Ao todo, são 2,6 km de extensão e aproximadamente 23 mil m² de área requalificada. A ação fez parte do festival de fim de ano de Macapá.
O local foi transformado em um verdadeiro bosque linear, com espaços voltados para esporte, lazer e convivência. O local oferece academia ao ar livre, áreas para calistenia, ciclovia, 265 postes com iluminação em LED, acessibilidade, pergolados e ampla arborização.
A estrutura do parque inclui sete pontos de academia ao ar livre, áreas para prática de calistenia, paisagismo com sistema de irrigação e aproximadamente 200 árvores transplantadas.
Além disso, o espaço conta com um monumento em homenagem aos corredores, criado pelas mãos do artista plástico J. Márcio.
Ed Gilson de Oliveira, de 57 anos, que trabalha com serviços gerais, caminhava pelo Parque Linear no momento da inauguração e comemorou a entrega do espaço.
“Esse parque foi maravilhoso pra gente. Dá mais ânimo pra caminhar todo dia e cuidar da saúde”, diz o trabalhador.
Foto: Jesiel Braga / PMM
Academia ao ar livre. Foto: Jesiel Braga/PMM
Monumento dos corredores. Foto: Jesiel Braga/PMM
Arborizaçãono parque
Na arborização, foram transplantadas mais de 200 árvores, entre palmeiras das espécies Veitchia, areca-bambu e manila. Além disso, foram plantados ipês, amapazeiro, sete-copas e árvores frutíferas.
“O Parque Linear da Zona Norte é um investimento em qualidade de vida. É um espaço pensado para as pessoas cuidarem da saúde, conviverem e ocuparem a cidade com dignidade”, disse o prefeito Dr. Furlan.
Dr. Furlan, prefeito de Macapá na inauguração. Foto: Emanuelle Gomes/PMM
Ponto de hidratação
O Parque Linear conta com dois totens publicitários que também oferecem pontos de hidratação tanto para as pessoas quanto para os animais, garantindo mais conforto e bem-estar para todos.
O investimento na construção do Parque Linear foi de R$6.208.358,39, com recursos oriundos do Tesouro Municipal.
Durante a caminhada, corredor aproveita o ponto de hidratação instalado no Parque . Foto: Jesiel Braga/PMM
Lançamento do veículo, mesmo com falha que antecipou o fim da missão, colocou o país no mercado global espacial. Foto: Divulgação/Innospace
O Brasil entrou no mercado global de lançamentos espaciais no dia 22 de dezembro de 2025 após a decolagem do foguete HANBIT-Nano, da empresa sul-coreana Innospace, direto da base do Centro Espacial de Alcântara (CLA), localizado no Maranhão.
Apesar da conclusão antecipada da missão, que durou 30 segundos devido a uma falha no veículo espacial, o lançamento do primeiro foguete comercial brasileiro já representa um marco histórico do país.
Com base nas informações divulgadas pela Força Aérea Brasileira (FAB) e a Innospace, entenda por que aconteceu o incidente que culminou na interrupção de voo do foguete, meio minuto depois de deixar o solo, e por que a operação de lançamento é considerada bem sucedida, colocando o país no cenário do setor espacial mundial.
Às 22h13 (horário de Brasília) do dia 22 de dezembro de 2025, o foguete HANBIT-Nano decolou da plataforma do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA) em sua trajetória vertical planejada. Em nota, a Innospace afirmou que o veículo demonstrou desempenho estável em sua fase inicial do voo, alcançando 30 segundos de ascensão nominal.
“A empresa executou com segurança a conclusão antecipada da missão SPACEWARD durante o primeiro lançamento comercial de seu veículo lançador de dois estágios. O motor principal do primeiro estágio, um foguete híbrido da classe 25 toneladas, foi acionado com sucesso e demonstrou desempenho estável durante a fase inicial do voo. Isso marcou o primeiro recorde de voo mundial para um motor híbrido de foguete na classe de empuxo de média a grande escala, demonstrado em um veículo lançador”, cita a empresa, em nota.
Lançamento do foguete HANBIT-Nano, do Centro de Lançamento de Alcântara. Foto: Divulgação/Innospace
Também em nota, a Agência Espacial Brasileira (AEB) reforçou que todo o procedimento de lançamento do veículo espacial respeitou todas as normas vigentes.
“O lançamento do veículo HANBIT-Nano, da empresa sul-coreana Innospace, realizado a partir do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no Maranhão, transcorreu de forma regular e segura em todas as etapas sob responsabilidade brasileira. Os sistemas de solo, a infraestrutura do Centro de Lançamento, os procedimentos operacionais e os protocolos de segurança funcionaram conforme o planejado, resultando em um lançamento preciso e plenamente aderente às normas internacionais”, afirmou a AEB.
Porém, durante sua passagem por uma camada de nuvens, a empresa sul-coreana frisa que a comunicação entre o veículo e os sistemas terrestres foi perdida. A anomalia, ainda de causa indeterminada, causou a separação de sua estrutura em várias partes, resultando em queda livre em direção ao solo, dentro da zona de segurança designada.
Por conta disso, segundo a Innospace, foi determinado o fim da missão em total conformidade com os procedimentos de segurança de padrão internacional estabelecidos em coordenação com a Força Aérea Brasileira (FAB).
Lançamento do foguete HANBIT-Nano, do Centro de Alcântara. Foto: Divulgação/Innospace
“Como resultado, o veículo perdeu propulsão e controle de atitude e entrou em queda livre, separando-se em primeiro estágio, segundo estágio e fragmentos menores de detritos. Como o Ponto de Impacto Instantâneo (IIP) calculado permaneceu dentro do perímetro de segurança designado do local de lançamento […], o Sistema de Terminação de Voo (FTS) foi ativado de acordo com procedimentos pré-coordenados com as autoridades brasileiras de segurança. O veículo lançador foi detonado no ponto do impacto no solo, resultando na conclusão antecipada da missão”, explica a empresa na nota sobre a missão.
