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Dalton Valeriano, o pesquisador que revolucionou o monitoramento da Amazônia

O pesquisador que revolucionou o monitoramento da Amazônia. Foto: Imazon

O biólogo, pesquisador e especialista em sensoriamento remoto do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Dalton de Morisson Valeriano que morreu no mês de junho, aos 69 anos, deixou como legado ferramentas que mudaram a história da gestão ambiental no país.

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Servidor de carreira por mais de 40 anos, Valeriano teve papel decisivo na concepção de ferramentas que hoje formam a base do combate ao desmatamento na Amazônia. Entre elas, o Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real (Deter), que abriu aos órgãos de fiscalização ambiental a possibilidade de monitoramento das florestas em tempo quase real.

Dalton Valeriano, o pesquisador que revolucionou o monitoramento da Amazônia
Dalton Valeriano, o pesquisador que revolucionou o monitoramento da Amazônia. Foto: Alessandro Dantas/ Ministério do Meio Ambiente

“Ele revolucionou o monitoramento da Amazônia e, com isso, contribuiu fortemente para o sucesso no enfrentamento do desmatamento ilegal”, disse ao OC o agrônomo e especialista em sensoriamento remoto Cláudio Almeida, atual coordenador do Programa de Monitoramento da Amazônia e Demais Biomas do Inpe.

Graduado em biologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 1978, o pesquisador concluiu o mestrado em sensoriamento remoto pelo Inpe em 1984 e o doutorado em geografia pela Universidade da Califórnia em 1996.

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Legado

Para Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas, Valeriano foi um “cientista fundamental e um contador de histórias incrível”. “Sem o Dalton e o time do Inpe, a queda que vemos do desmatamento não teria ocorrido. O MapBiomas se alimenta muito desse legado”, afirmou.

A presidente da Fundação SOS Mata Atlântica, Márcia Hirota, lembrou que a contribuição de Valeriano não se limitou ao bioma amazônico. ”Dalton contribuiu muito para o Atlas da Mata Atlântica na parceria da SOS com o Inpe. Tivemos muitas e boas conversas”, relembrou.

Dalton Valeriano, o pesquisador que revolucionou o monitoramento da Amazônia. Foto: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações

Diretor do INPE de 2005 a 2012, o pesquisador Gilberto Câmara classificou o colega de “gigante” que deixou como legado ferramentas que mudaram a história da gestão ambiental no país. “Embora não tenha desenvolvido o Prodes, ele foi o principal responsável por estruturá-lo a partir de 2000. Colocou o sistema na linha. E criou o Deter, ou seja, fez uma enorme diferença. Sem ele, a história da Amazônia teria sido outra”, avaliou.

Em nota oficial, o Inpe qualificou Valeriano como um “visionário da floresta”, cuja voz “mostrou ao país a real situação da floresta Amazônica”. “Sua trajetória profissional entrelaça-se de forma indelével com a história do monitoramento da maior floresta tropical do mundo”, afirma o Inpe.

Dalton Valeriano, o pesquisador que revolucionou o monitoramento da Amazônia. Foto: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações

De acordo com o instituto, o pesquisador dedicou sua vida a aperfeiçoar a metodologia de análise de imagens de satélite, “transformando dados brutos em informações críticas e acionáveis”.

“Seu trabalho garantiu que o Brasil possuísse um sistema de grande rigor científico, capaz de informar a extensão da devastação ano após ano, fornecendo a base incontestável sobre a qual se assenta o diagnóstico da situação amazônica.”

Em entrevista concedida em 2009, Valeriano manifestou preocupação com o ritmo da devastação da Amazônia (“Se continuar como está, um dia vai acabar”), mas destacou como positivo o fato de haver mais “capacidade de controle”. “Eu acredito que a transparência é a chave de tudo”, afirmou ele à época.

*Com informações do Imazon

Amazonas tem queda de quase 67% nos focos de calor no primeiro semestre de 2025

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O Amazonas ocupa a sexta posição entre os estados da Amazônia Legal com maior número de registros. Foto: Greenpeace

Amazonas registrou uma redução de 66,97% nos focos de calor no primeiro semestre de 2025, em comparação com o mesmo período do ano passado. Os dados são do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgados pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e monitorados pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema).

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Entre janeiro e junho, foram contabilizados 220 focos no estado, contra 666 no mesmo período de 2024. Com isso, o Amazonas ocupa a sexta posição entre os estados da Amazônia Legal com maior número de registros no período.

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Amazonas tem queda de quase 67% nos focos de calor
Imagem aérea feita na terça-feira, 16 de agosto de 2022 mostra área de queimada na fronteira do estado de Rondônia com o Amazonas. — Foto: Ruan Gabriel/Rede Amazônica

A maior parte dos focos ocorreu em áreas sob jurisdição federal, que concentraram 70,45% dos casos. As áreas estaduais responderam por 15%, enquanto 14,55% foram registrados em regiões classificadas como vazios cartográficos que são territórios sem regularização fundiária definida.

Em junho, a tendência de queda se manteve. Foram detectados 91 focos de calor no estado, uma redução de 64,73% em relação ao mesmo mês de 2024, quando houve 258 registros. Novamente, a maioria dos focos (83,52%) ocorreu em áreas federais. As áreas estaduais representaram 8,79% e os vazios cartográficos, 7,69%.

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Desmatamentos também tem queda

Ainda segundo dados do Inpe, o Amazonas registrou queda de 52,46% na área desmatada em junho de 2025, em comparação com o mesmo mês do ano anterior. Foram desmatados 6.614 hectares, frente aos 13.915 hectares registrados em junho de 2024.

Imagem aérea de queimadas na cidade de Altamira, Estado do Pará. Foto: Victor Moriyama/Greenpeace

Também houve redução de 60,76% nos alertas de desmatamento, que passaram de 650 para 255 registros no período.

No recorte territorial referente ao mês de junho de 2025, os municípios com maior área desmatada foram:

  • Lábrea: 2.103 hectares;
  • Apuí: 1.276 hectares;
  • Boca do Acre: 890 hectares.

Em relação à quantidade de alertas de desmatamento, os mesmos municípios lideram o ranking, com Lábrea registrando 59 alertas, seguido por Apuí e Boca do Acre, ambos com 49 registros.

