos Povos Indígenas do Alto Rio Negro (Festribal) recebe milhares de interessados em conhecer as lendas e tradições da festividade amazônica, no município de São Gabriel da Cachoeira.

As Associações Culturais Tribo Tukano, Baré e Filhos do Rio Negro são responsáveis pelo espetáculo. Durante os dias da festa, representantes das três associações se vestem com suas cores que retratam a história e a cultura dos povos originários do Noroeste do Amazonas.

Além das apresentações culturais, o festival traz na programação atrações musicais regionais e nacionais, feira de artesanato e gastronomia.

Saiba mais: Festribal, o festival que celebra a diversidade dos povos indígenas no Amazonas

Festribal, no Amazonas. Foto: Marlon Albuquerque/Amazonastur

Leia também: Festribal: qual a diferença entre as festividades do Pará e do Amazonas que tem o mesmo nome?

Festa do Guaraná – Maués (AM)

A programação da Festa do Guaraná em Maués (AM) começa geralmente em uma quinta e termina em um sábado, em dezembro, e conta com shows musicais, danças e a escolha da Rainha do Guaraná. As atrações musicais são geralmente locais e ainda artistas reconhecidos nacionalmente.

A Festa é realizada anualmente para celebrar o ciclo de produção do fruto, que tem enorme importância econômica e cultural para o município. O cenário do evento é o cartão postal da cidade: a extensão de praia da Ponta da Maresia, na orla do município.

Festa do Guaraná em Maués. Foto: Fernando Cavalcanti/Ambev Brasil

Festival de Cirandas – Manacapuru (AM)

Realizado anualmente em Manacapuru (AM), o Festival de Cirandas é uma das maiores manifestações culturais do Amazonas. O evento acontece tradicionalmente no último fim de semana de agosto, no Parque do Ingá, reunindo milhares de pessoas em torno da tradição folclórica das cirandas — forma de dança e música típica da região amazônica.

Três agremiações participam da disputa: Flor Matizada, Guerreiros Mura e Tradicional. Em apresentações marcadas por cores, coreografias e ritmos contagiantes, os grupos competem entre si com enredos e encenações que valorizam elementos culturais, lendas e costumes da Amazônia.

Leia também: Flor Matizada, Tradicional e Guerreiros Mura: conheça o Festival de Cirandas de Manacapuru

Além de movimentar o turismo local, o Festival de Cirandas reforça a identidade cultural da cidade e destaca a importância da preservação das tradições populares.

Festival de Cirandas. Foto: Marcio James/Secretaria de Cultura e Economia Criativa AM

Festival internacional das tribos do alto solimões – Festisol – Tabatinga (AM) 

Entre o fim do mês de novembro e o início de dezembro, a cidade de Tabatinga (AM), realiza o Festival Internacional de Tribos do Alto Solimões (Festisol). O evento, que se consolidou como uma das principais celebrações culturais do município, destaca as tradições indígenas locais por meio de uma disputa simbólica entre duas representações tribais: a Onça Preta, que representa o povo Ticuna, e a Onça Pintada, que simboliza os Omágua.

Durante os quatro dias de programação, o público acompanha encenações teatrais, danças e músicas tradicionais das etnias, além de apresentações que retratam mitos, lendas e valores dos povos originários da tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru. O festival também conta com shows de artistas locais e nacionais.

Com forte presença das comunidades indígenas, o evento também contribui para o fortalecimento da identidade cultural da região e para a difusão de saberes tradicionais.

Festisol. Foto: Reprodução/2.ª Vara da Comarca de Tabatinga 

Eco-festival do Peixe-boi – Novo Airão (AM)

Realizado anualmente no último fim de semana de outubro, o Eco-Festival do Peixe-Boi movimenta o município de Novo Airão (AM) com uma programação que une cultura popular e conscientização ambiental. Conhecido também como Festival do Peixe-Boi, o evento homenageia o peixe-boi amazônico — espécie ameaçada de extinção — e reforça a importância da preservação da biodiversidade local.

A festa conta com apresentações temáticas de duas agremiações folclóricas: Peixe-Boi Anavilhanas e Peixe-Boi Jaú, que representam, respectivamente, a Estação Ecológica de Anavilhanas e o Parque Nacional do Jaú, duas das mais importantes reservas ecológicas da região. Por meio de danças, músicas e encenações, as agremiações disputam a preferência do público e jurados, promovendo a valorização da fauna e da flora amazônicas.

Além de seu caráter festivo, o festival tem forte apelo educativo e ambiental. A programação inclui oficinas, palestras e ações de sensibilização sobre conservação de espécies e práticas sustentáveis, envolvendo escolas, instituições ambientais e moradores da cidade.

Reconhecido como o maior evento ecológico do Amazonas, o Eco-Festival do Peixe-Boi foi declarado patrimônio cultural do estado pela Assembleia Legislativa do Amazonas. A celebração atrai turistas, pesquisadores e defensores do meio ambiente, transformando Novo Airão em um polo de difusão da cultura tradicional amazônica aliada à luta pela preservação da natureza.

Eco-festival do Peixe-boi. Foto: Reprodução/Prefeitura de Novo Airão

Festival do Peixe Ornamental – Barcelos (AM)

Ainda no Amazonas, outro festejo importante é o Festival do Peixe Ornamental de Barcelos (Fespob), que acontece no primeiro bimestre do ano na Arena Piabódromo. O evento celebra a cultura e a identidade do povo barcelense, com destaque para as apresentações culturais dos peixes ornamentais Acará-disco e Cardinal. 

