O fortalecimento dos pequenos negócios transforma a vida de milhares de famílias boa-vistenses. Foto: Diane Sampaio/PMBV
A Agência Municipal de Empreendedorismo (AME BV) atingiu a marca de R$ 8 milhões investidos no fortalecimento de pequenos negócios na capital e 2.089 empreendedores beneficiados. O reflexo desse cenário é sentido não apenas nos números, mas também na vida de milhares de famílias boa-vistenses.
Para se ter uma ideia, dos empreendedores atendidos pela Prefeitura de Boa Vista desde 2022, 44 são da área rural e 109 de comunidades indígenas. As mulheres são maioria: 1.550 empreendedoras, representando 74,2% e 539 homens, atingindo 25,8% do público.
Segundo a diretora-presidente da AME BV, Luciana Surita, a agência não oferece apenas uma linha de crédito, mas uma ponte para a realização de sonhos e autonomia financeira.
“Nosso papel é garantir apoio, capacitação e acompanhamento, para que esses pequenos negócios possam crescer com segurança”, explicou.
As mulheres representam 74,2% do público da AME BV. Foto: Diane Sampaio/PMBV
Empreendedorismo em alta em Boa Vista: os bairros e setores que mais se destacam
Boa Vista segue mostrando sua força no empreendedorismo local, com alguns bairros se destacando pelo número de beneficiários. Cidade Satélite lidera, com 144 empreendedores, seguido pelo Centro (121) e Senador Hélio Campos (110). Os bairros Asa Branca e Dr. Silvio Botelho também aparecem com 56 e 38 beneficiários, respectivamente.
Dentre os setores mais promissores, vestuário e moda estão no topo com 406 negócios ativos, demonstrando grande potencial criativo e comercial. Logo atrás vem o ramo de alimentação, com 399 empreendimentos, provando que o sabor local também é um forte motor da economia. O setor de saúde e beleza mostra sua relevância com 383 negócios, seguido por artesanato (115) e agro (85), que reforçam a diversidade do empreendedorismo na capital.
Cleuciane transformou a panelada em seu negócio de sucesso. Foto: Diane Sampaio/PMBV
Negócios de sucesso
Cleuciane da Silva e Silva, de 36 anos, viu na tradicional panelada a oportunidade de empreender e ajudar nas despesas da família. “Eu queria algo que fosse meu, para não depender só do meu marido e da distribuidora de bebidas que a gente já tinha. Aí pensei: ‘quem bebe, acorda de ressaca. Nada melhor que uma panelada’”, brincou.
Ela começou vendendo só aos sábados, no seu estabelecimento localizado na rua Rio Apiaú, no bairro Professora Araceli Souto Maior, mas hoje já atende também às sextas e domingos. Os pratos variam de R$ 22 a R$ 35. O impulso para crescer veio com o apoio da Agência Municipal de Empreendedorismo.
“As pessoas começaram a comer panelada, gostar e indicar. Fui lá na AME, me cadastrei e consegui um crédito de R$ 3 mil, que usei para ampliar meu espaço, com cozinha. O recurso me ajudou muito”, diz Cleuciane, que hoje participa ativamente dos eventos e ações promovidas pela agência.
Natália Fuhrmann, empreendedora e beneficiária da AME BV desde maio de 2025. Foto: Giovani Oliveira/PMBV
Empreendedora aposta em cookies estilo “Nova York” com sabores amazônicos e impulsiona negócio com apoio da AME
A jovem Natália Fuhrmann, de 26 anos, decidiu transformar uma paixão em negócio ao investir em um tipo diferenciado de cookie. Ao buscar um segmento para empreender, ela encontrou nos cookies altos, macios por dentro e crocantes por fora uma oportunidade de trazer algo novo para o mercado local.
Além do cookie tradicional, apostou em sabores com identidade regional. Um dos destaques é o cookie de tucupi preto com cumaru e castanha de caju, servido com sorvete de cupuaçu e finalizado com tucupi apimentado. A receita inusitada conquistou o público e tem se destacado pelas combinações autênticas da Amazônia.
Atualmente, o negócio funciona por delivery, com pedidos feitos via WhatsApp disponível nas redes sociais. Os cookies variam de R$ 10 (tradicional) a R$ 22 (recheado). Para impulsionar o projeto, ela contou com o apoio da AME BV, onde teve acesso a orientação técnica, capacitações e crédito facilitado.