*Por g1 AM

Boa Vista 135 anos: com políticas públicas voltadas à agricultura familiar, prefeitura já investiu mais de R$ 62 milhões no setor

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A agricultura familiar recebe constantes investimentos da Prefeitura de Boa Vista. Foto: Giovani Oliveira/PMBV

Um dos pilares da segurança alimentar e do desenvolvimento sustentável, a agricultura familiar recebe constantes investimentos da Prefeitura de Boa Vista ao longo dos anos. Com políticas públicas voltadas para o trabalho do campo, a atual gestão investiu mais de R$ 62 milhões no setor, fortalecendo a economia local, gerando emprego e renda na capital roraimense.

Famílias agricultoras da zona rural e comunidades indígenas de Boa Vista contam com liberação de fertilizantes e sementes, assistência técnica especializada, máquinas agrícolas, fornecimento de sistemas de irrigação com energia fotovoltaica, dentre outros benefícios. O prefeito Arthur Henrique conta que, com os investimentos na agricultura, a prefeitura impulsiona a produção agrícola local e garante mais produtividade e geração de renda às famílias.

“São diversas as frentes de atuação, que variam do fornecimento de calcário, fertilizantes, máquinas, sistemas de irrigação com energia fotovoltaica até pesquisas no CDT [Centro de Difusão Tecnológica] para garantir que os produtores recebam informações técnicas sobre cultivares mais adequadas à região, formulação de fertilizantes a serem utilizados em diversas culturas e deste modo obtenha melhores resultados na colheita”, disse.

Plano Municipal de Desenvolvimento do Agronegócio conta com quase 1.800 famílias atendidas e mais 4 mil hectares de área plantados. Foto: Diane Sampaio/PMBV

PMDA

Atualmente, o Plano Municipal de Desenvolvimento do Agronegócio (PMDA) conta com 1.781 famílias atendidas e mais 4 mil hectares de área plantados. No primeiro semestre deste ano, com apoio da prefeitura, foram cultivados 1.205 hectares de grão, sendo 700 ha de soja e milho para produtores independentes, 400 ha para agricultores inscritos no programa e 105 ha nas comunidades indígenas.

No segundo semestre de 2025 está prevista a distribuição de outras 1.500 toneladas de calcário para o cultivo da safra de verão. Adriana Almeida, produtora de feijão-verde, macaxeira, milho, melancia, banana, pimenta-de-cheiro, melão, quiabo e abóbora, na região do Polo Produtivo Novo Passarão, zona rural de Boa Vista, tem contado com os benefícios do PMDA para investir na propriedade da família.

“Hoje tem uma máquina da prefeitura fazendo o nivelamento do solo na minha propriedade para eu iniciar o plantio de melancia, uma das culturas que trabalho. Graças ao programa da prefeitura, fui contemplada com o sistema de irrigação e produzo durante o inverno e verão. Sem contar que ainda contamos com consultas dos técnicos no desenvolvimento de cada lavoura”, contou.

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Mais de 130 sistemas de irrigação com energia fotovoltaica foram implantados no município. Foto: Fernando Teixiera/PMBV

Sistema de irrigação

Ao instalar sistemas de irrigação com energia fotovoltaica, a prefeitura investiu em inovação e tecnologia, garantido desenvolvimento no campo com fornecimento de energia limpa e renovável, reduzindo significativamente os custos de produção no período de verão. Ao todo, 132 foram implantados pela atual gestão do município. Destes, 26 foram instalados em 16 comunidades indígenas. Outros 24 serão instalados até setembro, totalizando 156.

Máquinas e implementos

Hoje, a prefeitura conta com 144 máquinas e implementos, entre tratores, grades aradoras, grades niveladoras, calcareadeiras, encanteiradores, plantadeiras, colheitadeiras, caminhões, pás carregadeiras, escavadeiras e patrola. Todos são disponibilizados para os agricultores com a prestação de serviços na zona rural e comunidades indígenas.

Comunidades indígenas dispõem do projeto Moro-Mori, voltado para a implantação da piscicultura. Foto: Divulgação/PMBV

Comunidades indígenas

Conforme levantamento feito por tuxauas em junho de 2024, mais de 5.200 pessoas (sendo 1.500 famílias) vivem nas 17 comunidades indígenas de Boa Vista. Todos contam com serviços de máquinas, equipamentos, insumos como calcário, fertilizantes, sementes para preparo do solo e plantio.

Além disso, as comunidades dispõem do projeto Moro-Mori, voltado para a implantação da piscicultura, sendo 14 com a iniciativa em andamento e mais três serão beneficiadas até o final do ano. Até o momento, cinco já fizeram a despesca: Serra da Moça, Darora, Campo Alegre, Vista Alegre e Ilha. No processo, os produtores retiraram cerca de 11 toneladas de peixes dos tanques. Parte da produção é consumida na comunidade e a outra parcela é destinada à comercialização.

As famílias indígenas também atuam em outras frentes de produção, como plantio de diversas culturas. Neste ano, a prefeitura incorporou calcário e plantou 105 hectares de milho nas comunidades, com expectativa de colher mais de 600 toneladas do grão. Nascido e criado na Serra da Moça, Felício Neves, de 59 anos, trabalha na lavoura da região, em parceria com mais 11 famílias.

“Plantamos uma área de 5 hectares de milho e tudo foi graças ao apoio da prefeitura. Recebemos calcário para a correção do solo. Depois a máquina veio e fez o plantio. Sem esse trabalho, a gente não conseguiria plantar uma roça desse tamanho que temos hoje, pois o plantio seria no braço. O projeto é aumentar o tamanho para o ano que vem. Agora, nos próximos meses vamos colher”, destacou.

Centro de Difusão Tecnológica

Plantio de culturas no CDT representa uma iniciativa que une ciência e sustentabilidade. Além de contribuir para a pesquisa agrícola e a promoção de técnicas inovadoras de cultivo, o centro desempenha um papel fundamental, incentivando a valorização da agricultura e ainda é palco da Maior Feira da Agricultura de Roraima, a AgroBV, com data marcada para 31 de julho a 03 de agosto.