O festival é uma festa popular que movimenta a economia local e atrai turistas, sendo considerado um importante evento para a região. Além da competição entre as agremiações, o festival conta com a participação de artesãos indígenas, shows musicais e outras atividades culturais.

Festival do Peixe Ornamental. Foto: Reprodução/Instagram-fespob

Festival Folclórico do Amazonas – Manaus (AM)

O Festival Folclórico do Amazonas, realizado em Manaus, é um dos mais tradicionais eventos culturais do estado. Ocorre anualmente, geralmente entre junho e julho, reunindo apresentações folclóricas de grupos da capital e do interior. O festival celebra a cultura popular por meio de danças típicas, como o boi-bumbá, cirandas, quadrilhas, cacetinho, tribos indígenas, entre outras manifestações.

O evento acontece tradicionalmente há anos no Centro Cultural dos Povos da Amazônia e reúne dezenas de grupos folclóricos que competem em diferentes categorias, com músicas, coreografias e fantasias elaboradas. O objetivo principal do festival é valorizar as tradições do povo amazonense, promovendo a diversidade cultural, a identidade regional e o intercâmbio entre comunidades.

Além da competição, o festival movimenta o turismo local e fortalece a economia criativa, atraindo milhares de visitantes e moradores.

Festival Folclórico do Amazonas. Foto: Aguilar Abecassis/Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa AM

Festival dos Botos – Maraã (AM)

Conhecido como ‘Princesinha Japurá’, o município de Maraã está localizado a 634 km de Manaus e se destaca pela realização do Festival dos Botos de Maraã, que acontece sempre no final do mês de Julho, levando para o remanso os Botos Tucuxi e Vermelho.

O festival teve sua primeira edição em 2006 e se tornou um importante chamativo turístico para que as pessoas conheçam as praias típicas da região que surgem com a chegada do verão e o início de seca dos rios, que inicia normalmente em julho.

Festival do Cará-roxo e Cará-branco – Caapiranga (AM) 

O Festival do Cará-roxo e Cará-branco, também conhecido como Festival dos Carás, é um evento cultural anual que acontece em Caapiranga (AM) no início de setembro. O festival celebra a cultura local e a produção agrícola, especialmente o cará-roxo e o cará-branco, com apresentações culturais e exposição de produtos regionais. 

O festival é uma manifestação da cultura popular e valoriza os produtores locais, além de fortalecer a identidade do município. O evento conta com a participação dos grupos Cará-Roxo e Cará-Branco, que representam a rivalidade cultural, mas também a união da comunidade. O festival também movimenta a economia local e impulsiona o turismo na região. 

Festival dos Carás. Foto: Reprodução/Instagram-euamo_caapiranga

Jambu e açaí chegam ao consultório dentário: pesquisas investigam efeitos terapêuticos

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Foto: Alexandre de Moraes

Jambu e açaí. Para além do consumo tradicional nos pratos típicos do paraense, esses dois ingredientes também aparecem em diversas formas: geleias, cachaças, conservas, pimentas e licores. A novidade é que ambos vêm sendo estudados para aplicações que vão além da culinária, como na área da saúde bucal. Resultado da Pós-Graduação em Odontologia, da Universidade Federal do Pará (UFPA), a tese de Brennda Lucy Freitas de Paula e a dissertação de Zuleni Alexandre da Silva utilizaram o jambu e o açaí, respectivamente, em suas pesquisas.

O uso de plantas medicinais é uma prática ancestral que vem ganhando espaço nas pesquisas científicas. Mesmo com o avanço dos medicamentos sintéticos, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 80% da população ainda recorre aos medicamentos naturais, especialmente em países em desenvolvimento. Inserida nesse cenário de valorização dos saberes tradicionais, a pesquisa de Brennda de Paula buscou uma abordagem natural para um problema comum: a sensibilidade após o clareamento dental.

Orientada pela professora Cecy Martins Silva, ela desenvolveu a tese ‘Desenvolvimento e Avaliação de um Gel Experimental de Extrato de Acmella oleracea (Jambu) sobre o Esmalte e Controle da Sensibilidade Dentária Pós-Clareamento: Um Estudo Laboratorial e Clínico‘, com o objetivo de aliviar esse desconforto e ampliar as opções terapêuticas na odontologia.

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Zuleni da Silva, por sua vez, voltou-se para outro problema frequente de saúde bucal: a periodontite, doença que tem início com um quadro de gengivite, que, se não tratada adequadamente, pode evoluir e provocar a destruição dos tecidos que sustentam os dentes, levando à perda dentária.

Com o objetivo de encontrar alternativas que complementam o tratamento convencional, Zuleni desenvolveu a dissertação ‘Avaliação Bioquímica e Morfológica do Açaí Clarificado como Tratamento Adjuvante em Modelo Experimental de Periodontite por Ligadura‘, orientada pela professora Renata Duarte de Souza Rodrigues. O estudo avaliou os efeitos bioquímicos e morfológicos do açaí clarificado como possível agente complementar no tratamento da periodontite, utilizando um modelo experimental com ratos.

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Jambu. Foto: Reprodução

Ainda não havia registro de jambu aliado à odontologia

Quem já comeu jambu se lembra bem da sensação de tremor na boca. A dormência ao mastigar a folha é conhecida por suas propriedades sensoriais específicas, que provocam um estímulo tátil diferente dos estímulos gustativos de outras ervas ou compostos naturais. Foi justamente esse efeito curioso que despertou o interesse da pesquisadora Brennda de Paula em sua tese.