Apesar do problema, a Innospace reforça que a operação foi bem sucedida e demonstrou confiança para futuras missões no território brasileiro.
Equipes da Innospace, FAB e AEB. Foto: CLA/FAB
“A execução bem-sucedida do procedimento de terminação de voo em condições anômalas demonstra a maturidade do projeto de segurança do veículo e a prontidão operacional integrada entre o operador de lançamento e a autoridade do local de lançamento. A empresa continuará os esforços de verificação técnica para aumentar ainda mais a confiabilidade dos lançamentos e preparar missões subsequentes”, frisou.
Para a Agência Espacial Brasileira, o lançamento demonstra que o país está pronto para ocupar de forma estratégica o cenário espacial global.
“Apesar da anomalia, este lançamento representa um marco histórico para o Brasil, por se tratar do primeiro lançamento comercial realizado a partir do território nacional, reforçando a maturidade operacional do Centro de Lançamento de Alcântara e sua relevância estratégica no cenário espacial global”, destaca a AEB, reafirmando ainda que “eventos dessa natureza fazem parte do processo de desenvolvimento tecnológico na atividade espacial” e que são “fundamentais para o aprendizado, a evolução dos sistemas e o aumento da confiabilidade em futuras missões”.
Local do lançamento espacial inédito, o Centro de Lançamento de Alcântara (CLA) fica no litoral maranhense e é considerado uma das zonas mais privilegiadas devido sua localização próxima à linha do Equador. Segundo especialistas, a posição favorece a redução de custos e o tempo de voo mais rápido, além da distância de qualquer tráfego aéreo ou marítimo.
Construída em 1982, Centro de Lançamento de Alcântara (MA) é considerada atrativa para o lançamento de dispositivos espaciais. Foto: Warley de Andrade/TV Brasil
Causas
As investigações acerca da falha que culminou com a fim da missão serão de responsabilidade do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA), órgão da Força Aérea Brasileira, e da Innospace, empresa responsável pelo foguete HANBIT-Nano.
“O INNOSPACE iniciou uma análise inicial da terminação do voo baseada em dados de telemetria e rastreamento de voo analisados conjuntamente com a Força Aérea Brasileira. A determinação final da causa da falha será feita após uma investigação oficial liderada pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA) da FAB”, pontua a empresa sul-coreana.
Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos vai investigar a causa que determinou o fim da missão Spaceword. Foto: Divulgação/Cenipa
Por fim, a empresa lamentou o fim antecipado da missão Spaceword, mas sinalizou que poderá estudar novos lançamentos espaciais na plataforma do Centro de Alcântara.
“Pedimos sinceras desculpas aos nossos clientes que nos confiaram suas missões, apesar de este ser nosso primeiro lançamento comercial, pois não conseguimos atender totalmente às expectativas deles devido ao encerramento antecipado da missão. Uma reavaliação do lançamento HANBIT-Nano está em revisão para o próximo ano, dentro de vagas seguras no Centro Espacial de Alcântara. O cronograma detalhado será finalizado após a conclusão da investigação oficial liderada pela CENIPA e a implementação das medidas de melhoria dos veículos lançadores”, frisou Soojong Kim, fundadora e CEO da Innospace.
A Operação Spaceward é resultado de um edital de chamamento público publicado pela AEB em 2020, que selecionou empresas interessadas em realizar lançamentos a partir do Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão. A sul-coreana Innospace foi a escolhida para operar e assinou contrato com o Comando da Aeronáutica (COMAER) em 2022.
Coordenada pela Força Aérea Brasileira (FAB) em parceria com a Agência Espacial Brasileira (AEB), a missão Spaceword tinha como objetivo de lançar ao espaço o foguete HANBIT-Nano. A operação previa o envio de oito cargas de empresas e instituições de pesquisa do Brasil e da Índia para coleta de dados climáticos e ambientais, desenvolvimento tecnológico e iniciativas educacionais.
Cerca de 400 profissionais entre brasileiros – militares e civis – e sul-coreanos faziam parte da Operação Spaceward.
Cerca de 400 profissionais estavam mobilizados na operação de lançamento do foguete HANBIT-Nano. Foto: Foto: Divulgação/Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação
Após o incidente, a empresa reforçou que os “satélites e cargas úteis de clientes a bordo estão cobertos por apólices de seguro pré-acordadas, e a rescisão antecipada não deve ter impacto material nos contratos de serviço comercial de lançamento da INNOSPACE ou nos planos de negócios de longo prazo”.
Produzido pela empresa sul-corena Innospace, o HANBIT-Nano possui 21,9 metros de altura e 1,4 metro de diâmetro, e um peso de 20 toneladas. Tais medidas equivalem, respectivamente, a um prédio de três andares e a carga de quatro elefantes africanos juntos.
A capacidade de aceleração do foguete HANBIT-Nano também chamava atenção. Segundo a empresa, o veículo tinha condições de atingir uma velocidade de 30 mil km/h, marca suficiente para atingir a atmosfera e entrar em órbita em apenas 3 minutos. Tal aceleração equivale a 30 vezes mais rápido que um avião comercial.
Foguete Hanbit-Nano, produzido pela empresa Innospace. Foto: Reprodução/Innospace
Cientistas amapaenses desenvolveram produtos com espécies que possuem valor econômico e qualidade medicinal. Foto: Jeferson Gonçalves/Rede Amazônica AP
Um grupo de cientistas amapaenses criou duas startups para transformar plantas amazônicas em produtos naturais e cosméticos. Uma aplica tecnologias de saúde nos medicamentos. A segunda, e principal, intensificará a produção e vai comercializar os produtos.