Lisboa em azulejos: uma história com cinco séculos

Capela de São Pedro de Rates, Sé de Braga (Portugal). Foto: Reprodução/Livro ‘Azulejo em Braga – o largo tempo do barroco’

Por Abrahim Baze – literatura@amazonsat.com.br

A história do azulejo começou no antigo Egito. Depois passou pela Mesopotâmia e espalhou-se pelo sul do Mediterrâneo. A sua introdução na Europa foi feita pelos povos oriundos do norte de África. O desenvolvimento do azulejo, enquanto arte decorativa, conheceu uma profunda evolução na Península Ibérica, onde, durante séculos, se fizeram trocas culturais e guerras entre povos islâmicos e cristãos.

A própria designação azulejo deriva da palavra azzelij, que na língua árabe serve para referir uma pequena pedra lisa e polida. Em Portugal, o termo azulejo passou a ser usado para referir uma pequena superfície cerâmica esmaltada.

A aplicação no país, de revestimentos de azulejo em espaço interiores e exteriores teve o seu ponto de viragem no século XV, quando o rei D. Manuel I decidiu decorar o palácio de Sintra a semelhança do Alcazar da cidade espanhola de Sevilha. E a vontade do rei foi tal, que o Palácio Nacional de Sintra permanece como um exemplo sem igual de azulejaria do final do século XV e princípio do século XVI. Desde então, o seu uso generalizou-se de tal forma que Portugal é, hoje, o país da Europa onde se há o maior número de revestimentos em azulejo e a arquitetura mais se estreitou.

Atualmente, os exemplos de azulejos que Lisboa ostenta são tantos e, de tal forma, variados, que a história da própria cidade pode ser lida em painéis de azulejos. E já que é da história de Lisboa que se trata, nada melhor do que começar pela conquista da cidade pelo fundador de Portugal, o rei D. Afonso Henriques.

Os azulejos da conquista de Lisboa

A conquista de Lisboa pelo primeiro rei português, em 1147, aparece relatada num painel do Mosteiro de São Vicente de Fora. A cidade, cercada por dois quilômetros de muralhas, contava então com 15 mil habitantes.

O painel, como uma fotografia, mostra o momento em que os cristãos galgam as muralhas defendidas pelos muçulmanos que viviam na cidade desde o ano de 711. As bandeiras, ostentando a lua em forma de quarto crescente, ainda estão içadas. Mas, na superfície da muralha, há já uma brecha. Mais a frente, uma das portas da cidade foi aberta. Através dela, colina acima, o invasor penetrou rapidamente. Só encontrou resistência já muito no interior da cidade.

Do outro lado do painel, a batalha já começou e os sitiados opõem-se com ferocidade aos soldados que sobem através de escadas. No chão veem-se os primeiros cadáveres. Depressa serão mais, porque há homens a serem degolados. E não são só as espadas que matam. As flechas, disparadas dos dois lados, também são mortíferas.

Igreja do antigo Mosteiro do Salvador, atual Lar Conde Agrolongo. Foto: Reprodução/Livro ‘Azulejo em Braga – o largo tempo do barroco’

A cidade anterior ao terremoto

A história de Lisboa pode ainda ser lida noutros painéis de azulejos. Alguns deles contam como era a cidade anterior ao terremoto que a devastou em 1755.

O terremoto de 1755, pela amplitude da sua destruição, marcou para sempre a vida de Lisboa. Duas das raras imagens panorâmicas da cidade anterior ao terramoto encontra-se no Museu do Azulejo e no miradouro de Santa Luzia.

No painel exposto no Museu do Azulejo entre muitos dos palácios e igrejas desaparecidos, vê-se o antigo Paço Real e a zona hoje ocupada pela Baixa e pelo Chiado. O vale central de Lisboa, nos tempos anteriores a 1755, era ocupado por ativos comerciantes de metais e de outros bens destinados as elites. A arquitetura da zona era, em tudo, semelhante aquela que ainda hoje pode ser vista em Alfama e na Mouraria.

Marcada pelo traçado árabe, a zona baixa de Lisboa retorcia-se em estreitas e desniveladas ruas. As encostadas umas as outras, tinham-se acumulado ao longo de seiscentos anos. Só a partir do século XVI, com a edificação do Paço Real na zona fronteira ao rio Tejo, a zona central de Lisboa começou a conhecer algumas alterações. Mas foi no dia 1 de novembro de 1755 que tudo, num só momento, se modificou para sempre. Nesse dia Lisboa foi abalada pelo maior desastre natural da sua história.

Tudo começou de madrugada, quando um primeiro abalo de terra se fez sentir. Durante sete minutos a terra não parou de tremer. O chão abriu-se em fendas, arrastando pessoas e casas. Os lisboetas aterrorizados viram as águas dos rios recuarem, deixando o fundo a vista. E com a mesma velocidade com que tinham desaparecido, as águas voltaram, enroladas numa onda medonha que arrastou os barcos para se estilhaçarem em terra.

E como se ainda não fosse suficiente, a terra tremeu uma segunda vez. No espaço de hora e meia, perdeu-se quase tudo. Os incêndios que se seguiram levaram os livros, os tesouros, as obras de arte e muito daquilo que as viagens marítimas tinham feito desembarcar em lisboa, desde o século XV. É dessa Lisboa desaparecida que os painéis do Museu do Azulejo e do miradouro de Santa Luzia nos dão conta. Neste último, o Paço Real destruído pelo terramoto aparece reproduzido tal como em 1750.

Ouro e azulejo

Antes do terramoto de 1755, já arte da azulejaria tinha ocupado todos os espaços que o ouro vindo do Brasil tornava magníficos. Reinava então D. João V. É neste período de apogeu do barroco que o azulejo mostra todas as suas possibilidades decorativas. Atravessa também uma evolução fundamental que o distinguiria de todos, até então feitos: a policromia é trocada pelo azul e branco. Foi durante o reinado de D. João V, um dos mais longos da história de Portugal, que se deu a Guerra da Sucessão em Espanha.

A possibilidade de ligação do único Estado com o qual Portugal tem fronteiras terrestres a potência continental daquela época, a França, obrigou D. João V a envolver-se no conflito. Daí resultou com o regresso da paz e assinatura do Tratado de Utrecht, em 1713, o reconhecimento da soberania portuguesa no Brasil. E foi do Brasil que chegaram a Lisboa, entre muitas outras riquezas, toneladas de ouro.

