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IA se torna verde: Peru desenvolverá primeiro assistente de biodiversidade

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Foto: Reprodução/Agência Andina

Em um passo na direção à inovação tecnológica aplicada à proteção da natureza, o Peru será um dos países pioneiros no desenvolvimento de um assistente de biodiversidade alimentado por inteligência artificial (IA), uma plataforma de software de ponta que promete transformar o monitoramento da biodiversidade em áreas naturais protegidas (ANPs).

A iniciativa será realizada graças a uma aliança estratégica entre a WildMon e o Serviço Nacional de Áreas Naturais Protegidas (Sernanp), pelo prêmio concedido ao Centro de Conservação e Sustentabilidade do Zoológico Nacional Smithsonian e ao Instituto de Biologia da Conservação Smithsonian como parte do ‘AI Grand Challenge for Climate and Nature‘ concedido pelo Bezos Earth Fund.

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Como parte dessa conquista global, a equipe da Sernanp participou do desenvolvimento de uma proposta expandida para a Fase II, que culminou em uma reunião de trabalho em Porto Rico, centro de operações da WildMon. Esta iniciativa busca avançar no uso de inteligência artificial para processar e analisar informações para a gestão adequada de áreas protegidas.

Um ‘Assistente de Biodiversidade’ é uma ferramenta digital inteligente que integra informações essenciais de quatro fontes principais: DNA ambiental (eDNA), armadilhas fotográficas, monitoramento acústico e dados de observação por satélite. Essa combinação permitirá a detecção de espécies, o mapeamento de ecossistemas e o monitoramento de mudanças com maior velocidade, precisão e eficiência.

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Foto: Divulgação/ Andina

Um salto tecnológico

O processamento e a análise de dados para monitorar a biodiversidade na Amazônia podem levar de quatro a seis meses. Com este novo sistema baseado em IA, esse tempo será reduzido para 30 dias, permitindo uma resposta mais rápida a ameaças ambientais, como perda de habitat, caça ilegal ou os efeitos das mudanças climáticas.

Além do seu valor tecnológico, esta ferramenta impulsionará a capacitação local, já que cientistas, guardas florestais, técnicos e jovens profissionais peruanos ganharão novas habilidades para liderar a conservação desde a base.

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Uma visão compartilhada

Este projeto representa um marco não apenas para o Peru, mas também para a comunidade global que busca soluções inovadoras para a crise climática. De acordo com o governo peruano, ser selecionado pelo Fundo representa o reconhecimento do potencial da aplicação de ciência, dados e tecnologia para proteger a vida selvagem e os ecossistemas mais valiosos do mundo.

O Sernanp possui mais de 80 protocolos de monitoramento de espécies nos PNAs administrados nacionalmente, que buscam gerar informações para o manejo da vida selvagem com espécies como o urso-de-óculos, o jacaré-branco, o peixe-boi, o galo-das-rochas, o cedro, a castanha, entre outras.

Além disso, mais de 25 áreas naturais protegidas têm seus respectivos protocolos de monitoramento de ecossistemas.

*Com informações da Agência Andina

Vitrines do turismo no Norte, Pará e Amazonas registram aumento de visitantes internacionais

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Mercado Ver-o-Peso é um dos atrativos de Belém. Foto: Bruno Cecim/Agência Pará

A região Norte do Brasil vive um momento de destaque no cenário internacional. Com a Amazônia cada vez mais no centro das atenções globais e a proximidade da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), estados como Pará e do Amazonas se consolidam como importantes vitrines do turismo sustentável brasileiro. Reflexo disso é o crescimento expressivo no número de visitantes internacionais registrado entre janeiro e maio deste ano.

De acordo com levantamento do Ministério do Turismo, em parceria com a Embratur e a Polícia Federal, o Pará recebeu 10.659 turistas estrangeiros nos cinco primeiros meses de 2025, um aumento de 27% em relação ao mesmo período de 2024, quando o estado contabilizou 8.388 visitantes. Já o Amazonas registrou 14.653 turistas internacionais, frente a 12.347 no ano anterior, o que representa um crescimento de 18,7%.

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Para o ministro do Turismo, Celso Sabino, os resultados refletem o fortalecimento da imagem do Brasil no exterior e o empenho do Governo Federal em posicionar o país como um destino de referência.

“No acumulado dos últimos dois meses, já chegamos a 4,8 milhões de visitantes internacionais, um recorde histórico. Nem quando o Brasil sediou a Copa de 2014 recebemos tantos estrangeiros. O Brasil — que tem seus atrativos divulgados pelo presidente Lula em todas as suas viagens internacionais — nunca havia ultrapassado a marca de 7 milhões de turistas em um único ano”, ressaltou Sabino.

Mercado Adolpho Lisboa em Manaus. Foto: Reprodução/Rede Amazônica AM

Os dados confirmam a boa fase do setor no país. No acumulado de janeiro a maio deste ano, o Brasil recebeu 4.887.229 visitantes internacionais, o que representa 70% da meta anual de 6,9 milhões de turistas, estabelecida no Plano Nacional de Turismo (PNT) 2024-2027.

O fortalecimento do turismo na região também é resultado de avanços regulatórios, como a aprovação da nova Lei Geral do Turismo em 2024, após mais de uma década de debates no Congresso Nacional. A legislação moderniza diretrizes, promove segurança jurídica e estimula novos investimentos, criando um ambiente mais favorável ao desenvolvimento de atividades turísticas em regiões como a Amazônia.

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COP30

A realização da COP30, em Belém, no mês de novembro, tem impulsionado a visibilidade internacional da Amazônia e contribuído diretamente para ampliar a conectividade aérea na região. Por meio de uma articulação entre o Ministério do Turismo, o setor privado e outros órgãos do governo federal, como o Ministério de Portos e Aeroportos, são fortalecidas rotas aéreas estratégicas, com foco em hubs como São Paulo e Brasília, o que facilita o acesso de turistas internacionais ao Norte do Brasil.

A companhia aérea LATAM, por exemplo, anunciou a antecipação, para agosto, da ampliação de suas operações em Belém, com aumento de 25% na oferta de assentos em comparação com o mesmo período de 2024. As principais rotas beneficiadas incluem:

• Belém–Guarulhos (SP): de 28 para 35 voos semanais
• Belém–Brasília (DF): de 10 para 14 voos semanais
• Fortaleza–Belém: de 7 para 12 voos semanais

Para o período da COP30, em novembro, a companhia ainda prevê novos voos internacionais e domésticos com foco na capital paraense, incluindo 3 voos semanais na rota Bogotá (Colômbia)–Belém e 2 voos semanais entre o Aeroporto do Galeão (RJ) e Belém. Com essas adições, a oferta total de assentos da companhia em Belém será 48% superior à registrada no mesmo mês do ano anterior.

*Com informações do Ministério do Turismo

Indígenas Munduruku buscam alternativas ao garimpo: criação de galinhas e farinha de mandioca

A proximidade com a cultura não-Indígena e a falta de alternativas econômicas fazem com que alguns jovens Mundurukus recorram ao garimpo ilegal. Foto: Júlia Mente/Greenpeace

“Vamos continuar enxugando gelo”, disse Toya Manchineri, referindo-se ao esforço do governo federal para expulsar garimpeiros ilegais de dois territórios Munduruku no Pará. Se os órgãos públicos não se mantiverem presentes após a operação, “o governo vai colocar os garimpeiros para fora e eles vão voltar”, disse à Mongabay o coordenador geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), em entrevista por telefone.

Mas a falta de vigilância territorial não é o único atrativo para os garimpeiros. Segundo líderes indígenas, a precariedade da assistência de saúde e a falta de apoio econômico também criam solo fértil para atividades ilegais, tornando os indígenas dependentes da exploração de ouro.