“A ideia surgiu de um problema: as doenças que atingem a população amazônica. Considerando que os povos tradicionais utilizam plantas medicinais, nós, do Laboratório de Pesquisa em Fármacos, sempre estudamos essas espécies”, frisou a doutoranda em Inovação Farmacêutica, Aline Lopes.
A produção depende de pesquisas e realização de testes para verificar o potencial farmacêutico e a capacidade de escala industrial.
“Avaliamos se o produto natural, seja uma planta ou um extrato, possui atividade biológica comprovada, se tem ausência de toxicidade e se é um produto que não vai trazer mais danos do que benefícios. Uma vez confirmado o potencial farmacêutico ou cosmético, passamos para o início do estudo de aplicação tecnológica da matéria prima”, enfatiza o doutorando em Inovação Farmacêutica, Abrahão Tavares.
Jambu e açaí estão entre as plantas estudadas. Foto: Jeferson Gonçalves/Rede Amazônica AP
A elaboração segue etapas como a seleção e a rastreabilidade do insumo, parcerias com produtores, extração vegetal avançada, formulações farmacêuticas e cosméticas, testes laboratoriais, validação científica e a preparação de registros sanitários no Brasil e em mercados internacionais.
De acordo com o farmacêutico Heitor Silva, as atividades têm parcerias com Universidades Federais da Amazônia, centros de pesquisa e cientistas com reconhecimento internacional.
“É importante ter proximidade com as comunidades tradicionais. O contato é fundamental para valorizar o conhecimento popular e tradicional. Posteriormente, tem a compra da matéria-prima. Tratamos para transformar em extrato vegetal, chegando em diversas outras formulações, desde micropartículas e nanopartículas”.
Atualmente, a empresa está em fase de expansão e estruturação regulatória internacional com foco na exportação para América Latina, Estados Unidos e Europa. A empresa conta com investimento externo e a produção inicia a partir de abril de 2026.
A produção depende de pesquisas com as plantas. Foto: Jeferson Gonçalves/Rede Amazônica AP
O CEO da startup de biotecnologia, Frank Portela, afirma que as primeiras captações de recursos são da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), por meio de uma lei de incentivo para pesquisa e desenvolvimento. “Para você ter ideia, pesquisamos em nossos laboratórios produtos para combate ao câncer, ao reumatismo e para a saúde sexual”, explica.
Plantas usadas nas pesquisas
De acordo com o grupo de cientistas, a pesquisa e desenvolvimento dos produtos naturais apresentam comprovação científica dos seguintes ativos naturais benéficos à saúde:
O jambu – para aplicações em anestesia local, neuroestimulação e saúde sexual;
O açaí – com ação antioxidante e neuroprotetora para prevenir Acidente Vascular Cerebral (AVC);
A copaíba – como anti-inflamatório e cicatrizante de ferimentos;
A andiroba – possui ação anti-inflamatória e regenerativa.
Apesar da empresa possuir cientistas, laboratórios e máquinas, existe dificuldade em relação à falta de quantidade suficiente de plantas. Os produtos naturais despertam interesse do mercado estrangeiro. A intenção é exportar tecnologia e produtos de saúde natural com alto valor agregado e não apenas a matéria-prima.
Às margens do Rio Acre, no coração do Vale do Acre, Xapuri (AC) é uma das cidades mais emblemáticas da Amazônia brasileira. Fundada oficialmente em 1904, o município carrega uma trajetória marcada pela luta social, pela defesa da floresta e pela convivência harmônica entre natureza, cultura e povos tradicionais.
Conhecida mundialmente como a terra de Chico Mendes, Xapuri é um território onde a história do Brasil pulsa viva. Entre seringais, rios e memórias, a cidade se transforma durante o verão amazônico em um dos principais destinos de veraneio do Acre, quando as águas do Rio Acre recuam e revelam extensas praias de areia clara, formando verdadeiros refúgios naturais no meio da floresta.
O nome Xapuri tem origem indígena e está ligado aos povos originários que habitavam a região antes da chegada dos seringueiros. Com o ciclo da borracha, no final do século XIX, a cidade se tornou um dos centros mais importantes da economia extrativista da Amazônia, atraindo migrantes nordestinos e consolidando uma identidade ligada ao trabalho na floresta.
Durante o século XX, Xapuri entrou para a história como berço da luta socioambiental brasileira. Foi ali que surgiram os “empates”, movimentos pacíficos liderados por seringueiros para impedir o desmatamento e defender seus territórios, tendo Chico Mendes como maior símbolo dessa resistência.
Foto: Reprodução/Prefeitura de Xapuri
Veraneio que encanta
Durante o verão amazônico, o Rio Acre revela um de seus maiores encantos: praias fluviais de areia fina e águas tranquilas, que se tornam o principal ponto de lazer da população local e dos visitantes.
A Praia do Rio Acre, em Xapuri, é o coração do veraneio. Barracas improvisadas, música regional, famílias reunidas e banhos refrescantes criam um cenário vibrante, onde o ritmo da cidade desacelera e a convivência comunitária ganha protagonismo.
Essas praias são espaços democráticos, onde tradição e diversão caminham juntas, reforçando a relação histórica do povo acreano com seus rios.
Sabores de Xapuri
A gastronomia xapuriense é simples, afetiva e profundamente ligada à floresta. Nos restaurantes e casas de família, o visitante encontra pratos como peixe frito com baião de dois, galinha caipira, carne de sol, além de iguarias feitas com produtos extrativistas.
O açaí puro, a castanha-do-brasil, o buriti e o cupuaçu aparecem tanto em receitas tradicionais quanto em doces e bebidas regionais, oferecendo uma experiência gastronômica que traduz o sabor da Amazônia acreana.
Casa de Chico Mendes: memória viva
Um dos pontos mais visitados de Xapuri é a Casa de Chico Mendes, hoje transformada em memorial. O espaço preserva objetos pessoais, fotografias, documentos e relatos que contam a trajetória do líder seringueiro e ativista ambiental assassinado em 1988.