Igreja de Nossa Senhora do Pópulo. Foto: Reprodução/Livro ‘Azulejo em Braga – o largo tempo do barroco’

Foi também por esta altura que tanto as casas senhoriais como as igrejas, encontram no revestimento a azulejo a forma de exprimir a prosperidade então vivida em Lisboa. O azulejo associou-se a talha dourada, numa simbiose que marca a estética decorativa portuguesa do século XVII. Foi a era do ouro e do azulejo.

Ao mesmo tempo, com a reconstrução de Lisboa posterior a 1755, tornou-se necessário produzir azulejos em quantidades crescentes. Apareceram novas fábricas e novas técnicas. As grandes superfícies completamente revestidas a azulejos passaram a cobrir as fachadas e os interiores. Regressa também a policromia. A arte da azulejaria acompanha a corte do rei D. Manuel para o Palácio de Queluz.

Surgem trabalhos magníficos, como um canal, com 115 metros de comprimento, integralmente revestido com cinquenta mil azulejos. No interior do Palácio, aparecem alegorias simbolizando as quatro estações do ano. É o início de um percurso que conduziria, já no final do século XIX, aos trabalhos em azulejo do Ferreira das Tabuletas. Nesta época, Lisboa era já a cidade dos azulejos.

As alegorias de 1800

O século de 1800 assistiu a fundação de fábricas de cerâmica, cujos trabalhos se tornaram famosos. Uma delas, a fábrica Viúva Lamego, ainda está em funcionamento.

Da azulejaria decorativa do século XIX, Lisboa guarda os trabalhos do pintor conhecido por Ferreira das Tabuletas. A sua obra pode ser vista em revestimentos exteriores como em painéis interiores.

O recurso as alegorias é uma constante na sua do Ferreira das Tabuletas. Destaca-se, neste domínio, a Cervejaria Trindade. Depois de uma entrada repleta de símbolos maçônicos, aparecem representadas a Água, a Terra, o Vento e o Fogo, sob a forma de figuras femininas. No espaço onde a Cervejaria Trindade funciona desde o ano de 1863, o pintor Ferreira das Tabuletas retratou, também as estações do ano, assim como o comércio e a indústria.

As fachadas da fábrica Viúva Lamego e do prédio n° 30 da Rua da Trindade são exemplos de trabalhos em azulejo do pintor Ferreira das Tabuletas, que ficaram para sempre como marcas da identidade de Lisboa.

A nova vida do azulejo

Casa-museu Nogueira da Silva. Foto: Reprodução/Livro ‘Azulejo em Braga – o largo tempo do barroco’

A arte nova fez igualmente uso dos painéis e frisos em azulejo para decoração de espaços interiores e exteriores.

Com o avanço do século XX, seu uso decresceu significativamente, na proibição do uso para revestimento de prédios. Por esta decisão municipal tomada no final da década de vinte, pelo perigo que os azulejos representariam aos bombeiros, ao soltarem-se de suas fachadas.

Porem, o azulejo fazia já parte da estética decorativa portuguesa. Uma das mais importantes excepções datas de 1949. Trata-se de um notável edifício na Rua do Salitre, de autoria do arquiteto Pardal Monteiro, com azulejos de um dos maiores portugueses do século XX: Almada Negreiros. Na década seguinte a decisão de interditar o seu uso foi levantada.

Fora de Portugal, artistas como Picasso, Matisse, Miró e Dali, envolviam-se no universo do azulejo, trabalhando diretamente ou concebendo painéis. Também quando artistas de Lisboa Júlio Pomar, Sá Negreira, Carlos Botelho e Maria Keil – conceberam e executaram um conjunto de grandes painéis decorativos para a Avenida Infante D. Henrique. O esplendor do azulejo voltou a partir da década de 70, em trabalhos de autores contemporâneos como Gargaleiro e Querubim Lapa.

Hoje, o azulejo conquista novos espaços. Destacam-se as obras para sempre expostas nas estações do Metropolitano e no Oceanário de Lisboa. Entre os painéis que decoram as estações de metropolitano, encontram-se um trabalho de Helena Vieira da Silva, na cidade-universitária, um painel na estação do Campo Grande, da autoria de Eduardo Nery, e uma criação de Júlio Pomar, no Alto dos Moinhos. Existem ainda diversas outras obras em azulejo em muitas das estações do Metropolitano de Lisboa.

No Oceanário de Lisboa foi aplicado um revestimento em azulejo da responsabilidade de um criador norte-americano. Trata-se de um conjunto de 54 mil azulejos pintados a mão, reproduzindo elementos da fauna marítima.

Para além, da persistência do azulejo tradicional no interior de casa e jardins particulares, os exemplos de novos campos para aplicação do azulejo mostram que o seu futuro também passa pela sua aplicação em grandes espaços públicos, como se pode verificar pelo exemplo dos viadutos rodoviários de Lisboa. Desse futuro fazem parte nomes como Rui Mantero e Bela Silva.

Sobre o autor

Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Milton Hatoum se candidata a sucessor de Cícero Sandroni na Academia Brasileira de Letras

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Foto: Ed Figueiredo/Instagram-CPFSESC

Na presença das filhas Luciana e Paula, foi realizada no dia 26 de junho a sessão da Saudade em homenagem a Cícero Sandroni, da Academia Brasileira de Letras (ABL), que morreu aos 90 anos no dia 17 de junho, em decorrência de um choque séptico causado por infecção urinária. Ele estava fragilizado por uma longa doença. Após a sessão, a cadeira foi declarada vaga e abertas as inscrições para a sucessão.

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De acordo com a ABL, o escritor amazonense Milton Hatoum foi o primeiro a mandar a carta se declarando candidato.

Milton nasceu em 19 de agosto de 1952, em Manaus, filho de libanês. É escritor, professor e tradutor e publicou oito livros, como ‘Dois irmãos’ (que se tornou minissérie pela Globo em 2017 e lhe rendeu um Prêmio Jabuti), ‘Relato de um certo oriente’ e ‘Cinzas Do Norte’.