“Como ele dá essa sensação anestésica, sentimos um tremor nos lábios, uma sensação de dormência na boca. As pesquisas mostram que essa sensação, na verdade, é derivada do bloqueio dos canais de sensibilidade de dor. Trata-se de um efeito neural. E esses mesmos canais estão presentes nas células do dente — no nervo dental ou na polpa dentária. Assim surgiu a ideia de utilizar esse ativo, pois, até então, não havia nada na literatura relacionando o jambu à odontologia”, explica Brennda.

Com uma proposta inédita, a construção da metodologia foi o maior desafio enfrentado pela pesquisadora. Como não havia nenhum estudo anterior que servisse de base, cada etapa precisou ser criada do zero. “O estudo foi realizado em parceria com o Centro de Valorização de Compostos Bioativos da Amazônia (CVACBA), coordenado pelo professor Hervé Rogez.

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Cada etapa foi pioneira, pois não havia nada padronizado. Não conseguimos encontrar nenhuma pesquisa que tivesse uma ‘receitinha’ para nos guiar. O mais desafiador foram as etapas que envolviam outras áreas de conhecimento. Precisei sair muito da minha zona de conforto para entender de química, de engenharia, de biotecnologia e tudo mais”.

Antes de chegar aos testes em humanos, o estudo passou por diversas fases. Inicialmente, os experimentos foram feitos utilizando células, depois, com dentes bovinos, até chegar ao ensaio clínico. Nessa etapa, foram utilizados dois tipos de gel: um placebo e outro com o extrato de jambu. Os voluntários não sabiam a que grupo pertenciam, uma estratégia adotada para garantir a imparcialidade dos resultados. O extrato utilizado era purificado, ou seja, límpido, incolor, sem odor e com alta concentração do ativo. Como ele era aplicado apenas em consultório e não apresentava características perceptíveis, os participantes não tinham como identificar qual gel estavam usando.

Apesar de o jambu já ter sido estudado para outras aplicações, na odontologia ele surge como uma possibilidade inovadora. Hoje, os tratamentos para sensibilidade pós-clareamento disponíveis não garantem 100% de alívio da dor.

“Nosso objetivo é ir além do que já existe, permitir que as pessoas possam fazer um clareamento de forma mais confortável, utilizando um gel à base de jambu. Estamos falando de fitoterápicos, que são fármacos derivados de plantas e que têm um potencial imenso”, defende a pesquisadora.

Açaí é usado como agente terapêutico para periodontite

Uma das principais formas de tratamento da periodontite é o protocolo de raspagem e alisamento radicular, o qual consiste na remoção do biofilme dental, uma camada de microrganismos que se forma sobre os dentes e está diretamente ligada ao processo inflamatório. A ideia de unir o açaí a esse tratamento surgiu como uma forma de investigar seus efeitos sobre a doença, já que o fruto apresenta propriedades antioxidantes comprovadas em diversos estudos.

Açaí. Foto: Reprodução/IDAM

De acordo com Zuleni Alexandre da Silva, já existem estudos anteriores envolvendo o açaí em outros contextos. No entanto o diferencial da sua pesquisa foi investigar o fruto como agente terapêutico após o surgimento da doença periodontal. “O primeiro estudo realizado pelo nosso grupo avaliou o uso do açaí clarificado durante a progressão da periodontite. No meu estudo, ele foi utilizado logo após o diagnóstico da doença”, explica.

A metodologia envolveu um modelo experimental com ratos, etapa essencial em pesquisas inéditas como esta, que visam abrir caminho para aplicações futuras. A indução da periodontite nos animais foi feita com a colocação de um fio de algodão entre os dentes inferiores, o qual permanecia ali por 14 dias. Nesse período, o acúmulo de biofilme gerava a inflamação necessária para o estudo.

Após a indução da doença, o tratamento experimental foi realizado ao longo de 28 dias. Apesar de não terem sido observados resultados quanto à regeneração óssea nesse período, os efeitos bioquímicos se destacaram.

“Observamos uma melhora nos parâmetros antioxidantes no sangue dos animais. Como sabemos que o desequilíbrio da bioquímica oxidativa influencia bastante no desenvolvimento dos processos inflamatórios, essa melhora significa um resultado importante. O açaí ajudou a modular esses parâmetros, contribuindo na mediação do processo inflamatório”, conta Zuleni da Silva.

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A pesquisadora reforça que, embora ainda sejam iniciais, os resultados indicam um potencial de aplicação futura em humanos, principalmente como terapia complementar no tratamento da periodontite. “Estamos planejando fazer novos estudos, avaliando um período de tratamento maior, e entender se pode haver uma resposta óssea mais significativa”, completa Zuleni.

Estudos valorizam potencial dos saberes tradicionais

Tanto o jambu quanto o açaí, tradicionalmente presentes em nossa cultura alimentar, foram explorados cientificamente como forma de potencializar tratamentos já consolidados. Mais do que contribuir de forma inovadora na área da saúde bucal, os estudos também representam uma maneira de reconhecer e valorizar o potencial da floresta e seus saberes.

A pesquisa desenvolvida por Brennda de Paula com o extrato de jambu foi um projeto pioneiro que abriu caminhos para investigações futuras. Para que o gel desenvolvido possa se tornar comercialmente viável, seja a curto ou a longo prazos, serão necessários novos testes, inclusive com um número maior de participantes e avaliações clínicas mais amplas. Porém a linha de pesquisa segue ativa com a professora Cecy Martins Silva, orientadora de Brennda, que tem aprofundado os estudos sobre o jambu em aplicações mais abrangentes na odontologia.