O local é um centro de educação ambiental e memória histórica, recebendo visitantes do Brasil e do mundo interessados em compreender a relação entre justiça social, preservação ambiental e direitos dos povos da floresta. Caminhar pela casa é mergulhar em uma história que ultrapassa fronteiras e segue inspirando gerações.
Xapuri desponta como um destino estratégico para o turismo de base comunitária e sustentável no Acre. A cidade representa uma Amazônia que alia preservação ambiental, valorização cultural e desenvolvimento local, oferecendo ao visitante uma experiência autêntica e transformadora.
O fortalecimento do turismo em Xapuri contribui para gerar renda, manter jovens no território e valorizar saberes tradicionais, conectando o passado de luta ao futuro de oportunidades.
Especialistas atribuem causa da seca à temperaturas acima da média e baixa umidade. Foto: Roney Elias/Rede Amazônica AM
Cidades do Amazonas estão enfrentando uma seca fora de época, em um período que deveria ser marcado pela cheia dos rios. O fenômeno, considerado incomum para esta época do ano, já afeta comunidades da região do Alto Solimões e compromete a navegação em portos importantes.
Em Tabatinga, a 1.100 km de Manaus, navios não conseguem atracar no porto. As embarcações precisam parar mais longe, onde ainda há água. Quem depende do transporte fluvial usa uma ponte que, em condições normais, estaria coberta pelo rio.
“Para o viajante, para comprar o cimento, alguma coisa para carregar no porto é longe”, diz o professor Izaque Silva.
Ariosto Salvador Ramirez, presidente da Associação dos Taxistas Fluviais de Tabatinga, alerta para os riscos: “Se você não ficar muito atento às balsas, os flutuantes podem ficar em terra”.
Porto de Tabatinga em janeiro de 2026. Foto: Roney Elias/Rede Amazônica AM
Em Coari, a 360 km de Manaus, a situação é semelhante. A área portuária secou. “Está secando aqui pra baixo do cais, bem perto da bóia”, relata o ajudante Daniel Silva.
Causas da seca incomum e previsão de chuva
O período de cheia na Amazônia costuma ocorrer entre dezembro e junho, durante o chamado inverno amazônico. Mas, segundo especialistas, temperaturas acima da média e baixa umidade estão dificultando a formação de chuvas nas cabeceiras dos rios.
“O acumulado indica chuvas muito abaixo do normal em dezembro, o que manteve a recessão no Alto Solimões, que agora já ocorre também no Médio Solimões”, explica Jussara Cury, superintendente regional do Serviço Geológico do Brasil (SGB) em Manaus.
A falta de chuvas no Alto Solimões também já impacta Manaus. O Rio Negro, que nesta época costuma subir cerca de 10 centímetros por dia, atualmente registra apenas 1 centímetro de elevação diária.
A previsão é que as chuvas cheguem nos próximos dias e ajudem a mudar o cenário para quem depende dos rios.
O presidente da Colômbia, Gustavo Petro. Rio de Janeiro, 18/11/2024. Foto: Fernando Frazão/Acervo Agência Brasil
Um dia após bombardear a Venezuela e sequestrar o presidente Nicolás Maduro, o presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, ameaçou anexar a Groenlândia, território semiautônomo ligado à Dinamarca, e sugeriu uma ação militar contra o governo da Colômbia, de Gustavo Petro.
A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, emitiu nota afirmando que os EUA não têm qualquer direito de anexar nenhum dos países do Reino da Dinamarca. “Tenho que dizer isso muito diretamente aos Estados Unidos: não faz absolutamente nenhum sentido falar sobre a necessidade de os EUA tomarem posse da Groenlândia”, disse Frederiksen.
A chefe do Estado europeu lembrou que a Dinamarca faz parte da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e está coberta pela garantia de segurança da aliança militar, que é encabeçada pelos próprios EUA.
Além da Groenlândia, Trump ameaçou também de uma ação militar na Colômbia, do presidente esquerdista Gustavo Petro, crítico das políticas da Casa Branca para a América Latina. O presidente dos EUA disse que uma ação militar contra o governo Petro “parece bom”.
“A Colômbia também está muito doente, administrada por um homem doente, que gosta de produzir cocaína e vendê-la aos EUA, e ele não vai continuar fazendo isso por muito tempo”, disse Trump a jornalistas.
O presidente da Colômbia rejeitou as acusações do presidente estadunidense.
“Não sou ilegítimo, nem traficante de drogas; meu único bem é a casa da minha família, que ainda pago com meu salário. Meus extratos bancários foram tornados públicos”, lembrou.
“Tenho enorme fé no meu povo, e é por isso que lhes pedi que defendam o presidente contra qualquer ato ilegítimo de violência. A forma de me defenderem é tomar o poder em cada município do país. A ordem para as forças de segurança não é atirar contra o povo, mas sim contra os invasores”, completou.
*Com informações da matéria escrita por Lucas Pordeus León para a Agência Brasil. Leia a matéria completa AQUI.
Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com
Mais um ano vencido e o Amazonas continua amarrado a uma matriz econômica altamente concentrada no Polo Industrial de Manaus (PIM). Dados da SEDECTI informam que o Produto Interno Bruto (PIB) estadual, da ordem de R$ 179,8 bilhões em 2025 continua altamente impulsionado pelo Polo Industrial de Manaus (PIM), que representa cerca de 30% a 34% do PIB estadual.
Dados da SEFAZ demonstram a participação relativa do PIB amazonense, no segundo semestre do ano passado, assim configurado:
Comércio e Serviços – 43,84%;
Indústria – 36,84%;
Impostos – 15,74%;
e o Setor Agropecuário respondendo por apenas 3,58%.
No mesmo período o estado gerou 566.357 empregos formais, à frente o setor Comércio e Serviços – 387.427 postos de trabalho; Indústria – 143.127; Construção – 31.012 e o Agropecuário, com minguados 4.791 empregos localizados basicamente no interior amazonense.
Por explícito desinteresse governamental desde 1967 o setor primário foi subestimado, fator que levou a ZFM a estruturar se, de forma insustentável, apenas sobre o setor secundário da economia. De tal sorte que, hoje, aproximadamente 95% do produto industrial advém do PIM; assim como 92% do ICMS arrecadado e 77,5% do PIB estadual concentram-se na capital amazonense.
O interior, subestimado, encontra-se definitivamente fora da ambiência econômica gerada em Manaus. Do contexto, pode-se destacar os municípios de Coari, com a extração primária de petróleo e gás (nenhum sinal até agora da implantação de um complexo petroquímico) e Presidente Presidente Figueiredo, onde se concentra a exploração de cassiterita (estanho) pela Mineração Taboca, a maior produtora do minério refinado do Brasil, cerca de 3% do estanho comercializado no mundo.
Em novembro de 2024 a mineradora chinesa CNMC (China Nonferrous Metal Mining Group) adquiriu a Mineração Taboca por aproximadamente R$ 2 bilhões, incluindo a reserva de urânio na região. Na condição de maior produtor mundial, a China consolida fortes interesses na exploração de terras raras, um grupo de 17 elementos químicos (15 lantanídeos, mais escândio e ítrio) cruciais para a alta tecnologia, vitais para ímãs super potentes (veículos elétricos, turbinas eólicas), eletrônicos (celulares, LEDs) e aplicações militares, fator que vem gerando algumas preocupações geopolíticas sobre o Brasil ficar de fora da industrialização do minério.
A geógrafa Bertha Becker afirma que o desafio do desenvolvimento da Amazônia pressupõe implementar modelo que utilize o patrimônio natural sem destruí-lo, atribuindo valor econômico à floresta. Nesse sentido, ao que sustenta em sua vasta obra, o Brasil, no século XX, viveu quatro importantes revoluções tecnológicas: a criação da Petrobrás, em 1953; da Embraer, em 1969; da Embrapa, 1973, e a instituição do Proálcool, em 1975.
A quinta revolução tecnológica brasileira deve ser a da Amazônia. Ela foi mais além ao profetizar: “Três grandes eldorados podem ser reconhecidos contemporaneamente: os fundos oceânicos ainda não regulamentados; a Antártida, partilhada entre as potências; e a Amazônia, única a pertencer, em sua maior parte, a um só Estado nacional”. Estas respostas, não sei se vergonhosa ou lamentavelmente, a pesquisa nacional ainda não as tem, levando o país à plena dependência da tecnologia internacional. Estes os pontos cruciais e os maiores desafios do Amazonas para 2026. Solucioná-los pressupõe sobrepujar o estágio randômico sob o qual nossa economia historicamente é conduzida. Governo e sociedade civil não podem, penso eu, contentar-se apenas com números recordes do PIM, enquanto persistem graves problemas relacionados:
à espraiada miséria urbana da capital e dos municípios, ao Zoneamento Ecológico Econômico (ZEE),
à regularização fundiária, ao sistema Integração Lavoura Pecuária Floresta (ILPF),
ao Manejo Florestal Sustentável (MFS) ou a sistemas de produção (pacote tecnológicos) de produção de alimentos nas áreas de piscicultura (criação sustentável em cativeiro de pirarucu e outras espécies de vocação exportadora, como quelônios e jacaré), de produção agrícola ( fruticultura, café, coco) e extrativas, principalmente oleaginosas e vegetal (açaí, babaçu, castanha do pará, cacau, borracha).
Enormes e complexos desafios impostos ao governo, classes políticas, empresariais e à sociedade amazonense, que, todos juntos e coesos são, inexoravelmente, compelidos a lutar para superá-los tendo em vista a ampliação da atual, e insustentável, matriz econômica a partir da integração ZFM/PIM/Bioeconomia. Vale salientar que, enquanto o PIM fechou 2025 com pouco mais de 140 mil empregos diretos, apenas a citricultura paulista gera 400 mil postos de trabalho e a safra 2023/2024 fechou com um faturamento recorde de US$ 2,5 bilhões, 60% de exportações, um aumento de 21,29% em relação à anterior.
O contexto impõe, com efeito, a necessidade de desenvolver nova e desafiadora dinâmica do sistema econômico estadual. Certamente, a garantia de perenização da Zona Franca independentemente de favores fiscais. Assim pensava, e ensinava, o mestre Samuel Benchimol desde a edição do DL 288/1967.
Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).
Calor, beira do rio, sol forte… um cenário que inspira tranquilidade e bebida gelada. Muitas pessoas escolheriam, por exemplo, uma cerveja para superar as altas temperaturas. Na Amazônia existem muitas cervejas criadas inspiradas na região, como a Cerpa.
“A empresa foi fundada em 1966, pelo emigrante alemão Karl Seibel, instalando-a junto às margens da Baía do Guajará, pois viu nos rios da Amazônia as condições ideais de pureza para fabricação de cervejas, atrelando a isso toda a bagagem e conhecimento de uma das principais escolas cervejeiras da Europa”, explica o site oficial da bebida paraense.
Assim, a Cerpa surgiu com o objetivo de produzir cervejas utilizando os recursos abundantes da Amazônia com características regionais. E sua atuação era voltada inicialmente mesmo ao mercado regional, com foco no Pará e em estados vizinhos. Essa estratégia permitiu que a marca construísse uma base sólida de consumidores locais antes de expandir para outras regiões do país.
A Cerpa chegou a alcançar cerca de 65% de participação no mercado paraense e o sucesso inicial foi resultado da combinação entre o conhecimento técnico europeu de Seibel e os insumos amazônicos, gerando um produto reconhecido pela qualidade. Com o passar do tempo, a empresa passou por reestruturações e buscou novos caminhos para manter-se competitiva no cenário nacional, tendo cerca de 10 produtos em seu portfólio.
Falando em portfólio, foi por conta do crescimento da demanda que a Cerpa diversificou seus produtos e passou a incluir marcas como Tijuca, além de linhas premium e bebidas complementares. Em 2020, a cervejaria anunciou planos de ampliar sua distribuição para além da região Norte, mirando o Sudeste do Brasil.
Essa expansão exigiu ajustes comerciais e logísticos, devido ao custo elevado de transporte da produção feita no Pará para outros centros consumidores. Em 2025, a empresa firmou uma parceria com a Cervejaria Cidade Imperial para a industrialização de sua linha de produtos na planta de Belém, reforçando um movimento de colaboração dentro do setor cervejeiro.
Foto: Divulgação
Sustentabilidade e legado regional
A Cerpa mantém iniciativas voltadas à sustentabilidade. Há mais de 30 anos, opera uma estação automatizada de tratamento de efluentes, considerada pioneira na região Norte. Além disso, adota práticas de reaproveitamento de subprodutos e ações de preservação ambiental ligadas à biodiversidade amazônica.
Segundo a empresa, essas medidas reforçam o compromisso com a responsabilidade socioambiental e consolidam sua imagem como marca regional preocupada com o meio ambiente e com o desenvolvimento sustentável da Amazônia.
Até novembro de 2025, empresas da Zona Franca de Manaus faturaram mais que o registrado no mesmo intervalo de 2024. Dados são da Suframa. Foto: Reprodução/Agência Brasil
O Polo Industrial de Manaus (PIM) superou a barreira dos R$ 200 bilhões em faturamento acumulado antes mesmo do fechamento de 2025. De acordo com dados da Superitendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) divulgados na primeira semana de 2026, entre janeiro e novembro do ano passado as indústrias incentivadas da Zona Franca de Manaus (ZFM) faturaram R$ 209,48 bilhões.
O novo recorde representa um aumento de 10,42% em relação ao mesmo período de 2024 (R$ 189,71 bilhões). Em dólar, o montante acumulado nos onze primeiros meses do ano somou US$ 37.68 bilhões. Para o superintendente da Suframa, Bosco Saraiva, os indicadores até novembro consolidam um ano de robustez para a indústria regional.
“Ultrapassar R$ 200 bilhões em faturamento e manter uma média de empregos superior a 131 mil trabalhadores demonstra a segurança e a estabilidade que o modelo Zona Franca oferece para quem investe na Amazônia. Todos esses indicadores validam o sucesso da nossa política de desenvolvimento regional”, avaliou Saraiva.
Segmentos
Os subsetores com maior participação no faturamento global do PIM entre janeiro e novembro de 2025 foram Bens de Informática (20,95%), Duas Rodas (19,87%), Eletroeletrônico (17,04%), Químico (10,01%), Mecânico (9,07%), Termoplástico (8,77%) e Metalúrgico (7,94%).
Já entre os segmentos que apresentaram maior crescimento percentual no faturamento em relação a 2024, os destaques foram Vestuário e Calçados, com expressiva alta de 45,68%; Relojoeiro (27%); e Duas Rodas (23,26%).
Bens de Informática foram os subsetores que tiveram maior participação no faturamento global do PIM em 2025. Foto: Divulgação
Produção
O aquecimento da demanda refletiu diretamente nas linhas de produção. No acumulado de janeiro a novembro, o PIM atingiu a marca de 1.998.715 unidades de motocicletas, motonetas e ciclomotos produzidas, um aumento de 17,67% ante igual período de 2024.
Outros destaques de produção no período incluíram os relógios de pulso e de bolso, com 8.088.734 unidades fabricadas (aumento de 26,45%); condicionadores de ar do tipo split system, com 5.735.938 unidades (crescimento de 7,77%); e monitores com tela de LCD para uso em informática, com 3.124.637 unidades (alta de 6,16%).
Mais empregos
Os resultados positivos do PIM também incluíram a geração de postos de trabalho. A média mensal de mão de obra do PIM em 2025, até novembro, fixou-se em 131.444 trabalhadores diretos, entre efetivos, temporários e terceirizados. O número representa um crescimento de 6,42% na comparação com a média de igual período do ano passado (123.518 trabalhadores). No recorte mensal de novembro, o PIM registrou 128.222 empregos diretos.
4 de janeiro de 1982: o governador Jorge Teixeira discursa em frente ao Palácio Presidente Vargas. Um momento histórico. Do lado direito, está o ministro do Interior, Mário Andreazza, representando o Governo Federal. Andreazza foi, posteriormente, homenageado com o nome de um município em Rondônia. Foto: R. Machado
Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com
Neste domingo, 4 de janeiro, Rondônia comemora 44 anos de sua instalação oficial como Estado da Federação. A data marca o fim de um ciclo iniciado em 1943, quando foi criado o Território Federal do Guaporé, com terras desmembradas do Mato Grosso e do Amazonas, e simboliza a conquista da autonomia administrativa e política da região.
A instalação ocorreu em 1982, em Porto Velho, com uma solenidade em frente ao Palácio Presidente Vargas, sede do Governo Estadual. Autoridades civis e militares se reuniram para celebrar a transição de Território para Estado, em um ato marcado por discursos que exaltaram o papel estratégico de Rondônia na Amazônia Ocidental e pela esperança de desenvolvimento que se abria com a nova condição federativa.
O clima foi de emoção e civismo. Milhares de pessoas acompanharam a cerimônia, cujo ponto alto foi o primeiro hasteamento oficial da bandeira de Rondônia, criada por Silvio Carvajal Feitosa. O governador nomeado, coronel Jorge Teixeira de Oliveira, escolhido pelo presidente João Figueiredo, tomou posse como o primeiro chefe do Executivo estadual. Ministros de Estado, parlamentares e lideranças locais reforçaram a importância estratégica da criação de Rondônia, enquanto a população transformava o ato em uma verdadeira festa popular.
Contexto histórico
Rondônia foi elevado à categoria de Estado pela Lei Complementar nº 41, sancionada em dezembro de 1981. Nos dias que antecederam a instalação, Jorge Teixeira sancionou decretos que instituíram os símbolos oficiais – bandeira, brasão e hino — e organizaram a estrutura administrativa. A instalação marcou a entrada de Rondônia no cenário político nacional como unidade federativa plena, com direito a representação no Congresso e autonomia administrativa.
Identidade e legado
Ao longo de mais de quatro décadas, Rondônia consolidou-se como uma terra multifacetada, marcada pela diversidade cultural e pela força econômica. Migrantes de várias regiões do Brasil, indígenas, seringueiros, quilombolas e povos tradicionais, além dos estrangeiros, compõem uma sociedade plural. É também o único Estado brasileiro que carrega em seu nome a homenagem a um herói nacional: o marechal Cândido Rondon, símbolo de integração e respeito às culturas originárias.
Os personagens por trás das criações oficializadas em 1982
A identidade de Rondônia contada pelos símbolos
A bandeira, o brasão e o hino de Rondônia são mais do que representações gráficas: são expressões da história, da cultura e das contradições que moldaram o estado desde sua criação.
A bandeira criada por um adolescente
Aos 17 anos, Sílvio Carvajal Feitosa venceu o concurso público que definiu a bandeira oficial de Rondônia. Com o prêmio, custeou parte dos estudos em Arquitetura e Urbanismo, curso que concluiu no Rio de Janeiro. Desde cedo, demonstrava talento para desenho geométrico e trabalhos manuais, estudando em escolas de Minas Gerais, Brasília e Rio.
Foi em Brasília, incentivado pelo pai, o empresário e acadêmico Cláudio Feitosa, que se inscreveu no concurso estadual para criação dos símbolos. A bandeira, aprovada em 31 de dezembro de 1981, traz as cores do Pavilhão Nacional e representa a ocupação do estado pelas vias fluvial (Rio Madeira) e terrestre (BR-364). O verde simboliza a estrada, o azul o céu, a estrela de prata a esperança, e o amarelo as riquezas naturais. Tecnicamente, o projeto segue a proporção áurea, com 14 módulos verticais e 20 horizontais. “Todo símbolo precisa de identidade”, afirma Sílvio.
Sílvio Carvajal Feitosa, atualmente; o criador da bandeira de Rondônia. Foto: Acervo pessoal
Publicitário goiano criou o brasão
O Brasão de Armas de Rondônia foi criado em 1981 por Marco Aurélio do Nascimento Anconi, publicitário goiano radicado no estado desde 1980. À época, Anconi integrava uma equipe de paraquedismo convidada pelo governo para a inauguração do Parque dos Tanques, em Porto Velho. Após uma apresentação, seus trabalhos gráficos chamaram a atenção de técnicos da Secretaria de Planejamento do Território Federal, que o convenceram a permanecer em Rondônia.
“Eu estava no auge da carreira em Goiânia e não pensava em ficar. Mas me ofereceram dez vezes o salário que eu recebia. Bebi a água do Madeira e nunca mais saí daqui”, recorda o publicitário que ainda vive na capital rondoniense.
Marco Aurélio criou o brasão de armas. Foto: Acervo pessoal
Com apenas 27 anos, estudioso de heráldica (a arte e ciência dos brasões de armas, criada na Europa medieval para identificar famílias, instituições e territórios), Anconi concebeu o brasão oficial justamente no momento em que o antigo território federal se transformava em unidade federativa autônoma. Além da publicidade, construiu trajetória como jornalista, escritor e artista gráfico, sendo hoje membro da Academia Rondoniense de Letras.
Explicando o brasão:
Escudo azul: simboliza o céu e a vastidão da Amazônia.
Estrela central: representa Rondônia como unidade federativa, destacando sua posição na região Norte.
Elmo prateado com paquifes verdes: colocado no topo do escudo, remete à tradição heráldica e à proteção.
Timbre com espada desembainhada: apontada para cima, simboliza justiça, força e defesa da sociedade.
Há, ainda, elementos que reportam às lavouras tradicionais e os monumentos históricos estilizados: o Forte Príncipe da Beira, a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré e a espada de Marechal Rondon.
Integralista escreveu o Hino de Rondônia
O hino oficial “Céus de Rondônia” tem origem no poema “Céus do Guaporé” (o nome do território foi alterado em 1956) , escrito na década de 1950 pelo engenheiro civil baiano Joaquim Araújo Lima, primeiro governador civil do Território Federal, entre 1948 e 1951. A letra celebra os pioneiros que enfrentaram desafios para colonizar terras ancestrais indígenas, mas também carrega marcas de um passado controverso.
Antes de chegar a Rondônia – onde trabalhou na Estrada de Ferro Madeira-Mamoré – , Araújo Lima era ativista membro da Ação Integralista Brasileira (AIB), movimento político de inspiração fascista, colocado na ilegalidade em 1938, durante o Estado Novo. Chegou a ser processado. Após anistia, mudou-se para Porto Velho nos anos 1940, onde escreveu o poema que se tornaria hino. A melodia homenageia os “bandeirantes”, mas a associação é hoje alvo de críticas e revisões históricas.
Joaquim Araújo Lima escreveu o hino de Rondônia. Foto: Divulgação/Secom RO
Além do hino, noo governo, sua administração deixou importantes legados como o Palácio Presidente Vargas, o Hotel Porto Velho (hoje UNIR-centro) e a Escola Carmela Dutra.