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Cícero Sandroni 

O jornalista Cícero Sandroni morreu em casa e deixa a viúva Laura Constância Austregesilo de Athayde e cinco filhos. Ele foi um acadêmico dedicado à Casa, da qual foi presidente entre 2007 e 2009. Trabalhou nos grandes jornais cariocas, como ‘Jornal do Brasil’, ‘Correio da Manhã’, ‘Jornal do Commercio’ e ‘O Globo’.

Em 1976, ajudou a organizar o Manifesto dos Mil, documento dos intelectuais que acabou com a censura em 1976, ao lado Nélida Piñon, Lygia Fagundes Telles e Hélio Silva, entre outros. 

Junto com sua mulher, Laura, escreveu o livro ‘O Século de um liberal’, sobre a vida e obra de Austregésilo de Athayde, seu sogro, um dos grandes pensadores do Brasil. Membros da ABL prestaram homenagem ao Acadêmico, como Merval Pereira, Ruy Castro e Rosiska Darcy.

*Com informações da ABL

Dia Mundial do Chocolate: conheça a Barcalat, uma das marcas 100% amazônicas

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Barcalat aposta nos sabores regionais e produção comprometida com impacto social e ambiental. Foto: Divulgação

O Pará é o maior produtor de amêndoa de cacau do Brasil e um dos maiores do mundo. Segundo o ‘Boletim Agropecuário do Pará 2024’, desenvolvido pela Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa), o fruto representa 14,5% de toda produção agrícola estadual, o que tornou inevitável que o produto derivado dele, o chocolate, se tornasse uma paixão regional.

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Dois desses apaixonados são os engenheiros bioquímicos Yasmin Cantuária e Vinícius Carvalho, que se uniram a partir de uma inquietação em comum e criaram juntos a própria marca de chocolate: a Barcalat.

Segundo eles, a idealização do projeto surgiu em 2021, a partir da preocupação de criar um chocolate que fosse ao mesmo tempo saboroso, inclusivo e comprometido com impacto social e ambiental. “A ideia da Barcalat foi sendo construída ao longo de pesquisas, vivências e da vontade de oferecer ao mercado um chocolate que refletisse a identidade amazônica com autenticidade e ética”, afirmam os engenheiros e empreendedores.

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Em 2022, o empreendimento se desenvolveu ainda mais ao ganhar o apoio do Governo do Estado, através da Fapespa, com o “Programa Centelha 2”, que estimulou a criação de empreendimentos inovadores, com a geração de novas ideias e disseminação da cultura do empreendedorismo inovador em todo o país, ao incentivar a mobilização e a articulação institucional dos atores nos ecossistemas locais, estaduais e regionais de inovação do país.

Destaque

Parceria entre a Fapespa, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), o programa investiu mais de R$ 179 mil em startups relacionadas à produção de chocolate. “Foi esse suporte que permitiu transformar uma ideia cheia de propósito em um negócio real, que hoje gera impacto, valoriza a floresta e entrega ao mundo um chocolate amazônico de verdade”, declaram Yasmin e Vinícius. 

De acordo com os empreendedores, a produção dos chocolates da marca funciona de forma 100% regional, seguindo o modelo “da floresta ao consumidor”.

“As amêndoas de cacau são cultivadas e fermentadas por parceiros locais, e nós cuidamos do processamento, rastreabilidade e criação dos produtos em nossa fábrica própria, garantindo qualidade, inovação e identidade amazônica em cada barra”, explicam.

Barcalat é uma das marcas 100% amazônicas. Foto: Divulgação

Com a dedicação de criar um produto inovador sem aditivos sintéticos, leite, glúten, gordura hidrogenada e excessos de açúcar, o chocolate barcarenense foi o grande vencedor da categoria “Meu Primeiro Chocolate” do Festival Internacional de Chocolate e Flores, em 2023. 

Cacau

Segundo dados da Fapespa, o Pará conta com mais de 31,5 mil produtores de cacau, grande parte dessa produção é oriunda da agricultura familiar. Pensando na importância desta cadeia produtiva, atualmente a Fapespa destina R$ 2.535.079,20 para dez projetos que envolvem cacau, sendo sete de pesquisa e três de apoio a Startups.

Atualmente, a Barcalat aposta em sabores ousados e regionais como o chocolate com jambu, priprioca, cupuaçu e castanha, além de uma linha voltada para o público fitness. A marca também já foi reconhecida com prêmios de melhor sabor, destaque em impacto socioambiental e destaque em mercado por programas como o Jornada Amazônia.

Programa Centelha

Os desafios à inovação do “Programa Centelha” têm estimulado a criação de empreendimentos inovadores, com a geração de novas ideias e disseminação da cultura do empreendedorismo inovador em todo o país, ao incentivar a mobilização e a articulação institucional dos atores nos ecossistemas locais, estaduais e regionais de inovação do país

A chamada da terceira edição do programa chega ao Pará, sob a responsabilidade da Fapespa, ainda em 2025. Ao todo, serão destinados R$ 3,76 milhões para o fomento de 47 novas startups, o que garante continuidade no investimento no desenvolvimento de novas empresas inovadoras.

“A bioeconomia é sem sombra de dúvida o caminho para o desenvolvimento sustentável da Amazônia. No Pará, estamos fomentando essa nova matriz econômica através da pesquisa e do empreendedorismo consciente”, avalia o presidente da Fapespa, Marcel Botelho.

*Com informações da Fapespa

Bioconstruções: construções sustentáveis são alternativa diante da crise climática

Imagem de Aleksandr Gusev por Pixabay

Sustentáveis, com maior conforto térmico e baixa emissão de carbono. Assim são as bioconstruções, construções que envolvem total ou parcialmente algum bioproduto da natureza, especialmente aqueles que são resistentes e não degradam com tanta facilidade. 

Esse foi o tema do workshop ‘Desenvolvimento sustentável de materiais de construção de base biológica no Brasil’, uma iniciativa da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra) em parceria com a Universidade de Surrey, da Inglaterra.