Para afastar de vez as comunidades do garimpo, indígenas e ONGs buscam fontes alternativas de renda nas terras Munduruku. Os projetos em andamento focam na produção de farinha de mandioca, no fortalecimento do artesanato e na criação de galinhas caipiras, uma proteína alternativa aos peixes contaminados pelo mercúrio na região. Sem projetos que gerem renda para as famílias, “tudo vai continuar do mesmo jeito”, disse João Kaba, presidente da Associação Indígena Pusuru.

Desde o início do governo Lula, em janeiro de 2023, o governo federal realizou operações para a retirada de invasores em oito territórios indígenas localizados em quatro estados, incluindo as terras indígenas Yanomami em Roraima e Arariboia no Maranhão. O caso mais recente é o da Terra Indígena Kayapó, no Pará, cuja operação teve início na primeira semana de maio. Em vários casos, as operações responderam a uma decisão do Supremo Tribunal Federal que obrigou as autoridades a protegerem essas comunidades.

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No caso do povo Munduruku, as ações se concentraram nas Terras Indígenas Sai-Cinza e Munduruku, que juntas formam uma área quase do tamanho de Alagoas onde vivem mais de 11 mil indígenas. Localizados nos municípios de Jacareacanga e Itaituba, conhecidos como o epicentro do ouro ilegal na Amazônia, esses territórios têm uma presença histórica de garimpeiros.

Quando a operação começou em novembro de 2024, as autoridades mapearam mais de 7 mil hectares de minas ilegais e 21 pistas de pouso clandestinas. Após a ofensiva policial, o número de minas ativas despencou para zero, de acordo com as autoridades. As ações das forças federais desencadearam prejuízos no valor de R$ 112,3 milhões aos garimpeiros, incluindo a aplicação de multas e apreensões e destruição de maquinário. O governo prometeu manter o patrulhamento e o monitoramento da região para evitar o retorno dos garimpeiros.

Líderes indígenas, no entanto, estão céticos quanto à eficácia dessas medidas, especialmente se não houver apoio dos órgãos públicos para oferecer novas fontes de renda às comunidades. “Os garimpeiros aliciam as lideranças em troca de combustível e cestas básicas”, disse Alessandra Korap, líder Munduruku e presidente da Associação Indígena Pariri.

“O governo simplesmente tirou o garimpo, mas não trouxe comida, agricultura familiar, saúde, educação”, disse ela à Mongabay em entrevista durante o Fórum Permanente das Nações Unidas sobre Questões Indígenas, em Nova York.

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Paulo Basta, pesquisador do principal centro federal de pesquisa em saúde do Brasil, a Fiocruz, afirma que é comum os garimpeiros presentearem lideranças com geradores de energia ou motores de barco, ou até mesmo fornecerem socorro durante emergências médicas.

“Quando a mulher do cacique está doente, o garimpeiro faz o translado até o hospital da cidade para fazer o atendimento”, disse o médico, que coordena estudos sobre contaminação por mercúrio no território Munduruku há mais de 10 anos. “O garimpo vai beneficiando algumas lideranças em detrimento da comunidade que não quer o garimpo ali, e isso gera conflitos sociais”.

A ação da força-tarefa federal nas terras indígenas Munduruku começou em novembro de 2024 e desencadeou um prejuízo de R$ 112,3 milhões aos garimpeiros. Imagem cortesia da Secretaria de Comunicação Social do governo federal.

Segundo as lideranças, a longa convivência com os não-indígenas e a proximidade com os centros urbanos também criaram novas necessidades de consumo na população Munduruku, especialmente para os mais jovens. “Os indígenas caçam e pescam, mas eles precisam comprar outras coisas porque não vivem mais como antes”, disse Kaba à Mongabay por telefone. “Eles agora caçam com espingarda, não mais com flechas. Às vezes, eles também precisam comprar arroz, óleo de soja, anzóis, malhadeira e combustível para rodar o motor do barco”.

Seis associações indígenas destacaram as mesmas preocupações em uma carta pública divulgada em dezembro de 2024. Elas exigiram um plano pós-operação e investimentos para que as regiões “abandonem o garimpo e atividades predatórias, fortalecendo alternativas socioeconômicas”.

Segundo Nilton Tubino, líder da força-tarefa federal nas terras Munduruku, uma pequena minoria das comunidades está envolvida com a mineração ilegal. Às vezes, um líder indígena cobra uma taxa para permitir que garimpeiros explorem uma área; em outras situações, os indígenas servem como mão de obra, disse ele, acrescentando que são raros os casos em que os indígenas administram uma pequena mina de ouro.

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“A mineração é um atrativo. Eles pegam um jovem [Munduruku] e pagam a ele R$ 4 mil, R$ 5 mil, R$ 6 mil por mês. Não tem outra atividade econômica que pague esse valor”, disse Tubino, destacando também “o acesso às coisas que os garimpeiros dão, como celulares, armas e bebida”.

Em comunicado à Mongabay, o Ministério dos Povos Indígenas (MPI) disse que o eixo central da desintrusão é “a garantia da continuidade do Estado nos territórios”. Segundo o ministério, a Terra Indígena Munduruku é um dos 15 territórios que receberão apoio para implantar projetos de gestão territorial e ambiental, “a fim de promover proteção territorial, soberania alimentar, geração de renda sustentável, fortalecimento institucional e preservação das culturas e tradições indígenas”.

A Terra Indígena Sai-Cinza, onde a operação também ocorreu, não faz parte do programa federal. O MPI não detalhou os projetos a serem desenvolvidos nem quando eles começarão a ser implementados. A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) não respondeu aos pedidos de informação da Mongabay.

As alternativas

Enquanto isso, organizações indígenas lutam para encontrar suas próprias soluções com o apoio da sociedade civil. As associações Pusuru e Pariri têm trabalhado para fortalecer a produção de farinha de mandioca vendida nos mercados da cidade.

As associações de indígenas Munduruku tentam encontrar alternativas ao consumo de peixe, que está contaminado por mercúrio usado no garimpo. Imagem cortesia do Coletivo Audiovisual Wakoborũn

“É um projeto no valor de R$ 45 mil para comprar equipamentos como um forno e um motorzinho para ralar a mandioca. Mas são mais de 180 aldeias e conseguimos doar só para 20 aldeias”, disse Kaba. “A gente precisa buscar mais projetos”.

Outra iniciativa é a criação de galinhas caipiras, que podem ser vendidas fora da comunidade e também servem como fonte alternativa de proteína na dieta dos indígenas. Estudos da Fiocruz mostraram que o mercúrio usado pelos garimpeiros contaminou os rios e os peixes consumidos pelo povo Munduruku; os testes mostraram níveis alarmantes da substância. “Estamos fazendo o trabalho do estado, perfurando poços, promovendo a criação de galinhas… porque a gente sabe que os peixes estão contaminados, e querem nos proibir de comer peixes”, disse Alessandra Korap.

A Associação de Mulheres Munduruku Wakoborũn também está buscando alternativas. O grupo produziu o documentário Awaydip Tip Imutaxipi (A Floresta Doente), que mostra os impactos da mineração ilegal no território. As mulheres também estão fortalecendo a Associação Poy, criada em 2022 para apoiar alternativas econômicas sustentáveis. Segundo a Wakoborũn, o grupo trabalha com a coleta e venda de óleo de copaíba, a venda de farinha de mandioca e o artesanato feito com sementes coletadas na floresta; parte dessas chamadas biojoias são vendidas em uma loja na cidade turística de Alter do Chão.

“A associação procura uma solução, como projetos de plantação, criação de galinhas e assim por diante”, disse Hidelmara Kirixi, uma das coordenadoras da Wakoborũn, em entrevista por video chamada. “Mas alguns parentes acabam sendo influenciados pelo garimpo por causa do dinheiro”.