A investigação com o açaí não encerrou com a defesa da dissertação de Zuleni Alexandre da Silva. Mais integrantes do grupo de pesquisa aprofundam os estudos utilizando outros modelos experimentais de doenças da cavidade oral, especialmente para entender os efeitos da suplementação por períodos bastante longos. “Eu mudei a minha linha de pesquisa porque estamos desenvolvendo um novo modelo com tratamento de fotobiomodulação, uma técnica que utiliza luz para promover a cicatrização, aliviar a dor e modular a inflamação”, afirma Zuleni.

Sobre a pesquisa

A tese Desenvolvimento e Avaliação de um Gel Experimental de Extrato de Acmella oleracea (Jambu) sobre o Esmalte e Controle da Sensibilidade Dentária Pós-Clareamento: Um Estudo Laboratorial e Clínico foi desenvolvida por Brennda Lucy Freitas de Paula, no Programa de Pós-Graduação em Odontologia (PPGO/UFPA), sob orientação da professora Cecy Martins Silva, e defendida em 2024. Já a dissertação Avaliação Bioquímica e Morfológica do Açaí Clarificado como Tratamento Adjuvante em Modelo Experimental de Periodontite por Ligadura foi desenvolvida por Zuleni Alexandre da Silva, no mesmo programa de pós-graduação, com orientação da professora Renata Duarte de Souza Rodrigues, e defendida em 2024.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal Beira do Rio, da UFPA, edição 175, escrito por Evelyn Ludovina

Riscos das mudanças climáticas e da poluição por microplásticos para a saúde dos igarapés da Amazônia são analisados em pesquisa

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Foto: Viviane Firmino/Acervo pessoal

Um novo estudo realizado por cientistas da Universidade Federal do Pará (UFPA), do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) mostrou que as mudanças climáticas e a poluição por microplásticos podem afetar diretamente os processos de decomposição nos igarapés amazônicos, com possíveis consequências para a biodiversidade, para o ciclo do carbono e para a qualidade da água.

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O experimento foi realizado no Projeto Adaptações da  Biota Aquática da Amazônia (Adapta), uma iniciativa do Inpa voltada a investigar como os organismos aquáticos amazônicos respondem aos cenários de mudanças climáticas.

O estudo, publicado na revista científica Science of The Total Environment, foi conduzido em microcosmos, que são pequenos ambientes controlados em laboratório, projetados para simular as condições previstas para o clima amazônico até o final do século. Dentro dessas câmaras, os  pesquisadores controlaram temperatura e concentração de gás carbônico (CO₂) com alta precisão e também adicionaram diferentes níveis de microplásticos semelhantes aos encontrados nos rios da região.

O projeto conta com uma infraestrutura pioneira de câmaras climáticas controladas, localizadas em Manaus (AM), capazes de simular diferentes combinações de temperatura e concentração de CO₂ previstas para o futuro. Essa estrutura permite aos pesquisadores observar, em tempo real, como as espécies da região reagem  fisiológica, ecológica e comportamentalmente ao aquecimento global, contribuindo com dados fundamentais para a formulação de políticas públicas para a conservação da biodiversidade. 

“Criamos um cenário do futuro em miniatura para entender como os organismos que mantêm os igarapés funcionando vão reagir às mudanças que já estão em curso. Os fungos aquáticos são invisíveis aos nossos olhos, mas cumprem um papel central ao decompor folhas e garantir o fluxo de nutrientes nos ambientes de água doce. Sem eles, toda a cadeia alimentar pode ser impactada, incluindo os peixes e a segurança alimentar de muitas comunidades”, explica a doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ecologia (PPGECO/UFPA) Viviane Firmino, que liderou o estudo. 

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Os fungos estudados são conhecidos como fungos conidiais e desempenham um papel  importante na decomposição das folhas que caem na água provenientes da vegetação ripári,  reciclando nutrientes e sustentando a base da cadeia alimentar aquática.

Para entender como  esses organismos respondem às ameaças ambientais, os pesquisadores simularam três cenários  climáticos – o atual, de acordo com as condições ambientais que estamos vivendo no momento,  um intermediário e um mais extremo, baseados em projeções do Painel Intergovernamental  sobre Mudanças Climáticas (IPCC) – além de testarem diferentes concentrações de microplásticos. 

A pesquisa utilizou folhas de espécies de árvores típicas da floresta amazônica,  que foram submersas em água e expostas nas câmaras climatizadas. Os cientistas, então,  analisaram quantas espécies fúngicas se desenvolveram, quantos esporos foram produzidos  (indicando sua atividade reprodutiva) e qual foi a taxa de decomposição da matéria orgânica.

Por que esses fungos são importantes? 

Nos igarapés amazônicos, especialmente aqueles cercados por florestas densas, a principal fonte de alimento disponível para os organismos  aquáticos (insetos, camarões, caranguejos, peixes etc.) é a matéria orgânica que vem das folhas  que caem das árvores. No entanto a maior parte desses organismos, como os insetos aquáticos, não consegue se alimentar diretamente dessas folhas, que são difíceis de digerir por serem ricas em compostos complexos, como a lignina e a celulose. 

microplásticos
Foto: Viviane Firmino/Acervo pessoal

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É neste momento que aparecem os fungos. Eles colonizam  as folhas submersas e iniciam o processo de decomposição, quebrando a matéria orgânica em  partículas menores e mais nutritivas. Além disso, tornam as folhas mais palatáveis e acessíveis  para outros organismos, funcionando como “pré-digestores” naturais.

Sem essa atuação, o  alimento simplesmente não estaria disponível para a maioria dos seres vivos que habita esses  ecossistemas. Por isso os fungos são considerados fundamentais para o funcionamento dos  igarapés: eles conectam a floresta às cadeias alimentares aquáticas e mantêm em equilíbrio o  ciclo de nutrientes. 

Assim, os resultados do estudo chamaram atenção devido a alguns fungos desaparecerem nos cenários mais quentes ou quando foram colocados em condições com mais microplástico. Já outros fungos resistiram, e uma espécie em particular, Pestalotiopsis microspora, aumentou sua atividade, possivelmente por conseguir degradar certos tipos de plástico.

O estudo apontou, ainda, que a combinação entre aquecimento e microplásticos reduziu a eficiência da decomposição das folhas, um processo  essencial para manter a saúde dos igarapés e controlar o ciclo do carbono nesses ambientes. 

“Esse tipo de experimento ajuda a antecipar as consequências antes que elas ocorram de forma  irreversível na natureza. É como se estivéssemos testando a resiliência dos ecossistemas  amazônicos em uma cápsula do tempo. Então, é  fundamental estudar esses processos nos ambientes tropicais, porque a maior parte do que se  sabe sobre as mudanças climáticas e microplásticos ainda vem de estudos em regiões  temperadas”, destaca o professor da UFPA Leandro Juen

Mudança na cadeia alimentar 

Um alerta que o estudo traz é o potencial que condições muito drásticas têm para a redução da decomposição, o que significaria menos nutrientes disponíveis na água, menos alimentos para os organismos aquáticos e ações que resultam em mudanças em toda a cadeia alimentar, afetando desde insetos e peixes até a pesca, a segurança alimentar e o abastecimento de água das populações humanas. 

microplásticos
Pesquisa que avalia riscos das mudanças climáticas e da poluição por microplásticos para a saúde dos igarapés da Amazônia. Foto: Viviane Firmino/Acervo pessoal

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De acordo com os pesquisadores, essas mudanças na ciclagem de nutrientes ou na biodiversidade podem afetar na potabilidade da  água e, com isso, diminuir o acesso a esse recurso essencial para a sobrevivência humana. Além  disso, esse processo também influencia diretamente na liberação de gases como o CO₂ e o metano, podendo  retroalimentar o aquecimento global.

“Esses fungos são como os  recicladores do ecossistema. Quando eles não funcionam bem, o ciclo de nutrientes é  comprometido, o que pode afetar toda a vida aquática”, destaca Viviane Firmino. 

Como a maior parte dos estudos sobre aquecimento global se concentra em regiões temperadas, que  não representam a realidade amazônica de clima e de biodiversidade, “estudos como este ajudam a  preencher essa lacuna e mostram que os impactos ambientais amazônicos precisam ser  estudados na Amazônia, com sua biodiversidade.

Só conhecendo esses padrões podemos  planejar ações eficazes de mitigação e adaptação que façam sentido para a Amazônia, uma vez que as regiões temperadas têm uma biodiversidade infimamente menor e menos complexa que  a Amazônia”, completa o  professor Leandro Brasil (UFMT), um dos coautores do estudo. 

Tendo a região amazônica como centro de debate sobre as mudanças climáticas, especialmente no ano que se prepara para sediar a COP 30, os autores destacam que proteger os pequenos organismos que sustentam os ecossistemas é tão urgente quanto preservar as grandes paisagens.

Neste sentido, conhecer o que acontece nos igarapés é fundamental para entender como a floresta responde ou resiste às mudanças do planeta, uma vez que os fungos e a  biodiversidade de pequenos corpos d’água, como a dos igarapés amazônicos, são fundamentais  para a manutenção do complexo e rico sistema de drenagem da Bacia Amazônica. 

A pesquisa foi conduzida por uma equipe interdisciplinar composta por Viviane Caetano  Firmino (UFPA), Leandro Juen (UFPA), Rafael Costa Bastos (UFPA), Renato Tavares Martins (Inpa), Neusa  Hamada (Inpa), Raul Bismarck Pinedo-Garcia (Inpa), Leandro S. Brasil (UFMT), Adriana  Medeiros Oliveira (UFBA),  Natalia Natiely Barroso Mandarino (UFBA) e Giseli Gomes Barreto (UFBA), e recebeu suporte e financiamento do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio), por meio de bolsas de apoio à pesquisa no eixo temático “Mudanças climáticas e conservação da biodiversidade” da Chamada 05/2021. 

*O conteúdo foi originalmente publicado na Universidade Federal do Pará

Resíduo de andiroba tem potencial para desenvolver pesticida natural, aponta pesquisa

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Andiroba. Foto: Nailana Thiely/Acervo Uepa

Em pesquisa realizada no Programa de Pós-Graduação em Sociedade, Natureza e Desenvolvimento (PPGSND) da Universidade Federal do Pará (Ufopa), experimentos apontaram que o resíduo derivado do subproduto industrial da produção de óleo de andiroba tem importantes propriedades acaricidas, que possibilitam o combate a carrapatos.

A andiroba, cientificamente conhecida como Carapa guianensis, é uma planta amazônica cuja semente é prensada para extração de óleo, e o material que sobra depois desse processo, geralmente, é descartado.

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A pesquisa, que buscou conhecer as propriedades desse resíduo, sugere que o subproduto industrial pode ser uma alternativa viável para a formulação de agentes acaricidas naturais. Esse resultado abre possibilidades promissoras para o controle de uma espécie de carrapato (Dermacentor nitens) que infesta cavalos, e de outras espécies relacionadas.

O resultado do estudo foi publicado como artigo científico na revista Veterinary Sciences, um periódico internacional sobre ciências veterinárias. De acordo com a publicação, assinada por nove pesquisadores da Ufopa, constatou-se que o extrato de andiroba na concentração de 5% pôde matar todos os carrapatos no teste utilizado.

O texto enfatiza que “atualmente, o controle do carrapato é baseado em acaricidas químicos, geralmente em uma formulação em pó para uso tópico. No entanto, seu uso indiscriminado resulta no surgimento de linhagens de carrapatos resistentes”.

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Diante disso, a pesquisa buscou testar as atividades biológicas do resíduo de andiroba como alternativa nesse combate. Confira o artigo completo AQUI.

A pesquisa recebeu financiamento da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa), com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

*Com informações da Ufopa

Certificado pela OMS: Suriname é o primeiro país amazônico livre de malária

Foto: Reprodução/OPAS-OMS

O Suriname se tornou o primeiro país da região amazônica a receber a certificação ‘livre da malária’ da Organização Mundial da Saúde (OMS) no dia 30 de junho. Este marco histórico é resultado de quase 70 anos de compromisso do governo e do povo surinamês para eliminar a doença de suas vastas florestas tropicais e comunidades diversas.

“A OMS parabeniza o Suriname por esta conquista notável”, disse Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS. “Esta certificação é um forte endosso do princípio de que todas as pessoas, independentemente de sua nacionalidade, origem ou status migratório, merecem acesso universal ao diagnóstico e tratamento da malária. O forte compromisso do Suriname com a equidade em saúde serve de inspiração para todos os países que lutam por um futuro sem malária”.

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Com o anúncio, a OMS já certificou um total de 46 países e um território como livres da malária, incluindo 12 países na Região das Américas.

“O Suriname fez o que precisava para eliminar a malária: detectou e tratou rapidamente todos os casos para prevenir sua disseminação, por meio do engajamento com as comunidades”, afirmou Jarbas Barbosa, diretor da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), Escritório Regional da OMS para as Américas. “Esta certificação reflete anos de esforço contínuo, especialmente para alcançar áreas remotas. Significa que as gerações futuras poderão crescer livres desta doença potencialmente mortal”, acrescentou.

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A OMS certifica que um país eliminou a malária quando demonstra, além de qualquer dúvida razoável, que a cadeia de transmissão autóctone foi interrompida em todo o seu território durante pelo menos os últimos três anos.

Amar Ramadhin, ministro da Saúde do Suriname, declarou: “Estar livre da malária significa que nossa população não corre mais o risco de contrair a doença. Além disso, a eliminação da malária terá efeitos positivos em nosso setor de saúde, impulsionará a economia e melhorará o turismo”.

“Ao mesmo tempo, estamos cientes de que manter esse status exigirá vigilância contínua. Devemos continuar adotando as medidas necessárias para prevenir a reintrodução da malária. Estamos orgulhosos de que nossas comunidades estejam agora protegidas e ansiosos para receber mais visitantes em nosso belo Suriname, mantendo-nos totalmente comprometidos em salvaguardar essas conquistas obtidas com tanto esforço”.

O caminho do Suriname rumo à eliminação

Os esforços de controle da malária no Suriname começaram na década de 1950 nas áreas costeiras densamente povoadas do país e consistiam principalmente na pulverização de residências com o inseticida DDT e tratamento antimalárico. Na década de 1960, as áreas costeiras estavam livres da malária e a atenção se voltou para o interior florestal do país, lar de diversas comunidades, incluindo indígenas.

Embora a pulverização interna tenha sido bem-sucedida nas áreas costeiras, seus efeitos foram limitados no interior do país devido à predominância de construções tradicionais de estilo aberto, que oferecem pouca proteção contra mosquitos. Em 1974, o controle da malária no interior do país foi delegado ao Medische Zending, o serviço de atenção primária à saúde do Suriname, que recrutou e treinou profissionais de saúde das comunidades locais para fornecer serviços de diagnóstico e tratamento precoces.

O aumento das atividades de extração de minerais, particularmente a mineração de ouro, que frequentemente envolve viagens entre áreas endêmicas de malária, levou a um aumento nos casos, que ultrapassaram 15 mil em 2001 — a maior taxa de transmissão de malária nas Américas.

Desde 2005, graças ao apoio do Fundo Global de Combate à AIDS, Tuberculose e Malária, a capacidade de diagnóstico foi significativamente ampliada por meio de melhorias na microscopia e do uso de testes rápidos de diagnóstico, especialmente entre populações itinerantes. Tratamentos à base de artemisinina com primaquina foram introduzidos no Suriname e em países vizinhos por meio de estudos liderados pela OPAS no âmbito da Iniciativa Amazônica contra a Malária (AMI-RAVREDA), com apoio dos Estados Unidos. A prevenção também foi reforçada entre grupos de alto risco por meio da distribuição de mosquiteiros tratados com inseticida, financiados pelo Fundo Global.

Em 2006, a malária havia diminuído drasticamente entre as populações indígenas, levando o Suriname a mudar seu foco para populações itinerantes de alto risco em áreas remotas de mineração. Para alcançar esses grupos, muitos dos quais eram migrantes de países vizinhos onde a malária é endêmica, o país estabeleceu uma rede de prestadores de serviços de malária, recrutados diretamente das comunidades de mineração. Esses agentes comunitários treinados e supervisionados oferecem serviços gratuitos de diagnóstico, tratamento e prevenção da malária, desempenhando um papel vital na resolução das lacunas de acesso em regiões de difícil acesso.