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De 1° a 3 de julho, cerca de 40 pesquisadores britânicos e brasileiros se reuniram para discutir o que há de mais novo em estudos sobre construções sustentáveis, em especial o bambu e as palmeiras amazônicas

“Nós trouxemos pesquisadores internacionais renomados que trabalham com o bambu e mostramos a nossa realidade, com as palmeiras e a madeira”, diz a professora Lina Bufalino, coordenadora do evento pela Ufra. 

A professora explica que também há uma ampla disponibilidade de bambu no Brasil todo, incluindo bambu nativo da Amazônia.

“Ele é um material que cresce rápido e é muito versátil para fazer bioconstruções. É possível fazer pontes, prédios, vários tipos de construções sustentáveis. É muito utilizado na China. Aqui na Amazônia é uma temática que começou a se discutir recentemente e ainda precisa ser testada e estudada”, diz.

O primeiro dia do workshop (dia 1°) foi realizado no auditório do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) e foi dedicado à apresentação de pesquisas, como a do professor Holmer Savastano Jr, da Universidade de São Paulo (Usp) e que palestrou sobre o uso do bambu na melhoria da infraestrutura das cidades. 

 “A gente sabe que uma fração importante da população ainda vive em condições que não são consideradas minimamente aceitáveis em termos de habitação e infraestrutura, em sistemas tanto urbanos quanto rurais. Às vésperas da Cop-30, isso é muito emblemático, porque nos traz temas que podem enriquecer ainda mais essa discussão.  A infraestrutura é algo que afeta diretamente a população e que também está relacionada com questões sanitárias, saúde, bem estar, condições de trabalho. Tudo está relacionado e deve ser pensado em conjunto, respeitando os valores, a forma de viver e de construir que já se utiliza aqui, valorizando a biodiversidade, os materiais disponíveis e as técnicas que já existem na região”, diz. 

Outro palestrante foi o professor Dan Bompa, da Universidade de Surrey. Ele falou sobre o potencial do bambu como um material que pode ser usado em diferentes condições climáticas e destacou a importância de mais pesquisas sobre o tema, e de se colocar o bambu como um material importante a ser estudado.  

“Em 2024, o bambu foi um dos principais tópicos de discussão da Cop daquele ano, e estava na agenda principal, logo, é um dos materiais com alto potencial de sustentabilidade em todas as áreas. Mas não podemos implementar o bambu em grandes estruturas a menos que façamos pesquisas e possamos validar e entender como ele funciona diante de condições diversas, como calor, chuva, temperaturas secas e até mesmo sob temperaturas congelantes. Por isso a pesquisa é muito importante. E colocar pesquisadores do Brasil, muito experientes aqui, mais os do Reino Unido, com outro tipo de conhecimento, é um excelente passo para tornar o material mais popular em qualquer discussão”, disse.  

Bambu nativo

No segundo dia, as atividades ocorreram nos laboratórios da Ufra e herbário do Museu Paraense Emílio Goeldi, em que foram apresentados vários exemplares de bambu nativo. Segundo a pesquisadora Leila Cristina Meneghetti Valverdes, da USP e uma das palestrantes do evento, na Amazônia existem espécies de bambu muito resistentes. Uma vara pode chegar a 30 metros de altura e diâmetros da ordem de 15cm, um potencial que teria bastante uso nas construções ribeirinhas, além de ser sustentável. 

“O bambu cresce muito rápido e funciona como um sequestrador de carbono, ou seja, ele tá crescendo e consumindo esse Co2 que tá na natureza e por isso é um produto com propriedades mecânicas muito parecidas com a da madeira. Comparado com aço e concreto, o bambu é um material muito sustentável, inclusive com uma pegada de carbono negativa, ou seja, tudo o que ele sequestra enquanto ele tá crescendo é suficiente para que quando a gente construa, ele ainda tenha uma pegada negativa, diferente de outros materiais”, explica.  

Açaí e Miriti

O encerramento do evento ocorreu com uma visita ao Combu, onde os participantes puderam conhecer o que os ribeirinhos já realizam com bioconstruções e com soluções que já são utilizadas há anos pelos povos da Amazônia. 

“Além da madeira para a construção de residências, a realidade na Amazônia é de utilização de palmeiras, com uso de folhas para fazer telhados de casas, por exemplo, além do tronco e fibra do açaí”, diz. 

Palmeiras de miriti. Foto: Vanessa Monteiro

A novidade está nas pesquisas que vão além dessas utilizações, como a mistura de caroço do açaí com cimento. “É possível misturar a fibra do açaí com o concreto, ou seja, dar novas propriedades que esse cimento não teria sozinho. A bioconstrução pode ser pura ou pode vir a partir dessa mistura de materiais convencionais”, diz.

Uma alternativa para esse resíduo que é descartado em toda a região amazônica. “Eu já desenvolvi aqui no laboratório uma microssílica de resíduo do açaí, que é como se fosse um mineral que pode ser misturado com cimento e ajudar a dar aquela “liga”, ajuda na “pega” do cimento”, explica Lina Bufalino. 

Outra palmeira com potencial na bioconstrução é o Miriti. “Nós queremos mostrar esse biomaterial para utilização em construções leves. Apesar de ser muito utilizado para artesanato, é uma palmeira com várias outras utilidades, como isolamento térmico e acústico, por exemplo”, diz a pesquisadora.

Pesquisas na Ufra

Na Ufra já são desenvolvidas pesquisas com o caroço do açaí e outros bioprodutos, entre eles o AmazonCel, primeiro laboratório dedicado à produção de celulose 100% oriundos de matéria prima da região amazônica. Outra iniciativa é o AmazonChar, grupo de pesquisa que estuda o aproveitamento de recursos e resíduos de biomassas da Amazônia, para aplicação como bionenergia e biocarvões. 

Agora, o objetivo da pesquisa é incluir a bioconstrução como uma terceira vertente dos estudos desenvolvidos na universidade, o AmazonMate. “Aqui nós já estudamos profundamente a fibra do açaí. No evento também vamos mostrar esse resíduo e o que fazemos como ele, discutindo possibilidades de avançar para fazer outras coisas também, como as bioconstruções”, diz. 

Segundo a pesquisadora, as bioconstruções são uma alternativa importante para comunidades remotas, que já vivem junto a esses produtos e também um enfrentamento diante da crise climática. “A alvenaria é o material mais utilizado para construção, mas pouco se fala sobre a emissão de carbono que é gerado com essas construções. Os biomateriais são uma alternativa a isso”, diz. 