A Associação Indígena Pusuru recebeu recursos das Nações Unidas para promover a criação de galinhas em comunidades Munduruku. Imagem cortesia da Associação Pusuru

O escritório da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre Drogas e Crime no Brasil e a Comissão Pastoral da Terra apoiam as associações indígenas com o Projeto Tapajós, criado em 2021 para prevenir que comunidades tradicionais trabalhem nos garimpos em condições análogas à escravidão. Segundo a ONU, o projeto beneficiou 190 famílias Munduruku com a implementação de aviários e casas de beneficiamento de farinha, ofereceu cursos de formação para a criação de associações voltadas para a bioeconomia e agrofloresta, além de ter apoiado a reestruturação de um centro de artesanato indígena na aldeia Praia do Índio, no centro de Itaituba.

O escritório da Organização das Nações Unidas sobre Drogas e Crime no Brasil está ajudando a fortalecer associações indígenas para que as comunidades não recorram ao garimpo ilegal. Imagem cortesia de André Picolotto/UNODC

As promessas dos créditos de carbono

O garimpo não é a única atividade que empurra os indígenas para perto de organizações criminosas que destroem suas florestas, afirmam as lideranças. Madeireiros ilegais, pecuaristas e grileiros também estão constantemente ameaçando as lideranças e invadindo territórios tradicionais na Amazônia, que virou foco do crime organizado.

“A grande maioria [dos indígenas] que se junta ao garimpo ou narcotráfico são jovens que precisam de apoio para comprar as coisas que eles querem. É muito fácil entrar nessa jogada quando te oferecem um recurso que parece muito fácil”, disse Manchineri, da Coiab. Segundo ele, a organização tem trabalhado para evitar esse tipo de recrutamento por meio do fortalecimento das associações indígenas locais e das identidades culturais e econômicas das comunidades. “O que a gente trabalha com as comunidades é que não é preciso inventar a roda. Se a comunidade trabalha com artesanato, por exemplo, então vamos fortalecer o que a comunidade já faz”.

Empresas de crédito de carbono também aumentaram o assédio aos indígenas nos últimos anos, oferecendo dinheiro para assinar contratos de longo prazo. Em troca, obtêm o direito de vender os créditos gerados a partir daquela área de floresta. No entanto, o que poderia ser uma fonte de renda sustentável, em muitos casos tem se mostrado um negócio controverso. Contratos injustos e acordos assinados às pressas, sem consultar toda a comunidade, levaram a disputas em territórios como o Kayapó e o Alto Rio Guamá, no Pará, e Parintintin, no Amazonas.

“Os governos dos estados veem o crédito de carbono como se isso fosse resolver a situação dos territórios, mas não resolve”, disse Manchineri. “É um pequeno recurso, então tem que ter várias outras iniciativas para fortalecer as ações nos territórios indígenas”.

O contrato de venda de carbono do governo do Pará foi criticado por associações indígenas e está sendo questionado pelo Ministério Público Federal. Imagem cortesia da Secretaria de Meio Ambiente do Pará.

No Pará, o governador Helder Barbalho assinou um contrato de R$ 1 bilhão para vender créditos de carbono a uma coalizão internacional dos governos dos EUA, Reino Unido e Noruega. Barbalho prometeu compartilhar parte dos lucros com as comunidades tradicionais, mas o Ministério Público Federal no Pará ingressou com uma ação para cancelar o acordo, sob o argumento de que a lei brasileira proíbe a venda antecipada de créditos e que a fixação de um preço para os créditos em contrato “pressiona o processo de aprovação do sistema e gera assédio às comunidades afetadas”.

A questão divide os líderes Munduruku. Alessandra Korap, por exemplo, denunciou consistentemente as abordagens de empresas de crédito de carbono. Em 2024, ela foi uma das signatárias de uma carta repudiando o contrato do governo do Pará: “é inaceitável que o governo do estado do Pará tome decisões sem consultar as comunidades tradicionais, que são as maiores protetoras das florestas”.

Outros líderes, no entanto, veem os créditos de carbono como uma alternativa econômica promissora. “Mais da metade dos caciques das aldeias se interessaram pelo projeto do estado do Pará”, disse Kaba, referindo-se às 180 aldeias da Associação Pusuru. “Vivemos na floresta, e os satélites mostram que a floresta está bem protegida. Mas os satélites não veem as pessoas que estão lá na floresta. E, muitas vezes, não sabem como essas pessoas estão, do que precisam, se estão comendo bem, se têm alguma renda”.

Reportagem adicional de Latoya Abulu.

Fernanda Wenzel é repórter investigativa baseada em Porto Alegre. Ex-bolsista do Pulitzer Center, ela cobre temas como grilagem de terras na Amazônia, cadeia da pecuária na Amazônia, garimpo de ouro e violações aos direitos de indígenas e quilombolas. As matérias de Wenzel foram publicadas por veículos brasileiros e internacionais como CNN, BBC, The Guardian, Folha de São Paulo e Intercept Brasil. Encontre-a no Instagram<𝕏 e Bluesky.

Karla Mendes é repórter investigativa da Mongabay no Brasil e é membro do Rainforest Investigations Network do Pulitzer Center. Ela é a primeira brasileira e latinoamericana eleita para a diretoria da Society of Environmental Journalists (SEJ), dos Estados Unidos, onde ela também foi eleita Vice-Presidenta de Diversidade, Equidade e Inclusão. Leia outras matérias publicadas por ela na Mongabay aqui. Encontre-a no InstagramLinkedInThreads𝕏 e Bluesky.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Mongabay, escrito por Fernanda Wenzel e Karla Mendes

Como mulheres indígenas de diferentes territórios lideram negócios com respeito ao meio ambiente

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Nice Tupinambá, curadora da Casa Ikeuara da Amazônia. Foto: Divulgação

Nas margens do Rio Negro, em um cenário onde a natureza dita o ritmo da vida, fica a aldeia Três Unidos, na capital do estado do Amazonas, Manaus. É nesse território que Neurilene Cruz, liderança Kambeba e chef de cozinha, não apenas serve pratos, mas tece uma história de resiliência e empreendedorismo que reverbera a sabedoria de seus antepassados.

“Mostrar o meu trabalho é mostrar a minha avó”, declara Neurilene, enquanto seus preparos, como o pane, a mojica e a pupeca, se transformam em narrativas ancestrais contadas com farinha, peixe e folha de bananeira, conexão do paladar à rica herança cultural de seu povo.

O empreendedorismo em Três Unidos vai além da culinária. Neurilene articula também a produção artesanal da comunidade. Com 26 indígenas, em sua maioria mulheres, elas transformam sementes e madeiras da floresta em biojoias e objetos que impulsionam a bioeconomia local. A comunidade conta ainda com uma pousada e um hostel. O polo construído pela comunidade é uma iniciativa coletiva, autogerida e que garante renda vital para as mulheres da aldeia, e suas famílias. “Quanto mais eu me conecto com essa realidade, com esse mercado atual, pra mim é melhor, pois é a minha cultura sendo mostrada para o mundo”.

Para a líder indígena, essa rede de produção é um testemunho da capacidade de inovar a partir de saberes milenares. Contudo, a vida na aldeia, ligada à natureza, é também uma jornada de superação diante de desafios concretos. “Hoje estou enfrentando uma cheia dentro da minha comunidade, que está chegando ao topo, com muita água. Assim como há dois anos, já perdi clientes por causa da seca severa que enfrentamos”, relata Neurilene, evidenciando como as mudanças climáticas impactam diretamente o sustento da comunidade.