O Suriname eliminou com sucesso a malária, garantindo o acesso universal ao diagnóstico e tratamento, independentemente da condição da população, mobilizando uma ampla rede de agentes comunitários de saúde e implementando a triagem da malária em todo o país, inclusive nas travessias de fronteira. O último caso de malária por Plasmodium falciparum, transmitido localmente, foi registrado em 2018, e o último caso de malária por Plasmodium vivax data de 2021.

Compromisso sustentado com a liderança e o financiamento

O governo do Suriname demonstrou um forte compromisso com a eliminação da malária, particularmente por meio do Grupo de Trabalho Nacional para a Eliminação da Malária, do Programa Contra a Malária, do Fundo para a Eliminação da Malária e da colaboração transfronteiriça com o Brasil, Guiana e Guiana Francesa. Há muitos anos, a OPAS/OMS, com o apoio do governo dos Estados Unidos, oferece cooperação técnica na campanha contra a malária no Suriname. Desde 2016, o país também participa da iniciativa Eliminação 2025, que envolve um grupo de países que, segundo a OMS, podem eliminar a malária até 2025.

O sucesso do Suriname demonstra que a eliminação da malária é possível nos ambientes complexos da Bacia Amazônica e dos países tropicais continentais. A certificação como país livre da malária é fundamental para o avanço da Iniciativa de Eliminação de Doenças da OPAS, que visa eliminar mais de 30 doenças transmissíveis nas Américas até 2030, incluindo a malária.

Certificação da OMS como país livre de malária

A decisão final sobre a concessão da certificação de país livre de malária é tomada pelo diretor-geral da OMS, com base na recomendação do Grupo Consultivo Técnico para a Eliminação e Certificação da Malária e após a validação da recomendação pelo Grupo Consultivo de Políticas Contra a Malária. Você pode encontrar mais informações sobre o processo de certificação aqui.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo OPAS/OMS

Tenreiro Aranha: conheça a história da famosa praça do Centro de Manaus

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Praça Tenreiro Aranha, em Manaus. Foto: Adneison Severiano/Acervo Rede Amazônica AM

Símbolo da memória urbana de Manaus (AM), a Praça Tenreiro Aranha atravessa mais de 170 anos de história, mudanças políticas e transformações na paisagem. Localizada no Centro Histórico da capital amazonense, ela é um reflexo vivo da evolução da cidade e da luta pela preservação do patrimônio local.

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Entre as ruas Marquês de Santa Cruz, Guilherme Moreira, Theodoro Souto e Marcílio Dias, a praça é um dos espaços públicos mais antigos da cidade, de 1845, quando o terreno foi desapropriado para dar lugar à então Praça Nova, em meio ao processo de expansão urbana de Manaus ainda na época provincial.

“A área ficava próxima à antiga ponte de madeira dos Remédios, junto à orla do Rio Negro, e suas origens estão ligadas à expansão urbana da década de 1840”, revelou o historiador Allan Carneiro ao Portal Amazônia.

Com o passar das décadas, a praça foi ganhando importância como espaço logístico e simbólico. Em 1865, foi batizada como Praça Tamandaré, em homenagem ao almirante da Marinha, e recebeu aterros, calçamento e uma rampa para facilitar o desembarque de cargas e passageiros, especialmente com o avanço do ciclo da borracha.

Entre 1873 e 1879, o calçamento foi reconstruído para atender à crescente movimentação fluvial e urbana. A urbanização mais acentuada da praça viria a partir de 1881, quando o primeiro jardim da área foi projetado pelo Dr. Turbino de Azevedo, conforme cita o pesquisador Mário Ypiranga Monteiro no livro ‘Roteiro Histórico de Manaus’.

Poucos anos depois, o superintendente municipal Coronel Adolpho Guilherme de Miranda Lisboa promoveu melhorias no espaço, reforçando seu valor como ponto de convivência da cidade.

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A estátua de Tenreiro Aranha

Tenreiro Aranha
Monumento à Província do Amazonas. Foto: Reprodução/livro ‘Roteiro Histórico de Manaus’

No início do século XX a praça assumiu seu papel mais simbólico, e em 1906 o espaço foi remodelado para receber uma estátua em homenagem a João Batista de Figueiredo Tenreiro Aranha, primeiro presidente da Província do Amazonas, oficializada pela Lei Imperial de 5 de setembro de 1850. 

Tenreiro Aranha, nascido no Pará em 1798 e falecido em 1862, foi filho do poeta Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha e um dos grandes defensores da elevação da comarca do Rio Negro à categoria de província, além de atuar na viabilização da navegação a vapor no rio Amazonas.

Segundo Ypiranga Monteiro, a estátua em bronze, que retratava o homenageado com o olhar voltado para o encontro dos rios Negro e Solimões, foi fabricada na Itália e inaugurada em 5 de setembro de 1907, durante a gestão do governador Constantino Nery e com a presença do filho do homenageado, o deputado Bento Aranha.

O monumento havia sido inicialmente reservado para a Praça 5 de Setembro (conhecida como Praça da Saudade), no entanto, foi a Praça Tamandaré que acabou acolhendo a homenagem a Tenreiro Aranha.

Com a inauguração do monumento, a praça passou por reformas no calçamento, arborização com palmeiras e figueiras, e ganhou novo prestígio público. Em 1921, por lei municipal, o espaço passou a se chamar oficialmente Praça Tenreiro Aranha.

Apesar de seu valor histórico, a praça enfrentou o abandono, e em 1932 a estátua de Tenreiro Aranha foi transferida para a Praça da Saudade, esvaziando o caráter simbólico do local. Nos anos seguintes, propostas urbanas tentaram apagar a praça do mapa. Em 1946, por exemplo, um decreto municipal chegou a autorizar a construção de um hotel no local, o que foi revertido após críticas públicas.

Durante a década de 1970, a área foi convertida em estacionamento público, o que descaracterizou completamente o espaço como jardim histórico, fato lamentado por urbanistas e historiadores.

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Feira de artesanato indígena da Praça Tenreiro Aranha. Foto: Reprodução/ Artesanato Manaus

A partir dos anos 1980, um novo capítulo começou a ser escrito e o Pavilhão Universal, antes localizado na Praça Ribeiro da Cunha, foi transferido para a Praça Tenreiro Aranha. Com ele, veio a instalação de uma feira de artesanato indígena e cabocla, o que reaproximou o espaço de sua vocação popular e praça ganhou o apelido de ‘Praça do Índio’, por abrigar vendedores, artistas e artesãos da região.

De acordo com o historiador Allan Carneiro, a estrutura do pavilhão foi restaurada em 2008 e, em 2016, seis oitizeiros [árvore conhecida como Oiti (Licania tomentosa)] foram transplantados para enriquecer o paisagismo, marcando um esforço de recuperação ambiental e estética da praça.

*Por Rebeca Almeida, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar (com informações do livro ‘Roteiro Histórico de Manaus’, de Mário Ypiranga Monteiro)

Prefeitura de Porto Velho propõe PL que multa em até R$ 10 milhões quem provocar queimadas criminosas

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Queimadas em Porto Velho. Foto: Divulgação/Prefeitura de Porto Velho

O prefeito de Porto Velho, Léo Moraes, encaminhou à Câmara de Vereadores, no dia 14 de julho, um Projeto de Lei (PL) que propõe multar em até R$ 10 milhões quem for flagrado provocando queimadas ilegais dentro do território municipal. A proposta deve ser votada nas próximas sessões plenárias.

Segundo a Lei nº 9.605, queimada criminosa é aquela realizada sem autorização ou em desacordo com as normas ambientais. Atualmente, a multa é calculada com base na proporção do terreno e, em casos de grandes danos, pode chegar a 2 mil UPFs (Unidades Padrão Fiscal), conforme o prejuízo ambiental causado.

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De acordo com o prefeito, a nova proposta que aumenta o valor da multa busca conter o avanço das queimadas, que todos os anos afetam a saúde da população e o meio ambiente da capital durante o período de estiagem.

Enquanto o texto segue em análise na Câmara, o município já vem notificando e autuando os proprietários de terrenos baldios como forma de prevenir possíveis focos de incêndio.

NASA substitui equipamento em observatório para otimizar coleta de dados no Pará

O novo equipamento instalado pela NASA vai possibilitar fazer medições noturnas. Foto: Divulgação/Ufopa

O Observatório Atmosférico da Amazônia, localizado na Fazenda Experimental da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), faz a coleta de dados sobre a radiação solar em diferentes níveis atmosféricos, visando a entender as mudanças climáticas na região. Esse processo será potencializado com a substituição de um equipamento chamado espectrômetro cimel, realizada, nesta semana, por um técnico da NASA, agência espacial dos Estados Unidos.

O equipamento faz parte da rede Aeronet, desenvolvida pela NASA, que investiga a suspensão de partículas no ar (aerossóis), como poeira, cinzas e fumaça, por exemplo. A Ufopa faz parte dessa rede por meio do Projeto Sonda, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), com quem a universidade tem parceria.

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O novo equipamento instalado vai possibilitar fazer medições noturnas, o que não ocorria com o anterior. Além de verificar a quantidade de aerossóis a partir da radiação solar, também poderá coletar informações a partir da luminosidade da Lua.

De acordo com o professor Lucas Vaz Peres, do curso de Ciências Atmosféricas da Ufopa, “ele consegue medir a quantidade de aerossóis no período noturno, o que é de grande importância, em função de que Santarém, assim como toda a região amazônica, sofre as consequências das queimadas, dos aerossóis que ficam em suspensão na atmosfera em função das queimadas, principalmente entrando agora no período seco”.

A troca do equipamento foi motivada pela preocupação com a chegada do tempo conhecido como ‘verão amazônico‘, quando há maior incidência de queimadas na região, principalmente depois dos registros feitos no ano passado, quando a região ficou encoberta por fumaça durante um grande período.

“Ano passado a gente sofreu bastante com relação a isso, então a NASA, que é a proprietária desse equipamento, que está na sua rede, na rede Aeronet, está preocupada em bem monitorar essa questão aqui na Amazônia”, enfatizou Peres.

A troca do equipamento foi feita pelo técnico da NASA, Christopher Bennett. Fotos: Divulgação/Ufopa

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Essa potencialização da coleta de dados atmosféricos no Observatório da Ufopa também ajudará nas pesquisas científicas para trabalhos de conclusão de curso na graduação, dissertações de mestrado e teses de doutorado.

A troca do equipamento foi feita pelo técnico da NASA, Christopher Bennett, acompanhado pelos professores Lucas Vaz Peres, Rodrigo da Silva e Theomar Neves, do curso de Ciências Atmosféricas do Instituto de Engenharia e Geociências (IEG) da Ufopa. A atividade também contou com o acompanhamento da estudante Nicole de Oliveira, aluna do curso e bolsista do Inpe.

*Com informações da Ufopa