*Com informações da Ufra

Curupira é escolhido como mascote da COP 30; conheça a lenda

Lenda do Curupira remete à proteção das florestas. Imagem: Divulgação/COP30

Curupira, uma das personagens mais conhecidas do folclore brasileiro, foi apresentado como símbolo da COP 30, a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, que acontecerá em Belém (PA) entre os dias 10 e 21 de novembro.

A imagem do guardião da floresta com cabelo de fogo e pés virados para trás passa a compor a identidade visual do evento.

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O embaixador e presidente da COP30, André Corrêa do Lago, considera as florestas um “tópico central” do debate sobre mudança do clima. A escolha do Curupira como parte da identidade visual da COP 30 é também um atrativo para as novas gerações entenderem a importância da preservação ambiental.

Segundo a organização do evento, a primeira referência ao Curupira na história brasileira foi feita pelo padre José de Anchieta, em 1560, em uma carta feita em São Vicente, no litoral de São Paulo, quando o jesuíta ouviu relatos sobre a entidade folclórica feitos pelos indígenas. 

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Mas a personagem, associada à proteção ambiental, especialmente contra a caça, continua muito presente na tradição amazônica para além das terras indígenas, como destaca o escritor paraense Paulo Maués, autor do livro ‘Histórias de Curupira’:

“De todos os personagens que são protetores da natureza, o Curupira é o principal. O homem da Amazônia tem uma relação muito curiosa com esse personagem. É um personagem que pode ajudar um homem na caçada, mas que também pode castigar esse mesmo homem se ele entrar na floresta para maltratar tanto a fauna quanto a flora”.

Segundo o folclore, os pés virados ao contrário são uma artimanha usada para confundir aqueles que tentam seguir seus passos, sendo apenas um dos métodos do protetor na hora de defender a floresta, como conta Januária Silva, autora do livro O Curupira e Outros Seres Fantásticos do Folclore Brasileiro.

“Curupira é tido como Guardião das Florestas, aquele que toma conta dos bichos, das matas, mesmo que para isso ele às vezes se utilize de métodos nem tão adequados, né? Mas o que importa é o que ele simboliza: essa conexão forte que o homem tem com a natureza”.

A Conferência também marca os 10 anos do Acordo de Paris, que determinou metas nacionais e internacionais para limitar o aquecimento da Terra.

Conheça a Lenda do Curupira

*Com informações da Rádio Agência Nacional

Anéis de crescimento de árvores revelam mudanças extremas na sazonalidade de chuvas na Amazônia

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Cheias extremas alcançam vários metros de profundidade, conforme indicado pelo tom escuro nesta árvore de florestas alagáveis da Amazônia. Foto: Bruno Cintra

Pesquisadores identificaram mudanças marcantes no regime de chuvas da Amazônia nas últimas quatro décadas, com estações chuvosas mais úmidas e estações secas ainda mais secas. Este é um padrão que vem agravando eventos extremos de enchentes e secas (intensificação do ciclo hidrológico), com impactos sobre populações e ecossistemas na região.

O estudo foi feito por uma equipe internacional de cientistas das Universidades de Leeds e Leicester (Reino Unido) e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI), a partir de análises de isótopos de oxigênio contidos nos anéis de crescimento de árvores amazônicas. Os resultados foram publicados em junho na revista Communications Earth and Environment.

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Ao analisar amostras de duas espécies, Cedrela odorata, também conhecida como cedro-vermelho, típica das florestas de terra firme, e Macrolobium acaciifolium, conhecida como arapari, comum em áreas alagáveis, os pesquisadores conseguiram reconstruir variações sazonais de precipitação desde 1980. A partir das análises, os dados indicaram um aumento de 15% a 22% nas chuvas da estação chuvosa e uma redução de 5,8% a 13,5% nas chuvas da estação seca. As árvores de terra firme e de várzea ficam em áreas da Amazônia Ocidental de aproximadamente 1.000 km de distância.

“Nossa análise mostra que o ciclo hidrológico da Amazônia está se tornando mais extremo, com implicações sérias para os ecossistemas da região e para as populações que dela dependem”, afirma o pesquisador da Universidade de Birmingham e coautor do estudo, Bruno Cintra, doutor em Ecologia e Mudanças Globais (Leeds/ Inglaterra) e egresso do mestrado do Programa de Pós-Graduação em Ecologia do Inpa, orientado pelo pesquisador Jochen Schöngart. 

Extração de amostra de anéis de crescimento de uma árvore. Foto: Roel Brienen

A intensificação dos extremos sazonais representa uma ameaça crescente à estabilidade ambiental e social da região. De um lado, mais chuvas na estação úmida têm elevado a frequência de enchentes severas; de outro, a escassez na estação seca agrava os períodos de estiagem.

Como consequência, explica Cintra, a amplitude anual da enchente, que é diferença entre o nível máximo e o nível mínimo do ano anterior, aumentou na região central da Amazônia em quase 18% no século atual (média de 11,79 metros) em comparação com o anterior (média de 10,02 metros). O resultado é o maior valor já observado com mais de 16,7 metros, com base nos dados do Sistema Nacional de Informações sobre Recursos Hídricos (SNIRH) da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA).

“Os registros isotópicos revelam o aumento da intensidade de enchentes e secas, e com isso um aumento da amplitude entre os extremos na maior bacia hidrográfica do mundo,” explica o pesquisador do Inpa, Jochen Schöngart. “Isso é preocupante, pois afeta diretamente a segurança hídrica, alimentar e os modos de vida de milhões de pessoas, incluindo populações tradicionais e indígenas”, completa Schöngart, que é líder do projeto de Pesquisa Ecológica de Longa Duração  Ecologia, Monitoramento e Uso Sustentável de Áreas Úmidas (Peld/Maua).

Além dos impactos locais, o estudo tem implicações globais. A Floresta Amazônica atua como um dos principais reguladores climáticos do planeta, influenciando padrões atmosféricos e funcionando como importante sumidouro de carbono, absorvendo grandes quantidades de dióxido de carbono da atmosfera. Pesquisas já mostram, entretanto, que o desmatamento e as queimadas estão reduzindo essa capacidade da floresta.