Leia também: Conheça histórias inspiradoras de quatro mulheres indígenas

Neurilene Kambeba. Foto: Divulgação

Um movimento de redescoberta e afirmação

A história de Neurilene não é isolada. Em todo o Brasil, mulheres indígenas estão na linha de frente de um movimento crescente que busca conciliar a geração de renda com a valorização cultural e o respeito ao meio ambiente a partir de seus saberes ancestrais.

Em São Paulo, mulheres guarani da Terra Indígena Jaraguá desenvolvem artesanato, cosméticos naturais e alimentos tradicionais que são vendidos em feiras e espaços culturais da capital. Já na Bahia, mulheres Pataxó articulam cadeias produtivas ligadas à pesca, ao artesanato e ao turismo de base comunitária, conectando suas práticas ao fortalecimento da autonomia territorial e econômica.

É um caminho recente, e promissor, que busca atrelar a luta dos povos tradicionais a uma fonte de renda. Por outro lado, o empreendedorismo entre populações indígenas enfrenta barreiras significativas, como a ausência de capital econômico, desconfiança histórica e os conflitos com a sociedade de consumo.

Nice Tupinambá, por exemplo, é uma dessas pioneiras. Antes de suas biojoias cruzarem o Brasil como símbolos de beleza e resistência, ela ouviu as mulheres mais velhas de sua comunidade. Aprendeu que o tempo da floresta não se apressa e que as mãos que colhem também sabem criar. Hoje, suas produções, feitas com sementes e fibras da floresta, circulam em feiras e eventos em outros estados, com a estética e os valores do território Tupinambá para além da aldeia. “Nosso trabalho não é menos importante, mas precisa ser reconhecido”, cita.

Para lidar com a complexidade do mercado não-indígena, Nice fundou a Casa Ikeuara da Amazônia, em Belém (PA). O espaço físico também funciona como uma ponte de escoamento e curadoria cultural indígena. Hoje, ela atua como curadora do espaço, criado a partir da necessidade de um ponto cultural e de arte indígena na cidade. Embora seja um projeto de gestão pessoal, a iniciativa conecta diversos artistas e artesãos indígenas, oferecendo oportunidade de escoar suas produções.

“No nosso caso, estamos começando agora a lidar com economia, com empreendedorismo, mas a nossa realidade é diferente”, explica. Ela exemplifica as dificuldades enfrentadas no processo: “Tirar, por exemplo, uma peça de madeira de dentro de um território até a Casa Ikeuara da Amazônia para que ela possa ser vendida tem um custo, tem uma burocracia, tem uma dinâmica que não é a mesma de qualquer outra coisa que não seja indígena”.

Casa Ikeuara da Amazônia, em Belém. Foto: Divulgação

Na contramão da lógica de produção em massa, a multiartista e designer de origem indígena Sofia Gama aposta em criações únicas, feitas sob medida ou locadas para artistas e fotógrafos. Suas roupas e objetos não seguem coleções sazonais e têm circulação reduzida. “Acredito que a sustentabilidade é também uma recusa ao desperdício de gente, de história, de tempo”, diz.

Para ela, repensar o consumo passa por romper com os ciclos de obsolescência da moda. “Os materiais que utilizo são pautados por um tempo mais lento que o geral da indústria da moda. Gosto de dizer que é o tempo da terra”, afirma. “Acredito que a sustentabilidade é também uma recusa ao desperdício de gente, de história, de tempo”.

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Para a professora Kavita Miadaira Hamza, da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA-USP), especialista em sustentabilidade e ética em marketing, esse encontro entre ancestralidade e inovação não é acidental, mas “estrutural”. Ela aponta que “não se trata de encaixar essas iniciativas dentro do mercado como ele é, mas de transformar o próprio mercado a partir desses saberes”, indica. “Os empreendimentos indígenas oferecem lições valiosas. É inovação que nasce do respeito ao tempo da floresta”.

Bioeconomia e desafios

Na comunidade de Neurilene Cruz, em Manaus, a bioeconomia faz parte do dia a dia, mas também representa um desafio constante. A instabilidade climática, com cheias e secas severas, paralisa a produção e afasta o turismo, uma das principais fontes de renda local. “Não posso conservar meu alimento, tem que ser tudo fresquinho. Por uma parte é bom, mas por outras vezes, estrago o alimento”, lamenta Neurilene, ao apontar a falta de energia elétrica como uma barreira concreta para manter seu restaurante funcionando.

A precariedade na infraestrutura também afeta diretamente o trabalho de Nice Tupinambá. Mesmo produzindo biojoias sustentáveis, ela lida com limitações diárias que comprometem o crescimento do negócio. “Sem estrada, sem internet, sem energia, a gente não consegue expandir”, reforça. As dificuldades enfrentadas pelas mulheres também passam pela formalização dos seus negócios.

“É complicado começar quando o artesão, o artista, ainda não tem CNPJ, sabe? E às vezes mal fala o português. Escrever já é uma dificuldade, porque o português é uma língua muito difícil de se escrever”, relata Nice.

Ela destaca a importância de um diálogo mais profundo sobre os desafios enfrentados pelos povos indígenas. Para ela, ainda é necessário discutir com mais clareza o funcionamento do mercado, a participação indígena na economia, além das dimensões espirituais e culturais envolvidas. Ressalta, ainda, que muitos elementos da cultura indígena não podem ser comercializados, devido à ação predatória histórica dos não indígenas, inclusive sobre o próprio nome indígena.

Kavita reforça que “as comunidades aceitam o que a floresta oferece e comercializam o que é possível coletar, armazenar e processar.” Essa lógica, que ela chama de “empurrada pela floresta” em contraste com a lógica tradicional da “demanda de mercado”, propõe uma inversão: não é a demanda que determina a produção, mas sim a oferta consciente e sustentável do território.

Leia também: Portal Amazônia responde: qual a diferença entre economia verde e bioeconomia?

O consumidor brasileiro está mais atento. Segundo pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgada em outubro de 2024, 88% dos brasileiros afirmam adotar cinco ou mais práticas sustentáveis no dia a dia. Além disso, 85% acreditam que a indústria deve investir em soluções sustentáveis, e 66% consideram as mudanças climáticas um problema muito grave. “Plataformas precisam ser construídas, onde as organizações comunitárias indígenas possam ter contato direto com empresas compradoras”, completa Kavita.

Nice também desafia o mercado tradicional. “A gente precisa de investimento que respeite nosso tempo e nossas formas. Não adianta trazer grandes investidores se eles não entendem o valor do que a gente faz”, afirma. Em sua visão, o valor do trabalho está em respeitar os ciclos naturais e a autoria coletiva do território.

A estilista de origem indígena Sofia Gama. Foto: Divulgação

Encurtando distâncias

Com aproximadamente 2.465 quilômetros longe da floresta, em plena São Paulo, a nutricionista paraense Carol Vilanova criou a Flor de Jambu com um propósito claro: encurtar distâncias entre as comunidades indígenas produtoras da Amazônia e os mercados urbanos brasileiros. Com a própria articulação indígena, hoje, as produções impactam outros mercados e consumidores urbanos.

A ideia surgiu da própria vivência de Carol, ao se deparar com a dificuldade de encontrar alimentos básicos da sua terra natal. “Tucupi, jambu, farinha boa. Tudo parecia tão distante”, lembra. A partir desse incômodo, nasceu a proposta de um negócio que não apenas facilitasse o acesso a ingredientes da sociobiodiversidade amazônica, mas que também valorizasse quem os produz, especialmente comunidades indígenas e tradicionais.

“Ainda existe um certo desconhecimento sobre muitos ingredientes da Amazônia, ou uma visão muito exótica, que desconsidera o contexto e quem está por trás da produção”, explica Carol. Por isso, além de comercializar alimentos nativos, a empresa atua como plataforma de visibilidade para os povos da floresta, fazendo com que suas histórias acompanhem os produtos até as prateleiras das grandes cidades.

“Queremos que os produtores se vejam como protagonistas, não só como fornecedores, que se sintam valorizados, respeitados e donos da própria história”.

A atuação em rede com associações, cooperativas e empreendedores locais é parte essencial do modelo, e, segundo Carol, ganha ainda mais relevância no contexto da COP30, que será realizada em Belém. “É uma chance de mostrar pro mundo que aqui tem inovação, conhecimento tradicional, produtos incríveis e, principalmente, gente fazendo acontecer”.

COP30: disputa e protagonismo

A realização da COP30 em Belém coloca o Brasil no centro das negociações climáticas globais. Essa realidade de empreendedorismo, desafios e saberes ancestrais levanta perguntas urgentes: Quem lucra com a Amazônia? E quem realmente cuida dela?

Para as mulheres indígenas ouvidas nesta reportagem, o protagonismo só fará sentido se os povos da floresta forem ouvidos e estiverem presentes nas mesas de decisão. “Eles têm que levar pessoas que realmente vivam e que possam representar e que possam ter pessoas dizendo: ‘Eu vivi isso, eu moro dentro da Amazônia, eu moro na aldeia e vivo isso’”, afirma Neurilene. Sua defesa por representatividade não é simbólica, “é prática, urgente e real”.

A necessidade de maior inclusão dos povos indígenas, sobretudo das mulheres, também é evidenciada pelo levantamento “Sumário Executivo do Perfil Social, Racial e de Gênero das 1.100 maiores empresas do Brasil e suas ações afirmativas 2023-2024”. O estudo sobre o cenário corporativo apontou que, nos altos níveis hierárquicos das maiores empresas, o “perfil menos presente” é a mulher, negra ou indígena, com deficiência e LGBTQIA+.

Mulheres Kambeba empreenderam na gastronomia. Foto: Divulgação

As lideranças corporativas reconhecem essa baixa representatividade, atribuindo-a à ausência de programas de liderança que impulsionem esses profissionais para cargos mais estratégicos, à ausência de políticas, ações afirmativas e práticas de diversidade e inclusão, e, por vezes, à falta de qualificação profissional. Isso reforça a importância do caminho do empreendedorismo como alternativa e espaço de afirmação e autonomia para essas populações.

Sofia alerta para a distância entre o discurso institucional e a luta nos territórios. “No fundo, o desafio maior é estar em contato com a luta real acontecendo nos territórios indígenas que, muitas vezes é difícil de conciliar no mercado e afasta até mesmo outras questões de mercado que não querem se envolver nas questões mais complexas”, explica. “A bioeconomia indígena tem que ser discutida com quem realmente vive a floresta, com quem cuida dela, com quem depende dela para viver, não só com o mercado e com a indústria”, reforça Nice.

“Mostrar o meu trabalho é mostrar a minha avó”, repete Neurilene, e “com ela ecoam outras vozes, de outras florestas, outros rios, outras aldeias”.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Nonada Jornalismo, escrito por Lucas Veloso

Governo Federal anuncia investimento de R$ 32 milhões para combater incêndios na Amazônia e no Pantanal

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Objetivo, segundo o governo, é apoiar políticas públicas estruturantes e intersetoriais voltadas à mitigação dos impactos ambientais. Foto: Arthur Castro/Secom AM

O Governo Federal anunciou no dia 11 de junho o lançamento de um edital público para a prevenção e o combate dos incêndios florestais nos biomas Amazônia e Pantanal. O edital também prevê ações permanentes de educação socioambiental em territórios prioritários. O investimento é de R$ 32 milhões, com recursos do Fundo Nacional do Meio Ambiente (FNMA) e do Fundo de Defesa de Direitos Difusos (FDD), este último vinculado à Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP).

A iniciativa tem o objetivo de apoiar políticas públicas estruturantes e intersetoriais voltadas à mitigação dos impactos ambientais provocados pelas queimadas. Esses acidentes atingem com frequência comunidades tradicionais, territórios indígenas, áreas de conservação ambiental e regiões com atividades econômicas locais. O governo afirma que a medida se trata “de uma resposta do Estado brasileiro aos desafios colocados pelas mudanças climáticas e pela pressão crescente sobre os ecossistemas amazônico e pantaneiro”.

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O chamamento público, lançado pelo FNMA com apoio técnico e financeiro do FDD, destina R$ 32 milhões exclusivamente ao fortalecimento de 81 municípios situados na chamada linha de fogo da floresta. Essa região é considerada de alta incidência de focos de calor, conforme levantamento de órgãos ambientais e técnicos do Governo Federal.

A ação está centrada na implementação dos Planos Operativos Municipais de Prevenção e Combate a Incêndios Florestais (PPCIFs), conforme determina a Resolução nº 2/2020 do Comitê Nacional de Manejo Integrado do Fogo (Comif).

Os recursos poderão ser aplicados em despesas correntes e de capital, desde que não envolvam execução de obras civis. Eles podem ser usados, por exemplo, para a compra de equipamentos de proteção individual (EPIs), insumos, ferramentas e veículos leves ou adaptados ao combate a incêndios. Com esse dinheiro, também podem ser contratados serviços especializados que fortaleçam as estruturas locais de resposta. O objetivo é dar condições para que os municípios atuem de forma mais autônoma, articulada e preventiva.

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Propostas

Cada proposta apresentada deverá prever valor de R$ 800 mil a R$ 1 milhão, com prazo máximo de execução de 24 meses. A seleção é restrita aos municípios previamente listados pela articulação interministerial e que compõem o mapeamento de áreas críticas de risco de incêndios.

As inscrições devem ser feitas até 26 de julho de 2025, exclusivamente pela Plataforma Transferegov, utilizando o código do Programa 4420420250001.

Todos os projetos devem atender às normas da Portaria Conjunta MGI/MF/CGU nº 33/2023, e da Portaria Conjunta nº 28/2024, que disciplinam a transferência voluntária de recursos federais.

*Com informações da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República

Mapa Hidrogeológico é lançado em Rondônia para fortalecer gestão das águas subterrâneas

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Foto: Reprodução/SGB

O lançamento oficial do Mapa Hidrogeológico do Estado de Rondônia, realizado em 30 de maio, marcou um importante avanço para a gestão dos recursos hídricos da região, oferecendo uma base técnica e estratégica para o planejamento, proteção e uso sustentável das águas subterrâneas.

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Durante o evento, o chefe da Divisão de Hidrogeologia e Exploração (DIHEXP) do Serviço Geológico do Brasil (SGB), Valmor Freddo, apresentou as ações da sua divisão e destacou o empenho institucional no fortalecimento da gestão hídrica. Em seguida, o geólogo Thiago Feijó explicou o programa de cartografia hidrogeológica e detalhou a metodologia utilizada para elaboração do novo mapa.

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A geóloga Katarina Rempel ressaltou a importância do material para a conservação e o monitoramento dos aquíferos, fundamentais para garantir a segurança hídrica de Rondônia. Já o especialista Valdemiro Silva demonstrou o funcionamento do Sistema de Informação Geográfica (SIG) que integra o mapa, utilizando a plataforma QGIS (Quantum Geographic Information System), facilitando o acesso e a interpretação dos dados pelos usuários. O QGIS é um software de código aberto e gratuito para Sistema de Informações Geográficas (SIG). Ele é utilizado para criar, editar, visualizar, analisar e publicar informações geoespaciais.

O Mapa Hidrogeológico de Rondônia traz informações detalhadas sobre os principais aquíferos do estado, servindo como referência técnica para gestores públicos, pesquisadores, empresas e demais usuários interessados na temática da água subterrânea.

O projeto é resultado de uma articulação entre diversos órgãos e instituições, que compartilharam dados e experiências para construir uma base confiável e atualizada.

Segundo os organizadores, o evento também teve como objetivo promover a integração entre os entes federativos e estreitar os laços entre a União e o Estado de Rondônia.

“Trata-se de uma conquista coletiva, que fortalece as políticas públicas voltadas à gestão hídrica e beneficia diretamente a população rondoniense”, destacaram os participantes.

A cerimônia contou com a presença de autoridades, especialistas e representantes de instituições estaduais e federais, como a diretora de Hidrologia e Gestão Territorial (DHT) do Serviço Geológico do Brasil (SGB), Alice Castilho; a presidente da Associação Profissional dos Geólogos de Rondônia (APROGERO), Suelem Lucena; a representante da Companhia de Águas e Esgotos de Rondônia (CAERD), Mônica Cerqueira e a coordenadora de Recursos Hídricos do Estado, Daniely da Cunha.

*Com informações do SGB

Direito de brincar: como as crianças podem ter lazer ao ar livre em meio à crise climática?

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Jogar bola é uma das brincadeiras limitadas por causa do calor. Foto: Anselmo Cunha/Nonada Jornalismo

É por volta das quatro da tarde – quando o Sol baixa e o calor se torna mais suportável -, que começa a brincadeira das crianças da ocupação residencial Abrigo da Liberdade, no bairro Terra Firme, em Belém (PA). Antes disso, a ansiedade dentro das casas é perceptível a quilômetros, indício de que tem erê querendo bater o chinelo no asfalto, contar de um a trinta e prontos-ou-não-lá-vou-eu, fazer a bola entrar no gol.

Mas uma vez na rua, o calor que ainda impera na suposta hora mais fresca da tarde atrapalha o livre fluxo das brincadeiras: a disposição diminui; a umidade, aliada às altas temperaturas, aumenta a sensação térmica e prejudica a respiração. Nas cidades, a ausência de espaços verdes agrava o que o colapso ambiental trata de varrer. Fica difícil ser criança.

“A gente tinha acesso a quintais, a gente tinha acesso a rua, os bairros eram espaços de encontros, de socialização, e as crianças ocupavam esses espaços de uma forma bastante independente e autônoma, mas nas últimas décadas isso vem mudando, né, e a gente vem vendo um encolhimento dessas experiências relacionadas ao brincar”, relata a especialista em infância e natureza do Instituto Alana, Maria Isabel Barros.

No Brasil, cerca de 40 milhões de meninos e meninas (60% do total) sofrem com a exposição aos riscos climáticos e ambientais. De acordo com o relatório Crianças, adolescentes e mudanças climáticas no Brasil, da Unicef, a crise climática, refletida no calor extremo e na poluição do ar, por exemplo, impacta crianças de maneira desproporcional em virtude de suas necessidades de desenvolvimento.

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Isso ocorre por conta da “ausência da infraestrutura e dos serviços públicos necessários para a plena realização dos direitos na infância e na adolescência – escolas, serviços de saúde básica, espaços de assistência e proteção social, espaços de recreação e socialização etc. –, associada ao aumento de eventos climáticos extremos”, conforme aponta o relatório. Com as crianças mais pobres, menos protegidas pelas políticas públicas, esse cenário é ainda mais violento.

Lugares com sombra são mais difíceis de encontrar. Foto: Reprodução/Prefeitura de Belém

É preciso muita água para hidratar e saciar a sede da meninada que encontra em seus territórios áreas de recreação infantil com infinitas possibilidades. Mas água tratada, de qualidade, é algo difícil de encontrar na ocupação do Abrigo da Liberdade, a menos que se financie do próprio bolso ou se realize a fervura, prática que nem todo mundo adota.

Quando a infraestrutura urbana não ajuda

O Sarau em Movimento, coletivo itinerante de artistas que desenvolve trabalhos de Arte e Educação com crianças nas periferias de Belém há dois anos, entende bem a realidade do bairro Terra Firme. O coletivo atua através de oficinas que buscam incentivar a relação das crianças com o território através de atividades artísticas e brincadeiras na rua, como a oficina de bolhas de sabão, de pinturas de rua, graffiti, poesia, música e jogos infantis. Palhaçaria, teatro e cinema também são atividades realizadas pelo coletivo.

“Aqui é muito quente e as crianças sentem muito calor. A gente percebe que quanto mais energia elas gastam, mais água a gente tem que ter disponível”, diz Edson X, coordenador do coletivo. Na ausência de água tratada, o coletivo recorre ao dinheiro do financiamento oferecido pela Fundação Abrinq para comprar garrafas de água e garantir que a agitação da meninada, em virtude do suor, das altas temperaturas e do sufoco, seja amenizada. “O calor intenso muda o temperamento das crianças. Elas ficam mais elétricas. Tem hora que elas ficam nervosas. Tem hora que elas mudam o comportamento”, pontua.

As condições extremas ocasionadas pelo clima, que impedem cada vez mais o brincar das crianças fora de casa, são potencializadas, nas cidades, pela falta de infraestrutura urbana e ambiental. No caso do bairro Terra Firme, a preparação da cidade de Belém para a COP30 tem impactado até mesmo as condições sanitárias da comunidade.

Com o novo planejamento urbano para receber um grande fluxo de pessoas durante o evento na capital do Pará, os investimentos em infraestrutura urbana, que já eram escassos na periferia antes mesmo da conferência, se concentram na construção de novos prédios e vias e adaptação de espaços públicos. Ainda que estejam entre os grupos mais vulneráveis à crise climática, crianças e adolescentes permanecem excluídos das discussões centrais da COP30.

Crianças participam de projeto do Sarau em Movimento. Foto: Rafael da luz Serrão/Divulgação

Com as oficinas do projeto, o Sarau em Movimento promove a interação das crianças com a cidade num contexto em que a natureza, em detrimento de eventos extremos, é, por elas, vista como uma ameaça. Para Maria Isabel Barros, do Instituto Alana, essa perspectiva representa um prejuízo no desenvolvimento infantil.

“A gente evolui com o vínculo com a natureza. Quando uma criança enxerga o meio ambiente como uma ameaça à sua própria vida, é porque alguma coisa muito profunda foi rompida. Então a gente precisa restituir o direito que as crianças têm de se relacionar com a natureza a partir de uma perspectiva da esperança, da beleza, do vínculo positivo e não da ameaça”.

Maria Isabel ainda explica que, para as crianças, brincar é uma estratégia de autopreservação, o que torna o ato ainda mais necessário em tempos de desequilíbrio ambiental.

Edson detalha que a percepção das crianças sobre racismo ambiental não se dá da mesma maneira que com os adultos, estruturada. Uma das premissas do projeto é trabalhar com os pequenos sobre essa forma de discriminação de maneira lúdica, através de canções de hip-hop, desenhos e poesia. A temática é frequente nos ensaios e espetáculos do teatro de rua do coletivo com o grupo infantil Erês em Movimento. “É um teatro que aborda bastante as questões climáticas. Toco bastante nesse assunto porque aqui tem mestres e mestras de carimbó que têm umas letras incríveis abordando essas questões, como o Mestre Lourival Igarapé, com as músicas Queimadas e Pajezinho”, explica.

Tratar dessa problemática com as crianças desde cedo ajuda a deixar claro que as adversidades com as quais se deparam no território durante o lazer não são um mero acaso. “Recentemente, uma criança caiu num córrego contaminado que passa aqui na frente. Caiu de costas. No susto, abriu a boca e bebeu a água do esgoto sem querer. Foi direto pra UPA [Unidade de Pronto Atendimento]. Contraiu uma bactéria e ficou cinco dias em casa sem ir para a escola”, relata o coordenador. Segundo ele, é comum que as crianças se joguem na água contaminada para pegar uma bola que caiu, ou para tomar banho durante a cheia da maré. O córrego é um braço do Rio Tucunduba, que delimita o bairro de norte a sul e deságua no Rio Guamá.

Itinerante, o coletivo atende também crianças de outras comunidades, incluindo quilombolas e ribeirinhas, como a comunidade de Buraco Fundo, em Icoaraci (um dos oito distritos que compõem a cidade), e no Quilombo de Tomazia. Apesar das dificuldades, a brincadeira não pode parar.

Liberdade de brincar na cidade

Para Maria Isabel Barros, do Instituto Alana, “brincar é transformar um território em um espaço de segurança e de pertencimento para as crianças”. No último século, a liberdade das crianças de brincar do lado de fora de casa foi aos poucos sendo tolhida. O raio de ação dos pequenos, trecho urbano onde a criança tem autorização da família para andar sozinha, diminuiu significativamente. Um estudo realizado na Inglaterra em 2013 mostrou que, em Londres, o raio de ação de uma criança, em 1919, era de 9,6 quilômetros. Até 2007, o raio diminuiu para 300 metros. A segurança é um dos principais fatores responsáveis por essa redução, bem como a perda de espaços verdes nos centros urbanos.

“A diminuição do raio de ação de uma criança tem impactos gravíssimos em muitas dimensões. Na dimensão da independência, na dimensão da autoconfiança, na dimensão da atividade física, na dimensão da cidadania e na dimensão do pertencimento ao território. Se a gente não tem autorização para andar naquele território, ele se torna uma coisa estranha para nós”, explica Maria Isabel.

Crianças brincam capoeira no bairro Cristal, zona Sul de Porto Alegre (Foto: Renata Feztner/ A Pezito)
Remediando esse diagnóstico, o projeto A Pezito, sediado em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, estimula as crianças a circularem pelo ambiente urbano, fazendo uso de espaços propícios para exercerem o brincar e entender a cidade como um agente de transformação.

Por meio de oficinas que vão desde a coleta de dados junto aos moradores das comunidades onde atua até a intervenção urbana em espaços públicos, que buscam despertar novas apropriações e olhares sobre esses espaços, o A Pezito coloca crianças no centro dessas atividades como forma de pensar as cidades a partir delas.

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Em parceria com a Associação de Moradores Força Maior da Pedreira, do bairro Cristal, Zona Sul da cidade, o A Pezito criou o projeto Comitê das Crianças da Pedreira, bairro Vila Pedreira, através do programa Projetos Coletivos, da Fundação Abrinq. O projeto fomenta o protagonismo de crianças nas questões que afetam o seu desenvolvimento e bem-estar em seus territórios, “criando ambientes seguros e inclusivos a partir do brincar, da natureza e do território, reconhecendo-as como cidadãs do presente”.

Mario Prati, arquiteto responsável pelo projeto, conta que a comunidade da Vila existe há mais de quarenta anos e nunca teve um espaço planejado para o uso das crianças. “São gerações que não têm esse brincar. Brincavam na rua, e na rua passa moto, às vezes a rua é estreita”, comenta. Para ele, essa realidade explicita as muitas questões ligadas a compreensão do que é um espaço comum de brincar, além das implicações ambientais que a existência desses espaços suscita. “São espaços que podem ser pensados através desse olhar de cuidado com a natureza, cuidado com o meio ambiente e o espaço que elas [as crianças] estão vivendo ali.”

A partir disso, o projeto desenvolveu atividades com o objetivo de fortalecer os laços das crianças com o território e criar novos vínculos a partir do brincar. Algumas dessas atividades consistiram no livre caminhar pelas dependências da comunidade; na aproximação e promoção da identificação das crianças com personalidades do bairro; na ampliação do repertório das crianças sobre o próprio território, reforçando noções de territorialização, paisagens, história e arte; e na ativação e consolidação de um espaço para brincadeiras. A avaliação do uso e do rendimento do espaço também foi uma atividade que contou com a participação das crianças.

Com a escolha do espaço, próximo de uma grande rocha onde está gravada a frase “Respeite os moradores da Vila Pedreira”, e sua posterior ativação, as crianças possibilitaram a manutenção do lugar de maneira orgânica. Antes, para impedir a degradação do lugar, era necessário o uso de trabalho para que se mantivesse o espaço em ordem. Hoje, o espaço se conserva por meio da presença constante da criançada, que brinca e interage com o ambiente, descobrindo a si mesma e o próprio território nesse processo.

Crianças brincando na rua. Foto: Renata Fetzner/A Pezito

Parques naturalizados como uma solução

Num contexto em que o espaço urbano possui cada vez menos espaços verdes em virtude da priorização por áreas de concreto, o Instituto Alana, pensando na importância desses espaços para o desenvolvimento infantil, propôs um guia para gestores públicos para a implementação de parques naturalizados para o brincar. Se trata de paisagens para o brincar constituídas por elementos naturais e culturais. “Esses parques são uma resposta urgente para devolver às crianças o direito às cidades, à conexão com a natureza e oportunizar a experiência do corpo ao ar livre como fonte de saúde, aprendizagem e lazer”, diz o instituto.

O guia é embasado em estudos que indicam os benefícios da natureza para o desenvolvimento integral de crianças e adolescentes, destacando a necessidade de infâncias sem paredes e da superação dos impactos da desconexão crescente das crianças com o mundo natural. Além da promoção do desenvolvimento psicomotor das crianças, a criação de parques naturalizados também contribui com a “melhoria do microclima da cidade, com o aumento da biodiversidade urbana e com a valorização das culturas das infâncias e dos territórios, indo no sentido oposto dos desbalanços climáticos promovidos pela construção de prédios e estacionamentos.

Outros benefícios para as múltiplas infâncias com a implementação dos parques, segundo o instituto, é a capacidade dos espaços de refletir e dar luz a elementos culturais relevantes para as infâncias e territórios; a sensibilização da criança com a flora e com a fauna características de sua região; e o favorecimento da integração entre cultura e natureza, ao incluir elementos da cultura das infâncias de cada território nos brinquedos e mobiliários.

Maria Isabel Barros acredita que brincar é algo regenerativo, momento em que o corpo assume protagonismo para que seja preparado o terreno onde irão fluir noções de cidadania, autonomia e comunicação. “As crianças se relacionam com o mundo por meio do brincar. Não tem outra forma. Não é por meio da cabeça, de maneira cognitiva. É através do corpo”. Uma cidade que possibilita esse ato nesse estágio da vida é uma cidade aliada ao meio ambiente e, portanto, mais feliz.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Nonada Jornalismo, escrito por Alexandre Briozo Filho

Ednelza Sahdo foi a única mulher a ocupar o ‘Item 1’ no Festival Folclórico de Parintins 

Ednelza Sahdo. Foto: Clarissa Bacellar/Portal Amazônia

O ‘item 1’ do Festival Folclórico de Parintins, denominado de ‘apresentador‘, é o cargo responsável por guiar a apresentação de sua associação, introduzindo e contextualizando os itens no enredo proposto pelo boi-bumbá, com carisma, domínio e uma dicção clara, para que o público entenda a execução do tema na arena.

O cargo de apresentador nos bois bumbás do Festival de Parintins, Caprichoso e Garantido, é um papel tradicionalmente desempenhado normalmente por homens, mas foi em 1986 que Ednelza Sahdo mudou esse cenário.

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Ednelza foi uma atriz, cantora e diretora, que ficou eternizada como a ‘Dama do Teatro Amazonense’, tornando-se referência e um símbolo da cultura no Amazonas.

Mas muito além do teatro e até mesmo do Carnaval, Ednelza protagonizou um dos maiores atos de inovação do boi Caprichoso. No ano de 1986 ela estreou como apresentadora, o item 1, na arena dos bumbás, solidificando a presença feminina no boi da estrela azul.

Segundo Adailson Veiga, escritor da biografia da artista, ‘Ednelza Sahdo – a dama do teatro, do carnaval e da cultura amazonense‘, a artista se interessou pela cultura popular por causa de seu pai, Faiez Isaac Sahdo, que, além de responsável pela iluminação do Estádio General Osório, em Manaus, também fazia parte da ala musical de diversas ‘tribos’ que se apresentavam no Festival Folclórico do Amazonas, do qual a artista também fez parte.

Leia também: Escritor amazonense produz biografia da artista Ednelza Sahdo

Ednelza Sahdo em Parintins. Foto: Reprodução/ Livro Ednelza Sahdo- A dama do Teatro, do Carnaval e da Cultura Amazonense.

Com uma participação emblemática, Ednelza Sahdo não se limitou apenas à apresentação, e se envolveu na organização e roteirização das três noites do festival.

Veiga registra na biografia que foi Zezito Assayag, diretor do Caprichoso naquele ano, o responsável pela participação de Ednelza.

“O responsável por esse feito genial foi o saudoso Zezito Assayag, que fazia parte da diretoria do Boi Caprichoso e teve a brilhante ideia de convidar a artista para, insolitamente, compor o importante quesito ‘apresentador'”, afirma.

Zezito repetiu o convite no ano seguinte, em 1987, porém Ednelza ficou impossibilitada devido aos conflitos de agenda.

Leia mais: Ednelza Sahdo, a história da grande dama do teatro amazonense

*Por Rebeca Almeida, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar

Iphan prepara escuta social sobre Teatros da Amazônia em processo de reconhecimento internacional

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Foto: Divulgação/Iphan

As Superintendências do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no Pará e no Amazonas estão organizando uma série de oficinas de escuta social com a população como parte do processo de candidatura dos Teatros da Amazônia – o Theatro da Paz, em Belém (PA), e o Teatro Amazonas, em Manaus (AM) – a Patrimônio Mundial Cultural, título concedido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco). A ação marca uma etapa fundamental no processo, que exige a participação ativa da sociedade.

Leia também: Teatros da Amazônia avançam na candidatura a Patrimônios Mundiais da Unesco

“Todo o processo de reconhecimento desses teatros como patrimônio mundial exige a escuta da sociedade. E chegou o momento de ouvir a população diretamente”, explica a superintendente do Iphan no Pará, Cristina Vasconcelos.

Embora a data exata ainda esteja em definição, as oficinas já estão sendo planejadas com participação das secretarias de Cultura estaduais e municipais envolvidas, reunidas recentemente em uma reunião especial para alinhar os detalhes da mobilização.

Teatro Amazonas. Foto: Divulgação/Arquivo Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Amazonas

O formato previsto para as oficinas contempla um dia inteiro de escuta, focado nos pontos centrais relacionados aos dois teatros. A convocação para participação será feita via formulário online, que será disponibilizado no portal do Iphan e das secretarias envolvidas na candidatura.

As contribuições coletadas nas oficinas serão essenciais para a construção do roteiro da vistoria que será realizada por uma consultora da Unesco, que visitará os Teatros da Amazônia no segundo semestre de 2025. A escuta social garantirá que as vozes locais estejam refletidas no processo e nas diretrizes de preservação e valorização desses espaços.

Theatro da Paz. Foto: Maycon Nunes/Agência Pará

O reconhecimento internacional dos Teatros da Amazônia representa não apenas um marco simbólico, mas também um passo importante para o fortalecimento das políticas públicas voltadas à cultura e à memória da região.

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Patrimônio Mundial Cultural

A candidatura foi oficialmente apresentada em janeiro de 2025 à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), por meio de um dossiê elaborado pelo Iphan, em parceria com o Ministério da Cultura (MinC), o Ministério das Relações Exteriores (MRE), e as secretarias de Cultura do Pará, do Amazonas e das prefeituras de Belém e Manaus.

O processo está em fase de avaliação e seguirá até julho de 2026, quando será julgado na 48ª sessão do Comitê do Patrimônio Mundial. Até lá, estão previstas diversas ações, incluindo a visita técnica de representante do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (Icomos), entidade ligada à Unesco, que avaliará in loco os teatros no segundo semestre de 2025.

Saiba mais detalhes clicando aqui.

*Com informações do IPHAN

SUS na Floresta beneficiará mais de 6 mil pessoas no Amazonas com telessaúde

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Foto: Orlando Jr.

Em junho, quando o mundo celebra o Dia Mundial do Meio Ambiente, no dia 5, o lançamento do projeto SUS na Floresta reforça a urgência de integrar saúde pública e conservação ambiental na região mais biodiversa do planeta. O projeto é executado pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS) com parceria do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Fundo Vale e Umane, e gestão parceira do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS).

A iniciativa vai levar acesso qualificado à Atenção Básica de Saúde para comunidades remotas no interior do Amazonas, com soluções sustentáveis e tecnológicas ajustadas aos preceitos do Sistema Único de Saúde (SUS).

Leia também: Governo quer conectar todas Unidades de Saúde Indígena até 2026

Por meio da construção de cinco pontos de apoio à saúde e a assessoria técnica para o desenvolvimento da Saúde Digital nos municípios parceiros, fortalecendo a oferta de teleatendimentos integrados ao SUS, o projeto atenderá diretamente mais de 6.700 pessoas nos municípios de Carauari, Itapiranga, Novo Aripuanã, Eirunepé e Uarini, beneficiando principalmente moradores das Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Uacari, Juma, Mamirauá e Uatumã, e Reserva Extrativista (Resex) Rio Gregório – territórios onde floresta em pé e vida saudável devem caminhar juntas.

“O SUS na Floresta é mais do que um projeto. É uma proposta concreta de como levar saúde de qualidade a quem vive nos lugares mais remotos da Amazônia profunda, com tecnologia, inovação e escuta ativa das comunidades. É um modelo com alto potencial de replicabilidade em outras regiões da Amazônia Legal”, destaca Valcléia Lima, superintendente de Desenvolvimento Sustentável de Comunidades da FAS.

Saúde como ferramenta de justiça socioambiental

O projeto nasce em um contexto preocupante: a precariedade e a falta de acesso aos serviços de saúde em áreas rurais e ribeirinhas da Região Norte. Segundo dados oficiais, há menos de 11 médicos para cada 10 mil habitantes na região, número bem abaixo da média nacional. Ao mesmo tempo, são esses territórios que mantêm a floresta preservada e contribuem diretamente para o equilíbrio climático do planeta.

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Fortalecer o SUS nesses locais significa não apenas cuidar de pessoas, mas também proteger os guardiões da floresta e valorizar modos de vida sustentáveis. A proposta articula atendimento presencial com telessaúde, por meio de tecnologia de ponta, capacitação de profissionais locais e construção de estruturas físicas.

O líder comunitário da comunidade Ubim, localizada na Resex Rio Gregório, em Eirunepé, Francisco Erly, de 24 anos, celebra a chegada do projeto:

“Vai ser ótimo, porque vai facilitar muito, porque muitas vezes têm consultas que dá pra fazer aqui [na comunidade]. Quando a gente precisa de acesso ao médico, a gente se desloca da comunidade para a cidade. [Agora,] com um ponto de telessaúde para nós vai melhorar bastante”. 

Além da infraestrutura e do suporte tecnológico, o projeto oferece apoio técnico para gestão de telessaúde e ações de educação permanente para profissionais de saúde, visando à sustentabilidade das ações pelos próprios municípios após o término do projeto.

Os atendimentos serão realizados por profissionais vinculados às Secretarias Municipais de Saúde, integrados à estratégia nacional de Saúde da Família. Isso garante que os novos polos de saúde estejam inseridos na lógica de territorialização do cuidado — fortalecendo vínculos, respeitando saberes tradicionais e promovendo saúde com base na realidade de cada território.

*Com informações da FAS