O ex-governador morreu em meados de 1968. Em 5 de setembro de 1968, o então presidente Costa e Silva sancionou a Lei nº 5.493, que concedia uma pensão especial à sua viúva, Joaquina Gomes de Araújo Lima, citando o falecimento trágico do engenheiro, que segundo o documento, faleceu “em acidente em serviço” da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.
Trecho do hino (a melodia é de José Mello e Silva): “Nós os Bandeirantes de Rondônia /Nos orgulhamos / De tanta beleza / Como sentinelas avançadas / Somos destemidos pioneiros.”
O hino, uma história em revisão
A narrativa oficial de Rondônia, centrada na construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré e da BR-364, trata as pessoas envolvidas nesses empreendimentos como “pioneiras” e “bandeirantes”. E tende a ignorar os povos indígenas que moldaram a região por milênios. Também são pouco lembrados os seringueiros, os habitantes dos postos telegráficos, os negros dos quilombos do Vale do Guaporé e os brasilianistas que contribuíram para a identidade local muito antes da década de 1960.
Os símbolos do estado, embora celebrados, também convidam à reflexão sobre as múltiplas camadas da história rondoniense — suas glórias, suas omissões e a necessidade de revisitar narrativas à luz da diversidade cultural e dos direitos históricos dos povos originários.
Os bastidores da história
A briga dos coronéis
A instalação de Rondônia como estado da Federação, em 4 de janeiro de 1982, foi marcada por festa cívica e emoção popular, mas também por disputas políticas entre os dois militares. Nomeado pelo presidente João Figueiredo, Jorge Teixeira tornou-se o primeiro governador do novo estado. Popular, conquistou a simpatia da população e tornou-se até nome de municípios (Teixeirópolis e Jorge Teixeira) e do aeroporto internacional de Porto Velho. Sua gestão incluiu escolas rurais, hospitais e a inauguração do asfalto da BR-364, que projetou Rondônia nacionalmente como “novo eldorado” e atraiu migrantes.
Apesar da imagem de “tocador de obras”, Teixeirão foi acusado de autoritarismo e perseguição por adversários como Jerônimo Santana e Tomás Correia, ambos do PMDB. O coronel Humberto Guedes, seu antecessor no governo do território, também o criticou em carta aberta, alegando detratação e perseguição a seus aliados. Durante sua administração, Guedes havia criado municípios estratégicos ao longo da BR-364, como Vilhena, Pimenta Bueno, Ji-Paraná, Ariquemes e Cacoal, fundamentais para a elevação de Rondônia à condição de estado, consolidada por Teixeirão com apoio de Figueiredo. A rivalidade entre os coronéis expôs fissuras no PDS, partido que sustentava o regime militar.
Os últimos coronéis do Exército que governaram Rondônia: Humberto Guedes e Jorge Teixeira. Fotos: Acervo pessoal
Rondônia foi elevado a 23º estado brasileiro pela Lei Complementar nº 41, de 22 de dezembro de 1981, e instalado em 4 de janeiro de 1982. No mesmo ano, em 15 de novembro, ocorreram eleições gerais em 23 estados e nos territórios do Amapá e Roraima. Embora não houvesse eleição direta para governador, Jorge Teixeira manteve o cargo e trabalhou para fortalecer as bases de Figueiredo no Congresso.
Foram eleitos os senadores Odacir Soares, Galvão Modesto e Claudionor Roriz, todos do PDS e apoiados por Teixeirão. O partido também conquistou seis das oito vagas de deputado federal e 15 das 24 estaduais. Insatisfeito desde sua substituição em 1979, Humberto Guedes deixou o PDS em 1982 e tentou migrar para o PP de Tancredo Neves, extinto pouco depois, com seus quadros absorvidos pelo PMDB.
Em carta intitulada “Aos amigos de Rondônia”, Guedes acusou Teixeirão de perseguir antigos aliados, como Antônio Morimoto, que pretendia disputar vaga no Senado em 1982, mas não conseguiu apoio. Morimoto foi deputado federal por São Paulo e o relator da lei que transformou Rondônia em estado. Transferiu o domicílio eleitoral para Vilhena, sob a promessa – não cumprida de Teixeirão – de que ele seria candidato a senador.
Os três senadores eleitos e Teixeirão: união durou apenas alguns meses. Foto: Divulgação
No início de 1984, Teixeirão licenciou-se por 42 dias para fisioterapia, após lesão em salto de paraquedas. Nesse período, Rondônia teve a primeira mulher governadora do país: Janilene Vasconcelos de Melo, secretária de Planejamento, que assumiu interinamente aos 35 anos.
Naquele ano, Teixeirão inaugurou o asfalto da BR-364, mas enfrentou o avanço das Diretas Já e a rejeição da emenda Dante de Oliveira. Ligado ao PDS, apoiou Paulo Maluf, mas viu o partido se desintegrar após a vitória de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral. Também fracassou seu projeto de se tornar ministro em um eventual governo de Mário Andreazza – que perdeu para Maluf a indicação do PDS para ser o candidato à presidência para Maluf, este derrotado por Tancredo Neves no colégio eleitoral
Com a redemocratização e a morte de Tancredo, José Sarney assumiu a presidência e, em 1986, exonerou Teixeirão atendendo às pressões do PMDB local. Assim, foi nomeador o deputado estadual Ângelo Angelim para governador. O coronel deixou o governo ainda popular, recusou convites para disputar cargos no Amazonas e em Rondônia e encerrou sua trajetória política. Menos de dois anos depois, faleceu no Rio de Janeiro.
Avesso à esquerda, temia a ascensão de Jerônimo Santana, que considerava “caluniador” e “inútil”. Para sua decepção, foi justamente a oposição quem assumiu o comando do estado. Após a exoneração, partiu para o Rio de Janeiro, onde recebeu o carinho de amigos do Exército, que o chamavam de “Boião”. A população lamentou sua saída, mas adversários políticos celebraram
Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.