“A AME foi essencial. Conheci pelas redes sociais e, desde o início, tive apoio para entender melhor como montar meu negócio. Além disso, com o fomento, consegui adquirir um forno industrial, que elevou a qualidade dos produtos e o padrão da produção”, disse.
O combate ao tráfico de vida silvestre ainda é um tema de pouca eficiência na Amazônia. Quem defende essa perspectiva é Antônio Carvalho, especialista no combate ao tráfico de vida silvestre da WCS Brasil (Wildlife Conservation Society), entrevistado do especial ‘Um grau e meio’, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM).
“A Amazônia ainda é esquecida em relação ao tráfico de animais pelo Brasil. Todos os órgãos de polícia e de meio ambiente têm a prerrogativa de atuar no combate ao tráfico de animais, mas como poucos servidores são especializados no assunto, o tráfico segue quase impune na Amazônia. A maioria dos servidores do Ibama está focada em garimpo e desmatamento, por isso, os mapas anuais de delitos ambientais não refletem a verdadeira situação de crimes contra a fauna”, avalia.
Antônio Carvalho, especialista no combate ao tráfico de vida silvestre da WCS Brasil, é entrevistado na newsletter Um Grau e Meio. Foto: Divulgação
O especialista faz referência ao Diagnóstico de Delitos Ambientais, publicado pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), que mostra a pulverização dos crimes contra a vida silvestre na Amazônia, nas páginas 150 e 151.
Quais são os animais silvestres?
Os animais silvestres são aqueles não domesticados, que têm uma história evolutiva independente do ser humano e não dependem das pessoas para desempenhar qualquer função natural, como a reprodução. Esse grupo é composto por uma variedade de seres, desde insetos polinizadores, por exemplo, até mamíferos, como o lobo-guará e a onça-pintada.
“Encontramos anúncios de venda de abelhas em caixas fechadas, saindo de toda parte no Brasil para outras regiões onde as espécies não são nativas, e fizemos a denúncia em artigo científico. Todos os anúncios do Mercado Livre foram derrubados, porém, meses depois, surgiram novos. Nosso trabalho sensibilizou, por meio da distribuição da informação, inclusive as próprias plataformas. Mas isso volta, então não podemos perder de vista. Mais do que casos pontuais, divulgar informação sobre as rotas de tráfico, promovendo a compreensão global do problema na cadeia de exploração relacionada às espécies, é muito mais interessante para contribuir com os órgãos policiais e de fiscalização”, explica Carvalho.
Segundo o especialista, o caso mais emblemático recente envolveu uma investigação internacional sobre apreensões conjuntas das espécies mico-leão-dourado e arara-azul-de-lear em 2023 e 2024. Sua equipe conseguiu levantar dados de apreensões dos últimos 30 anos que mostraram o aumento recente do interesse pelas duas espécies, alertando sobre a possibilidade de um zoológico indiano ser o principal receptor desse tráfico.
“O Brasil é o maior consumidor de carne de tubarão: são 15 mil toneladas sendo consumidas anualmente. Na maioria das vezes, são espécies ameaçadas de extinção, contaminadas com mercúrio Essa é uma carne que não deveríamos estar consumindo”, comenta.
Especificamente na Amazônia, Carvalho destaca o problema da venda ilegal de carne de tracajá e da tartaruga da Amazônia. Os animais, que costumam servir de alimento tradicional a famílias ribeirinhas, sendo a segunda fonte de proteína para essas populações, viraram símbolo de status e passaram a rechear os pratos de eventos em cidades como Manaus.
No começo deste ano, a prefeitura de Careiro (AM) foi multada por servir, em jantar oficial, carne de tartaruga ameaçada de extinção.
“O consumo de tartaruga só está regulamentado na cidade de Manaus. Por aqui, temos algumas peixarias que vendem peixe e tartaruga de criadouro. Mas o desafio está na lavagem de animais, porque, no criadouro, vai demorar cerca de 7 anos para ter um animal grande e no ponto de abate. Então os criadores acabam também recebendo tartarugas, prontas pro abate, pescadas na região”, conta o especialista.
Para Carvalho, a prioridade é mudar a Lei de Crimes Ambientais para tipificar como crime ambiental o tráfico de animais silvestres e considerar a prática um delito grave, com pena de reclusão.
“Nacionalmente, temos trabalho de apoio em alterações de leis, principalmente a Lei de Crimes Ambientais, que ainda hoje abre a possibilidade de o traficante não ser punido; o cara que trafica 200 aves por dia tá no mesmo tipo penal de uma senhora que tem um papagaio em casa, por exemplo. É preciso mudar a Lei de Crimes Ambientais para tipificar o tráfico de animais silvestres e considerá-lo um delito grave, com pena de reclusão”, defende.
Em segundo lugar, o especialista ressalta a importância de os órgãos competentes adotarem uma visão global do crime ambiental antes de determinar a pena e o valor pecuniário, de multa. Muitas vezes, por exemplo, o crime de lavagem de dinheiro está associado ao tráfico, cita.
O terceiro ponto trata da conversão da multa para o reparo do dano, segundo Carvalho, uma vez que as espécies apreendidas nas operações são encaminhadas para centros de triagens que precisam desses recursos para comportar a demanda.
Cada unidade da federação abriga, no mínimo, um CETAS (Centro de Triagem de Animais Silvestres) ou um CETRAS (Centro de Triagem e Reabilitação de Animais Silvestres). Além dessas instalações, há também parcerias com criadores de animais legalizados, que recebem animais resgatados e trabalham na reabilitação para soltura.
“Não há mais condições de receber [animais silvestres resgatados do tráfico] porque não tem dinheiro, nem espaço. Raramente esses animais chegam em condições de serem devolvidos à natureza. Deveria ser de passagem, mas os animais ficam muito tempo ali, se recuperando, sendo tratados. E o traficante que foi detido, segue praticando crimes sem obrigação de pagar a multa, porque ele não perde direitos se não pagá-las pela Lei de Crimes Ambientais”, relata.
Em quarto lugar, complementando o ponto anterior, Carvalho argumenta que os autores de crimes ambientais deveriam perder direitos – retenção de passaporte e carteira de motorista ou a impossibilidade de conseguir empréstimos – a exemplo do que já ocorre em outros tipos de delitos, mas ainda não nos crimes ambientais.
O especialista destaca que é preciso ter mais debates públicos sobre o tema, com campanhas e ações de mobilização.
“Cabe a nós estar nesses espaços, não recusar convites, colocar na mídia o que está acontecendo e fazer campanhas. Já fizemos ações em oito aeroportos do Brasil, como a campanha ‘Há viagens que marcam vidas’, informando sobre o tráfico de animais e o impacto nas populações de animais silvestres. São esforços para sensibilizar as pessoas”.
Mais do que isso, reforça que é preciso uma estrutura de governança nacional sobre o tráfico de animais silvestres, com autoridades ambientais e órgãos policiais trabalhando em conjunto e de forma capacitada.
Carvalho menciona como exemplo da dificuldade de manter o trabalho contínuo a troca de delegados da Polícia Federal em um dos municípios que atua: “Em um ano de trabalho, lidei com quatro delegados diferentes na mesma fronteira. Como criar uma estratégia de trabalho conjunto e desenvolver operações dessa forma?”, questiona.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo IPAM, escrito por Bibiana Alcântara Garrido
O Parlamento Amazônico (Parlamaz) realizou no dia 8 de outubro, em Brasília, as atividades oficiais da Pré-COP 30, reunindo parlamentares dos oito países que compartilham o território da Amazônia. A programação abordou temas como integração regional, bioeconomia e proteção da floresta, sob a liderança do presidente do colegiado, senador Nelsinho Trad (PSD–MS). Os países amazônicos concordaram, em declaração final, com a necessidade de comprometimento com a proteção da floresta e com a realização da COP 30 em Belém.
Nelsinho destacou o papel do Parlamaz na integração entre os países amazônicos e defendeu a necessidade de fortalecer institucionalmente o colegiado.
“A institucionalização é fundamental para que nossas propostas ganhem legitimidade e continuidade, como já acontece com o Parlamento do Mercosul. Estamos trabalhando para que o Parlamaz deixe de ser apenas um fórum de debates e passe a ter estrutura, orçamento e voz própria”, afirmou o presidente do colegiado.
Para a chefe da Cooperação Parlamentar da COP 30, Alicia Amorim, é importante criar espaços de integração entre os países amazônicos para fortalecer a atuação conjunta diante dos desafios climáticos.
“É fundamental que tenhamos espaços de articulação regional que nos ajudem a entender as semelhanças e as formas de colaboração nos desafios das mudanças no clima e nas oportunidades também que estão colocadas na agenda da mudança do clima, para que possamos ter um modelo de desenvolvimento na região mais compatível com as nossas realidades”, afirmou.
Foto: Reprodução/
Participação de representantes dos países amazônicos
A congressista Ruth Luque, do Peru, defendeu que a Amazônia deve ocupar papel central no debate político e cobrou ações concretas dos governos e do setor privado.
“Precisamos que a Amazônia tenha um peso central no debate político público, não somente com o compromisso que tem que vir do governo, mas também gerando mudanças fundamentais nas legislações já existentes. Não podemos mais permitir a exploração da Amazônia e precisamos gerar um debate político que inclua também as populações indígenas, que há décadas sofrem com a contaminação” — “, afirmou.
Ruth Luque ressaltou ainda que o desmatamento, a degradação de ecossistemas e a presença de economias ilícitas na região têm agravado situações de violência, especialmente contra mulheres indígenas.
Também participaram da reunião:
José Fernando Chumpi – Assembleia Nacional do Equador;
Roy Mohan – Assembleia Nacional do Suriname
Yenica Acosta – deputada colombiana e vice-presidente do Parlamaz;
Vanessa Grazziotin – diretora-executiva da OTCA;
Socorro Neri – deputada PP-AC e vice-presidente do Parlamaz;
Embaixador João Marcelo Galvão de Queiroz, diretor do Departamento de América do Sul do Ministério das Relações Exteriores;
Carlos Alfredo Lazary Plataforma Cipó;
Alice Amorim, chefe da Assessoria Extraordinária para a COP 30; e
Keith Alger, presidente do Instituto Caucus Brasil.
Parlamaz
Reativado em 2020 por iniciativa de Nelsinho Trad, o Parlamaz tem ampliado seu papel como instrumento de integração política da região. O senador lidera as articulações pela formalização jurídica do Parlamento junto à Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) e aos países membros, com o objetivo de consolidar um canal permanente de diálogo e cooperação.
A programação da Pré-COP 30 continua nesta quinta-feira (9), com o painel “Diálogo Parlamentar sobre Harmonização da Legislação necessária para escalar a Bioeconomia Amazônica”, no Salão Nobre da Câmara dos Deputados.
Amazonas tem terceira maior taxa de insegurança alimentar do país. Foto: Roberto Dziura Junior
Mesmo com melhora no acesso a alimentos entre 2023 e 2024, o Amazonas ainda está entre os estados com mais famílias em situação de insegurança alimentar no país. Segundo dados divulgados na sexta-feira (10) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 38,9% dos domicílios amazonenses enfrentam algum grau de restrição alimentar, o que coloca o estado em terceiro lugar no ranking nacional, atrás apenas do Pará (44,6%) e de Roraima (43,6%).
O levantamento faz parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua sobre Segurança Alimentar, realizada em parceria com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome. O estudo avalia a capacidade das famílias de acessar alimentos em quantidade e qualidade suficientes.
Amazonas tem terceira maior taxa de insegurança alimentar do país, aponta IBGE — Foto: Roberto Dziura Junior/AEN
Entre os casos mais graves — quando a fome é uma experiência concreta no domicílio —, o Amazonas aparece com 7,2% das famílias afetadas, também uma das maiores proporções do país. O índice é superado apenas por Amapá (9,3%).
A insegurança alimentar é mais comum nas áreas rurais (31,3%) do que nas urbanas (23,2%). Nos domicílios rurais, o nível grave atinge 4,6% das famílias, contra 3% nas cidades.
Segundo a pesquisadora Maria Lúcia Vieira, do IBGE, a vulnerabilidade nas áreas rurais está ligada à renda menor e à composição das famílias.
A insegurança alimentar é mais comum nas áreas rurais. Foto: Divulgacão
“Esses dados vão um pouco contra a nossa intuição de que na área rural as pessoas plantam seus alimentos, portanto a insegurança alimentar ali seria menor. Entretanto, parte dos domicílios rurais tem rendimento per capita menor e maior presença de crianças, de tal forma que, mesmo com cultivo agrícola, esse pode ser restrito e não variado, não garantindo nem quantidade e nem qualidade”, explicou.
Proporção é maior no Norte e Nordeste
As regiões com mais domicílios em insegurança alimentar são o Norte (37,7%) e o Nordeste (34,8%), sendo que o nível mais grave chegou a 6,3% e 4,8%, respectivamente. Nas outras regiões, os índices foram menores: 20,5% no Centro-Oeste, 19,6% no Sudeste e 13,5% no Sul.
No Norte, a proporção de domicílios em situação grave foi quase quatro vezes maior que no Sul, que tem a menor taxa (1,7%).
Em números absolutos, o Nordeste tem mais domicílios afetados (7,2 milhões), seguido pelo Sudeste (6,6 milhões), Norte (2,2 milhões), Sul (1,6 milhão) e Centro-Oeste (1,3 milhão).
A pesquisa do IBGE utiliza a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA), que classifica os domicílios em quatro categorias, de acordo com a falta ou acesso pleno e regular de seus moradores a alimentos de qualidade nutricional. São elas: segurança alimentar, insegurança alimentar leve, insegurança alimentar moderada e insegurança alimentar grave.
Foto: Mauro Neto/Secom-AM
A pesquisa classifica a insegurança alimentar em três níveis:
Leve: quando há preocupação ou incerteza sobre o acesso a alimentos, com redução da qualidade das refeições;
Moderada: quando há redução da quantidade de alimentos entre adultos;
Grave: quando a falta de alimentos também atinge crianças e adolescentes, e a fome é vivida no domicílio.
A segurança alimentar é classificada como o direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais.
Apesar dos índices ainda altos no Norte, o levantamento mostra uma melhora nacional em 2024. Todos os níveis de insegurança alimentar caíram em relação a 2023:
Leve: de 18,2% para 16,4%;
Moderada: de 5,3% para 4,5%;
Grave: de 4,1% para 3,2%.
Segundo o IBGE, essa redução representa 2,5 milhões de famílias que deixaram de passar por restrição severa de alimentos.
Indígenas da etnia Kayapó, do estado do Pará. Foto: Mário Vilela/Funai
A etnia indígena Kayapó, conhecida como Mebêngôkre (aquele de origem do olho d’água), habita os estados do Mato Grosso e sul do Pará. Divide-se em outros subgrupos: Mekrãgnotí, Gorotire, Kuben-Krân-Krên, Kôkraimôrô, Kararaô, Metyktire e Xikrin.
A comunidade atual é composta por quase 10 mil Mebêngôkre e eles estão entre os 15 maiores povos dos 305 do Brasil. São conhecidos por sua vasta organização cultural, como suas cerimônias, rituais, grafismos feitos por materiais naturais.
A palavra Kayapó significa “semelhante aos macacos”, nome dado por vizinhos da comunidade, pois os Kayapós dançavam com máscaras feitas de pele de macacos. Porém eles se referem a si próprios como mebêngôkre, “os homens do buraco/lugar d’água”.
Sua economia é sustentável, como agricultura itinerante, utilizam a pesca, a caça e a plantação como sustento.
Mesmo com participação política, os Kayapós são a etnia que tem mais Terras Indígenas (TI) invadidas por garimpo ilegal na Amazônia. A TI Kayapó tem 3,2 mil hectares e abriga 6,3 mil indígenas dos povos Mebêngôkre e Isolados do Rio Fresco.
Em 2024, foi o território indígena que mais sofreu com queimadas. De acordo com o Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (LASA/UFRJ), uma área de 697.475 hectares já foi queimada dentro da Terra Indígena Kayapó.
Há cerca de um século, porém, eles não eram os únicos Kayapó no Brasil. Por isso, eram chamados de Kayapó do Norte. A aproximadamente mil quilômetros de distância, na região que se estende do norte de São Paulo ao sul de Goiás, passando pelo Triângulo Mineiro, havia um povo homônimo, os Kayapó do Sul.
Trata-se dos antepassados do povo Panará, que hoje vive ao norte de Mato Grosso, coincidentemente, próximo dos Kayapó. Embora o nome fosse o mesmo, nunca houve grande relação entre os antepassados desses povos.
Trecho do meio na BR-319. Foto: Izabel Santos/Acervo Observatório BR-319
O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) afirmou, em nota divulgada no dia 9 de outubro, que uma exigência do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) inviabiliza o avanço das obras de pavimentação da BR-319, rodovia que liga Manaus (AM) a Porto Velho (RO).
Segundo o DNIT, o Ibama determinou que todos os requisitos e condicionantes da licença prévia sejam apresentados de forma conjunta para que a análise dos documentos seja iniciada.
Entre os requisitos pendentes estão protocolos com comunidades indígenas, estudos complementares e medidas de governança socioambiental que envolvem outros órgãos federais.
O DNIT afirma que essas ações extrapolam suas atribuições regimentais e dependem da articulação interinstitucional, além de impedir o órgão de solicitar a Licença de Instalação (LI), necessária para a repavimentação do chamado “trecho do meio” da rodovia.
“Ainda que não conste expressamente no Ofício nº 398/2024/CGLIN/DILIC, a exigência do Ibama, na prática, inviabiliza qualquer pedido imediato de Licença de Instalação (LI) por parte do DNIT”, diz o comunicado.
Foto: Reprodução/DNIT
DNIT afirma que já entregou relatório
O Departamento também informou que já entregou ao Ibama, em junho de 2024, o relatório do diagnóstico socioambiental participativo, com os programas ambientais propostos para mitigar impactos e garantir a sustentabilidade da obra.
No entanto, o Ibama só dará continuidade à análise quando todos os demais documentos exigidos forem protocolados simultaneamente.
O Grupo Rede Amazônica questionou o posicionamento do Ibama sobre a nota do DNIT, mas até a atualização mais recente desta reportagem, não obteve resposta.
Embrapa apresenta cultivo de banana. Foto: Jackson de Araújo dos Santos/Embrapa
Produtores indígenas de Oiapoque, no extremo norte do Amapá, participaram do Dia de Campo Bananicultura, realizado no dia 9 de outubro, na Aldeia Manga. O evento apresentou o cultivo de banana como alternativa de renda e alimentação para comunidades afetadas pela praga vassoura-de-bruxa, que tem comprometido a produção de mandioca na região.
A ação foi promovida pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e pelo Instituto de Extensão, Assistência e Desenvolvimento Rural do Amapá (Rurap), com apoio de outras instituições.
Evento em Oiapoque incentiva cultivo de banana para garantir renda e alimentação. Foto: Jackson de Araújo dos Santos/Embrapa
Técnicos apresentaram três variedades de banana recomendadas para o solo e o clima do estado: BRS Terra Anã, BRS Princesa e BRS Pacoua, todas resistentes a pragas e doenças.
Além das orientações técnicas, o evento valorizou o conhecimento tradicional dos povos indígenas. Um dos destaques foi o agricultor Leôncio Oliveira, da etnia Karipuna, que cultiva banana há 16 anos na Aldeia Manga.
Ele compartilhou sua experiência e incentivou outros produtores a diversificarem suas roças. “Hoje oriento outros produtores para que usem esse conhecimento como fonte de renda diante da escassez da mandioca. O Dia de Campo ajuda a motivar mais pessoas”, afirmou.
Cultivo de banana é destaque em ação que busca alternativas à mandioca. Foto: Jackson de Araújo dos Santos/Embrapa
A programação foi dividida em três estações temáticas: manejo de bananal de forma adequada; identificação e combate a pragas; e práticas de pós-colheita e armazenamento para valorizar o produto na hora da venda.
Segundo Cristiane Ramos de Jesus, pesquisadora da Embrapa Amapá, a parceria entre instituições públicas e lideranças indígenas é essencial para fortalecer a produção local.
“Queremos que os produtores conheçam o bananal, conversem com técnicos e agricultores experientes, e levem esse modelo para suas áreas como alternativa de renda”, explicou.
Kelson Vaz, presidente do Rurap, destacou que a banana é uma opção viável para os agricultores que enfrentam perdas com a mandioca. “Enquanto buscamos soluções para a praga, oferecemos outras opções de cultivo. A banana é uma boa alternativa, já conhecida por muitos produtores”, disse.
Praga ‘vassoura de bruxa’ deixa plantio de mandioca com aspecto amarelado ou verde claro. Foto: Divulgação/Embrapa
Dia de Campo
O Dia de Campo faz parte do projeto de enfrentamento à vassoura-de-bruxa da mandioca, financiado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), por meio do TED Indígena. A iniciativa é coordenada pela Embrapa Amapá, com apoio da Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR), Rurap, Prefeitura de Oiapoque, Instituto Iepé, Conselho de Caciques Indígenas e Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).
Foi encontrado três dias após ficar perdido em uma área de floresta. Foto: Alexander Lees
O agricultor Sérgio Dias da Silva, de 55 anos, foi encontrado três dias após ficar perdido em uma área de floresta na comunidade Canoas, em Presidente Figueiredo, no interior do Amazonas. Segundo ele, o desaparecimento aconteceu no fim da tarde do dia 4 de outubro após uma experiência sobrenatural com o que chamou de “visões” na mata.
“Eu estava em casa, tinha feito a janta, quando vi umas visões me chamando. Entrei na mata e me perdi. Tentei voltar, mas não consegui”, relatou.
Exausto e com o corpo coberto de arranhões, ele contou que sobreviveu sem comida e quase sem água, guiado apenas pela experiência na mata e pela fé. “Passei quase três dias sem comer e dois dias sem tomar água. Aguentei na marra. Eu só pensava que, se dormisse, algum bicho me comia”, contou Sérgio, ainda com arranhões pelo corpo e os pés feridos.
Foi encontrado três dias após ficar perdido em uma área de floresta. Foto: Divulgação
Sem rumo, ele caminhou por horas acreditando estar no caminho de volta, mas foi se afastando cada vez mais. “Fui muito longe, muito longe mesmo. Não sei nem por onde andei. Quando percebi, já estava no meio da floresta fechada”, contou.
Três dias de fome
Sérgio contou que no primeiro dia ainda achou uma pequena fonte de água, mas depois enfrentou sede e fome. “Foram dois dias sem nada. A fome a gente aguenta, mas a sede é pior. Eu procurei fruta, mas não tinha. Só achei uma orelha-de-pau, mastiguei mesmo sem dente. Rasgou minha garganta, mas desceu”, lembrou.
Agricultor Sérgio Dias da Silva que passou três dias perdido na floresta do Amazonas — Foto: Francisco Carioca/Rede Amazônica
Mesmo debilitado, ele continuou caminhando, se abrigando sob troncos caídos durante a noite e se protegendo de animais. “Eu não tenho medo de onça, mas de cobra eu tenho. Dormia no chão, coberto de folha. Carrapato era igual formiga”, contou.
No segundo dia, quando já estava fraco, Sérgio acredita ter caminhado mais de 30 quilômetros. “Foi o dia mais difícil. Tudo seco. Tentei atravessar uma pedreira, mas não consegui. Se eu não parasse ali, acho que nem andava mais uns 300 metros”, afirmou.
No terceiro dia, ele diz ter recebido um “sinal divino” que o guiou até o caminho de volta. “Eu vi como se fosse um anjo me mostrando uma direção, uma seta no chão. Segui por ali e encontrei o caminho”.
Resgate
Moradores da comunidade, com apoio do Corpo de Bombeiros, Defesa Civil Municipal e cães farejadores, iniciaram as buscas dois dias após o estar perdido. Sérgio foi localizado em um igarapé, debilitado e com ferimentos leves causados pela vegetação.
Agricultor Sérgio Dias da Silva que passou três dias perdido na floresta do Amazonas — Foto: Francisco Carioca/Rede Amazônica
Segundo ele, o momento do resgate foi de grande emoção. “Estava lavando meu calção pra eu atravessar quando vi o povo na beira do barranco. Eu fiquei alegre, eles também”, contou.
Logo depois, foi levado ao Hospital de Presidente Figueiredo, onde recebeu soro e alimentação. “Me trataram muito bem, me deram comida boa e me medicaram. Agradeço ao povo do Canoas, ao Corpo de Bombeiros, à polícia e à minha família. Se não fosse por eles, eu não estava aqui”, disse.
Por Sabrina Rocha, Francisco Carioca, g1 AM, Rede Amazônica — Manaus
A emoção do Círio de Nazaré, celebrado no último dia 12 de outubro, ultrapassou as ruas e chegou ao coração das pessoas por meio da solidariedade. No dia 11, durante a campanha de arrecadação do Círio na Rede, a Fundação Rede Amazônica (FRAM) promoveu mais uma corrente de amor ao próximo, reunindo centenas de fiéis e voluntários dispostos a fazer a diferença.
Este ano, o ponto de arrecadação montado na Praça Santuário de Fátima, em Macapá, se transformou em um verdadeiro símbolo de fé e cooperação. Desde as primeiras horas da manhã, famílias inteiras se uniram em um só propósito: doar. O resultado foi expressivo — 4 toneladas de alimentos não perecíveis, uma marca que superou as mais de 3 toneladas arrecadadas no ano passado.
O gesto, simples mas poderoso, representa mais do que números. Cada alimento entregue carrega consigo um ato de fé, esperança e amor ao próximo. Para a Fundação Rede Amazônica, idealizadora da ação, o sucesso da campanha reforça o compromisso social da instituição e o poder transformador da união entre comunicação e solidariedade.
“O Círio na Rede deste ano foi um exemplo de fé e compromisso coletivo. Conseguimos superar a arrecadação do ano anterior, alcançando a marca de 4 toneladas de alimentos. Esse resultado é fruto da generosidade e do engajamento do povo macapaense, que se uniu em prol de quem mais precisa. Ver a comunidade mobilizada, participando e contribuindo, revela a força da união e do espírito solidário que marcam a nossa fé”, destacou a diretora executiva da Fundação Rede Amazônica, Mariane Cavalcante.
Os alimentos arrecadados serão destinados as famílias em situação de vulnerabilidade, que recebem assistência da Diocese, o que garante que a mensagem de esperança do Círio se mantenha viva por muito mais tempo.
Processo de troca de exoesqueleto da cigarra dura até duas horas, o que explica a estrutura intacta — Foto: Celso Silvério/Acervo Pessoal
Com seu canto em coro, chamativo e característico, as cigarras intrigam curiosos, alimentando a crença popular de que seu som anuncia a chegada da chuva. Mas prepare-se para desmistificar essa ideia! O professor de Ciências Biológicas do Centro Universitário de Brasília (CEUB), Fabrício Escarlate, revela que essa conexão não é uma simples resposta às mudanças climáticas. Na verdade, o processo é muito mais complexo, envolvendo respostas fisiológicas intrínsecas à regulação hormonal e à idade desses fascinantes insetos.
“Quando o ambiente sinaliza a chegada das chuvas, o sistema nervoso das cigarras interpreta essa mudança e estimula a transição para a fase adulta. Isso ocorre por meio dos hormônios da muda e o juvenil, que regulam a transição entre a forma jovem e a fase adulta das cigarras”, revela o docente do CEUB. Ou seja, a cigarra não “prevê” a chuva, mas sim reage a um conjunto de mudanças ambientais que desencadeiam sua maturidade: “As cigarras não estão percebendo a chuva, mas sim respondendo às mudanças ambientais”.
Com seu canto em coro, chamativo e característico, as cigarras intrigam curiosos. Foto: Anais Prestes
A reprodução delas, segundo Fabrício, coincide com a estação chuvosa. Isso ocorre devido à disponibilidade de recursos nesse período. A sazonalidade das chuvas e a oferta de alimentos desempenham um papel crucial no ciclo reprodutivo. “Essa relação entre cigarras e chuva pode variar em diferentes regiões e biomas, dependendo das condições ambientais específicas”, explica.
Coro masculino da sedução
E a intensidade desse som? O biólogo revela que os machos possuem 11 órgãos especializados no abdômen, chamados “órgãos cimbálicos”, que são os verdadeiros produtores dessa sinfonia. O objetivo? Atrair as fêmeas! E o volume é impressionante: o canto pode atingir mais de 120 decibéis, um nível comparável ao de uma britadeira ou de um show de rock.
A cigarra não “prevê” a chuva, mas sim reage a um conjunto de mudanças ambientais que desencadeiam sua maturidade. Foto: Riuler Corrêa Acosta/Cedida
Portanto, o canto das cigarras não é um barômetro natural, mas sim um elemento vital na fase de reprodução da espécie, uma estratégia de acasalamento que ecoa pela natureza. “Da próxima vez em que ouvir o canto das cigarras, lembre-se que é mais do que uma simples melodia. É a história da adaptação desses insetos à sua busca pela sobrevivência na natureza”, completa Fabrício Escarlate, convidando-nos a ouvir com novos ouvidos.
*Com informação da Centro Universitário de Brasília (CEUB)