Nuvens sobre a Amazônia trazem umidade do Oceano Atlântico até os Andes, carregando um sinal climático de larga escala que fica registrado na madeira das árvores que absorvem água da chuva. Foto: Bruno Cintra

Segundo os autores, a metodologia baseada em isótopos permitiu captar as mudanças sazonais com mais precisão do que registros climáticos convencionais. “Esses registros de anéis de crescimento fornecem evidências independentes cruciais de que o ciclo hidrológico da Amazônia está mudando diante dos nossos olhos”, destaca a pesquisadora da Universidade de Leeds Jessica Baker. “O contraste crescente entre as estações chuvosa e seca ameaça a saúde de todo o ecossistema amazônico e das suas comunidades”. 

O estudo também utilizou modelos isotópicos e análises de sensibilidade para estimar a magnitude das mudanças nas chuvas ao longo do tempo, considerando diferentes variáveis atmosféricas.

“Essas alterações afetam diretamente a agricultura, a geração de energia, a saúde pública e aumentam a mortalidade de árvores e a ocorrência de incêndios florestais”, comentam os coautores Roel Brienen e Emanuel Gloor, ambos da Universidade de Leeds.

Com a COP30 se aproximando, os autores destacam a importância de ações decisivas. Para eles, compreender como o ciclo hidrológico da Amazônia está mudando é essencial para prever cenários futuros e orientar políticas eficazes de conservação e adaptação. A Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas será realizada de 10 a 21 de novembro, em Belém (PA).

*Com informações do INPA

Que o Universo nos traz hoje?

Por Julio Sampaio de Andrade – juliosampaio@consultoriaresultado.com.br

Esta pergunta está presente na plataforma Felicidade Consciente MCI, que é aberta e gratuita e que pode ser acessada no site do MCI (www.mcinstitute.com.br) ou diretamente (www.mcifelicidade.com.br). Ao clicar no botão, ele traz uma das 40 mensagens, entre Princípios e Exercícios do Método MCI de Felicidade.

A plataforma pode ser utilizada de diferentes maneiras, como para uma reflexão individual, uma abertura ou encerramento de uma reunião, de uma sessão de coaching, de mentoria, ou em outras situações. A única observação é que o conteúdo não deve servir para tentar convencer ninguém de nada. Daí o símbolo da oferta ser em uma bandeja, que a pessoa pode ou não aceitar. Cabe a cada um receber, refletir e fazer as próprias associações que, muitas vezes, parecem trazer recados diretos, vindos de algum lugar. Seria do Universo?

Pessoalmente vivi várias experiências, a ponto de não me surpreender mais. Ouvi de vários clientes expressões do tipo: “Você escolheu este texto, não foi? Tem tudo a ver com o que eu estava falando” ou “Como pode isto? É muita coincidência”, ou ainda, “Puxa, para mim foi uma grande resposta e me ajudou a enxergar melhor a situação”. Vários colegas do MCI e clientes que passaram a utilizar a plataforma relatam experiências semelhantes.

Um deles utilizou para abrir uma reunião que previsivelmente seria muito tensa. Era uma reunião entre franqueador e franqueados, uma relação sempre delicada. O Universo trouxe o Exercício da Satisfação e da Insatisfação, onde são apresentados os aspectos positivos e negativos de ambos, e como explorar o lado positivo da Insatisfação (a busca pela melhoria contínua) e o lado positivo da Satisfação (a Gratidão diante de qualquer circunstância). Os participantes espontaneamente refletiram e expressaram o que pensavam, associando o texto às necessidades de cada um. Criou-se assim um clima favorável para que novos acordos ganha-ganha fossem estabelecidos. O Universo parece ter escolhido a dedo o exercício.

Há também outros tipos de experiências similares que várias pessoas utilizam, como abrir aleatoriamente um livro de máximas, de pensamentos ou a própria Bíblia e perceber que a página aberta parecia querer dizer algo sobre o que estavam refletindo. Quem ainda não teve esta experiência, nem que fosse por mera brincadeira?

Em nosso cotidiano, há as mensagens aparentemente ainda mais aleatórias. Uma música que parece trazer uma resposta que você procurava. Ou as palavras virem de uma pessoa estranha que provavelmente se referia a um outro contexto qualquer, mas que você associa com a sua situação. Um encontro ou desencontro casual que marca os acontecimentos. Uma pessoa que surge do nada, exatamente com as características que você precisava e que buscava algo próximo do que você tinha a oferecer.

A existência de sincronicidades já é conhecida há muito tempo, embora a ciência ainda saiba pouco sobre a sua origem. Mokiti Okada ensina que tudo no universo está em ordem, mesmo o que aparenta desarmonia e fala sobre a precedência do invisível sobre a matéria. O neurocientista Carl Jung afirmou que gostaria de viver mais apenas para estudar as sincronicidades. Steve Jobs também reconheceu a importância delas, mas disse que “só conseguimos perceber as conexões olhando para trás”.

Talvez não seja verdade. O Universo, a Grande Natureza, ou seja lá como denominemos esta força invisível, parece estar tentando se comunicar conosco durante todo o tempo, emitindo sinais de um jeito ou de outro. A ferramenta ou o livro são instrumentos, assim como é a própria Vida que, a cada momento, nos faz ofertas e espera algo de nós. Ela sempre respeita o nosso livre arbítrio. Somos sempre responsáveis pelas nossas escolhas.

Não fomos educados para entender a linguagem utilizada pelo Universo, mas podemos treinar e, aos poucos, evoluir bastante. Vou continuar o assunto na próxima semana, mas, por enquanto, quero propor a você a seguinte questão: “Com base nos acontecimentos dos seus dias desta semana: o que Universo pode estar tentando lhe dizer?” Se puder, escreva o que é.

Sobre o autor

Julio Sampaio (PCC,ICF) é idealizador do MCI – Mentoring Coaching Institute, diretor da Resultado Consultoria, Mentoring e Coaching e autor do livro Felicidade, Pessoas e Empresas (Editora Ponto Vital). Texto publicado no Portal Amazônia e no https://mcinstitute.com.br/blog/.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista